ARTIGO DE TAÍS BRAGA – a quem é mãe – e pai! – 13/05 editoria opinião

Pedaços de todos nós

Taís Braga

Quem pensa que chegou ao fim o sofrimento das mâes de Luziânia, cujos filhos desapareceram de casa e foram encontrados enterrados em uma fazenda, nunca teve filho. Não precisa perder para saber o espaço e a importância de um filho na vida de uma mãe. É óbvio que um pai deve sentir o mesmo. Mas a relação entre mãe e filho é algo quase inexplicável. Tirar a vida de um ser que foi gerado e se desenvolveu ligado por um cordão, protegido pela barriga, é como tirar parte da alma de uma mulher.

Em 2004, o jornalista Marcelo Abreu entrevistou a psicóloga Maria José Nolasco, que perdeu Pedro, o filho caçula, então com 18 anos, esmurrado por um adolescente de 15, na QI 12 do Guará I. Em uma frase, ela resumiu o sentimento de mãe diante da tragédia: “Senti meu útero doer”. Como bem cantou Chico Buarque, “metade arrancada”. As mães de Luziânia perderam mais que os filhos. Com o sepultamento deles, perderam, também, a esperança.

Foram meses de busca, noites insones, sobressaltos. Embora o medo da morte estivesse presente, elas ansiavam ouvir a porta bater, escutar as passadas do filho de volta à casa. Ontem elas enterraram os seus sonhos. Agora terão que reaprender a viver, inventar uma vida em que falta um pedaço. Todos os planos terão que ser refeitos, o futuro será diferente. Embora seja mais fácil administrar a perda com a certeza do fim, é duro saber que nunca mais será possível ver o rosto amado, ouvir a voz, sentir o abraço, receber o beijo. O sofrimento começa agora.

Nem mesmo a morte do assassino, que segundo a polícia de Goiás se enforcou na cela onde estava, poderá acalmar a alma de mulheres que hoje vivem a dor nas suas entranhas. Diante da barbárie que foi a série de homicídios, precisamos nos conscientizar de que toda a população perde um pedaço de vida. Uma sucessão de erros permitiu a liberdade a um assassino descontrolado. Também houve morosidade na investigação do primeiro desaparecido, do segundo e dos demais. Até quando teremos que sofrer por não termos tomado a atitude correta?