Flagrante no Sudoeste

CORREIO BRAZILIENSE – 29/09/2010

PEDOFILIA

Auditor da Previdência Social é preso em seu apartamento na Quadra 300. Duas irmãs de 11 e 16 anos estavam com ele. A mãe das adolescentes trabalhava como faxineira na casa do acusado

  • Ariadne Sakkis
  • Fotos: Gustavo Moreno/CB/D.A Pres

Samuel Neto negou as acusações: “Gente, pra que tudo isso?”, questionou

Um auditor fiscal da Previdência Social foi preso ontem em flagrante por pedofilia. Samuel Neto, 63 anos, foi encontrado por policiais civis com duas adolescentes, irmãs, com idades de 11 e 16 anos, em seu apartamento no Sudoeste. Neto já era alvo de uma denúncia de pedofilia feita à Polícia Federal há pouco tempo. Apesar de o autor negar as acusações, as irmãs revelaram, em entrevista na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que mantinham relações com o homem havia 3 anos. A mãe das meninas trabalhava como faxineira na casa do acusado.

O flagrante aconteceu graças à denúncia de um funcionário do bloco onde o suposto pedófilo mora. Poucas semanas antes, o servidor havia sido procurado por um policial federal que explicou a investigação e deixou um telefone para que ele entrasse em contato caso visse Neto levando menores para casa. Ontem, ante o insucesso de contatar o agente federal, o funcionário recorreu a um policial civil que também mora no prédio, que executou o flagrante.

Ao entrarem no apartamento, os agentes encontraram a menina mais nova deitada em um colchão no chão da sala. “Ela usava um vestido, mas os seios e a calcinha estavam à mostra”, detalha a delegada-assistente da DPCA, Alessandra Figueiredo. A jovem de 16 anos estava no quarto e trajava um top e um roupão. Na delegacia, em um primeiro momento, as jovens negaram qualquer envolvimento sexual com Neto. “Elas estavam muito assustadas e nervosas”, descreveu a delegada. Mas, depois de 50 minutos de entrevista com uma agente com formação em psicologia, as irmãs reconheceram que houve abusos. Mais grave ainda: eles já duravam três anos. “A mais nova, de 11 anos, disse ter sido abusada na madrugada de sábado, por volta de 1h”, afirma a delegada. Elas passaram por exames de corpo de delito no Instituto Médico Legal.

Há três anos, Neto conheceu a jovem mais velha, que vendia balas na Rodoviária do Plano Piloto, apesar de viver em Céu Azul (GO), a cerca de 40 km de Brasília. “O modus operandi dele era tentar aproximação com meninas pobres. Ele paga um lanche, oferece uma carona, dá presentes. Vai aliciando a criança, se mostrando confiável”, descreve Figueiredo. Em pouco tempo, a irmã mais velha apresentou a caçula, que à época tinha 8 anos, ao auditor. O envolvimento com as duas foi tão grande que Neto conheceu a família das jovens e a mãe passou a trabalhar para ele como faxineira. Os pais serão chamados para depôr para diagnosticar o nível de conhecimento da parte deles a respeito da relação entre as filhas e o homem de 63 anos. As vítimas alegam que os pais nada sabiam a respeito dos abusos.

Segundo o relato das vítimas, na sexta-feira Neto marcou, por telefone, um encontro com as duas. O auditor as buscou na Rodoviária e, em seguida, foi com elas a um shopping e comprou presentes como um secador, uma chapinha e outros produtos para cabelo. Os três terminaram a noite no apartamento de Neto, na quadra 300 do Sudoeste. Após a prisão, os agentes vasculharam o local em busca de material pornográfico com conteúdo de pedofilia. Surpreendentemente, o auditor não possuía computadores em casa. Foram encontradas fotos das meninas no apartamento, mas nenhuma em que elas estivessem nuas. Porém, um retrato mostra a menor das irmãs com um copo de cerveja na mão. Além de fotos, um celular e uma câmera fotográfica foram apreendidos.

Desentendido

Apesar do flagrante e do depoimento das adolescentes, o auditor, que vivia sozinho desde o divórcio, há 15 anos, não assumiu praticar pedofilia. “Gente, pra que tudo isso? Não estou entendendo o que está acontecendo”, questionou Samuel Neto, enquanto tentava esconder o rosto ao ser apresentado à imprensa na DPCA. Ele não tem passagens pela polícia, mas a Polícia Militar investiga uma ocorrência aberta contra ele devido às suspeitas que levantou ao ser parado por policiais a caminho de Céu Azul com o carro cheio de crianças.

Por enquanto, o auditor está preso na carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE), mas será transferido para a Papuda amanhã. Ele será indiciado por estupro de vulnerável, com pena de 8 a 15 anos, pelo flagrante com a menina de 11 anos. “Um inquérito policial será aberto para investigar se ele abusou de outras crianças. O abuso à irmã mais velha também será levado à Justiça”, conclui a delegada Alessandra Figueiredo.

MEMÓRIA

Novo caso no bairro

Este é o segundo caso de flagrantes de abusos contra crianças e adolescentes registrado no Sudoeste. No último dia 21, o fotógrafo de festas infantis Luiz Fernando Corrêa Andrade, 22 anos, foi preso por estuprar uma criança em seu estúdio, na Quadra 303. O acusado trabalhava em parceria com várias empresas organizadoras de eventos e também fazia fotos de meninos e meninas em sua sala comercial. O flagrante ocorreu depois que ele abusou sexualmente de uma garota de sete anos, que posava em seu estúdio. A vítima relatou o fato à mãe, que aguardava do lado de fora da sala e chamou a polícia. Os agentes encontraram cerca de 120 fotos pornográficas de crianças no computador do fotógrafo, que já tinha outros dois processos por abuso sexual de crianças.