Inovação e diversidade a serviço da comunidade

Baseada em valores defendidos por Mahatma Gandhi, faculdade indiana tem solução simples para problemas das aldeias. Na Maré, pré-vestibular onde Marielle Franco estudou já levou mais de 1.600 jovens à universidade

Só para pobres. Principal programa da ‘Barefoot College’, fundada por Sanjit Roy, é voltado para mulheres, principalmente analfabetas e com netos
Logo no início da palestra, o ativista social indiano Sanjit “Bunker” Roy avisa que vai virar o mundo da plateia do Museu do Amanhã de cabeça para baixo. O educador e ativista social indiano é criador da Barefoot College (em tradução livre, “Faculdade de Pés Descalços”) e diz ser um erro classificar como analfabeto aquele que não tem educação formal.

— Em 1965 resolvi conhecer um local pobre da Índia e decidi viver lá como trabalhador sem qualificação. Foi quando eu decidi abrir uma faculdade só para pobres com os ensinamentos que eles achem importante —conta.

Baseada nos valores defendidos por Mahatma Gandhi (simplicidade, não violência, transparência, responsabilidade) e na ideia de que a educação que essas pessoas recebem deve servir à comunidade, a Barefoot College foi criada em 1972 e conecta as comunidades rurais da Índia a energia solar, água, educação, profissõesedefesadedireitos.

O principal programa da faculdade é voltado para mulheres, de preferência analfabetas e com netos, de aldeias isoladas e pobres. Quatrocentas delas, de 37 países já se tornaram engenheiras solares em apenas seis meses de curso. Juntas, as “Solar Mamas” já eletrificaram 200 aldeias ao redor do mundo. Uma brasileira da Chapada Diamantina, na Bahia, já participou do programa, e outras três, do Amazonas, estão na Índia aprendendo a eletrificar uma comunidade com energia solar.

Economista da Fundação Unibanco e especialista nos estudos sobre pobreza e desigualdade, Ricardo Henriques afirma que a Barefoot College é uma ponte entre a experiência e o conhecimento:

—A gente precisa parar de tentar buscar soluções extraordinárias e produzir soluções simples, que tenham poder de transformação.

Professor associado da UFF e fundador do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, Jailson de Souza e Silva, um dos fundadores do projeto do pré-vestibular comunitário da Maré onde estudou a vereadora Marielle Franco, assassinada em março, falou sobre a mudança em curso em sua comunidade, constantemente prejudicada pela violência:

— A Redes da Maré já botou mais de 1.600 jovens na universidade. É possível, mesmo atuando num quadro de tanta violência e desprezo pela vida da favela.

EXEMPLO DE MEDELLÍN

Há cerca de 20 anos, a cidade de Medellín, na Colômbia, acumulava péssimos indicadores, como uma taxa de 382 mortes violentas a cada 100 mil habitantes. A partir do envolvimento de gestores municipais com lideranças comunitárias e toda a sociedade, a realidade foi sendo transformada.

— O investimento em educação na rede municipal passou de 12% para 40%. O orçamento de cultura foi de 0,6% para 5% —revela Jorge Melguizo, jornalista e exgerente do Centro Medellín, que participou da transformação dos índices negativos da cidade.

A experiência de Medellín serviu para inspirar outras cidades, como Recife, que criou modelo de Centro Comunitário da Paz (Compaz).

— Há outra forma de violência, que é não ter uma área de convivência para o lazer, onde a sociedade quer fazer justiça com as próprias mãos, onde não há horizonte para as crianças — afirma Murilo Cavalcanti, secretário de Segurança Urbana do Recife e especialista em políticas públicas de prevenção à violência urbana.

Os avanços necessários para a política de cotas foi a tônica do encontro “Quebrando tabus e mitos: com a palavra, a política das cotas”, com Naercio Menezes, professor e coordenador do centro de políticas públicas do Insper; Gersem Baniwa, filósofo, antropólogo e excoordenador geral de educação indígena do Ministério da Educação; e a professora e pesquisadora da Uerj Patrícia Santos.

— O acesso do indígena e do negro à universidade é uma revolução desarmada. O estudante indígena une dois tipos de conhecimento em sua atuação — analisa Baniwa.

Preconceito, discriminação e racismo ainda são reproduzidos entre as carteiras da sala de aula. Na mesa “Diversidade se aprende (e pratica) na escola”, as alunas Allana Lanes, do colégio estadual Ubiratan Reis Barbosa, em Nilopólis, e Daniela Martins, do colégio pH, da Tijuca participaram da conversa com a professora transgênero da UFPR Megg Rayara e com Rodrigo Mendes, fundador de um instituto que leva seu nome, com mediação de Debora Garcia, do canal Futura.

“Há outra forma de violência que é não ter uma área para o lazer, onde a sociedade quer fazer justiça com as próprias mãos, onde não há horizonte para crianças”. _ Murilo Cavalcanti, secretário de Segurança Urbana do Recife

“O acesso do indígena e do negro à universidade é uma revolução desarmada. O estudante indígena une dois tipos de conhecimento em sua atuação”.

_ Gersem Baniwa, ex-coordenador geral de educação indígena do MEC

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