Trote Boçal – Crônica da Cidade

Severino Francisco

Estudantes da Faculdade de Agronomia e Veterinária da UnB brindaram o país com um melancólico espetáculo de boçalidade ao promover um trote em que algumas calouras chafurdavam na lama e outras eram obrigadas a lamber uma lingüiça lambuzada de leite condensado. Ao redor, os veteranos e veteranas se divertiam achando tudo muito engraçado. O efeito da cena se torna ainda mais constrangedor se a confrontarmos com as imagens de jovens de todo o país envolvidos em uma ampla e tocante mobilização de solidariedade visando arrecadar alimentos e roupas para as vítimas das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro.

Em maio no ano passado, alunos da engenharia civil passaram pelos corredores da UnB gritando as seguiintes palavras de ordem de provocação aos estudantes de arquitetura: “Arquiteto bichinha, só brinca de casinha/1,2,3,4,5, mil/Trote solidário vai pra p…” A argumentação de que tudo não passa de uma brincadeira não resiste a um rápido exame da história do trote, que compõe uma triste memória de agressões, traumas, humilhações e mortes. Consentido ou não, esse ritual tem um caráter truculento, desqualificável, aviltante e incompatível com uma instituição de ensino superior.

Felizmente, aos trancos e barrancos, a questão dos direitos humanos avançou na sociedade brasileira. O racismo está tipificado como crime inafiançável; a violência contra as mulheres ou crianças caiu nas penas da lei; o constrangimento e a humilhação no ambiente de trabalho têm sido severamente punidos nos tribunais por meio da lei do assédio moral. São tradições e “brincadeiras” brasileiríssimas que foram revistas em favor da civilidade.

Os patrocinadores dos trotes se apresentam na condição de rebeldes, corajosos, viris, transgressores, irreverentes e bem-humorados. Mas com os seus atos eles dizem para a sociedade: “Olha como somos rebeldes sem causa, covardes, tolos e conformistas, pois repetimos sem pensar tradições vetustas. Reparem, como não temos nada na cabeça, pois rir da violência e da humilhação do outro não é irreverência; é um atestado de boçalidade. Vejam como não merecemos estar em uma universidade pública, paga com os impostos dos contribuintes, pois recebemos ensino gratuito e em troca nos comportamos como trogloditas, atirando na lama os valores da dignidade, da civilidade, da solidariedade e do respeito ao outro. Observem como estamos clamando por limites, pois se eles não nos forem dados, nossas brincadeiras podem descambar em tragédias, como já ocorreu por diversas vezes em outras ocasiões. “

Com todos os problemas, a UnB já assumiu uma posição de vanguarda em relação a vários temas, como por exemplo, ao instituir o sistema de cotas. Neste momento, ela deveria tomar uma decisão exemplar e educativa em relação aos trotes, estabelecendo limites e sanções muito claras, que serviriam de referência para outras universidades do país. Sempre achei que trote é caso de polícia. E a intervenção da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres da Presidência da República no episódio sinaliza precisamente nesta direção.