O medo ronda o brasiliense

Os constantes assaltos, inclusive com reféns, têm provocado sensação de insegurança na população. O Correio circulou por quadras do Plano Piloto e do Sudoeste e encontrou relatos de crimes, muitos deles subnotificados

» ISA STACCIARINI
» WALDER GALVÃO*
» PAULA ANDRADE
Especial para o Correio
Publicação: 17/11/2016 04:00
Em menos de 12 horas, o Distrito Federal registrou três assaltos com quatro vítimas feitas reféns. Brasília, que há anos era sinônimo de segurança, tem dado lugar ao medo. Os casos mais recentes escancaram a sensação de insegurança vivida pelos moradores. Seja no Plano Piloto, seja nas regiões administrativas do DF, há relatos diários de vítimas de violência. Dois deles ocorreram na madrugada de ontem. Na 912 Sul, três homens armados com revólver e faca assaltaram uma faculdade particular e renderam os seguranças. Eles foram amarrados e ameaçados com uma arma. Os assaltantes fugiram com dois celulares, uma televisão, um colete à prova de balas e R$ 150. A 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) investiga o caso.

Também na madrugada de quarta, quatro assaltantes encapuzados roubaram o Centro Educacional São Francisco, conhecido como Escola do Chicão, em São Sebastião. Armados com revólveres e facões, os bandidos amarraram o vigilante e levaram 18 televisões e dois computadores em um caminhão. O funcionário só conseguiu se soltar duas horas depois e contou aos policiais da 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião) que recebeu ameaças de morte.

Na tarde de domingo, dois homens roubaram uma residência no Condomínio Privê Morada Sul, no Jardim Botânico. Amordaçaram, amarraram e trancaram um adolescente de 17 anos em um dos quartos. Segundo a Polícia Civil, o jovem estava na sala, sozinho, jogando videogame, quando a dupla entrou, armada com três facas retiradas da cozinha da própria casa. Os criminosos fugiram com uma televisão e um videogame. A 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá) investiga.

O comércio da 308 Sul também sofre com a violência. Na madrugada de segunda-feira, bandidos usaram a tampa de um bueiro para quebrar o vidro e invadir uma ótica. “Tivemos um prejuízo de cerca de R$ 80 mil. Foi um susto, quando chegamos para trabalhar”, lembra a gerente da loja, Samantha Fonseca, 30 anos. Ela lembra que assaltos a pedestres são frequentes. “Hoje de manhã (ontem), roubaram uma funcionária quando estava vindo trabalhar. Isso ocorreu às 8h, chega a ser absurdo.” Samantha conta que as lojas vizinhas também sofrem com a criminalidade. “Todos aqui têm algum relato sobre assalto. Precisamos de policiamento.”

Estatísticas

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social, de janeiro a outubro, os casos de assaltos a pedestres, roubos em residências e sequestros relâmpagos cresceram. Os ataques a pedestres passaram de 30.280 ocorrências em todo o ano passado para 32.207 nos 10 primeiros meses de 2016: um crescimento de 6,36%. No caso de ataques a residências, foram 746 assaltos neste ano contra 684 em 2015 — 9,06%. Até outubro, houve sete sequestros relâmpagos, dois a mais que em 2015.

Os roubos de veículos e a ônibus também cresceram. Criminosos conseguiram levar 525 carros no último mês contra 505 em setembro de 2016. Em comparação com outubro de 2015, a ascensão foi de 21,5%. Já os assaltos contra coletivos passaram de 278, em setembro, para 369, em outubro de 2016: 91 a mais. Se comparado com o mesmo período de 2015, o aumento foi de 15,3%.

Em contrapartida, os números de assaltos com restrição de liberdade, roubos a comércio e estupros estão menores. De janeiro a outubro de 2016, foram 408 ocorrências de roubos com reféns contra 440 no mesmo período do ano passado. Já os assaltos a comércio passaram de 198, em setembro de 2016, para 188, no mês seguinte. Se comparado outubro de 2015 com o de 2016, os números também recuaram — de 230 casos para 188. Os crimes de estupros também estão reduzindo. Nos 10 primeiros meses, foram 578 ocorrências e, em todo o ano passado, 624.

No Sudoeste, por exemplo, há uma rede de troca de informações entre os comerciantes por um aplicativo no celular. Criado em 2015 pelos donos de uma joalheria que foi assaltada e roubada mais de três vezes, o grupo tem mais de 100 participantes, entre eles policiais militares, civis e bombeiros. “Depois que criamos esse grupo, observei que o trabalho da polícia ficou mais rápido e efetivo”, contou Márcio Luis da Silva, 37, comerciante na região há 11 anos. Apesar da prevenção, a joalheria fica, permanentemente, de portas trancadas. Ele e os funcionários avaliam cada cliente antes de destravar a fechadura. “Tem gente que acha ruim, mas a segurança da gente fica em primeiro lugar.”

Divergências

Na última divulgação dos dados oficiais feita pela pasta, o Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol-DF) divulgou um balanço próprio e alegou que o órgão tinha feito um recorte dos dados anunciando apenas os números que “favorecem o discurso de normalidade na área de segurança.” O Sinpol fez um comparativo, entre janeiro e outubro de 2015 e de 2016, e mostrou que a maioria dos crimes aumentou. “Os dados da secretaria são corretos, porque saem do banco da Polícia Civil. No entanto, a comparação feita pelo governo acaba sendo favorável para o órgão e os números não são completamente informados”, explicou o presidente do Sinpol, Rodrigo Franco.

* Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte

Relatos de insegurança

Na 707 Sul

O funcionário público aposentado Ernani Cardoso, 58 anos, mora na quadra 707 há 46 anos e afirma que a criminalidade cresceu. “Hoje, as ruas estão vazias. Ninguém tem coragem de sair durante a noite. Todo mundo que mora aqui foi assaltado ou tem algum parente que foi vítima”, conta. Ernani ressalta que a sensação de insegurança tomou conta de toda a família. “Tenho três filhos, e dois deles foram roubados aqui perto. Mês passado levaram o celular do mais velho”, reclama. O homem ainda aponta que falta policiamento na região. “É muito difícil uma viatura passar por aqui. Não somos nós que deveríamos viver com medo, mas, sim, os bandidos”, desabafa. Nos últimos três anos, arrombaram o carro do aposentado duas vezes. “Aqui, os criminosos costumam roubar até as rodas dos veículos que estão estacionados. É uma situação absurda. Isso precisa mudar.”

Na 307 Sul

As famosas bancas de revistas marcam o cenário das Asas Sul e Norte. Muitos moradores da área vão até os locais para conversar e trocar ideias. Entretanto, relatos de violência se tornaram comuns no estabelecimento da 308 Sul. O proprietário da loja, Auricélio Pereira da Silva, 52 anos, foi alvo de bandidos e conta que, cada vez mais, escuta histórias sobre assaltos. “Todos já foram vítimas. Trabalho aqui há 16 anos e a situação só piora. Precisamos de assistência policial”, alerta. O homem relata que, no início deste ano, teve a banca invadida. “Eles chegaram, renderam minha esposa, que está grávida, e levaram dinheiro do caixa. Agora, fico com medo todos os dias”, diz. Segundo o comerciante, o uso de drogas nas proximidades reforça a sensação de insegurança e leva a assaltos. “Todo dia, tem um cliente com uma história de violência parecida. Estamos no centro de Brasília, isso não pode continuar.”

No Sudoeste
Na última quarta-feira, Cristiano Augusto Lacerda, 41 anos, comerciante, encontrou o restaurante, no Sudoeste, arrombado. Dois assaltantes levaram uma televisão, um espremedor de suco e uma máquina de fazer café. As câmeras de segurança mostraram que os criminosos ficaram 40 minutos sem serem abordados por ninguém. “O meu prejuízo não foi grande e fico feliz por não termos sofrido nenhum tipo de violência física, nem eu nem meus empregados. A polícia está investigando, mas não tenho nenhuma expectativa”, disse. O empresário implantou novo sistema de alarme, que o avisa por celular em caso de arrombamento, e reforçou as travas da porta. Ele acredita que a crise econômica e o aumento do desemprego ajudam a aumentar a insegurança. Também diz que a polícia faz o que pode, mas o efetivo é pequeno, diante do tamanho da região que fica sob a mesma jurisdição: Sudoeste, Octogonal, Cruzeiro e SIA.
SSP analisa as maiores falhas

Publicação: 17/11/2016 04:00
Mato alto, ruas mal iluminadas, calçadas quebradas, lixo, aumento de pedintes e moradores de rua — comum no fim de ano —, notícias de atividade reduzida por parte da Polícia Civil e, principalmente, o não registro de ocorrências policiais por parte da população são os fatores apontados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) que impactam na diferença entre os dados de ocorrências policiais e a sensação de insegurança da população. “Existe a vítima do crime e a vítima do medo, e essas pessoas são diferentes. Temos hoje dados que mostram que os crimes contra o patrimônio (roubo a carros, celulares, objetos pessoas etc.) caíram 1,8% entre 2014 e 2016”, argumentou o subsecretário de Gestão da Informação da SSP, Marcelo Durante.

Segundo ele, quando se fala em sensação de insegurança deve ser considerada também a atuação de outros órgãos, além da SSP. “É uma ação conjunta entre a Secretaria de Segurança, a Companhia de Energia de Brasília (CEB), o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) e outros órgãos governamentais que resulta em uma melhora do ambiente social e, consequentemente, geram reflexos na sensação de segurança ou de insegurança da população”, explicou. “Com a restrição orçamentária pela qual o GDF passou nos últimos anos, muita coisa ficou inacabada pela falta de recursos. E a população percebe isso e se sente desamparada.”

Em resposta a essa situação, o subsecretário explicou que a SSP tem lançado planos de ação especiais para combater as ocorrências com maiores taxas de aumento, como a ação Anjos da Guarda, em que os policiais circulam pela cidade dentro dos ônibus para inibir a ação dos criminosos entre os passageiros. Ele destacou também a atuação dos Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg). “Os Consegs aproximam a população dos policiais. Assim eles trabalham em rede, trocam telefones, e a população se sente mais assistida, pois conhece o policial que é responsável pela sua área e sabe como contatá-lo em caso de emergência”, completa. “Quando a população atua em parceria com a polícia, o trabalho é muito mais efetivo.”