Jovem faz tratamento nos EUA e agora comemora pequenas conquistas

Marcelo Abreu, Especial para o Correio


Publicação: 27/07/2011 08:23 Atualização: 27/07/2011 09:52

Há histórias que são construídas com tanta determinação que chegam a doer emocional e fisicamente. Esta é uma delas. Um mergulho malsucedido numa piscina alterou para sempre os rumos da vida. Fez o personagem desta reportagem rever valores, reconstruir etapas e refazer todos os sonhos. E refazer sonhos é, provavelmente, a parte mais difícil da história de cada um. Fábio Grando ganhou uma segunda chance. E agarrou-se a ela com intensidade maior que a força de suas pernas e de seus braços. Cada movimento hoje é comemorado como tombo de bebê que começa a engatinhar.

Em fevereiro de 2010, o Correio contou, com exclusividade, o drama de Fábio. Quatro anos antes, aos 21, ele ficara tetraplégico, depois de pular de ponta. Era Copa do Mundo. Brasil e Austrália faziam a segunda partida. A reunião era na casa de um amigo, no Lago Sul. A partida prosseguia. Fábio resolveu entrar na piscina. A festa estava apenas começando. “Só me lembro do barulho da minha cabeça no fundo.” A água ficou escura. Era o sangue dele que jorrava.

Os amigos chamaram o Corpo de Bombeiros. Imobilizado, Fábio foi levado para o Hospital de Base (HBDF). Lá, encontrou os pais, desesperados. Soube que havia tido uma lesão medular. Esperou por quatro dias para fazer uma cirurgia. Não conseguiu. Uma ferida enorme (escara) se alastrava pelas costas. De lá, seguiu para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor, na Asa Sul, para tentar, finalmente, ser operado.

Lá, no Sarah, a certeza que lhe invadiu a alma: ficara tetraplégico. O mundo desabou. Era a pior notícia que ouvira nos seus 21 anos de vida. Esperou por 22 dias pela cirurgia. Colocaram-lhe quatro parafusos no pescoço e uma placa de titânio para fixar a vértebra. Ficou ali por quatro longos meses, para reabilitação. “Eles me ensinaram a viver numa cadeira de rodas”, conta.

No meio desse processo, a mãe de Fábio, Solange Grando, que contava à época 40 anos, saudável, sem histórico de doença e que deixara tudo para cuidar dele integralmente, sentiu-se mal. Desmaiou no quarto onde o filho só mexia o pescoço. Nem gritar Fábio pôde. “Só ouvi o baque dela no chão.” Uma enfermeira passava no local. Socorreu-a. Solange foi levada ao Instituto do Coração (Incor-DF). Sofrera sete paradas cardíacas.

Fez cateterismo. Causa do infarto? Os médicos apontam o estresse em que se encontrava. Resistiu milagrosamente, sem sequelas. Sobreviveu para cuidar de Fábio. “Se eu tivesse tido o infarto em casa ou na rua, provavelmente não teria sobrevivido. Só me salvei porque estava dentro do hospital e fui socorrida imediatamente”, resigna-se.

Dependência
Passaram-se os anos. Em 2008, sentado numa cadeira de rodas, todo imobilizado, o rapaz tetraplégico formou-se em jornalismo. Chegou empurrado pelos amigos. A vida precisava seguir, mesmo daquela forma, mesmo mexendo apenas a cabeça. Ele sabia disso. “Passei a ser dependente de tudo. Meu pai, há quatro anos, todas as madrugadas, acorda para me mudar de posição na cama. Isso não é justo com ele”, disse ao Correio, em fevereiro do ano passado.

Fábio queria chegar a San Diego, nos Estados Unidos. Lá, soube que havia um tratamento de fisioterapia exclusivamente para pacientes com lesão medular. Era o Project Walk — baseado na repetição dos exercícios, em aparelhos desenvolvidos para cada tipo de lesão. Mas era caro chegar ali. Ano passado, pelos seis meses (tempo mínimo de tratamento), ele teria que desembolsar U$ 55 mil (R$ 110 mil). O pai, proprietário de um pequeno self-service no Sudoeste, não teria como arrumar a quantia.

Depois que a história de Fábio foi contada pelo Correio, a ajuda veio de todos os lados. “Teve gente que fez depósito de R$ 1 e de R$ 5 mil”, conta Fábio. “Um comerciante chegou aqui em casa com um envelope e havia dentro dele 8 mil euros”, lembra, ainda emocionada, a mãe. Ele ainda disse por que guardava o dinheiro: “Era para uma eventual doença na minha família”.

Os amigos se mobilizaram na campanha Bora, Fabito! . Teve festival de tortas, artistas da cidade se juntaram para shows beneficentes, vendas de camisetas. Em 11 meses, a família contabilizou R$ 80 mil. “Se não fosse essa ajuda, nunca teria chegado lá. Sou grato a todas as pessoas”, diz ele. Para completar a quantia, a mãe vendeu o carro e juntou com as economias da família, que havia cortado todas as despesas.

Superação
Dezembro de 2010. Fábio, o pai, a mãe e o irmão caçula embarcaram para os Estados Unidos. Alugaram um pequeno apartamento em Vista, a 70km de San Diego. E lá começa a segunda parte desta história. Fábio partiu em busca de qualquer independência. Mesmo que fosse apenas se virar na cama nas madrugadas, sem ter que acordar o pai.

Os seis meses nos Estados Unidos viraram sete. A mãe e o irmão ficaram com ele em San Diego. O pai voltou, para tocar o comércio da família. A fisioterapia foi intensa — três vezes por semana, durante três horas a cada dia. “Era muito pesado. No começo, eu ia à tarde para o Project, mas, no dia seguinte, dormia a manhã toda, de tão cansado”, lembra.

Na fisioterapia americana, Fábio andou, em esteiras preparadas. Era como se tivesse engatinhando. Foi a melhor sensação dos últimos cinco anos. “Aqui, ficava em pé com talas. Lá, fiquei sem talas, no simulador de caminhada.” E mais um aprendizado: “Precisei preparar o pensamento. Meu cérebro desaprendeu a andar. Tinha que ter concentração total”. E brinca: “Saía de lá com mais dor de cabeça do que nas pernas”.

Nos sete meses nos Estados Unidos, Fábio deparou-se com um país preparado para receber e conviver com gente que tem pernas e braços emprestados. “Tô em cadeira de rodas há cinco anos. Lá, pela primeira vez, não precisei empinar minha cadeira pra nada. Todos os lugares são adaptados. As vagas para deficientes são respeitadas sem discussão. Nos bancos, a adaptação é tão grande que os cadeirantes nem precisam de fila especial.” A mãe intervém: “Isso é respeito”.

De volta a Brasília há uma semana, ao apartamento alugado onde a família mora no Sudoeste, Fábio continua na sua cadeira de rodas. Qual o saldo da viagem? “Voltei mais independente. Hoje, faço algumas coisas sozinho. Sinto meu abdômen e os meus músculos, o que me dá mais equilíbrio. Consigo passar da cama para a cadeira com mais facilidade.” E comenta: “Alguns amigos me viram na cadeira e ficaram meio decepcionados. Pensaram que eu voltaria andando. Eu sempre soube que isso não ia ser possível, mas hoje me sinto mais confiante, mais disposto e até mais forte”, alegra-se. Fábio seguirá com os exercícios de fisioterapia numa academia no Núcleo Bandeirante. É lá que foi inaugurada, há poucos dias, uma filial do Project Walk no DF.

A proprietária, Karen Sakayo, 23 anos, ficou paraplégica depois de cair durante uma apresentação circense da lira (“bambolê suspenso”), de uma altura de 6 metros, quando a corda se rompeu. Ela foi paciente do Project nos Estados Unidos e trouxe a técnica para Brasília.

Os fisioterapeutas que lá trabalham foram treinados em San Diego. É lá que Fábio seguirá suas atividades. E assim poderá tocar seus novos projetos. Com gosto de vida, ele diz: “Quero voltar a trabalhar. Posso fazer alguma coisa com jornalismo de internet. Quero dar cada vez menos trabalho à minha família”. O pai, Éder Grando, 48 anos, ouve. Emociona-se em silêncio. A mãe serve um copo com água para o filho. E também se comove.

A vida e os sonhos de Fábio seguem. Ele quer mais. E tem direito de querer mais. Um pulo numa piscina modificou rumos. Alterou todos os sentidos. Mas ele os reinventou. A vida é sempre uma grande reinvenção. E esse talvez seja o segredo de viver. Hoje, quarta-feira, 27de julho, ele tem tudo para estar mais certo disso. Completa 27 anos. Uma vida inteira o espera pela frente. Parabéns, Fabito!