Covid-19: Tratamento de reabilitação tem papel fundamental para recuperação de pacientes

Mesmo aqueles que não ficaram internados podem sofrer efeitos provocados pela doença depois da cura. Conheça histórias de pessoas que precisaram enfrentar tratamentos de reabilitação, após serem infectadas pelo novo coronavírus.

A luta de uma pessoa que testou positivo para covid-19 não se encerra quando o vírus deixa o corpo. Esta doença pode causar sequelas no sistema respiratório, na coordenação motora, no paladar, no olfato, por exemplo. Pelo fato de o coronavírus ser uma doença nova, existem muitos mistérios, não é possível dizer se as complicações deixadas nos infectados serão permanentes ou não. Dessa forma, os tratamentos de reabilitação mostram-se necessários para poder recuperar pacientes que foram contaminados e sofreram alguma consequência deixada pelo vírus.

Para quem ficou com algum tipo de sequela na coordenação motora ou muscular, por exemplo, a fisioterapeuta Elizabeth Dias explica a atuação do tratamento nesses casos. “O paciente que foi infectado pode apresentar várias limitações após a doença, como dificuldade motora e na respiração. A fisioterapia tem a importância nesse esforço de reabilitação”, destaca. “Na parte motora, o paciente pode apresentar dificuldade para andar devido à fraqueza muscular. Quando se recupera, muitas vezes fica difícil até andar, por exemplo. Além disso, pode ficar com dores crônicas”, diz.

Sentindo os sintomas da covid, o aposentado Luiz Antonio Sberze, 62 anos, passou 18 dias internado. “Nesse período fiquei alguns dias na UTI, sem necessitar de ventilação mecânica (intubar). Precisei apenas de fornecimento de oxigênio por cateter nasal”, relata. Ele teve 75% dos pulmões comprometidos, mas não perdeu o olfato nem o paladar. “Ainda não sei se vai restar alguma sequela, isso só o tempo dirá”, salienta. Após receber alta, começou a fazer fisioterapia respiratória. “Faço reabilitação três vezes por semana. Inicialmente, foram 12 sessões solicitadas pelos médicos e, agora, passam das 20”, afirma.

A pneumologista Patrícia Canto esclarece que cada paciente precisa passar por avaliação médica. Os problemas e possíveis sequelas podem se manifestar de formas diferentes. “Há uma série de coisas para aprender em relação às sequelas. Ainda temos pouco tempo de evolução (da doença) para sabermos se são problemas definitivos ou não”, aponta. O coronavírus também pode deixar problemas na fala. “As consequências dependem da gravidade do quadro pós-infeção. Por exemplo, um paciente que foi sedado pela necessidade da intubação orotraqueal pode apresentar disfonia — dificuldade na fonação, alteração da voz — e disfagia — dificuldade na deglutição (ato de engolir) os alimentos — pelo uso prolongado do tubo. Com isso, pode interferir na fala, voz e deglutição”, explica a fonoaudióloga Rafaela Cristina Sousa.

“O tratamento é realizado mediante a necessidade de cada pessoa. Se o paciente tiver como consequência uma paralisia de pregas vocais pelo uso do tubo, por exemplo, o tratamento será com terapia vocal. Se tiver dificuldade na deglutição, a reabilitação será voltada para o tratamento da disfagia, com exercícios específicos”, ressalta a especialista.

Psicológico
A técnica em análises clínicas Andréa Sobreira, 42, e toda a família foram infectadas: esposo, um filho, três filhas e uma neta. “Meu marido começou a apresentar os sintomas do vírus. Fez o exame e testou positivo, então isolaram-no. Nos dias seguintes, minha filha e eu começamos a apresentar sintomas. No começo, senti cansaço, moleza, dor no corpo, mas sem febre. Porém, as outras pessoas da minha família apresentaram mais sintomas. Todos fizeram o teste e deu positivo”, conta. “Depois de 10 dias com a doença, comecei a sentir muita febre, fortes dores no quadril, nas pernas, não conseguia andar. Ficamos em quarentena justamente por 40 dias”, diz.

Após dois meses de curada, Andréa começou a sentir dores no peito, nas costas e taquicardias. “Fiz uma tomografia e mostrou que eu tinha uma cicatriz no pulmão. O médico me falou que esse problema começou apresentar uma infecção pulmonar. Passaram algumas medicações e me encaminharam a um pneumologista para começar o tratamento. Mas, iniciei a fisioterapia respiratória”, relata.

Uma das filhas de Andréa, uma bebê de 1 ano, testou positivo para covid duas vezes após fazer exame PCR, mas é importante esclarecer que não se trata de reinfecção. O primeiro diagnóstico positivo da bebê foi em 27 de abril. Em 18 de maio, 21 dias depois, ao refazer o teste, o vírus continuava circulando no organismo da criança. “Ela teve febre, muito enjoo e o mesmo problema gastrointestinal que tive, não foi diarreia, mas o empedramento do intestino, as fezes estavam muito duras”, conta Andréa.

A infectologista Joana d’Arc Gonçalves explica a situação. “A gente considera como reinfecção com o intervalo de, pelo menos, três meses após o primeiro teste. Algumas pessoas ficam com o teste positivo por um período prolongado, não porque ela esteja doente, transmitindo ou que esteja reinfectada. Isso acontece porque o vírus entra pela via respiratória superior e ficam alguns fragmentos virais, só depois de um período que eles passam”, esclarece.

O novo coronavírus afeta, também, o psicológico de quem conviveu com a doença. Esse é o caso do André Sobreira, 42, militar da Marinha e esposo de Andréa. “Meu marido sempre foi uma pessoa centrada. Mas, durante a covid, aumentou a preocupação com o futuro da família infectada, e isso causou problemas psicológicos em André”, revela Andréa.

A terapeuta ocupacional Michelle Carneiro explica “os pacientes podem se sentir confusos, amedrontados, ansiosos, levando reações que podem ser leves e passageiras, mas também extremas, como desenvolver um estresse pós-trauma, transtorno de ansiedade e depressão”, aponta.

Principais sintomas
De acordo com o Ministério da Saúde não há, até o momento, uma lista oficial consolidada com as principais sequelas da covid-19. Os profissionais de saúde responsáveis pelo paciente devem fazer, caso a caso, o monitoramento do comprometimento pulmonar ou vascular, por exemplo.

Mas, o pneumologista Paulo Feitosa, chefe da unidade de pneumologia do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), aponta os sintomas mais comuns. “A complicação mais recorrente é a fibrose pulmonar nos pacientes que têm a forma mais grave da doença”, conta. “Alguns pacientes reclamam de fadiga, fraqueza muscular de forma permanente, mesmo com a função pulmonar normal.

Tem alguns que reclamam do aumento de uma dor crônica. Por exemplo, quem tinha enxaqueca passa a ter mais enxaqueca. Outros podem desenvolver distúrbios psiquiátricos ou deficit cognitivo. Além de sequelas vasculares periféricas”, completa Paulo. Ainda de acordo com o especialista, pacientes podem ter alterações cardíacas importantes, inclusive, inflamação do músculo cardíaco.

* Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira

DF lidera taxa de mortes
Números recentes do Ministério da Saúde mostram que há razões para manter a preocupação e os cuidados em relação à situação epidemiológica do DF. A capital do país aparece nos últimos boletins da covid-19 como a unidade da Federação com maior número de mortes proporcionalmente à população. São 103,8 óbitos a cada 100 mil habitantes, números que ultrapassaram o Rio de Janeiro, que tem, nos dados de ontem, 103,1 mortes a cada 100 mil pessoas. Os dados levam em conta a população estimada em julho de 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra a capital com população estimada em 3 milhões de moradores. Para especialistas, analisar o contexto da pandemia é complexo e deve ser feito com levantamentos diversos, mas esta taxa de mortalidade é essencial para conhecer a realidade atual.

A Secretaria de Saúde lembrou, em nota oficial, que “historicamente o DF recebe pacientes de outras unidades da Federação, principalmente do Entorno, o que pode ser observado no número absoluto de óbitos ocorridos e óbitos em residentes”. A pasta também afirmou que “a estratégia da Diretoria de Vigilância Epidemiológica do DF para captar óbitos tem sido bastante eficiente, garantindo que quase a totalidade dos óbitos suspeitos e confirmados seja avaliada pela equipe de vigilância”.

Boletim
O DF registrou ontem mais 705 casos de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus, em 24 horas, e atingiu o total de 186.054 infectados — 174.838 (94%) recuperados e 8.068 com a doença ativa. O número de mortes também aumentou, com 3.148 registros. Apenas ontem foram notificados mais 17 óbitos, entre 5 de agosto e 23 de setembro. A maioria das vítimas era do sexo feminino, com faixa etária de 50 a 59 anos e apresentava comorbidades.

Duas perguntas para
Juliana de Souza, professora da UnB e mestre em infectologia

O que é considerado sequela da covid-19 e quais são as mais comuns?
A pesquisa refere-se a pacientes que tiveram formas graves, críticas de covid, então são abordados pacientes que necessitem de hospitalização, muitos deles de intubação, alguns de hemodiálise. Neste grupo de pacientes é esperado sequelas pulmonares, dependência de oxigênio suplementar, evolução para doença renal crônica. Além de perdas de massa muscular decorrente a internação prolongada.

É importante avaliar, também, alterações emocionais como ansiedade e depressão. Além disso, será avaliada a capacidade para retorno para atividades anteriores, tanto social quanto emprego. Se houve permanência, necessidade de mudança de atividade ou até perda de emprego.

Há conhecimento suficiente para dizer se essas sequelas são reversíveis ou permanentes?
A capacidade de reversão da sequela está relacionada à saúde prévia dos pacientes. Esperamos que paciente jovens e com menos comorbidades tenham menos sequelas.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br

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