Uma força a quem não desiste

Correio Braziliense – 17/02/2011
Leilane Menezes

As preocupações de Lucas Neres Ferreira não lembram as ideias leves de um menino comum aos 13 anos. Tudo que ele mais quer é continuar vivo. Lucas vive em um corpo frágil e com a saúde debilitada. Por outro lado, demonstra uma força maior do que ele mesmo. O adolescente aprendeu cedo a superar os problemas e a manter a fé, mesmo quando a vida parece disposta a ir embora, a qualquer momento.

Desde o nascimento, Lucas dribla as dificuldades ocasionadas por uma bronquiolite obliterante. A doença é respiratória e causada por um vírus que destrói o pulmão. Pode afetar — como já ocorreu, no caso de Lucas — outros órgãos, como o coração. O Correio, pelas mãos do jornalista Marcelo Abreu, contou a história de Lucas, um menino palmeirense, alegre apesar de tudo e carente de ajuda, no ano passado.

O relato mobilizou a cidade. A torcida articulada do Palmeiras, a Mancha Verde, se uniu para ajudá-lo. A felicidade entrou na casa de Lucas, como não se via há muito tempo. Os voluntários limparam tudo, fizeram o mofo sumir, pintaram as paredes e conseguiram um aparelho importante do qual o menino precisava, um oxímetro, para medir a saturação de oxigênio no sangue. Agora, porém, as barreiras voltaram a aparecer no caminho trilhado por Lucas em busca de uma vida normal.

O menino precisa ir a São Paulo, para fazer um exame no coração, o ecocardiodoppler, um ultrassom vascular. O objetivo é avaliar o fluxo sanguíneo. Há anos Lucas precisa checar essa função, para garantir melhoras à saúde. No Hospital de Base, onde ele se trata, os médicos não conseguiram realizar o exame. “O Lucas tem uma deformidade toráxica que atrapalha muito essa avaliação. Os médicos dizem que “não tem janela para ver”. A esperança então é tentar em São Paulo, no Instituto do Coração”, explicou a mãe de Lucas, a dona de casa Irani Neres, 35 anos.

Ajuda

A torcida Mancha Verde conseguiu agendar uma consulta com prioridade no Incor-SP para Lucas, devido à gravidade do caso. Falta agora o meio de transporte adequado para levá-lo até lá: um avião equipado com UTI. A Secretaria de Saúde, de acordo com a médica responsável pelo tratamento de Lucas, não possui um avião como esse.

“A saída mais rápida seria pedir à Força Aérea Brasileira (FAB), como fui aconselhada. Liguei para o número 3364-800 (que mais tarde a reportagem descobriu ser do Sexto Comando Aéreo Regional, da FAB). O rapaz que atendeu o telefone me disse: “Se a senhora conhecer algum político, vai sair mais rápido”. Fiquei chateada. Não sei como vai ser”, relatou.

A FAB, por meio de assessoria de imprensa, informou que cumpre missões de misericórdia, em casos muito específicos. O serviço não é rotineiro nem funciona como um táxi aéreo. A FAB afirmou também que a informação sobre “conhecer um político”, repassada por telefone, é absurda e não condiz com a realidade. Foi feito contato com Irani para instruí-la a fazer o pedido de auxílio corretamente. (Veja a nota da FAB, abaixo, na íntegra).

Viajar em um avião comum não é uma opção, porque nesse meios de transporte não há UTI aérea. Alugar uma aeronave particular com esse equipamento sairia caro demais, muito além do valor que caberia no orçamento da família. Lucas e a mãe vivem em Planaltina e sobrevivem com a pensão paga ao menino, pelo Instituto Nacional do Seguro Social (Inss).

Enquanto o tempo passa, a saúde de Lucas vai enfraquecendo. O garoto só tem um dos pulmões, o direito. O outro precisou ser retirado em 2005. À época, Lucas esperava por um transplante cardiopulmonar, que não pôde ser feito até hoje, por complicações no quadro de saúde do menino. O pulmão que restou funciona com somente um quarto da capacidade.

O coração também não anda nada bem. Há hipertrofia nos ventrículos. “A médica dele disse que o eletrocardiograma dele parece com o de quem tem mal de parkinson. Ele está tremendo muito. Piorou demais nos últimos dias. Precisamos descobrir como ele pode melhorar”, afirmou Irani.

Ainda assim, Lucas não deixou de frequentar a escola pública na qual cursa o 5º ano do ensino fundamental. Ele e a mãe vão caminhando ao colégio, diariamente. “Ele se cansa, para, respira um pouco. Mas não desiste”, relatou Irani. Lucas é querido e tem muitos amigos, na escola. Mas certas vezes precisa defender-se de comentários inapropriados. “Uma menina me perguntou porque eu ainda vou à escola, passando mal assim. Tava com medo de pegar nela, deve ser. Eu respondi: Eu venho porque Deus me dá força. Você é mais doente do que eu, porque é doente da alma”, disse Lucas.

Aos médicos, Lucas nunca admite sentir-se mal. “Se eu não disser que estou bem, quem vai dizer?”, costuma perguntar. Membros da equipe que cuida de Lucas costumam dizer: “Quem vê cara não vê pulmão”. Ao olhar para o rosto tranquilo e alegre de Lucas, não se enxerga dor ou desanimo. Ele prefere transmitir esperança.

Nota da FAB

O Comando da Aeronáutica cumpre missões de misericórdia para transportar civis doentes que não têm condições de atendimento na localidade onde vivem. A título de exemplo, no ano passado, 48 missões do gênero foram realizadas na região Norte. Essa atividade obedece a parâmetros que estão expostos na Instrução do Comando da Aeronáutica (ICA 64-4).

O transporte deve ser feito de localidade com menos recurso de saúde para cidade que possua unidade com maior capacidade de atendimento. Os principais pré-requisitos são a disponibilidade de aeronave e a avaliação por uma equipe médica da Aeronáutica para saber se a remoção aérea é indicada e não vai agravar o estado do paciente.

A solicitação de MMI é feita através do contato com um dos quatro Centros de Coordenação de Salvamento (SALVAEROs), que encaminham o pedido para um dos sete Serviços Regionais de Saúde no país (nas cidades de Manaus, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo, Canoas e Brasília). O atendimento ocorre após avaliação médica e verificação de disponibilidade de aeronave. Para as circunstâncias que necessitem de acompanhamento de terapia intensiva, uma aeronave com equipamento de UTI aérea pode ser acionada, também mediante disponibilidade.

Serviço

Quem puder ajudar Lucas na viagem ou quiser doar balões de oxigênio a ele deve ligar para Irani: 9299-6811.