Além de escassa, água no DF é cada vez mais impura, aponta análise

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Além de escassa, água no DF é cada vez mais impura, aponta análise

Os principais inimigos são a grilagem de terra e os loteamentos urbanos próximos a nascentes, córregos e reservatórios

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Crédito: Tony Winston/Agência Brasília. Reservatório de Santa Maria / Parque Nacional.ppostado em 29/09/2017 06:00 / atualizado em 29/09/2017 10:19
Pedro Grigori – Especial para o Correio
Tony Winston/Agência BrasíliaNo Parque Nacional de Brasília, captações do manancial de Santa Maria têm o melhor índice de qualidade do DF

Localizada no centro do Brasil, a água que deixa as nascentes brasilienses abastece algumas das principais bacias hidrográficas do país. O recurso, que surge cristalino ao deixar a fonte, perde a pureza ao seguir o curso d’água e, hoje, devido, principalmente, à ocupação desordenada, chega aos córregos com qualidade cada vez pior. No Distrito Federal, estudo da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) analisou os 23 mananciais superficiais utilizados para abastecimento hídrico e identificou que a proximidade com áreas de parcelamento irregular do solo e com loteamentos urbanos resulta na queda no Índice de Qualidade da Água (IQA). O ribeirão do Engenho das Lajes, próximo ao Gama, faz parte da Bacia do Descoberto, e apresentou o pior número. Além do prejuízo ao meio ambiente, a poluição significa aumento no custo do tratamento.

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Nesta semana, com o fim da estiagem, a qualidade desses córregos tende a cair ainda mais. Isso ocorre porque o vento e a chuva carregam as mais diversas impurezas para os rios. Exemplo prático disso ocorreu em dezembro de 2009, quando o vazamento de um material tóxico utilizado na pavimentação de asfalto na BR-060 atingiu o ribeirão, interrompendo a captação por mais de três meses e causando falta de água na região.

A Caesb avalia a qualidade dos recursos e, por meio de um cálculo relacionado às variáveis pH, cor, turbidez, ferro total, nitrogênio amoniacal, carbono total, cloretos e coliformes totais, classifica o IQA de cada local. O índice varia entre 0 (totalmente imprópria) a 100 (ótima). Engenho das Lajes registrou 61. Nenhuma das 23 captações do DF foi avaliada como ótima (veja quadro).

16/03/2017. Crédito: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Captação irregular de água das nascentes do Rio Descoberto. Cano e caixa dágua

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
Caixas d’água e canos captam água diretamente de uma nascente na Área de Preservação (APP) do Descoberto.

Segundo o gerente de Gestão Ambiental Corporativa da Caesb, Vladimir Puntel, a ocupação urbana em áreas de bacias hidrográficas pode ser determinante para a queda na qualidade de um manancial. “Em Engenho das Lajes, há diversas propriedades agrícolas que contribuem, em função dos usos e atividades desenvolvidas, para que o IQA tenha valores tão baixos. Estradas vicinais sem o devido controle do escoamento de águas pluviais também contribuem significativamente para essa situação”, alerta.

O professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Koide conta que uma das causas da poluição da água é o sedimento gerado pelas construções. “Quando você tem obras na cidade, você gera lixo e entulho, levados pelo vento ou pelas chuvas para os córregos. Ocorrem também muitos problemas com infiltrações de esgoto, o que faz aparecer coliformes fecais”, explica o especialista em recursos hídricos.

O professor ainda alerta sobre a qualidade final do recurso. “O tratamento feito hoje pela Caesb é considerado muito bom, um exemplo para outras unidades da Federação. Mas ter água bruta em pior qualidade, além de gerar mais custos, significa que, independentemente dos processos de tratamento, o resultado não será tão bom quanto o de um manancial preservado”, esclarece.

16/03/2017. Crédito: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Captação irregular de água das nascentes do Rio Descoberto. Cano e caixa dágua

Reservatórios

O Rio Descoberto também apresentou um número de alerta: 69,2. Em março, o Correio mostrou invasões de luxo erguidas em cima das nascentes que abastecem o principal reservatório do DF. Seis meses depois, as edificações continuam de pé. Santa Maria mostrou o cenário ideal. Localizado dentro do Parque Nacional de Brasília, o reservatório registrou o melhor índice: 82,3. A Caesb não tem cálculos que mostrem a diferença financeira entre tratar a água do Santa Maria comparada com a do Descoberto.

Sérgio Koide lembra que, na construção de Brasília, os engenheiros fizeram um estudo de captação de água, construíram o reservatório de Santa Maria e criaram um parque ao redor para proteger as nascentes. “Santa Maria é o quadro ideal. Algo impossível de acontecer no Descoberto, que, como o próprio nome diz, não é coberto. Na criação da capital, ele foi designado para a produção de hortifrútis e para abastecer as chácaras agrícolas da capital. Porém, com o crescimento urbano, começou a ser utilizado para abastecimento do DF, mas aí o parcelamento de terra havia dominado as margens da bacia”, lamenta.

O levantamento da Caesb não avaliou a qualidade da água das captações do Lago Paranoá e do Bananal, previstas para serem inauguradas no próximo mês. Segundo Ricardo Moreira, gerente do Laboratório Central da Caesb, os dados estarão no estudo do próximo ano. “O relatório permite a comparação entre diferentes mananciais, a avaliação de possíveis tendências ao longo do tempo e de possíveis alterações da qualidade da água decorrentes de contaminação ou de melhorias promovidas na bacia de drenagem, por exemplo”, detalha.

Tendo em vista os prejuízos financeiros e ambientais, a Caesb informou que realiza monitoramento permanente nas Áreas de Proteção de Mananciais, além de realizar pelo menos cinco programas de conscientização e proteção de nascentes.

ARTIGO

Sabedoria natural
Por Eugênio Giovenardi, escritor e ecossociólogo

“Nos dias atuais, a colheita da água para uso da espécie humana não é feita na fonte cristalina. É do meio do rio que tiramos a água ou das represas. As formas de manter a boa qualidade da água que brota pura da nascente são variadas.

Mas, entre todas, por hábitos culturais da civilização moderna, confia-se na limpeza da água por processos químicos.

A ocupação da terra, seja pela expansão urbana, seja pela atividade produtiva, agrícola ou industrial, seja pelo tráfego intenso de automóveis, seja pelo lixo a céu aberto afeta a qualidade da água.

A inumerável variedade de dejetos líquidos e sólidos chega direta ou indiretamente aos córregos, rios e lagos.

As formas mais simples e menos onerosas para manter a qualidade da água foram ensinadas por gregos e romanos há milênios. Os aquedutos romanos colhiam as águas que jorravam das rochas para uso da população. Água limpa garante a saúde de todos.

O respeito à vegetação nativa, ao redor das nascentes e nos cursos d’água, pequenos ou grandes, é a forma natural de preservar a qualidade da água. A ênfase necessária que se está dando ao enquadramento dos cursos de água superficiais, da menos poluída à mais imprópria, revela, em diferentes regiões, o grau de ignorância e descuido do homo sapiens na forma de ocupação do solo e no uso inadequado das águas. Perdeu-se a sabedoria natural e instintiva de servir-se diretamente da fonte.

Uma das consequências é, necessariamente, o custo crescente das tecnologias usadas pelos órgãos públicos para manter a qualidade desejável da água oferecida gratuitamente pela natureza a todos os seres vivos. Pagamos caro o que poderíamos ter de graça.

Nossas torneiras, no DF, recebem quase 1 bilhão de litros de água tratada por dia e nos damos ao luxo de despejá-lo sujo nos córregos e nos lagos de onde a tiramos para beber, cozinhar e nos lavar.”

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