E DA ESCURIDÃO SE FEZ LUZ

Projeto de alfabetização dá novo sentido à vida de idosas no Varjão
A professora Eunice (E) formou-se em pedagogia aos 53 anos e hoje alfabetiza idosos como Ella (ao centro), Lindaura e Rita no Varjão

Havia uma escuridão sem fim. A vida inteira, a maior parte da vida foi assim. Elas sabiam disso. Sentiam-se envergonhadas por isso. Havia culpa e medo. Mas, um dia, elas descobriram, no mesmo lugar onde foram cegas por tanto tempo, que, até todo o breu, um dia, pode se dissipar. E a luz, um pouco dela, ainda fugidia, pode surgir. Até mesmo quando a vida andou tanto, com todo o cansaço. O que importa é a própria claridade.

Esta é uma história que a gente ouve falar, num dia. E, no outro, corre para ver de perto, para enxergar essa mesma luz. Para escutar o que mudou depois que a vida se alumiou. Esta história precisava ser contada. Ela é a prova de que catarses, até mesmo nos lugares mais improváveis, impensáveis, quando tudo parece consumado, podem ser reais. E a gente descobre que são esses os renascimentos mais comoventes, os que realmente valem a pena. Os que fazem sentido.

Última terça-feira, 9h40. Chegamos à Associação dos Idosos do Varjão — a menor cidade do DF, com pouco mais de nove mil habitantes e com 46,17% dessa população, quase a metade dela, apenas com o ensino fundamental incompleto e 2,8% analfabetos, mais de 250 pessoas. São dados do último levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), em 2015. Educadores estimam, contudo, que o número de analfabetos na cidade pode ser muito maior.

Encravada atrás do nobre Lago Norte, no Varjão, torna-se clara a percepção de que como a vida foi dividida entre dois mundos — tão perto, tão colados e ao mesmo tempo anos-luz um do outro. Lá, sentadas em círculos, em cadeiras de escola, estão senhoras com idades variadas — de 35 a 89 anos. E, em cada uma, uma história de recomeço comovente.

“Felicidade é passar o que sei”

O lugar é uma pequena chácara, cercado por mangueiras. E, hoje, povoado por uma gente que caminhou tanto, pelejou tanto, que até os poucos sonhos foram adiados. E agora, depois da peleja, quer pelo menos escrever, literalmente, o que ainda puder ser escrito. E ler, ler tudo que olhos opacos ainda deixarem. Isso se chama luz. Elas foram ali atrás dessa luz.

Perto das mulheres sentadas em círculos nas cadeiras de escola, está a professora: Eunice Nascimento dos Santos, baiana de Correntina, 57 anos, seis filhos e uma história de recomeço. Doméstica a vida inteira nas casas abastadas do Lago Norte, ela sabe a importância de mudar o destino. “Uma ex-patroa minha me incentivou a estudar. Ela me disse que eu era inteligente”, conta. E assim, limpando a arrumando casas e vidas alheias, Eunice acreditou, sobretudo, em si mesma. E foi assim que conquistou cada série escolar. “Eu trabalhava de dia e, à noite, ia para a escola. Eu queria ser diferente, deixar de ser empregada.”

Mas Eunice queria mais. “Eu jurei a mim mesma que não seria doméstica a vida inteira”, diz. Há três anos, aos 53, ela recebeu o que tanto queria. O diploma da faculdade. Formou-se em pedagogia, pagando o curso com o próprio dinheiro.

Três vezes por semana, está ali na Associação dos Idosos do Varjão, voluntariamente, para dizer àquelas mulheres que, não importa o que tenham passado, ainda há tempo para contar outra história. Os homens, sempre em minoria, até se matriculam nas aulas de alfabetização. Nos últimos três anos, 100 mulheres e 18 homens passaram por ali. “Mas depois de um mês, ou até menos, eles somem. Sentem vergonha de alguém saber que eles não sabem ler. É uma pena”, avalia a professora.

E a mulher que aprendeu a ler e escrever adulta, formou-se depois dos 50 e tem três filhos formados, logo se enche de orgulho pelo prazer de tentar mudar rumos: “A felicidade da minha vida hoje é passar o que aprendi para outras pessoas”.

“O mundo tinha cor”

A manhã seria de estudo. No meio das alunas, uma, de longe, chama atenção. Ela fala com os olhos, apesar de parte deles já ter perdido o brilho. Ainda assim, aos 89 anos, quer descobrir a vida, a mesma vida que permaneceu no escuro por mais de oito décadas. Lindaura Graciana Sousa é daquelas pessoas que a gente conhece e quer levar pra casa, de cara. Ela é tão real que emociona qualquer um que tiver o privilégio de ouvi-la.

Baiana de Mundo Novo, Lindaura chegou ao DF antes mesmo de o DF existir. Era 1956. “A gente veio com o sonho da nova capital”, conta. No que hoje é Varjão, ela e o marido se ajeitaram. “Quando nós chegamos, aqui só tinha umas quatro chácaras”, lembra. Lindaura pariu 21 filhos, alguns ainda na Bahia — 13 estão vivos. “Eu tive o meu primeiro com 14 anos. Era tão menina que nem sabia como se tinha. Minha mãe me disse que, quando chegasse a hora, a barriga ia se abrir.”

Lindaura viu e sentiu que a barriga não se abriu. E assim, mesmo sem a barriga se abrir, ela pariu todos os outros, a maioria com parteira. Hoje, tem 42 netos, 37 bisnetos e três tataranetos. “O terceiro tataraneto ainda tá na barriga.”

Sem saber ler e escrever, Lindaura foi aprendendo a tatear a vida. Virou auxiliar de serviços gerais da Secretaria de Educação. Limpava banheiros e sala de aula onde nunca conseguiu se sentar. “Eu ficava só vendo as letras no quadro-negro”, conta. E prossegue: “Passei muita vergonha, não sabia ler o ônibus que eu ia pegar. No trabalho, era uma amiga quem assinava o meu nome. Minha carteira de identidade tinha: ‘Não alfabetizada’. Era muito triste”.

Há três anos, ela chegou à Associação dos Idosos do Varjão. “A Eunice me disse que eu ia aprender a ler. Eu disse que não tinha mais tempo, que tava velha. Ela insistiu. Aí eu comecei de pouquinho.” Passado o tempo, ela hoje conhece as letras, lê um bocadinho e não falta às aulas.

Perto dos 90 anos, a primeira conquista: a nova carteira de identidade, com a própria letra, que demorou quase nove décadas para existir. “Parece que eu renasci”, sente. E, com emoção à flor da pele, diz, com a voz embargada: “Quando eu comecei a ler, eu enxerguei a vida e me enxerguei. E vi que o mundo tinha cor”. Ouvir isso é ter a certeza de que renascimentos diários existem.

“De primeiro, tudo era escuro”

Colega de Lindaura, a paraibana de São José da Lagoa Tapada, perto de Sousa, Rita Leite Martins, de 59 anos, uma filha e três netos, hoje também é só alegria. A arrumadeira das casas do Lago Norte queria muito saber ler. “Eu tinha vontade de ler a Bíblia. Era o meu sonho”, admite.

Hoje, Rita ainda soletra sílaba por sílaba, ainda derrapa nas palavras, mas abre o livro de que mais gosta com prazer. “De primeiro, tudo era escuro. Agora, eu vejo as letras, reconheço as palavras, não pego mais ônibus errado, tenho mais confiança em mim e não sinto mais vergonha de nada.”

Do mesmo entusiasmo de Rita, compartilha a colega de alfabetização Ella Fiamoncino, de 88 anos. Descendente de alemães, Ella nasceu em Ibirama (SC). Mas, em 1978, chegou ao DF com o marido marceneiro. Pararam no então Morro do Urubu, hoje Varjão. Ela se dedicou à criação de galinhas. Hoje viúva, Ella mora com uma das filhas — pariu 10, tem 25 netos, 28 bisnetos e seis tataranetos. A mulher que criava galinhas confessa que sempre quis ser médica. Hoje, com um pouquinho do que tem aprendido nas aulas, adora ler bula de remédio. E confessa uma tristeza: “Casei com 17 anos e lembro que nem meu nome eu soube assinar na hora”.

Ella também admite que até para viajar tudo ficou mais fácil. “Eu leio as placas, as coisas na rua. É uma maravilha.” E decidiu, do alto dos seus 88 anos: “Ninguém me atrapalha mais com nada. Isso é felicidade”.

“Elas nos ensinam a viver”

Antes de essa revolução de vidas chegar a esse lugar, em 2010, uma mulher visionária levou livros, centenas deles, sonho e esperança àquela associação. Por meio do Projeto Bibliotecas Casa do Saber — que durou 10 anos, contou com apoio fundamental da população de Brasília e inaugurou 182 desses espaços pelo DF e muito longe daqui — Carmen Ganzelevitch Gramacho montou mais um lugar voltado à leitura.

É lá na Associação dos Idosos do Varjão que Carmen, 73, moradora do Lago Norte, agora também será uma das voluntárias do curso de alfabetização. Uma vez por semana, ela ajudará ainda mais nos renascimentos de Lindaura, Rita, Ella e de todas aquelas pessoas. “Elas nos ensinam a viver”, diz, emocionada, Carmen. Lindaura, a mulher que limpou privadas e salas de aula por muitos anos e só agora viu sua vida se transformar, é também toda emoção: “O bom pedir faz um bom dar”. Depois, como se estivesse fora dali, em outra dimensão, deixa escapar: “Eu ouço, gosto de perguntar e vou cultivando na memória. Quem não estuda não existe”.

Lindaura, que nasceu num lugar chamado Mundo Novo, lá nos confins da Bahia, de fato, agora enxergou a sua luz. Fez o seu novo mundo. Uma vida mais cidadã. E não importa se isso demorou 85 anos. Hoje, aos 89, ela se olha no espelho e realmente acredita que renasceu. Esta história precisava ser contada.

 Fonte: www.correiobraziliense.com.br

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