Uma ultrapassagem proibida. Uma família destruída pela imprudência

Depois de sofrer um acidente que vitimou seus dois filhos na BR-060, em Goiás, casal precisou esperar seis meses pela abertura de inquérito para apurar o caso. Motorista que colidiu frontalmente com o carro da família fazia ultrapassagem proibida

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Publicação: 31/07/2011 08:00 Atualização: 31/07/2011 02:54

João Marcos, 7 anos, e Pedro, 4, viajavam para a casa dos avós maternos: sonhos interrompidos (Reprodução/Rafael Ohana/CB/D.A Press)

João Marcos, 7 anos, e Pedro, 4, viajavam para a casa dos avós maternos: sonhos interrompidos

João Marcos foi um pequeno vitorioso. Guiado pelos cuidados dos pais, aprendeu a ler aos 7 anos com apenas 60% da visão. Um mérito para quem nasceu com catarata no olho esquerdo. Aos 28 dias de vida, foi operado, passou a usar óculos aos seis meses, dilatou as pupilas todos os dias durante o primeiro ano de sua vida — isso arde — e usou um tampão no olho bom para estimular o que não enxergava. Frequentou regularmente o psicólogo, o ortoptista (espécie de fisioterapeuta ocular), o oftalmo, o neurologista. O esforço fez regredir uma doença que ofusca as cores, embaça as pessoas, torce as letras. João Marcos teria alta quando completasse oito anos. Mas morreu antes, em um acidente de carro aos 7 anos, 10 meses e 21 dias.

A mesma tragédia que tirou a vida de João interrompeu a de seu irmão mais novo, Pedro Lucas, que completaria 4 anos em 19 de agosto. Na hora do desastre, os dois comiam pastel, tomavam suco de uva e assistiam a Nem que a vaca tussa, animação que conta a história de uma fazenda chamada Caminho do Paraíso. Acompanhados dos pais, com a perspectiva de chegar à casa dos avós maternos, os pequenos viajavam tranquilos. Uma ultrapassagem arriscada e proibida na BR-060, km 179, zona rural de Abadia de Goiás, espatifou o carro da família Campos Moraes. Tirou a vida das duas crianças, feriu gravemente Marcos Campos Moraes, 42 anos, e Vyviane Marques Arantes Campos Moraes, 35, e dilacerou a alma do casal.

Sete meses após o acidente, ocorrido em 17 de dezembro de 2010, os dois se esforçam para recuperar a condição física e lutam para dar sentido aos dias e dormir à noite. Ela é supervisora pedagógica do Centro de Ensino Fundamental da 104 Norte. Depois do acidente, ficou afastada do serviço. Teve o pulmão operado duas vezes. Quebrou o pé e rompeu o tendão do braço direito. Mesmo assim, se apresentou voluntariamente à escola. “Receber o beijo e o abraço dos meus alunos me mantém viva.” Marcos é gerente do Banco do Brasil, onde trabalha há 28 anos. Ele também voltou para a função. O casal mora na 304 Norte, de onde, da janela, vê a escola que apresentou João às letras, aos fonemas, às primeiras palavras.

Voltar a ter uma vida normal não é o único drama do casal. Os dois lutam para fazer justiça em memória dos filhos. É nesse ponto que uma ferida ainda aberta, capaz de levar uma vida inteira e não sarar, foi remexida com as mãos pesadas da negligência. Marcos e Vyviane descobriram que, até junho, seis meses após o acidente, não havia inquérito para apurar a morte de João e Pedro, embora laudo da Polícia Rodoviária Federal tenha descrito a ocorrência como uma colisão provocada por imprudência e desrespeito às leis de trânsito.

Cobrança
Como a batida ocorreu em Goiás, o casal buscou informações em Goiânia. Marcos enviou e-mail e telegramas a três delegacias, mas não teve notícias de inquérito, nem mesmo na 5ª DP, onde o boletim de ocorrência do acidente foi lavrado. Em 1º de junho, o casal entrou em contato com a delegacia de Guapó, distrito onde fica Abadia de Goiás.

Em Guapó, Marcos e Vyviane foram atendidos pelo delegado Davi Freire Rezende, que estava no posto havia um mês. Ele informou aos dois que não havia ali inquérito sobre o caso. “Perdi os meus dois filhos e era como se nada tivesse acontecido”, indigna-se Vyviane, sem conter o choro. Formada em letras, ela é íntima das palavras e de seus significados. Mas assim, como ainda não encontrou sentido para sua vida sem os filhos, também não conseguiu achar um termo que defina sua condição depois de 17 de dezembro: “Quando perdemos os pais, ficamos órfãos, quem perde o marido, se torna viúva. Eu fui mãe. Não sou mais. Não sei o que sou.”

Depois do périplo na polícia, Marcos e Vyviane procuraram o Ministério Público de Goiás e chegaram ao promotor Marcelo Franco Assis Costa. No dia seguinte ao contato, em 13 de junho, Marcelo enviou ofício à delegacia de Guapó cobrando providências. Em 15 de junho, 181 após o acidente, o inquérito foi aberto.

No dia do desastre, não foi feito exame toxicológico, instrumento importante para esclarecer uma morte violenta. O laudo da perícia do acidente até hoje não foi concluído. No quebra-cabeças faltando peças para constatar os fatos e apontar culpados, o relato de testemunhas que viram o acidente é essencial. Um desses depoimentos é do engenheiro civil Eduardo Henrique Marquez. Ele contou que naquele dia tinha urgência em chegar a Goiânia, onde assistiria a um casamento. Por isso, dirigia seu Vectra em alta velocidade. Mesmo a 140km/h, ele foi ultrapassado pelo condutor da Saveiro que bateu no carro da família Campos Moraes.

Marcos e Vyviane ficaram gravemente feridos com a colisão. Hoje, lutam para recuperar a condição física, dar sentido aos dias e dormir à noite (Rafael Ohana/CB/D.A Press)

Marcos e Vyviane ficaram gravemente feridos com a colisão. Hoje, lutam para recuperar a condição física, dar sentido aos dias e dormir à noite

Duas outras testemunhas, que seguiam 300 metros atrás do Idea de Marcos e Vyviane confirmaram a versão do casal. Eram policiais civis que perseguiam o Vectra de Eduardo, justamente porque ele dirigia em alta velocidade. O carro da polícia também foi deixado para trás pela Saveiro. O agente afirmou ter sido surpreendido com o automóvel em “altíssima velocidade”, “ultrapassando em lugar proibido”.

Os dois policiais tiveram papel decisivo até a chegada do resgate. Brigadista, João Ernesto Lara prestou os primeiros socorros à família. Massageou o coração de Marcos, com sete costelas e o esterno quebrados. Ele e o colega Florêncio Filho constataram a morte de Pedro, que tinha as pupilas dilatadas e opacas. As de João Marcos pararam de brilhar dois dias depois, no hospital. Durante a viagem, o pequeno tinha a seu lado um livro de Harry Potter. Mostraria ao avô que tinha aprendido a ler.

Cidadãos
Os pais de João e Pedro estão dispostos a enxugar as lágrimas, expor seu luto e contar, tantas vezes quanto for preciso, a história do acidente que massacrou os planos de sua família. Em abril, os quatro deveriam ter ido a Disney. Depois da tragédia, o casal foi indenizado com o dinheiro das passagens e da hospedagem. Marcos e Vyviane decidiram repisar a dor da perda porque não são mais pais, mas continuam cidadãos. “Não desejo a morte de quem tirou a vida dos meus filhos. Quero investigação. A negligência, em qualquer etapa do processo, pode nos privar de conhecer a justiça dos homens”, diz Marcos, que treme os lábios e as mãos quando fala das crianças.

Ocorrência policial
“Segundo testemunhas e vestígios encontrados no local do acidente, V1 (Saveiro preta) trafegava pela BR-060 no Km 179,9, sentido Jataí/Goiânia, quando inadvertidamente em um local de proibida ultrapassagem, faixa contínua, não respeitando um fluxo forte de veículos que trafegavam em ambos os sentidos, colidiu com V2 (o Idea da família Campos Moraes), que não conseguiu desviar de V1.”

Sem lembrança
O condutor da VW Saveiro preta que bateu frontalmente com o Fiat Idea onde viajava a família Campos Moraes é Fabrício Camargos Cunha Rodovalho, 28 anos. Engenheiro ambiental, no dia do acidente, ele viajava a Goiânia para encontrar os pais. Era o seu último dia antes de tirar férias da usina de álcool onde trabalhava. Fabrício passou 12 dias em coma e alegou, em 6 de julho, durante depoimento na delegacia de Guapó, que não se lembrava das circunstâncias do acidente, mas afirmou que dirigia a 110km/h e não tinha pressa em chegar à capital goiana. Por meio de seu advogado, Divino Antônio, ele se negou a dar entrevista.

Mortes recorrentes
Sobre a demora para o início da investigação, o delegado Davi Rezende afirma que, antes de ser procurado pelo casal, não tinha conhecimento do registro do acidente: “É uma situação complicada. Aqui, todos os dias, morre alguém na rodovia.” Tão logo recebeu o ofício do Ministério Público, Davi abriu o inquérito. Para concluí-lo, aguarda laudo da Polícia Técnico-Científica de Goiânia, pedido em 21 de junho. O MP vai denunciar Fabrício por homicídio, mas ainda analisa se houve dolo eventual, quando alguém, mesmo sem intenção de matar, assume os riscos ao agir com grande imprudência. Nesse caso, a pena varia de seis a 12 anos de prisão. “A depender do excesso de velocidade, das condições do motorista e do local do acidente, há sim a possibilidade de homicídio doloso”, afirma o promotor Marcelo Franco Assis Costa. (LT)