Para refrescar o hábito da leitura

Educador popular espalha geladeiras-bibliotecas pelo Guará. Depois da QE 32, Lucas Rafael deixou mais um eletrodoméstico cheio de livros, desta vez na QE 17. A comunidade contribui para o aumento do acervo, que qualquer um pode pegar emprestado

» ROBERTA PINHEIRO
Publicação: 15/07/2015 04:00

image001 (1)À primeira vista, Everaldo Oliveira pensou que era lixo
descartado. Hoje, desfruta dos livros do eletrodoméstico (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

À primeira vista, Everaldo Oliveira pensou que era lixo descartado. Hoje, desfruta dos livros do eletrodoméstico.

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Lucas Rafael já usava a geladeira como armário, em casa,
e decidiu transformá-la em uma ação educativa e cultural (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Lucas Rafael já usava a geladeira como armário, em casa, e decidiu transformá-la em uma ação educativa e cultural.

Uma geladeira no meio de uma praça é algo inusitado. À primeira vista, pode parecer abandono ou descarte irregular de lixo. Mas, ao abri-la, a surpresa. Ela está repleta de livros. Há publicações de turismo, física, filosofia, literatura infantil e romances, entre outras. Tem até opções em inglês, por exemplo. “Doe livro. Leia e devolva”, orienta o aviso escrito no utensílio doméstico, que está na praça da QE 17, no Guará II.

A geladeira-biblioteca anda refrescando as ideias e colocando em dia a leitura dos moradores. “Vi um rapaz abrindo a porta uma vez e escolhendo um livro, mas não sabia que podia pegar”, comenta a pequena Maria Clara Viana Lima, 11 anos. Ao descobrir que todos aqueles exemplares poderiam ser desvendados por ela, a menina não perdeu tempo e foi correndo escolher a primeira leitura. “Gosto de ler gibi e a série Diário de um banana. Vou pegar um livro infantil”, afirma. Maria Clara não vai parar por aí. Na próxima vez que for à praça da QE 17, levará algumas publicações que a mãe tem em casa e não usa mais. “São livros de amor”, descreve. “É legal, porque podemos pegar e devolver depois. Não precisa comprar. É como se fosse uma biblioteca, só que livre”, define Maria Clara.

A ideia de montar e implementar as geladeiras-bibliotecas foi do educador popular e videoartista Lucas Rafael, 30 anos. A inspiração veio de iniciativas semelhantes, como o do açougue T-Bone. Além disso, Lucas já usava o eletrodoméstico como armário em casa. Quando foi se mudar, resolveu transformar o que tinha em uma ação educativa e cultural. “Leitura é cultura e sempre trabalhei para fomentá-la de várias formas. Além disso, as mudanças que queremos para o nosso país só vão acontecer por meio da educação”, explica.

Para reformar o utensílio e deixá-lo com cara nova, Lucas convidou amigos grafiteiros. Com as ilustrações, a geladeira-bibliotecas chama ainda mais atenção. Morador do Guará há 11 anos, ele escolheu a região porque se identificou com o local. “Aqui é um celeiro de artistas e acredito que pode se tornar uma efervescência cultural”, justificou. A primeira geladeira foi colocada por Lucas na QE 32. Ali, deixou alguns livros que tinha em casa. Há cerca de dois meses, ele instalou outra na QE 17. Dessa vez, uma escola doou algumas publicações repetidas. “Mas boa parte é a própria comunidade que abastece”, afirma.

Uma das doadoras é a moradora Maria Beatriz Martins, 71 anos. Todos os dias, ela vai até a lotérica que fica próxima à praça e deixa alguns livros na geladeira. Entre eles, já foram exemplares para o público infantil e sobre religião. “Eles ficam lá em casa em desuso. Então, quando saio, falo: ‘vou levar lá na geladeira’”, conta Maria Beatriz. Adepta da leitura desde criança, a moradora adora a quantidade de opções que o eletrodoméstico literário oferece. “Pego um e leio de trás para a frente, uma mania que tenho.”

Em um primeiro momento, o aposentado Everaldo Oliveira Paraguaçu, 62, achou suspeito o motivo de colocar uma geladeira usada no meio da praça. “Pensei que era lixo e me perguntei se deixariam aqui (praça)”, relembra. Mas, quando começaram a organizar a biblioteca e a pintar a geladeira, Everaldo mudou de ideia e aprovou o projeto. Amante dos romances literários, ele sempre passa pela praça, escolhe um exemplar e se senta para desfrutar da leitura. “Abre a mente e é uma ótima terapia”, afirma.

O idealizador das geladeiras-bibliotecas quer ampliar o projeto. No entanto, faltam recursos. Ele entrou com um pedido de parceria na Secretaria de Cultura para disponibilizar livros de artistas locais. “E é legal ver como a ideia já proliferou. Um amigo que participou conosco decidiu montar uma semelhante na QE 38”, conta.
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“É legal, porque podemos pegar e devolver depois. Não precisa comprar. É como se fosse uma biblioteca, só que livre” Maria Clara Viana Lima, 11 anos.

Biblioteca Popular

A ação do açougue T-Bone, de Luiz Amorim, disponibiliza livros para os usuários do transporte coletivo nas paradas de ônibus da Asa Norte. Em 2013, 600 obras foram queimadas em um ponto na 703 Norte. A recuperação ocorreu de forma rápida. A equipe que cuida do projeto compareceu ao local, pintou a prateleira, limpou a sujeira e não deixou a população nem um dia sequer sem o acervo. Todos os títulos são frutos de doações. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) reconhece a iniciativa de fomento à leitura, que começou em 2007 e é copiada por estados do Brasil e até por outros países. Todos os dias, uma equipe do açougue usa duas kombis para repor os livros doados pela população nas prateleiras das paradas. Ela limpa o espaço e zela para que o serviço prestado aos usuários seja de excelência.

Fonte:www.correiobraziliense.com.br