A razão pela qual tomar vitamina D sem receita médica pode não ser boa ideia

Jessica Brown

(Foto: Andrea Obzerova/ Alamy)
Quando os dias começam a encurtar no inverno do hemisfério norte, aumentam as preocupações sobre a falta de luz solar – e uma possível deficiência de vitamina D. Para muitos, a saída é tomar suplementos.

Os comprimidos de vitaminas D2 e D3 estão disponíveis sem prescrição médica – no Brasil e em vários países – e têm sido associados à melhora da imunidade e de sintomas como cansaço, fraqueza muscular, dor no osso e até de depressão. Acredita-se que eles também ajudem a evitar câncer e sintomas do envelhecimento.

Uma pesquisa da consultoria de mercado Mintel indica que um terço dos adultos britânicos inclui a vitamina D em seu coquetel de suplementos diários – mas seu uso indiscriminado causa controvérsia na comunidade científica.

A maioria dos especialistas reconhece os benefícios da vitamina D para a saúde dos ossos, já que ela contribui na regulação do cálcio e do fosfato no corpo.

É por isso que aqueles que têm deficiência da vitamina são encorajados a ingeri-la via suplementos. E esse número é maior do que muitos imaginam: um estudo estima que cerca de 20% da população do Reino Unido tem uma profunda deficiência de vitamina D, por exemplo.

No Brasil, dados de 2011 do IBGE apontam que mais de 90% da população não ingere a quantidade recomendada de vitamina D – o que não significa que todos tenham deficiência.

O que alguns médicos defendem é que, para pessoas saudáveis, a vitamina D não é uma forma de prevenir doenças. Assim, quem estivesse com níveis normais da vitamina não precisaria dos comprimidos.

Então, qual é recomendação?

Indicado apenas para quem tem risco de deficiência
Apesar do nome, a vitamina D não é uma vitamina. É na verdade um hormônio que promove a absorção de cálcio pelo corpo. O desafio é que, com exceção de alguns alimentos como peixes oleosos (entre eles o salmão), a vitamina D é difícil de encontrar em uma dieta normal.

Mas ela pode ser produzida pela pele quando em contato com raios ultravioleta B – os raios solares.
Há dois tipos de vitamina D. O primeiro é o D3, encontrada em animais, incluindo os peixes, e é o tipo que a pele produz quando exposta ao sol.

O segundo é o D2, que vem de alimentos vegetais, incluindo os cogumelos. Estudos mostraram que o D3 é mais eficiente, e as conclusões de uma meta-análise de 2012 afirmam que essa é a escolha preferida para a suplementação.

Hoje, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia não indica a suplementação de vitamina D para toda a população, e sim para aqueles com risco de deficiência. Há recomendações específicas para indivíduos com esse risco, entre eles idosos, pacientes com osteoporose, obesos, grávidas e outros. Há outros países que seguem diretrizes similares.

Essas diretrizes e a onda de alimentos fortificados com a vitamina, como o leite, surgiram na esteira do combate ao raquitismo em meados do século 20. Sabemos que baixos níveis de vitamina D reduzem os níveis de cálcio do corpo, o que leva à redução da densidade óssea e pode causar raquitismo em bebês e crianças.

Também se sabe que baixa vitamina D pode causar fraqueza muscular e fadiga.

Um estudo publicado no North American Journal of Medical Sciences descobriu que os baixos níveis eram comuns em pessoas com cansaço extremo e que os sintomas melhoraram depois de cinco semanas de ingestão de suplementos de vitamina D.

Outro estudo da Universidade de Newcastle descobriu que os baixos níveis podem reduzir a eficiência das mitocôndrias, produtoras de energia. Estudos com pacientes com câncer mostraram efeitos semelhantes. A vitamina D pode estimular a regulação do sistema imunológico ao remover bactérias.

Ossos frágeis
Apesar da importância da vitamina D, seus benefícios não necessariamente implicam que pessoas com níveis saudáveis do hormônio precisem suplementá-lo.

Mais que isso, especialistas como Tim Spector, professor de epidemiologia genética da King’s College London, afirmam que mesmo as diretrizes atuais para suplementação de vitamina D – indicada para fortalecer os ossos e evitar fraturas – foram baseadas em estudos “provavelmente falhos”.

Algumas dessas pesquisas, por exemplo, envolviam populações idosas que viviam em asilos – pessoas que não se expunham com frequência ao sol e que estavam mais propensas a sofrer fraturas e osteoporose do que a população em geral.

É verdade que as evidências não são claras. Uma meta-análise publicada em agosto de 2018 concluiu que o aumento de níveis de vitamina D na população em geral não necessariamente reduziria o risco de fraturas nos ossos em pessoas saudáveis.

E uma meta-análise com 81 estudos descobriu que a suplementação de vitamina D não previne fraturas e quedas, nem melhora a densidade mineral do osso. Os pesquisadores concluíram que as diretrizes deveriam ser atualizadas para refletir esse resultado.

Mas Sarah Leyland, consultora de enfermagem em osteoporose pela Sociedade Nacional de Osteoporose, diz que os suplementos de vitamina D são úteis para grupos de risco que não têm nenhuma exposição ao sol.

De acordo com o NHS, o serviço de saúde britânico, as pessoas só precisam ficar do lado de fora por um curto período de tempo, com mãos e antebraços descobertos e sem proteção solar entre março e outubro – meses com os dias mais longos no hemisfério norte – para garantir vitamina D suficiente pelo resto do ano.

“Sabemos que as pessoas saudáveis não vão reduzir o risco de fratura tomando suplementos de cálcio ou vitamina D”, diz Leyland. “Entretanto, pessoas que não estejam absorvendo o suficiente da vitamina, como aquelas que não podem sair de casa ou vivem em acomodações protegidas, podem se beneficiar desses suplementos.”

Ainda assim, os pesquisadores também não encontraram evidências claras disso. Uma meta-análise examinou a prevenção de fraturas em pessoas de moradias tradicionais, asilos ou paciente em hospitais e concluiu que a vitamina D, sozinha, provavelmente não preveniria fraturas nas doses e formulações testadas até agora em idosos.

D de doença
As pesquisas também são conflitantes quando se trata da ligação entre os níveis de vitamina D e uma série de doenças.

Acredita-se, por exemplo, que suplementos de vitamina D podem estimular o sistema imunológico. Adrian Martineau, professor de infecção respiratória e imunidade na Escola de Medicina e Odontologia da Universidade Queen Mary de Londres, que coordena um grupo de pesquisa sobre os efeitos da vitamina D sobre a saúde, descobriu que ela tem um papel no combate a infecções respiratórias.

Ao analisar dados brutos de 25 testes clínicos envolvendo 11 mil pacientes de 14 países, ele descobriu um pequeno benefício em ingerir diária ou semanalmente suplementos de vitamina D para reduzir o risco de infecções respiratórias, ataques de asma e bronquite. Embora o artigo tenha atraído várias críticas, Martineau ressalta que a redução do risco, mesmo que leve, ainda é significativa e comparável aos efeitos de outras medidas.

Em relação ao envelhecimento, um artigo que analisou a relação entre a vitamina D e a expectativa de vida descobriu que a vitamina D3 pode ajudar na homeostase proteica – o processo de regulação das proteínas dentro das células.

“Nossa observação de que a D3 melhora a homeostase proteica e, com isso, desacelera o envelhecimento ressalta a importância de se manter os níveis apropriados da vitamina D”, escreveram os pesquisadores.

Outros estudos, porém, foram menos conclusivos. Uma meta-análise concluiu que mais pesquisas são necessárias para esclarecer o efeito da vitamina D na taxa de mortalidade.

Causa ou consequência?
Essa é uma questão que perpassa quase todos os estudos que relacionam os baixos índices de vitamina D com doenças.

Ian Reid, professor de medicina da Universidade de Auckland, acredita que as doenças é que provocam a redução dos níveis de vitamina D, já que a enfermidade pode impedir que o indivíduo passe tempo suficiente ao ar livre e exposto ao sol – e não o contrário.

Isso foi comprovado, por exemplo, em relação a doenças cardiovasculares: estudos mostram que a doença cardíaca poderia causar baixos níveis de vitamina D, e não o contrário.

“Se observarmos qualquer grupo de pacientes com qualquer doença, seus níveis de vitamina D serão mais baixos do que os níveis dos indivíduos saudáveis. Isto tem levantado a hipótese de que baixa vitamina D provoca doenças, mas não há evidências que provem isso”, ele afirma.

Pesquisadores descobriram, por outro lado, que níveis mais altos de vitamina D estão associados com baixos riscos de câncer colorretal – ela teria um papel na formação de novos vasos sanguíneos e no estímulo à melhor comunicação entre as células.

A vitamina D também ajudaria, segundo a pesquisa, a manter níveis normais de cálcio no cólon, o que desacelera o crescimento de células não-cancerosas, mas de alto risco.

Outros estudos, incluindo a relação entre a vitamina D e os cânceres de fígado, mama e próstata, sugerem que há razões para acreditar que a baixa vitamina D estimula a disseminação de células cancerígenas.

E, pela lógica, ingerir o suplemento poderia prevenir o câncer. Mas uma recente meta-análise falhou em estabelecer a relação entre o suplemento e a redução do risco de câncer.

D de depressão
Outra condição frequentemente discutida quando o assunto é vitamina D é o transtorno afetivo sazonal (SAD, na sigla em inglês), um distúrbio do humor causado pela queda sazonal da exposição ao sol. A relação entre a exposição ao sol e o SAD está bem estabelecida.

Também nesse caso, porém, uma ligação direta com a vitamina D tem sido difícil de comprovar.

Evidências sugerem que existe uma relação entre o SAD e a vitamina D, já que o composto está associado com os níveis de serotonina, um importante regulador do humor, e a melatonina, que regula o sono. Baixos níveis desse hormônio poderiam contribuir para os sintomas da SAD.

Mas pesquisadores ainda precisam conduzir um ensaio clínico randomizado definitivo sobre essa relação.

Além disso, o mecanismo exato pelo qual a vitamina estimula o hormônio é desconhecido. Uma teoria é que os receptores da vitamina D – encontrados em várias partes do cérebro e concentradas no hipotálamo, uma região relacionada ao sistema circadiano – tem influência no controle dos níveis hormonais do corpo.

Pesquisas mostraram ainda que a vitamina D tem um grande papel em nossa saúde mental, como na depressão e esquizofrenia, assim como no desenvolvimento do cérebro, mas não se sabe como isso ocorre.

Uma meta-análise publicada no início do ano mostrou que, embora exista uma correlação entre baixos índices de vitamina D e depressão, isto não significa que, necessariamente, o composto cause depressão.

É possível, por exemplo, que pessoas deprimidas simplesmente saiam menos e, portanto, se exponham menos à luz do sol.

A influência do sol
Mas, se estudos são inconclusivos, isto talvez não tenha relação com a importância da vitamina D. Talvez isso ocorra porque a maioria das investigações se baseia em suplementos, e não na luz do sol.

Alguns cientistas argumentam que obter vitamina D a partir de suplementos não é tão eficaz quanto absorvê-la diretamente do sol, já que o processo que acontece antes que o corpo produza vitamina D a partir da exposição solar é mais benéfico. Pesquisas mais conclusivas sobre isto estão sendo realizadas.

Ainda assim, a maioria dos especialistas tende a concordar que os suplementos de vitamina D podem beneficiar aqueles que têm níveis muito baixos do composto.

A pesquisa Martineau sugere que indivíduos com níveis muito baixos de vitamina D têm mais benefícios no uso do suplemento para prevenir doenças respiratórias, enquanto que os efeitos são bem mais modestos para indivíduos com níveis apenas moderadamente baixos.

Reid reforça que estudos têm mostrado benefícios para aqueles com baixos índices de vitamina D. Mas, como a maioria não tem deficiência, elas não veriam benefícios na ingestão do suplemento.

O problema é que não é fácil prever quem tem risco de sofrer com baixa vitamina D. Como a historiadora médica Roberta Bivins, da Universidade de Warwick, ressalta, a quantidade de vitamina D não depende apenas do tempo que a pessoa passa ao ar livre.

“É muito individual o quanto de exposição ao sol uma pessoa precisa durante o verão, depende desde a pigmentação da pele à quantidade de gordura no corpo e o quão rápido seu corpo produz um osso novo. É incrivelmente complicado”, ela diz.

É por isso que a melhor forma de estabelecer se você tem baixa vitamina D não é apenas pelos sintomas, mas por um exame de sangue prescrito pelo médico.

Níveis de suplementos
A partir daí, a outra questão é estabelecer o nível de suplementação que cada pessoa precisa. Reid diz que “não há perigo” de tomar vitamina D sem receita médica em menos de 25 nanomols (nmol) por dia – pessoas com deficiência da substância têm níveis abaixo de 30 nmol/l.

Mas com suplementos oferecendo doses altas como 62,5 microgramas sem receita, há preocupações sobre o risco de ingestão excessiva de vitamina D, o que pode, em casos raros, causar efeitos colaterais, incluindo náusea e vômito.

Em longo prazo, alguns estudos sugerem que o excesso de vitamina D pode aumentar o risco de doença cardiovascular, embora a pesquisa não seja conclusiva.

Outros argumentam, porém, que até mais vitamina D é necessária. Em 2012, a diretora-médica do Reino Unido (cuja função é aconselhar o governo em questões de saúde), Sally Davies, escreveu uma carta a clínicos gerais pedindo que eles recomendassem suplementos de vitamina D a todos os grupos de risco e afirmando que uma “proporção significativa” das pessoas no país provavelmente tem níveis inadequados de vitamina D.

Em junho de 2018, pesquisadores do Instituto de Metabolismo e Pesquisa de Sistemas, da Universidade de Birmingham, afirmaram que a morte de um bebê por falência do coração causada por deficiência grave de vitamina D e sérias complicações de saúde em outros dois bebês era apenas “a ponta do iceberg” nas deficiências da vitamina D entre os grupos de risco.

Suma Uday, coautora do artigo e doutoranda da universidade, diz que essas deficiências ocorrem porque os programas infantis de suplementação de vitamina D são mal implementados e não são monitorados no Reino Unido.

“Nas crianças que descrevemos, a deficiência ocorreu porque a suplementação de vitamina D não foi recomendada ou monitorada. Qualquer criança desprovida de vitamina D por períodos prolongados pode desenvolver baixos níveis de cálcio, o que pode resultar em complicações potencialmente fatais, como convulsões e insuficiência cardíaca”, diz ela.

Com esses resultados conflitantes, não é surpresa que os próprios especialistas médicos tenham visões bastante divergentes sobre os benefícios da suplementação disseminada.

Alguns chegam a argumentar que os interesses escusos estão sustentando a indústria bilionária da vitamina. E Spector chega a chamar o suplemento de vitamina D uma “pseudo-vitamina para uma pseudo-doença”.

Enquanto o debate continua, muitos especialistas estão de olho no Hospital Brigham and Women’s, afiliado da Escola Médica de Harvard, em Boston. Seus pesquisadores conduzem o aguardado teste clínico VITAL, que investiga se suplementos de vitamina D e ômega 3 têm algum efeito sobre câncer, derrame e doenças do coração em 25 mil adultos.

Espera-se que esses resultados, previstos para serem publicados no final deste ano, levarão o debate rumo a uma resolução

 

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