Burocracia condena onça a viver em cela de 12 m²

Bravão chegou filhote ao zoo de Goiânia há mais de 12 anos e até hoje é mantido em espaço longe do ideal

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Photo: Diomício Gomes
Bravão no recinto em que vive há mais de uma década no Parque Zoológico de Goiânia: estresse e sobrepeso.

Era apenas um filhote em uma caixa de papelão quando foi encontrado em uma estrada no município de Goiatuba, a 178 quilômetros de Goiânia. Levado por uma equipe do Batalhão Ambiental da Polícia Militar para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), foi ficando sem destinação adequada.

Bravão, um Puma concolor, mais conhecido como suçuarana, onça-parda, onça-vermelha, onça-bodeira, mossoroca ou leão-baio, foi entregue ao Ibama dia 12 de março de 2003. O apelido foi dado pela Coordenação de Fauna do Ibama. É uma referência ao humor do animal que oficialmente tem apenas uma identificação: 982F009102058706, que pode ser lida por um leitor de chip. Tudo bem formal.

E é a formalidade que atrapalhou a vida de Bravão. O Cetas funcionava na época nas dependências do Parque Zoológico de Goiânia. Quando o órgão foi transferido para outro local, três suçuaranas, entre elas Bravão, ficaram.

Por não pertencerem ao plantel do município, ficavam contidas em espaços inadequados, pequenos e sem grama ou terra. É o que acontece com animais no setor extra do Zoológico.

Das três onças remanescentes do plantel do Ibama, um casal agora pertence ao plantel do município e ganhou um espaço maior e mais confortável. “Há 15 dias, aproximadamente, juntamos o casal de onças que já vinha se adaptando aos poucos a essa convivência e fizemos a transferência para um espaço que foi readequado pensando no bem-estar dos animais”, explica o diretor do Zoológico, Raphael Cupertino.

Agora persiste o problema de Bravão. Aos 12 anos, sempre esteve contido em uma cela de 12 metros quadrados no Zoo. Sedentário, nervoso e acima do peso, está sem alguns dentes, mas tem o olhar triste de um encarcerado. Nasceu livre e foi condenado a morrer preso.

Listas

“É um passivo ambiental”, explica a coordenadora de Fauna do Ibama em Goiás, Cristianne Miguel. Ela explicou que Bravão é um macho adulto de difícil destinação. Zoológicos e Cetas do País todo possuem listas de excedentes muito parecidas – reclamação também de Cupertino. Suçuaranas são comuns nas listas.

“Quando se consegue destinação para um zoológico, geralmente são filhotes, de mais fácil adaptação”, conta o responsável pelo Cetas em Goiânia, Luiz Alfredo Baptista. Atualmente existem 13 onças-pardas no local. São 8 adultos e 5 filhotes.

“Todos chegaram filhotes. Estamos destinando dois para o zoológico de São Paulo e tentando a soltura de um, se ele conseguir. Essa soltura será monitorada”, diz. O local não é divulgado para evitar a caça ao animal.

Bravão provavelmente foi vítima de caçadores. Técnicos do Ibama acreditam que a mãe dele tenha sido morta por fazendeiros quando saiu para caçar e alimentar a cria e ficaram com medo de matar o filhote. “É o que mais acontece. Matam a mãe, capturam os filhotes e nos entregam”.

A coordenadora de Fauna do Ibama alerta para que as pessoas não capturem animais silvestres. Luiz Alfredo lembra que o próprio Ibama tem projetos para impedir a caça de animais que porventura estejam atacando rebanhos.

“Fazemos toda orientação e em alguns casos até a captura”, afirma. Quem localizar uma onça em propriedade rural, deve ligar na Coordenação de Fauna do Ibama: (62) 3946-8140 e 3946-8142.

Sem chance de voltar à natureza, animal deve ganhar mais espaço

A captura de Bravão em 2003 trouxe consequências irreversíveis. Como não aprendeu com a mãe a caçar e a se defender, nunca teve nem a chance de ser reinserido na natureza. “Ele não sobreviveria”, diz a coordenadora de Fauna do Ibama, Cristianne Miguel.

Por ser adulto e bravo, zoológicos não demonstram interesse por ele. Cristianne explica que um adulto briga por território e certamente ele mataria outras onças colocadas com ele em um recinto.

Ontem o diretor geral da Associação pela Redução Populacional e contra o Abandono de Animais (Arpa Brasil), Alexander Noronha, protocolou requerimento junto à Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer, solicitando que o município transfira as onças do setor extra para recintos adequados. Ele argumenta que o dinheiro arrecadado na bilheteria do Zoológico de Goiânia deve ser usado para a construção de ambientes adequados ao bem-estar dos animais, independente de pertencerem aos plantéis do zoológico ou do Ibama. Pede ainda que um tigre macho seja vasectomizado.

Alexander Noronha diz que a Arpa Brasil solicitou acesso a informações sobre a destinação das onças ao Ibama, ao Zoológico e à Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). “Independente de em qual plantel o animal esteja, acreditamos e lutamos para que o tratamento seja o melhor possível e dessa forma pedimos para que o zoológico use todos os seus recursos à disposição do bem-estar dos animais”, reforça.

O delegado Luziano de Carvalho, titular da Delegacia Estadual do Meio Ambiente (Dema), afirma que a conclusão do inquérito que apurou a morte de dezenas de animais no zoológico de Goiânia foi a de que não houve crime ambiental cometido ali. “É um problema ligado ao manejo e o mesmo ocorre em relação a essa suçuarana macho”, pondera.

Para o presidente da Arpa Brasil, seria papel do Ministério Público analisar se houve crime ou não. “Fato incontestável é que um animal viveu em um espaço de 10 metros quadrados por uma década sem que fosse tomada nenhuma atitude”.

Mais espaço

Um acordo entre a direção do Zoológico e a Coordenação de Fauna do Ibama deverá garantir pelo menos mais espaço para Bravão. É que com a retirada do casal de suçuaranas do setor extra para outro ambiente, a parede que separa duas celas será quebrada. Bravão passará a ter cerca de 35 metros quadrados de cimento para viver.

De acordo com Cristianne Miguel, o ideal para onças do porte de Bravão é um espaço de 70 metros quadrados, com água, terra, grama, troncos e tocas. Isso, por enquanto, ele não terá. “É o melhor que pode ser feito hoje para melhorar a condição dele, que passou a vida toda em cativeiro”, conta ela.

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