Fábio Assunção: Memes e máscaras revelam visão equivocada sobre dependência química

Especialistas afirmam que sociedade não enxerga a dependência química como doença, e sim como falha moral

Meme. Máscaras do ator Fábio Assunção são vendidas na Saara; dependência química dele virou meme na internet e tema de música; ator foi à Justiça

Ele virou disputada máscara de carnaval, foi tema de música de chacota e protagonista de uma série de memes. E a festa de Momo tem potencial para aumentar ainda mais a quantidade de zombarias dirigidas ao ator Fábio Assunção, da TV Globo, constantes ao longo do verão por conta de sua dependência química. Mas o que leva tantas pessoas a verem graça em algo tão grave? Especialistas ouvidos pelo GLOBO são taxativos: a sociedade não enxerga o alcoolismo e o vício em drogas como doença, e sim como falha moral. As piadas com o tema são resultado desse estigma e, ao mesmo tempo, uma forma de perpetuá-lo.

O próprio ator já se manifestou sobre isso, quando procurou Gabriel Bartz, intérprete da música que leva seu nome, para fazer um acordo: agora, parte do lucro que ele tiver com a canção será revertido em doações para uma associação para dependentes químicos.

— Não deveria ser piada, pelo menos — diz a psicóloga Sabrina Presman, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas.

Para ela, a sociedade brasileira é marcada pela “psicofobia”: o preconceito em relação a diagnósticos psiquiátricos.

— As pessoas veem com maus olhos qualquer transtorno psiquiátrico. Poucas vezes têm empatia suficiente para entender que, por trás do alcoolismo existe alguém doente. O julgamento moral é grande.

A dependência química é oficialmente considerada transtorno mental e doença crônica. E catalogada como problema social pela Organização Mundial de Saúde (OMS ). Quem temo distúrbio metaboliza deforma diferente a substância da qualé dependente—oque torna extremamente difícil conter o vício e afeta de modo negativo os aspectos psíquico, emocional, físico e social da vida.

Sabrina Presman compara ao câncer:

— As pessoas não fazem chacota de pacientes que estão passando por quimioterapia. Isso diz muito sobre o que elas entendem sobre o que é, de fato, uma doença.

‘PIADAS DE BÊBADO’

Mas qual é o limite entre a falta de empatia e a brincadeira? O que não falta na cultura popular do país são piadas de bêbado, por exemplo. Elas deveriam ser abolidas?

— Não dá para dizer, claro, que agora está proibido fazer piada com esse tema. Mas é preciso moderar, ainda mais quando não se trata de um “bêbado genérico”, e sim de uma pessoa que existe e que, com certeza, terá seu tratamento prejudicado por isso —afirma Sabrina.

Uma “evolução cultural” urge, na avaliação da psicóloga Ana Café, especializada na prevenção e tratamento da dependência química:

— O ideal seria que a gente pudesse evoluir culturalmente e entender a dependência como uma doença séria. Por conta das piadas, o principal sentimento do paciente e da própria família, quando a doença começa a se manifestar, é a vergonha. Isso faz com que o dependente acabe protelando a busca do tratamento. Isso é muito grave. Ninguém deixa de buscar tratamento para problema cardíaco, por exemplo —salienta a diretora do Núcleo Integrado.

A psicóloga destaca ainda que é possível se recuperar bem de um quadro de dependência, e que, em média, o período de internação dura três meses, e o de tratamento ambulatorial depois da internação leva um ano. Mas esse tempo pode variar, de acordo com a situação do paciente. E medicamentos costumam ser necessários para tratar a doença, além de participação em grupos terapêuticos.

—É preciso construir mecanismos saudáveis para evitar a primeira dose — afirma a especialista.

COMO LIDAR

O professor Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), classifica o uso das máscaras de carnaval com o rosto de Fábio Assunção como um problema que “indica um fenômeno de massa”.

Para ele, as pessoas têm dificuldade em lidar com a fragilidade humana e o uso da máscara seria uma forma de associar o problema ao outro, ou seja, de não expor a própria vulnerabilidade:

— Fazer piada com adição química é de extremo mau gosto. É surpreendente que as pessoas se dediquem a confeccionar máscaras como esta e que essa moda pegue, vire um sucesso.

Silveira destaca que mesmo alguns profissionais que tratam esses pacientes em clínicas especializadas e comunidades terapêuticas acabam por reforçar o preconceito:

— Existe um estigma relacionado à dependência química que é absolutamente lamentável. Infelizmente, as pessoas que tratam dependentes químicos muitas vezes não trabalham no sentido de acabar com esse estigma. A maioria dos modelos de grupo que conheço só reforçam o preconceito.

Saiba mais em: globo.com

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