Ameaça à saúde no Lago Paranoá

Problemas podem variar de alergias a doença mais grave no fígado. Ibram e Adasa prosseguem investigação sobre proliferação de cianobactérias
» THIAGO SOARES
Publicação: 04/12/2016 04:00
Peixes mortos foram retirados do local interditado. Também era possível encontrar detritos ao longo da margem (Carlos Vieira/CB/D.A Press – 21/11/06)
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Peixes mortos foram retirados do local interditado. Também era possível encontrar detritos ao longo da margem
Autoridades continuam a investigar as causas da proliferação de cianobactérias no Lago Paranoá. Equipes do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) rastreiam dutos pluviais a fim de identificar vestígios de lançamento de esgoto diretamente na água. No entanto, até o momento, nada foi detectado. Além de acarretar mortes de peixes, a contaminação pode afetar a saúde dos banhistas e de quem consome animais pescados no local. As consequências podem ser desde simples alergias até problemas mais severos no fígado. Por isso, enquanto a causa do problema na água não for detectada, os banhos e a pesca continuam suspensos por tempo indeterminado no trecho entre o Pontão do Lago Sul e a foz do Riacho Fundo.

Os órgãos garantem que o restante do lago não está contaminado e que também não existe possibilidade de expansão das cianobactérias. Leonardo de Lima, 75 anos, chegou a Brasília na época da construção da barragem e já tirou dali muitos peixes. Próximo da Ponte das Garças, um dos locais apontados como impróprios para a pesca, o funcionário público pratica o esporte. Foi de lá também que, em 16 de novembro, equipes do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) retiraram 70 sacos de peixes mortos.

Leonardo de Lima costuma pescar na região e lamenta a situação:

Leonardo de Lima costuma pescar na região e lamenta a situação: “É muito triste ver o lago dessa maneira”
“É uma situação triste ver o lago dessa maneira. Vi muitos peixes mortos por aqui. Está melhorando um pouco, mas ainda não é ideal. Esse peixe daqui, eu não consumo, apenas pesco por lazer. Vejo isso tudo como parte de um abandono do nosso lago. É possível ver muito lixo nas margens”, reclama Leonardo. Nas margens onde ele pesca, a cada 5 metros, é possível ver peixes mortos. Antes da proliferação da cianobactéria, ele conta que pegava peixes em poucos minutos. Agora, quem pesca por ali precisa esperar um bom tempo até ter sucesso.

Cuidado
Os riscos da presença das cianobactérias nas águas podem ser diversos, segundo a doutora em microbiologia Janaina Rigonato, especialista em cianobactéria do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (USP). “Em condições de floração, que é quando ocorre essa proliferação, elas liberam uma toxina que pode acometer peixes e outros animais que consomem essa água”, detalha. Segundo ela, isso pode explicar a grande mortandade de espécies. A cianobactéria também pode ser prejudicial à saúde humana. “Elas podem acarretar desde reações alérgicas, afetar os órgãos nervosos e até provocar problemas nos rins. O ideal é que, uma vez detectada a presença de cianobactérias em reservatórios, lago ou rio, seja interrompida qualquer atividade no local, seja banho, seja pesca, seja captação, até que os níveis voltem ao normal.”

A especialista explica ainda que esses microrganismos estão presentes usualmente em ambientes aquáticos, mas dentro de uma proporção aceita pelo Ministério de Saúde. A proliferação em excesso configura o problema. As causas podem ser o lançamento de esgoto irregular ou o escoamento de produtos agrícolas no solo, por exemplo. “Esses lançamentos aumentam a produção de nitrogênio e de fósforo nas águas, o que acarreta um fenômeno chamado de floração, que é quando ocorre um crescimento exagerado das cianobactérias. A consequência é água em tom esverdeado e até com bolhas e também a morte de peixes, devido à baixa de oxigênio no local”, relata Janaina.

Na avaliação do doutor em recursos hídricos da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Koide, a situação do Lago Paranoá é consequência da ocupação urbana desordenada na capital do país. “Houve crescimento de áreas habitacionais e, com isso, o lançamento de esgoto e ligações clandestinas no espelho d’água e em seus afluentes, como o Riacho Fundo e o Córrego Bananal. É preciso investimento e controle dessas expansões ao longo da bacia do Paranoá”, afirma.

O superintendente de estudos e monitoramento do Ibram, Luiz Rios, detalhou que a mancha tem diminuído significativamente com as últimas chuvas. “Não quer dizer que o problema foi superado. O lago aumentou o nível em seis centímetros, e isso também ajuda na diminuição da matéria orgânica. Estamos monitorando toda a extensão e não há risco de que a área contaminada aumente, pelo contrário, a tendência agora é diminuir”, disse.
Esporte comprometido

» GLÁUCIA CHAVES
Publicação: 04/12/2016 04:00
A contaminação do lago por cianobactérias tem afetado a prática de esportes no local e, consequentemente, os pequenos negócios que funcionam às margens. O microempreendedor Rafael Sampaio, 29 anos, é idealizador do projeto Surf do Cerrado e participou do protesto de cerca de 20 surfistas e outros esportistas em 25 de novembro na Praça do Buriti, para cobrar do governo de Brasília providências para a despoluição. Ele e o sócio Sérgio Marques, 36, têm amargado manhãs solitárias. São poucos os interessados em aprender a surfar ou a praticar Stand Up Paddle (SUP). Antes da divulgação do boletim sobre as algas do lago, ele conta que atendia, em média, 200 pessoas por sábado. “Diminuiu bastante o número de pessoas. Até aquelas do nosso círculo do esporte estão deixando de vir. A situação está bastante preocupante”, comenta Rafael.

Os dois mantêm a base de atividades próximo à Ponte das Garças, um dos locais apontados pela Adasa e pelo Ibram como perigosos para banho. “Todos que dependemos do lago de alguma forma estão tendo prejuízos”, lamenta. “O que podemos fazer é cobrar dos responsáveis soluções imediatas, para não deixar o problema se agravar. Até agora, não tem nenhum trabalho em prol da limpeza. Em vez disso, só colocaram placas de proibido nadar”, completa.

Mesmo com as placas de sinalização, algumas pessoas se arriscavam nas águas do Paranoá. O mecânico Eduardo Ximenes, 31 anos, testava o motor de seu jet ski. “Sempre venho ao lago e notei que a tonalidade da água está bem mais escura”, comenta. “Perto da ponte, tem muitos peixes mortos. Quando você anda na margem, sente um mau cheiro também”, diz.

Os amigos dele Daniel Assis Sales, 32, e o técnico em segurança do trabalho Diego Costa Oliveira, 34, não tiveram coragem de entrar no lago e acompanharam de longe. Para Daniel, não foi só a má qualidade da água que afastou os visitantes, mas também a falta de estrutura da orla. “Aqui em Brasília é tudo mal fiscalizado. Isso (a poluição do lago) é só mais uma consequência da má administração.”

De acordo com o instrutor de SUP Jackson Sousa, 40, a diminuição do público se deu, também, devido ao período de chuvas. “Só as chuvas já diminuem naturalmente a quantidade de pessoas. Coincidiu, infelizmente, com esse laudo”, avalia. O microempreendedor Lucas Duarte, 18, também notou a queda de clientes. Ele acredita que falta informação sobre a realidade do lago. “O público acha que o lago inteiro está afetado, mas não está. Agora, é tentar correr atrás do prejuízo, porque não tem como não usar o local, ele é para todos.”