Distrito Federal registra queda de 9,5% nas doações de órgãos

costureiraA chance de sobreviver pode depender dos órgãos de alguém que acabou de morrer. Quem perdeu um parente pode não autorizar o procedimento

“Ao adoecer, consegui receber o benefício financeiro, mas isso não basta para eu pagar os remédios. Preciso continuar trabalhando e fazer consertos em roupas. Meu sonho é fazer o transplante e voltar a ter uma vida normal, sem dor para trabalhar dignamente”

Tudo passa a ser urgente quando se trata de salvar vidas. A doação de órgãos — ato que dá a chance às pessoas acometidas por doenças graves e, muitas vezes, incuráveis, de seguir vivo — é uma simples equação matemática: a morte encefálica de uma pessoa pode mudar a vida de outras cinco. Porém, 36% das famílias brasilienses não autorizam a doação de órgãos de parentes falecidos, de acordo com levantamento feito pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). O Distrito Federal registrou uma queda de 9,5% nas doações. A pesquisa assinalou, ainda, que, no ano passado, 32 pessoas morreram na fila à espera de um transplante, na capital do país.

Em 2016, foram notificados 321 potenciais doadores em Brasília. Porém, apenas 75 tornaram-se efetivos, pois 246 foram descartados, o que equivale a 77%. Atualmente, 291 pessoas aguardam por transplante no DF, segundo dados da ABTO. Desses, 215 esperam por um rim; 10, por fígado; cinco precisam de um novo coração e 61, de uma córnea.

A nefrologista Daniela Salomão, coordenadora-geral da Central de Notificação Captação e Distribuição de Órgãos do Distrito Federal (CNCDO), informou que, ainda que uma redução tenha sido registrada, a capital do país contabilizou, em 2016, 25,7 doadores de órgãos por milhão de habitante. Segundo ela, o número praticado no Distrito Federal está próximo ao de países primeiros colocados no ranking na doação, como Espanha (39,7 doadores por milhão de habitantes); Croácia (39); Bélgica (32,4); Portugal (28,6) e EUA (28,5).

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Para a nefrologista, a queda se explica por uma série de fatores. “Estamos cada vez mais rigorosos quanto aos critérios estabelecidos por nossas equipes para avaliar se um paciente está em condições de se tornar um doador e, por outro lado, precisamos de uma melhor infraestrutura para a captação dos órgãos”, avaliou. Daniela Salomão acrescentou que Brasília capta, de outros estados, órgãos para serem transplantados no DF. “Contamos com o apoio da Força Aérea Brasileira (FAB) para agilizar todo o trabalho”, comentou.

Idealizador do Setembro Verde — campanha nacional que visa conscientizar os brasileiros sobre a doação de órgãos —, o cirurgião cardiovascular José Lima Oliveira Júnior, acredita que “existe também a necessidade de aumentar o número de equipes transplantadoras na capital federal, assim como ampliar a ação das campanhas elucidativas para explicar à população sobre a importância da doação de órgãos”.

Ressignificando a dor

A prática da doação e do transplante de órgãos é uma via de mão dupla que precisa, mais do que tudo, de consentimento. No momento da decisão, são vivenciadas situações delicadas e difíceis de administrar, tanto com os familiares dos doadores, como com os receptores, que aguardam novos órgãos.

A costureira Maria de Jesus, 53 anos, sofre de insuficiência renal e espera por um rim desde 2015. Moradora do Gama, ela disse que a doença foi descoberta em 2011. “Ao adoecer, consegui receber o benefício financeiro, mas isso não basta para eu pagar os remédios. Preciso continuar trabalhando e fazer consertos em roupas. Meu sonho é fazer o transplante e voltar a ter uma vida normal, sem dor para trabalhar dignamente”, afirmou.

A secretária Naara Felipe da Silva Guedes, 35 anos, também aguarda um transplante há pelo menos dois anos. Como é diabética, está na fila prioritária para receber um rim e um pâncreas. Segundo Naara, a doença a acompanha desde o primeiro ano de vida. “Aos 19 anos, perdi a visão. Aos 24, me casei e hoje tenho um filho de 7 anos. Esse é o verdadeiro motivo pelo qual me fortaleci para aguentar toda essa espera”, admitiu. A moça, moradora do Riacho Fundo II, está em São Paulo há dois meses fazendo todos os exames para a cirurgia. “Meu maior sonho é poder me recuperar e estar bem para presenciar a formatura do meu filho daqui a alguns anos”, afirmou.

Segundo o cirurgião cardiovascular José Lima Oliveira Júnior, a insuficiência renal crônica — principalmente associada à pressão alta, à obesidade, à diabetes e ao tabagismo — é o que mais atinge pacientes que precisam de um transplante. Ele explica que o tempo de espera varia muito de acordo com o estado de saúde e de algumas características do receptor. “A demanda é muito alta para esse órgão. Por isso, temos de fazer campanhas de conscientização em todo o país para ajudar quem precisa”, complementou.

Mas há esperanças. A pesquisa da ABTO mostrou que a taxa de doadores de órgãos no Brasil aumentou 3,5%, atingindo 14,6 doadores por um milhão de habitantes, em 2016. A expectativa é de alcançar 15,1 doadores por um milhão de habitantes. Segundo o cirurgião, o Brasil já conta com mais de 250 mil transplantados, desde o início da década de 1960. “A partir de 1980, houve o boom do procedimento. Hoje, fazemos uma média de mais de 34 mil transplantes por ano.”

A luta pela vida em números

· 10.158 é o número de potenciais doadores no Brasil, em 2016.
· Desses, apenas 2.981 se tornaram doadores efetivos no ano passado.
· Cerca de 71% dos potenciais doadores (7.177) foram descartados, enquanto 2.013 pessoas morreram na fila aguardando um transplante.
· Até dezembro de 2016, mais de 34 mil pessoas esperaram por um transplante: 21.264 (rim); 10.923 (córnea); 1.331 (fígado); 282 (coração); 172 (pulmão); 539 (pâncreas) e 31(rim e pâncreas)

Fonte: www.correiobraziliense.com.br