É necessário isolar Rio Doce da ação humana, afirma especialista

Para Brian Richter, diretor de Estratégias Globais de Água Doce da ONG The Nature Conservancy, em casos como esse, é preciso deixar a natureza agir para curar suas feridas
Um dos maiores especialistas no gerenciamento de recursos hídricos no mundo, Brian Richter visitou o Brasil durante o mais grave desastre ambiental da história do país. O rompimento, em Mariana (MG), de uma barragem com rejeitos de mineração da empresa Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, lançou no Rio Doce 55 milhões de metros cúbicos de lama tóxica e espessa, que sufoca a fauna e a flora por onde passa.

Para Richter, diretor de Estratégias Globais de Água Doce da ONG The Nature Conservancy, em casos como esse, é preciso deixar a natureza agir para curar suas feridas. “Existem rios nos Estados Unidos que foram afetados pela mineração há 150 anos e ainda não foram recuperados, pois as pessoas os usam intensamente até hoje. É necessário isolar esse rio da ação humana”, aconselha, com a experiência de quem assessorou mais de 120 projetos hídricos em 25 anos.

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“De forma nenhuma existe uma resposta fácil, mas é preciso que o governo tenha normas mais rígidas para regular como esses rejeitos são utilizados”

Também assessor hídrico das Nações Unidas e professor de sustentabilidade hídrica na Universidade de Virgínia, o norte-americano conversou com o Correio quando esteve em Brasília para participar do XXI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, ocasião que aproveitou para lançar seu mais novo livro, Em busca da água (Oficina de Textos). Segundo ele, a escassez dos recursos hídricos se espalha e se intensifica em muitas regiões do mundo, com consequências desastrosas para as comunidades locais, as economias e os ecossistemas.

As abordagens atuais tendem a confiar em políticas elaboradas em nível estadual ou nacional, que, sozinhas, se revelaram insuficientes para combater o problema. Um exemplo, encontrado aqui mesmo no Brasil, aponta, é a crise de abastecimento no estado de São Paulo. “Acho que muitas partes do Brasil ainda não enfrentaram grandes crises hídricas e, por isso, historicamente, a população não foi conscientizada sobre as formas corretas de usar a água. Agora, começamos a ver os problemas disso surgindo em lugares como São Paulo, onde, apesar de Cantareira ter subido 60mm, ainda existe falta de água”, analisa.

Para ser durável e eficaz, políticas de conservação devem ser firmadas na cultura, na economia e nas variadas necessidades dos membros das comunidades afetadas. Richter argumenta que o consumo sustentável no século 21 só pode acontecer por meio de um diálogo aberto, democrático e que gere uma ação coletiva local. Fazer com que as pessoas deem mais atenção ao tema foi justamente o principal motivo de escrever o livro, conta. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Por que o senhor decidiu escrever Em busca da água?
Eu sempre tive uma preocupação grande em relação à água. Cresci no sul da Califórnia, um local muito seco. Quando eu era criança, já estávamos preocupados com a conservação, pois a água estava sempre perto de acabar. Isso me motivou desde muito cedo. Passei os últimos 30 anos viajando o mundo e conhecendo lugares que tinham problemas sérios de falta de água e vi as graves consequências disso, então pensei que fosse o momento de escrever um livro para mostrar o que eu vivenciei, o que aprendi e o que estive pensando sobre o tema da conservação de recursos hídricos. Particularmente, queria fazer isso de uma forma que fosse compreensível para o público em geral, porque, infelizmente, a maior parte dos especialistas falam de uma forma que a maioria das pessoas não consegue entender muito bem. Eu tentei escrever de forma simples o porquê de estarmos tendo tantos problemas de falta de água e como podemos prevenir esses problemas no futuro.

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Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press – 23/11/15″Todos nós, que moramos em cidades, podemos nos preocupar e nos conscientizar sobre a água que usamos, podemos usar metade dela”

Qual é a atual situação dos rios no mundo?
Existe uma boa notícia: aproximadamente dois terços das fontes de água — rios, lagos e lençóis freáticos — do mundo foram muito pouco explorados. Mas as notícias são muito obscuras no outro terço. Nele, há uma diminuição dos recursos, não só nos períodos de seca. Em muitas comunidades, não há água suficiente quase o ano todo. Nesses locais, vemos rios muito largos ficando secos por causa do uso humano. No meu país, o Rio Colorado e o Rio Grande secam completamente antes de chegar ao oceano, pois usamos completamente toda a água deles. O mesmo acontece em outros países. É o caso do Rio Amarelo, na China, e do Bramaputra, em Bangladesh. E não precisamos necessariamente secar um rio completamente para termos perdas ecológicas. Se tirarmos um volume que parece pequeno, 20% da água, a vida aquática pode perder diversidade e gerar impactos enormes, sem contar que muitas comunidades possuem problemas econômicos pela falta de água. Nós temos um terço da população mundial convivendo com esses problemas, inclusive a de São Paulo.

Quais são as principais mazelas que afetam os rios?
Acho que existem três grandes problemas que impactam os rios. A grande retirada de água, que danifica a saúde ecológica; a poluição, que, no Brasil, o Rio Doce é um exemplo, mas que há vários casos também nas nações desenvolvidas pela industrialização; e, em terceiro lugar, a construção de barragens. Nós não temos muito cuidado sobre onde as construímos, e elas acabam causando grande impacto ambiental ou mudanças tão graves nos rios que as pessoas que dependem dele para pescar ou para plantar ficam impedidas de trabalhar. Existem várias formas de prejudicar a vida dos rios, mas essas são as três mais graves.

É possível recuperar o Rio Doce? E como evitar novos desastres?
Quando há esse tipo de contaminação em um rio, não há muito o que ser feito para recuperá-lo. Felizmente, os rios se recuperam ao longo do tempo, mas isso pode demorar muito. Existem rios nos Estados Unidos que foram afetados pela mineração há 150 anos e ainda não foram recuperados, pois as pessoas os usam intensamente até hoje. É necessário isolar esse rio da ação humana. Quando acontece um grande vazamento como esse, o rio vai se recuperar sozinho, ao passo que haverá muitas chuvas ao longo dele, e muitos dos elementos contaminadores vão se estabilizar, os químicos serão absorvidos pelas plantas. Mas é importantíssimo impedir que isso aconteça de novo. De forma nenhuma existe uma resposta fácil, mas é preciso que o governo tenha normas mais rígidas para regular como esses rejeitos são utilizados. Isso ainda não é o suficiente. Existem locais com leis rígidas não cumpridas. Isso acontece porque pouquíssimas pessoas trabalham no governo para inspecionar esse tipo de barragem. É necessário reforçar a fiscalização, assim evitaremos que desastres como esse voltem a acontecer.

Qual é a importância do Brasil na conservação dos recursos hídricos no cenário mundial?
Acho que muitas partes do Brasil ainda não enfrentaram grandes crises hídricas, e, por isso, historicamente, a população não foi conscientizada sobre as formas corretas de usar a água. Agora, começamos a ver os problemas disso surgindo em lugares como São Paulo, onde, apesar de Cantareira ter subido 60mm, ainda existe falta de água. À medida em que a população cresce, e as áreas de agricultura vão se expandido, caminhamos em direção ao limite de água disponível. Quanto mais perto disso, mais perigoso se torna o tema. Poderemos chegar em pouco tempo à situação do Nordeste brasileiro, onde a escassez acarreta crises econômicas que impedem o desenvolvimento. Eu gostaria de enfatizar três coisas: a primeira é que todos nós, que moramos em cidades, podemos nos preocupar e nos conscientizar sobre a água que usamos, podemos usar metade dela. Em segundo lugar, nas áreas com pouca água, a agricultura é de longe a maior utilizadora. É importante usar a água de maneira mais eficiente, com menos desperdício. O terceiro ponto é a necessidade de planejar e estar preparado. Em São Paulo, as pessoas foram pegas de surpresa, não estavam preparadas e não previam algo assim. São cruciais medidas para ajustar o consumo a esse tipo de situação. Se as pessoas conseguirem diminuir o consumo em 25% ou 50%, a vulnerabilidade delas diminuirá.

Como contornar a crise hídrica de São Paulo?
A forma mais rápida e confiável é usando menos água. Não é possível fazer um novo reservatório do dia para a noite. Minha resposta seria encontrar uma forma política e razoável de fazer as pessoas usarem menos água. Algumas maneiras já foram discutidas e tentadas, principalmente medidas como impostos sobre o consumo. Mas é preciso planejamento para que não se torne a água inacessível às camadas mais baixas da sociedade. É importante passar por essas crises de modo a criar políticas que impedirão que isso aconteça outra vez. No livro, eu explico isso de forma mais didática: é como na sua conta do banco, você não gasta mais do que deposita. Planejar sobre fontes de água é ter claro o tanto de água disponível para não gastar uma quantidade que afete o ecossistema. É crucial se preocupar tanto nos períodos de seca, quanto nos de chuva, pois sabemos que o clima está mudando e vamos ver muitas alterações no mundo. Não sabemos como será o futuro. Cada um tem sua responsabilidade: governo, indústrias, agricultores e cidadãos. Temos de ajustar nosso estilo de vida aos recursos disponíveis.

Quais são as obrigações e os deveres de cada setor da sociedade na conservação dos recursos hídricos?
Bem, uma das primeiras motivações para escrever o livro era fazer as pessoas darem mais importância a essas questões, de forma que elas não fiquem caladas durante a tomada de grandes decisões sobre o manejo dos recursos hídricos e trabalhem com as entidades governamentais e os especialistas no assunto. É muito importante o cidadão se envolver e expressar suas ideias. Eu acho que há duas coisas que todo mundo pode fazer: educar-se sobre as questões básicas acerca da água — ler o livro que escrevi pode ser um bom começo — e participar dos diálogos públicos quando for possível. Não podemos ficar sentados vendo o drama acontecer sem nossa mobilização. Todos deveríamos ser mais cuidadosos com a forma como gastamos a água. Deveríamos usar bem menos e produzir menos poluição, além de tentar solucionar os problemas juntos.

Como diminuir o consumo de água no dia a dia?
Um jeito de começar é olhar para formas efetivas de usar menos água e que não implicam em uma mudança no estilo de vida da população. Esse é um jeito barato. Podemos, por exemplo, ter banheiros, sanitários e lavadouras que usam a água de maneira mais eficiente. Se começarmos com essa mudança, não precisaremos nos importar com o tanto de vezes que usamos o vaso ou a lavadoura. Adotar encanamentos mais eficientes em nossas casas é algo muito importante, e existem muitas formas de encorajar a população a fazer isso. O governo pode tornar obrigatório, mas não concordo com essa estratégia, pois pode gerar resistência. A melhor forma é incentivar, como foi feito nos Estados Unidos, na Austrália e em Israel, por meio de um crédito para que o cidadão troque seu sistema de encanamentos para um melhor, além de subsidiar a reconstrução de banheiros mais eficientes. Há muitas outras formas de tornar o consumo mais inteligente, como, por exemplo, as pessoas usam muita água fora de casa para irrigar jardins. Podemos melhor utilizar a água nesses locais com o uso de plantas e árvores que precisem somente da água da chuva. Isso não significa que a paisagem da sua casa não seja atraente. Você pode procurar plantas bonitas que usem menos água.

O Nordeste brasileiro é árido e, para sanar esse problema, o governo está transpondo as águas do São Francisco. Esse tipo de projeto pode ser maléfico para o rio?
Uma das estratégias mais comuns nas comunidades ao redor do mundo que começaram a esgotar suas fontes de água, como os rios e os lençóis freáticos, é a construção de linhas que tragam água de outros locais. Os chineses estão construindo milhares de quilômetros de canais da parte sul do país para a parte norte. É uma situação comum, e pode ser muito importante para suplementar as fontes de água locais. É como um banco, como transferir mais dinheiro para essas comunidades. Contudo, essa prática traz riscos, e economizar é a forma mais barata de balancear o tanto de água disponível. Transferir a água de um lugar para outro pode prejudicar as pessoas que moram no lugar de origem. A perda do volume de água pode acarretar uma crise econômica que freia o desenvolvimento do lugar, além de prejudicar o sistema ecológico, pois, como mencionei, não é preciso tirar muito de um rio para destruir seu ecossistema. Isso precisa ser feito com muito cuidado.

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