Um e-mail manchado de sangue – Crônica da Cidade

Sérgio Maggio

sergiomg.df@dabr.com.br

Esta crônica não tem final feliz, não flerta com as coisas boas da vida. É nascida num dia de incerteza e de angústia. Talvez porque, no fim de semana, convivi com brasilienses mortos de medo da violência que cerca o Plano Piloto e as cidades. Talvez porque, no fim de semana, soube de mais uma história de um cidadão brasiliense sequestrado no SIA e morto na própria casa. Não é fruto também de nenhuma paranoia urbana. Estamos com medo de ir ao estacionamento sozinhos. E isso é um claro sinal da perda de confiança no poder público.

Não sei por que recebo diariamente, na minha caixa de entrada, um e-mail com o boletim de ocorrências da Polícia Civil do DF. Quase nunca abro, mas não resisti ao de ontem. Quando cliquei a mensagem da Divisão de Comunicação da Polícia Civil do DF, tomei um susto: eram sete páginas ocupadas por 31 destaques de violência. Tráfico de drogas, latrocínio, roubo de veículos, estelionato, posse ilegal de arma e algumas tentativas de homicídio figuravam entre os delitos listados. Li, uma a uma, as ocorrências. E uma observação explícita me deixou ainda mais deprimido: os protagonistas dessas tristes narrativas, em boa parte, tinham pouco mais de 20 anos.

Jonata, 24, Vanessa, 22, e Thalita, 20, roubaram um carro e outros objetos, como um monitor de computador, de um colégio para trocarem por drogas. Foram presos em Ceilândia Norte e recolhidos à carceragem do DPE e à Penitenciária Feminina do DF.

Arlei, 19, furtou duas bicicletas em Taguatinga Sul e foi preso em flagrante.

Fábio, 23, anunciou um assalto numa chácara do Setor Gama Norte e foi baleado em troca de tiros com a polícia. Morreu no HGR.

Tatiara, 18, em companhia de uma adolescente de 16 anos, roubou e matou um pai de família, de 67 anos, em Santa Maria. A vítima foi encontrada com um cinto amarrado no pescoço e lesões na cabeça, em evidente requinte de crueldade. Elas já estão presas.

Por delitos diversos, Fabrício, 26, Maurício, 26, Diogo, 20, Alan, 18, Higor, 18, Osvaldo, 23, Wesley, 21, Gustavo, 20, Fábio Júnior, 19, e Francisca, 20, também começam o mês de fevereiro no xadrez.

Esse boletim é um poderoso recado ao poder público de que é preciso fazer algo de urgente na política voltada à juventude do DF. Talvez não seja necessária uma nova pesquisa para indicar que a desestrutura familiar empurra o jovem à marginalidade. E, muitas vezes, esse caminho é interrompido por uma escola forte e por projetos sociais ligados à cultura e ao esporte — campos da experiência que devolvem ao cidadão a estima, a confiança e a habilidade para exercer uma profissão.

Certa vez, ouvi de uma garota de Planaltina que onde ela mora não há cinema nem teatro, sequer um shopping center para passear no fim de semana. Em sala de aula, tinha que conviver com traficantes infiltrados e professores acuados e desvalorizados profissionalmente. Na sua memória de adolescente, ela guardará para sempre a imagem cruel de uma garota morta à porta da escola pública, com sol a pino, por provável queima de arquivo do tráfico de drogas.

A este governo do DF de apenas 30 dias, que mal teve tempo de aparar o mato e regularizar a coleta de lixo, esse e-mail é um recado manchado de sangue. Se por um lado mostra um eficiente trabalho corretivo da polícia, por outro revela o fracasso do poder público em prevenção. O que fazer? Tudo foi bem dito na campanha eleitoral e avalizado nas urnas. Agora, resta agir com urgência. O tempo aqui é ouro. Cada boletim desse que chega, são mais vidas naufragadas.