A ASSASSINA ESTÁ LIVRE

Por Marcelo Abreu (jornalista), no Facebook de hoje, dia 6 de junho de 2019
A ASSASSINA ESTÁ LIVRE
Conseguir entrar nessa casa, ver o local onde a filha foi enterrada e ouvir os pais sobre o horror, a pior dor da vida deles, foi um das coisas mais difíceis ao longo de todos os meus anos de profissão. Foi a primeira vez que a família recebeu um repórter dentro de casa, para falar da tragédia, numa matéria exclusiva. O jornal desse domingo, 9 de janeiro de 2005, esgotou-se em todas as bancas do DF em menos de quatro horas. O crime foi em 9 de dezembro de 2004.
O crime? O caseiro, que angelicalmente se chama Bernardino do Espírito Santo, e a empregada da família, Adriana de Jesus Santos, torturaram, estupraram, mataram e enterraram a filha do casal, a estudante da UnB, Maria Cláudia Del’Isolla, então com 19 anos. Maria Cláudia estava sozinha em casa, no Lago Sul. Eles a enterraram no jardim de inverno. O crime chocou Brasília e o país. Manchete dos telejornais e de todos os jornais.
Quase 15 anos depois, a empregada, “em cumprimento ao regime de progressão da pena e pelo bom comportamento”, desde o início desta semana, goza do sistema semiaberto. Está trabalhando num órgão do GDF, que ampara presos nesse regime. Ela trabalha durante o dia, em função administrativa, e, à noite, volta para o presídio. Ganha salário.
E a dor desses pais, quando irá para o sistema semiaberto? Quando doerá menos? Quem amenizará o buraco profundo que se formou nessa família? Esses pais nunca mais foram os mesmos. Tiveram que arrumar um jeito para continuar sobrevivendo. E, ainda assim, pela metade. Cada um ali — o pai, a mãe e a única irmã — morreu de alguma forma. Pra sempre.
Há crimes que mereciam a prisão perpétua. Há crimes, tão monstruosos como esse, que não poderiam ter o perdão ou a condescendência da lei.

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