Uma chance para tentar

Há quatro anos, Fábio ficou tetraplégico. Quer chegar aos Estados Unidos, para tratamento. As possibilidades de voltar a andar são mínimas, mas ele luta para recuperar o movimento das mãos e voltar a trabalhar

·  Marcelo Abreu

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press

A dependência de Fábio é diária, nos mínimos detalhes. “Não é justo fazer isso com minha família”, diz

Corria o ano de 2005. Uma amiga de época do ensino fundamental, que há algum tempo ele não via, um belo dia, ligou. Contou o acidente de carro que tinha sofrido. Falou das suas limitações. E de como era complicado viver num mundo não feito para quem não conseguia andar. A amiga ficara tetraplégica, mas já conseguia, com muitos exercícios, movimentar um pouco braços e mãos. Pediu que ele visse, na faculdade onde estudava jornalismo, se o câmpus era adaptado para deficientes. Se havia elevador, rampas, acesso fácil aos banheiros. Prontamente, ele ouviu o desabafo da moça. Emocionou-se. Falou com os seus professores. E ligou em seguida, feliz em poder ajudar a amiga: “Pode vir sem medo. Aqui todo mundo vai te receber bem”.

Animada, a moça foi. Comemoram juntos a chegada dela. Ele a ajudou no dia a dia. A esperança renovada, por mais difícil que fosse refazer planos. No ano seguinte, como essas voltas que a vida dá, era ele, também tetraplégico, que entrava na mesma faculdade numa cadeira de rodas. Em 2008, chegaram ao fim do curso juntos, empurrando suas pernas emprestadas.

Junho de 2006, Copa do Mundo. Brasil e Austrália fazem o segundo jogo do mundial. A casa de um amigo no Lago Sul foi o lugar escolhido para a reunião. Fábio Grando, então com 21 anos, natural de Guaporé (RS), torcedor doente do Grêmio, frequentava o lugar e conhecia bem as dependências dele. Inclusive a piscina. O jogo prosseguiu. O calor estava grande.

Fábio entrou na piscina.“Pulei de ponta e bati no fundo. Lembro da batida, do barulho da cabeça na piscina. Não desmaiei, fiquei consciente, mas não conseguia mais nadar”, lembra. De repente, a piscina ficou escura. Era o sangue da cabeça de Fábio. Um amigo percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Pulou na piscina para socorrê-lo. Os amigos ligaram para o Corpo de Bombeiros, que,imediatametne, chegou. Colocaram-lhe um cordão cervical e o levaram para a ambulância. “Ouvia os bombeiros dizendo: ‘Vai devagar’. Não entendia por que falavam aquilo. Eu permaneci consciente o tempo todo.”

Ao chegar ao Hospital de Base (HBDF), Fábio encontrou os pais. “Foi quando consegui relaxar.” O rapaz foi levado às pressas para a emergência. Exames revelaram que ele havia fraturado a medula. E, na emergência do HBDF, ficou por quatro dias, à espera de uma cirurgia e posterior remoção para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor.

Infarto
A mãe, nutricionista, parou de trabalhar e passou a cuidar do filho dia e noite. Um dia, depois do almoço, no quarto do filho, ela se queixou: “Fábio, vomitei tudo. Não tô bem”. Jovem, então com 40 anos, check-up em dia, ela cuidava da alimentação com muita rigidez. Fábio só ouviu o barulho da mãe caindo ao lado da sua cama. Sem mover braços, pernas nem pescoço (apenas movimentava os olhos), ele não entendia o que se passava. Tampouco conseguia chamar alguém.

Uma enfermeira, nessa hora, passou. E socorreu a mãe do rapaz que não conseguia mais nem pedir socorro. Solange Grando teve um infarto. Do Sarah, ela foi levada às pressas para o Instituto do Coração (Incor-DF). Durante o trajeto, sofreu sete paradas cardíacas. Fez cateterismo. Resistiu, sem sequelas. Passou uma semana internada. O pai dele, o comerciante Éder Grando, então com 43 anos, se dividia entre o Incor e o Sarah.

“Se ela não fosse socorrida a tempo, se estievesse na rua, por exemplo, não teria resistido. Precisei ficar assim para salvar a minha mãe. Foi essa a grande lição que tirei disso tudo”, emociona-se Fábio.

O infarto de Solange foi causado pelo esgotamento emocional (estresse), afirmaram os médicos. Em 10 de julho, 22 dias depois do mergulho na piscina, ele foi operado. Colocaram quatro parafusos no pescoço e uma placa de titânio para fixar a vértebra.

No Sarah da Asa Sul, Fábio ficou internado por quatro meses. Voltou para casa, com um colar cervical e numa cadeira de rodas. “O pior momento pra mim foi quando me colocaram nela (na cadeira de rodas). Aí, comecei a perceber o tamanho das minhas limitações”.

Estados Unidos
Começou 2008. Ele voltou à faculdade. Terminou o curso de jornalismo. Sentiu o que sua amiga cadeirante sentia. Formou-se e nunca pôde exercer a profissão. Não consegue ainda mexer as mãos nem as pernas.

A mãe parou de trabalhar de vez. Cuida dele 24 horas. “O que me angustia é essa dependência”, resume.

É por isso que hoje, aos 25 anos, ele tenta chegar a San Diego, nos Estados Unidos. Quer uma vaga no Project Walk — tratamento desenvolvido por um fisioterapeuta daquele país que se baseia na repetição dos movimentos, no método de pilates. “Quero tentar pelo menos mexer um pouco as mãos, ser mais independente, para voltar a trabalhar (antes, ele estudava e trabalhava como assessor de imprensa).“Aí, as pessoas me perguntam: ‘Mas você só quer isso?’ Isso já seria muito. Queria retomar minha vida. Deixar minha mãe desobrigada de me levar ao banheiro, me dar banho e até água na boca. Não é justo o que ela, o meu pai e meu irmão têm passado por mim”.

O tratamento custará US$ 55 mil (cerca de R$ 112 mil). Os amigos que não foram embora se organizam em festas para arrecadar a quantia necessária. Há 20 dias, a campanha Bora, Fabito! foi lançada. Folderes espalhados pela cidade. “Já arrecadamos R$ 3,9 mil. Equivalem a sete dias do meu tratamento”, contabiliza Fábio, cheio de motivação, no blog que criou para contar sua história e luta. “Vou agradecer a cada pessoa que me ajudou.”

Mesmo que nunca mais ande, o que ele quer e sonha é apenas mover as mãos, abrir os dedos, para empurrar sua própria cadeira. Beber água sozinho, escrever sem ajuda do adaptador. Acenar para um amigo na rua. Pouco, muito pouco, para quem não tem ideia disso. Muito, demasiadamente muito, para quem precisa de tão pouco.
SOLIDARIEDADE// Quer ajudar Fábio a tentar? Banco do Brasil – Agência: 3596-3 – Conta Corrente 9411-0 – Blog: www.fabiogrando.blogspot.com

·  Telefone: 9984-1903