Casos de sífilis avançam no DF

Assim como em todo o Brasil, a capital federal tem registrado cada vez mais casos da doença %u2014 transmitida sexualmente ou de mãe para filho na gestação. Só este ano, 168 bebês nasceram com a bactéria. No total, até outubro, foram 1.020 contágios

» OTÁVIO AUGUSTO

Embora seja uma infecção secular, conhecida desde a Idade Média, as estatísticas da sífilis mostram que ela ainda é um problema de saúde pública no Brasil — o Ministério da Saúde está em estado de alerta para a alta incidência do mal (leia Para saber mais).Transmitida sexualmente ou de mãe para filho, os dados mostram que, na capital federal, a doença traça uma escalada de crescimento nos últimos cinco anos. No período, são mais de 5,2 mil contaminações, sendo 1.020 em recém-nascidos. Até outubro, são 1.018 contágios na cidade.

A maior preocupação das autoridades de saúde é a explosão da doença em gestantes. O coeficiente em cada grupo de mil grávidas saiu de 2,2 casos, em 2010, para 5, no ano passado, o que significa que o risco de transmissão de mãe para filho está cada vez maior. Quando isso ocorre, a doença recebe o nome de sífilis congênita. O tratamento para os bebês consiste na aplicação de uma a três doses de Benzetacil. No começo do ano, o DF passou por desabastecimento do insumo (leia Memória). Em 2016, nasceram 168 bebês com sífilis congênita.

A sífilis é um mal silencioso e requer cuidados. Após a infecção inicial, a bactéria pode permanecer no corpo por décadas para só depois se manifestar novamente. Entre os entraves à erradicação da doença, estão, segundo especialistas ouvidos pelo Correio, a baixa notificação dos casos, a resistência masculina ao tratamento e as dificuldades no diagnóstico. No DF, os homens são os que mais contraem a doença. Dos 1.086 casos notificados em 2016, os pacientes do sexo masculino representam 70,1%. São ao todo 761 infecções. As mulheres são responsáveis por 325 contaminações, ou 29,9% dos contágios. Outro detalhe do perfil epidemiológico é a idade dos doentes. Os adultos jovens — entre 20 e 29 anos — é a parcela da população que mais contrai sífilis. Este ano, eles representam 33,7% dos registros.

Apesar do panorama crítico, o Executivo local diz que não haverá nenhuma campanha específica na capital. Segundo a Secretaria de Saúde, o que pode ser feito é “buscar intensificar a disponibilidade de testes e a utilização da penicilina (Benzetacil)”. O insumo está disponível na rede pública, de acordo com a pasta. “É importante a prevenção primária, ou seja, aumentar as ações educativas, principalmente junto aos jovens, e o estímulo ao uso de preservativos”, destaca, em nota.

O Ministério da Saúde lançou na, semana passada, uma agenda de ações estratégicas para redução da sífilis congênita no próximo ano. “O foco é detectar precocemente a doença no início do pré-natal e encaminhar imediatamente o tratamento”, ressalta o órgão, em nota. O plano reforça a necessidade do tratamento adequado, tanto da gestante, quanto das parcerias sexuais. Para assegurar a assistência, a pasta comprou, em caráter emergencial, 2,7 milhões de frascos de penicilina benzatina (Benzetacil).

Consequências

O infectologista Alexandre Cunha diz que o aumento da sífilis é uma tendência dos últimos cinco anos. Para ele, houve uma desmobilização no uso de preservativo. “É preciso abordar duas frentes: primeiro, o diagnóstico para quebrar a cadeia de transmissão e tratar os infectados. A outra medida é estimular o uso do preservativo, pois a adesão está sendo menor. Os números se avolumaram bastante”, explica.

A explosão de casos no DF causa complicações em alguns pacientes. A bactéria causadora da sífilis se multiplica na área genital infectada e, em poucas horas, espalha-se pela circulação sanguínea e linfática. Adultos podem desenvolver várias doenças oculares. A uveíte, inflamação que acomete a úvea (camada intermediária do bulbo ocular, altamente vascularizada e responsável pela nutrição do olho), é a principal delas. O oftalmologista Sebastião José Ferreira Neto atendeu pelo menos três casos este ano. “A inflamação no olho pode ocorrer em qualquer uma das fases da sífilis. São inflamações severas e graves, que provocam lesões até na retina ou no nervo ótico”, alerta.

O especialista explica que possíveis sintomas da doença, como olhos vermelhos, sensibilidade à luz e visão turva, podem ser sinais de sífilis. Na maior parte dos casos, o tratamento é feito com antibiótico. “A qualquer sinal diferente, o essencial é procurar o médico. Quanto mais cedo se iniciar o tratamento, maiores são as chances de cura”, frisa. Sebastião analisou as estatísticas do DF a pedido do Correio. “Tenho observado aumento muito expressivo de casos no consultório. Durante os últimos 20 anos, não víamos, mas, nos últimos três anos, começou a crescer”, detalha.

Uma das medidas é estimular o uso do preservativo, pois a adesão está sendo menor. Os números se avolumaram bastante”

Alexandre Cunha,
infectologista

Para saber mais

Epidemia no país
O Ministério da Saúde admitiu que o Brasil enfrenta uma epidemia de sífilis. Entre junho de 2010 e 2016, foram notificados quase 230 mil casos da doença, de acordo com o último boletim epidemiológico do governo. Três em cada cinco ocorrências (62,1%) estavam no Sudeste. A transmissão de gestantes para bebês é o principal problema. A situação foi qualificada como “epidemia” somente agora, mas vem se desenvolvendo há mais tempo. Em 2015, por exemplo, no país todo, foram notificados 65.878 casos. Os casos de sífilis congênita, de transmissão da mãe grávida para o bebê, também cresceram expressivamente. No ano passado, a cada mil bebês nascidos, 6,5 eram portadores de sífilis. Somente cinco anos antes, em 2010, esse número era de 2,4 bebês em cada mil nascimentos. Ou seja, a incidência da sífilis congênita praticamente triplicou em meia década.