Fronteiras entre as disciplinas não existiam

Invenção. Para o físico e escritor alemão, ensinar ciência por meio de histórias incentiva que estudantes experimentem e façam descobertas por conta própria

Adistinção entre arte e ciência não faria sentido algum para o artista, engenheiro e cientista Leonardo da Vinci, afirma o físico alemão Sfefan Klein. Em seu livro “O legado de Leonardo: como Da Vinci reimaginou o mundo” (em inglês, “Leonardo’s legacy: how Da Vinci reimagined the world”, inédito no Brasil), o escritor de ciência evoca o renascentista como exemplo perfeito de interdisciplinaridade, tema que debaterá hoje no painel “Aprendendo com Leonardo”, às 10h, no Museu do Amanhã.

Klein vai abrir o Educação 360 STEAM —sigla que, em inglês, une as palavras Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática —, que terá debates sobre como integrar essas cinco áreas ao ensino. O evento é uma realização dos jornais O GLOBO e Extra, com patrocínio do Colégio pH e da Fundação Telefônica Vivo, e o apoio institucional da Revista Galileu, do site Techtudo, TV Globo, Canal Futura, Unicef e Unesco.

Formado em Biofísica, Klein abandonou a carreira de pesquisador para escrever sobre ciência e hoje tem obras traduzidas para 27 idiomas. Seu livro “A fórmula da felicidade” (2002) ficou mais de um ano na lista de best-sellers da Alemanha. Fascinado por Leonardo da Vinci, ele explica como o artista e cientista pode inspirar o debate sobre educação.

Leonardo da Vinci pode ser considerado o principal exemplo de educação STEAM, já que era um gênio universal?

Leonardo da Vinci é, sim, o perfeito exemplo da viabilidade da interdisciplinaridade e das descobertas por conta própria na educação. Sua carreira espetacular também mostra o quão importante é a relação professor-aluno. Leonardo foi ensinado por Andrea Del Verrocchio, que já era um artesão universal, artista e engenheiro. E Andrea deve ter sido um professor absolutamente incrível, porque muitas outras pessoas importantes iam aos seus workshops. Então você diz que o Leonardo era um gênio universal e sim, ele era, mas não nasceu um gênio, ele se tornou um. Além disso, naquele tempo fronteiras entre as disciplinas ainda nem existiam ainda. Leonardo não teria entendido a distinção entre arte e ciência. Elas eram os dois lados da mesma moeda e, para ele, dividiam a missão — como ainda dividem — de entender melhor o mundo.

Por que é essencial pensar a educação de forma interdisciplinar?

Uma abordagem interdisciplinar ajuda a melhorar a educação, porque encoraja estudantes e professores a fazerem conexões e encontrarem seus próprios percursos em meio a um vasto caminho de conhecimento. Além disso, alunos e professores diferem em seus gostos e habilidades, e com essa abordagem há muito mais oportunidades para que cada um descubra quais são seus interesses ou o que fazem melhor do que em um modelo de disciplinas isoladas.

Você acredita que a ciência deve ser ensinada em formato de histórias e não como fatos. Por quê?

Porque assim que o nosso cérebro opera. Nós, humanos, somos uma espécie contadora de histórias. É mais fácil ficarmos interessados por elas do que por fatos aleatórios.

E como isso se aplica ao ensino de crianças e adolescentes?

A maravilha da ciência é que as histórias que existem para serem contadas são sobre descobertas. Isso se aplica muito bem à educação básica, porque toda criança, por natureza, é curiosa. Então, se apresentada do jeito certo, a ciência toca no ponto da curiosidade natural. E melhor ainda é permitir que os próprios alunos façam as descobertas. Histórias podem ter um papel importante nesse processo, porque mostram inspirações ao contar como ótimos cientistas, como Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Galileu Galilei ou Jane Goodall fizeram suas descobertas. Isso aumenta o interesse e encoraja crianças a experimentarem por elas mesmas.

O que é imprescindível para uma boa educação?

O melhor modelo educacional é não tanto entregar conhecimento, mas acender uma chama de interesse e entusiasmo nos estudantes. Se os alunos estão fascinados por um assunto, eles vão aprender muito melhor do que quando estão apenas estudando para passar numa prova.

E qual o papel dos professores nesse processo?

Os melhores professores são os que conseguem acender essa chama. Por exemplo, em um estudo feito com professores de Física nos Estados Unidos, a principal forma encontrada para melhorar a qualidade da educação foi realçar o interesse dos professores por suas próprias disciplinas. Isso foi feito dando a eles a oportunidade de trabalhar por duas semanas no laboratório de um importante instituto de Física. Quando o período acabou, os professores tinham encontrado um novo entusiasmo que puderam passar adiante para os alunos. Por isso, para melhorar os resultados da educação, a relação entre o estudante e o professor é muito mais importante do que qualquer tecnologia sofisticada.

“Leonardo da Vinci não teria entendido a distinção entre arte e ciência. Elas eram os dois lados da mesma moeda”

“A relação entre o estudante e o professor é muito mais importante do que qualquer tecnologia sofisticada”

Fonte: www.oglobo.com

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