Morre em Brasilia a jornalista Valéria de Velasco

A jornalista Valéria de Velasco trabalhou no Correio Braziliense na década de 1980. Ela deixa três filhas, cinco netos e um bisneto

A jornalista Valéria de Velasco morreu, na madrugada desta terça-feira (17/4), vítima de um aneurisma na aorta abdominal sofrido há 12 dias. Com vasta carreira no jornalismo e respeitada pela qualidade dos textos, Valéria fazia (faz) parte de um seleto grupo de pessoas que pensam e escrevem em favor do humanismo – tão distante das commodities jornalísticas de hoje em dia. A sua ferramenta era a vida, principalmente a dos excluídos, dos invisíveis da sociedade. Como dizia: “jornalismo é para mudar vidas”.

Trabalhou no Correio Braziliense na década de 1980 e depois, por mais de uma década, nos anos 2000, ajudando a novos repórteres com sua voz suave, sem nunca alterá-la, como se fosse um mantra. Nos últimos meses, estava como colaboradora da Revista do Correio, era ela quem dava o verniz às reportagens, era ela quem sugeria as pautas mais perto do coração. Ela era assim: humana, humilde e poderosa.

Jamais fugiu à luta diante dos desmandos e desmantelos sociais. Defendeu a Justiça, nunca o justiçamento; defendeu a conscientização, nunca o ódio. Criou o Convive (Comitê Nacional de Vítimas de Violência) depois de perder o filho Marco Antônio Velasco, o Marquinhos, espancado até a morte por uma gangue que se denominava Falange Satânica, formada por jovens de classe média, um crime que abalou a cidade no início dos anos 1990.

Valéria, nascida em 11 de setembro de 1944, deixa três filhas, cinco netos e um bisneto. Foi ao encontro de Marquinhos. A família ainda não divulgou as informações sobre o velório e o sepultamento.

Mulher forte
Em nota, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, lamentou a morte da jornalista, ressaltando que Brasília perdeu uma de suas mais notáveis e fortes figuras da cidade. “A jornalista Valéria de Velasco nos deixa a imagem de uma profissional competente, séria, mas principalmente a de uma mulher forte que enfrentou as agruras da vida com coragem e determinação. Se tornou, na adversidade de uma perda trágica de um filho, militante ativa contra a violência em Brasília. Meus pêsames à família e aos amigos, com minhas orações a todos”, afirmou o governador.

A arte do amparo
Há um poema lindo de Antônio Cícero chamado Guardar. Compartilho um trecho: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la / Em cofre não se guarda coisa alguma / Em cofre perde-se a coisa à vista / Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado / Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela / Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro / Do que um pássaro sem voos…”

Sou uma pessoa de sorte. Tenho o que guardar. Guardo gente, mas não as tranco, nem as escondo. Tenho ao meu lado amigos com raras qualidades. Observá-las no decorrer da vida tem sido um exercício de aprendizado. Algo como aulas de caráter, dignidade, bondade, empatia. Tenho isso de graça, talvez por graça divina. O que pode haver de melhor? Passear pela vida de braços dados com seres iluminados, porém humanos e palpáveis, é caminhar na luz. A cada dia, persisto na ideia de compartilhar o mundo com as melhores companhias. Hoje, quero falar de uma delas: Valéria Velasco.

Nossas vidas se cruzaram há exatos 31 anos. Ela, uma respeitada e premiada editora de revistas e jornais; eu, uma retirante pernambucana dando os primeiros passos no jornalismo brasiliense. Somos cúmplices na dor e no amor. Testemunhas de momentos intensos na vida de uma e outra. Companheiras de trabalho, que se guardaram mutuamente a cada mudança de posto e de porto. Acima de tudo, parceiras num mundo que esbanja crueldade e carece de mãos amigas. Valéria tem uma especialidade: a capacidade de amparar. A mão dela não vacila. O gesto de esticá-la sempre na direção de quem necessita é traço de sua personalidade.

A mão, o colo, o ombro de Valéria são patrimônios quase públicos, tamanha a sua disponibilidade de socorrer qualquer um, sobretudo naqueles dias que não têm 24 horas. Sim, há dias que duram uma vida: nove meses de uma gestação de risco, temporadas de perrengues financeiros, a morte de um filho e tantas outras perdas e inconstâncias da nossa existência. Em dias, semanas, meses, anos extremamente cinzentos, vi Valéria abrir caminhos na Justiça; horas na agenda; abrir a casa; e abrir os braços para os abraços mais necessários e aconchegantes que alguém pode ganhar. Guardo testemunhos em série sobre sua generosidade.

Minha amiga conhece como ninguém a arte do amparo, tão rara e cara nesse mundão truculento de hoje. Este texto não é apenas sobre Valéria, nem sobre amigos, nem sobre guardar o que precisa ser guardado e jogar fora todo o resto. Este texto é sobre reconhecimento. Precisamos falar sobre o que é bom e sobre quem faz o bem. O que você guarda? Quem você guarda? Aqui, nas minhas preciosas caixinhas, guardo Valéria. Mas ouso compartilhar suas qualidades, sem medo, porque ela merece e porque todos devem saber.

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