Solidariedade para superar a perda

Mulheres vítimas de violência que causou a morte de filhos e maridos ajudam pessoas que precisam enfrentar o luto familiar » Paula Pires
Cristina
Cristina Del’Isola criou o Movimento Maria Claudia pela Paz e hoje ajuda pessoas como Guida Cezar, que sofreu com dependência química do filho.

vania

Vânia Borges Carvalho perdeu o marido e quatro filhos: superação de obstáculos e saudade
A priori, a mortalidade é um pressuposto da existência do ser humano, no qual está implícito o fim, o limite. Entretanto, quando antecede o curso normal da história e se dá de maneira trágica, a dor da perda pode se tornar devastadora — um fardo pesado e difícil de carregar. Para inúmeras mães que perderam seus filhos e que vivem com esta ferida aberta que nunca cicatriza, ajudar pessoas em situações extremas de angústia é uma forma de exorcizar a dor. Esta prática da solidariedade e do acolhimento, em Brasília, conta com muitas mulheres engajadas em movimentos que procuram unir forças para fazer o bem.

Com a fala calma e pontuada pela delicadeza, a psicopedagoga Cristina Del’Isola, 58, conta a história do Movimento Maria Cláudia pela Paz, criado em março de 2005, três meses após a filha ser tragicamente assassinada. A universitária Maria Cláudia Siqueira Del’Isola foi violentada e morta em 9 de dezembro de 2004. “O movimento nasceu da minha dor e da solidariedade de muitas pessoas que abraçaram a minha história”, recorda.

Logo após a morte da filha, Cristina se sentiu plenamente acolhida por muitas pessoas que nem conhecia. “Na missa da Maria Cláudia, tenho muito claro, em minha memória, o quanto fui abraçada e o quanto isto foi importante para mim naquele momento.”

A partir daí, Cristina percebeu que tinha de se colocar a favor da vida. “A nossa existência está pontuada por um turbilhão de desafetos. O mundo está doente e as pessoas, desamparadas. Por isso, precisamos ter mais sensibilidade”, acredita.

A luta de Cristina “é um exercício diário”. “É um trabalho de formiguinha, silencioso”, conta.

Para ela,
07/02/2017 Solidariedade para superar a perda ­ Caderno Cidades do Correio Braziliense qualquer um pode fazer algo bacana em favor do próximo. “Toda pessoa enlutada faz o seu deserto. Isso é intransferível.

Mas, quando temos disposição para a escuta amorosa, podemos aliviar a dor. Se a minha fala serve para inspirar o outro, meu coração se enche de carícia.” Católica e filha de Maria, Cristina cria forças para cuidar de si e do sofrimento de outras pessoas ao fazer uma parábola com a dor da mãe de Jesus. “Tento fazer a minha parte e, mesmo com todas as dificuldades, tenho que caminhar: por mim e pela minha filha.”

A psicopedagoga acredita que não existem coincidências, e sim providências. Foi assim que apareceuGuida Cezar, 57, em sua vida. Guida conviveu com a dependência química do filho Bruno por nove anos. Ela conhecia a história de Cristina e se engajou no Movimento Maria Cláudia pela Paz para se fortalecer. A situação do filho se tornou tão violenta que ele chegou a morar na rua. “Percebi que o meu sofrimento era mínimo diante da dor de Cristina.

E foi ela quem me deu força para acreditar que poderia vencer esta batalha”, diz.Guida vai à casa de Cristina, sempre que pode, para colocar uma flor no altar em tributo a Maria Cláudia. “Neste ambiente, consigo encontrar a paz, recebo luz e força. E acredito que, com fé, podemos superar qualquer obstáculo”, acrescentou.É com muita convicção que Vânia Borges Carvalho, 48, começou a costurar sua existência na prática solidária ao sofrimento alheio após a perda de toda a família.

A narrativa de Vânia se constrói antes e depois de 2010.

Naquele ano, um acidente na BR 020 matou o marido e os quatro filhos enquanto a família viajava de férias para Fortaleza. Mas foi a partir de 2013 que Vânia começou a tecer uma rede de proteção que dá amparo e sentido à perda para as pessoas que passaram a procurá‐la para receber ajuda.

Para Vânia, professora de educação fundamental, o que mais conforta é poder ajudar uma mãe que perdeu o filho. Ela disse, ainda, que a experiência pela qual passou possibilitou que se tornasse escritora.

A história de superação está no livro Pérolas do Asfalto, lançado em 2014 pela editora Thesaurus. Além desse novo ofício, Vânia é palestrante e percorre diversas escolas para relatar sua história para pessoas que precisam de conforto.

Como se um filme passasse na sua cabeça por alguns instantes, a professora se recorda de alguns flashes do dia do acidente que vitimou seus quatro filhos e o marido. “Nunca me revoltei e, em nenhum momento perdi a minha fé, como também não fiz nenhum questionamento sobre o episódio,” afirma.

Ela diz que precisou encontrar força para colocar todo o sofrimento no bolso.

“Temos de esquecer de nós mesmos, nossos momentos de aflição, para acolher a dor do outro”, admite.

Vânia dedica boa parte dos seus dias confortando pessoas. “Acredito que passamos pelas dificuldades da vida para cumprir uma missão. E penso que Deus me envia, a cada dia, um dever de casa para saber se minha fé está inabalável e se estou robusta para enfrentar mais um desafio.” Para ela, o que importa é seguir adiante e dar ânimo a todos que enfrentam a dor da perda.

“Nesta semana, estou em Goiânia passando férias na casa da babá dos meus filhos. Passo a certeza de que não ‘perdemos’ as pessoas que amamos. Aprendi a superar os obstáculos, enfrentando a ausência e a saudade. Simples assim”, ensina.

Vânia também visita pessoas que precisam de apoio. Ela pretende se encontrar com a brasiliense Jomara Ferreira da Silva, 32, que perdeu o marido e quatro dos cinco filhos em um acidente de carro, em 17 de janeiro deste ano, quando a família retornava das férias. Jomara e Stephanie, a filha, preferem o silêncio neste momento de luto.

A sobrinha de Jomara, Laryssa Yorrana Campos Pereira, 18, contou que a tia não comenta nada sobre o episódio. “É uma perda irreparável. Minha tia engravidou da Stephanie com apenas 15 anos. Era um casal maravilhoso. Quanto à minha prima, ela sente muito a falta do pai e dos irmãos.

Do barulho da casa cheia. Foi um choque muito grande para todos e está sendo muito difícil para as duas”, revela.

Segundo Laryssa, a família está de braços abertos para acolhê‐las no que for preciso. Ela disse que a tia está à procura de trabalho e fazendo entrevistas de emprego. “Minha tia passou em um concurso, em Goiás, no ano passado, para agente penitenciário, mas não se adequou. Neste momento, seria muito bom para ela uma ocupação”, afirmou.

SERVIÇO
Vânia Borges Carvalho Contato: 61‐99993‐8173
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