Feminicídio segue na pauta

Em evento realizado para receber novatas, estudantes e professores discutiram a necessidade de colocar a violência contra a mulher como tema central na Universidade de Brasília. Comunidade acadêmica cobra ações concretas da direção da instituição

Publicação: 29/03/2016 04:00
Isabella acredita que a morte de Louise Ribeiro não pode ser esquecida: %u201CPoderia ser eu%u201D (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press

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Isabella acredita que a morte de Louise Ribeiro não pode ser esquecida: %u201CPoderia ser eu%u201D

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Aluno de ciências contábeis, Lucas diz sentir falta da discussão de temas socias nas aulas (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Aluno de ciências contábeis, Lucas diz sentir falta da discussão de temas socias nas aulas

Passados 19 dias do assassinato de Louise Ribeiro, a Universidade de Brasília (UnB) continua o debate sobre feminicídio. Na tarde de ontem, teve início a Semana das Calouras, organizada pelo Centro Acadêmico de Comunicação (Cacom). O evento tem como objetivo fomentar a discussão dentro da instituição e dar continuidade ao fluxo de atividades que vem sendo propostas pela comunidade acadêmica.

A aluna de audiovisual e membro do Centro Acadêmico de Comunicação (Cacom) Ana Luisa Meneses, 20 anos, crê que as conversas levantadas durante a semana devem ultrapassar os portões da universidade. A intenção é que não fique somente aqui, mas que seja apenas o início. Que os assuntos sejam carregados para a universidade, pela cidade e por todos os lugares”, considera.

Não apenas meninas participaram da atividade. Para o calouro Samir Otmen, 18 anos, o brutal assassinato de Louise assustou a todos, em especial os recém-chegados. “Quando entrei aqui, fiquei sabendo de várias histórias de insegurança, e com o caso da Louise piorou muito. Antes, eu pensava que era conversa de pai e mãe, mas eu vi que é real e que acontece. Dá um pânico”, relata. Para o universitário, a insegurança na universidade é geral e necessita ser discutida para que possam ser tomadas providências. “É preciso ter esse debate para alguma coisa acontecer. Porque se a gente ficar somente comentando casualmente nada vai ser resolvido”, considera.

Isabella Barbosa, 19 anos, cursa o primeiro semestre de publicidade e propaganda. Considera importante que o tema de feminicídio continue em debate, principalmente entre os calouros. “É um local que você acabou de chegar e vê realmente o mundo. Aquela menina estava cheia de sonhos, estagiando, com vários amigos e, do nada, a vida dela acabou. Poderia ser eu, pode ser comigo. Não podemos imaginar quando isso pode acontecer”, desabafa. Para a estudante, essas discussões são boas oportunidades de construir um pensamento mais humano e ajudar gerações futuras.

A professora da Faculdade de Comunicação Tânia Montoro foi uma dos mais de 100 docentes da universidade que assinaram carta enviada para a Administração Superior da Universidade de Brasília pedindo a ampliação do debate do tema.O documento reivindica mais ação para que sejam evitados atos de violência contra as mulheres. Tânia, que ministra a disciplina de comunicação e gênero, acredita que, além da perda uma aluna, a lição que fica é que essas agressões estão mais próximas do que a maioria das pessoas imagina. “Por mais que a gente tenha caminhado, por mais que tenhamos trabalhado essas questões, precisamos de mais ainda. Estamos engatinhando”, declara. A professora diz que o mais importante é debater o assunto em todos os departamentos da UnB. “Não é uma luta por alguém, é uma luta pela paz. Estamos falando da justiça social que estamos construindo”, afirma.

Apesar de o assunto estar em pauta, muitas pessoas o desconhecem. É o caso do estudante de ciências contábeis Lucas Salomão, 19 anos. Ele diz sentir falta de temas sociais nas aulas. “No meu curso principalmente, pecamos na falta desses debates”, relata. O jovem tem muitas dúvidas sobre questões feministas e, para se manter por dentro dos assuntos, procura conversar com pessoas que entendem a causa. “No caso da Louise, em princípio, para mim, não era feminicídio, Mas me explicaram que a questão é mais ampla, é você ter medo por ser mulher”, exemplifica.

Condenação
Thiago Santos foi condenado a 24 anos de prisão, pelo Tribunal do Júri de Santa Maria, por assassinar a ex-companheira. Como o crime ocorreu antes da lei que criou o termo feminicídio, em março de 2015, o ato não pôde ser incluído na nova nomenclatura. O homicídio — triplamente qualificado, por motivo torpe, meio cruel e utilização de recurso que impossibilitou a defesa da vítima — veio por asfixia, com um golpe chamado de mata-leão, e atropelamento, em 2 de outubro de 2014, motivado por ciúmes.

Carona on-line
Na tarde de ontem, o sonho de um grupo de alunos e ex-alunos da Universidade de Brasília (UnB) se tornou realidade. O Carona Phone, aplicativo pensado e desenvolvido por eles, foi lançado no auditório da Faculdade de Tecnologia depois de dois anos de dedicação e intenso trabalho. A ideia do programa, que já está disponível para ser baixado nos aparelhos Android, é promover a mobilidade sustentável em todo o Distrito Federal. Além disso, a ferramenta permite que as pessoas conquistem novas amizades por meio da tecnologia.A
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O aplicativo pretende promover a mobilidade sustentável no DF (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O aplicativo pretende promover a mobilidade sustentável no DF

Tudo começou a partir de um incômodo de Márcio Batista, 33 anos. O graduado em ciência da computação costumava ir para a UnB de ônibus e não se conformava com os estacionamentos do câmpus, que sempre viviam abarrotados de veículos. “O pior é que a maioria desses carros tinha somente uma pessoa”, conta. Diante dessa situação, ele decidiu: queria estimular o hábito de oferecer e pedir carona. “Como isso sempre me incomodou bastante, decidi compartilhar com alguns amigos a ideia de desenvolver um sistema de caronas solidárias que pudesse beneficiar a todos”, diz.

Os interessados em participar podem baixar o aplicativo, clicar em “oferecer carona”, informar o destino, horário de partida e número de vagas no veículo. A partir daí, quem busca carona pode ter acesso a diversas possibilidades e optar pela que melhor atender. “Não queremos restringir o ponto de destino. Nosso objetivo é conectar pessoas próximas, independentemente do lugar para onde o motorista esteja indo”, pontua Márcio. Para resolver as questões que envolvem a segurança dos usuários, é possível acessar o perfil de cada pessoa e avaliar tanto o motorista quanto quem pega carona. As estrelas podem ser marcadas com notas de zero a cinco.

A iniciativa está conquistando adeptos. Até a tarde de ontem, quando o aplicativo foi oficialmente liberado, já haviam sido registrados cerca de 1 mil downloads e pelo menos 60 caronas dentro da UnB. Para o professor responsável por acompanhar o Carona Phone, Pastor Willy Gonzales Taco, a ideia tem tudo para agradar ao público por um fato muito simples: as questões que envolvem a mobilidade são latentes e chamam a atenção de muita gente. “Temos vários estudos que falam sobre o uso da carona, mas faltava um aplicativo que integrasse as novas tecnologias”, acredita. Envolvido com o projeto desde o começo, o professor considera que para que uma ideia como essas se torne possível é preciso perseverar e estar disposto a transpor barreiras. “Esse é o nosso maior desafio. Mesmo sem grandes recursos, nossa equipe é comprometida e acredita no que está desenvolvendo”, orgulha-se.

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