Computação forense é arma das empresas contra invasores

terça-feira, 20 de abril de 2010, 9h40

No final do último mês teve desfecho a história de um dos mais famosos hackers dos Estados Unidos. O programador Albert Gonzalez, de 28 anos, foi condenado a 20 anos de prisão. Ele comandava uma quadrilha de hackers que usou mais de 40 milhões de números de cartões de crédito e débito para cometer fraudes. Os crimes causaram prejuízos de mais de US$ 1 bilhão para empresas de varejo como Barnes & Noble e TJX Co.
O caso chama a atenção para o uso da Computação Forense. Com objetivo de esclarecer e concluir detalhes acerca de ações ilícitas usando tecnologia, que podem ser desde crimes como pedofilia e calúnia via internet até fraudes ou desvios de verba, a Computação Forense permite a reunião de vestígios oriundos de um computador, sistema ou rede. É função do perito de informática, munido de tecnologias apropriadas, levantar esses dados de forma a produzir um laudo pericial que será utilizado em um processo, apoiando tecnicamente o juiz e suas decisões. Porém, a ampliação do uso da tecnologia pelos mais variados tipos de empresas tem como conseqüência suspeitas que não necessariamente têm implicações judiciais. Com isso, se dissemina um novo tipo de serviço, a Investigação Digital.
A partir de certas desconfianças, organizações contratam empresas especializadas em tecnologia para vasculhar dispositivos de rede, servidores e estações de trabalho de forma a descobrir situações de fraudes, invasões por hackers ou ainda vulnerabilidades em um sistema. O uso desses instrumentos está relacionado à necessidade das corporações entenderem a causa de determinado incidente, tratando-a de maneira que não se repita. Há uma ampla gama de incidentes que podem afetar as corporações, de contaminação por vírus até mesmo ações indevidas de um funcionário. Em se tratando de invasões, existem dois tipos: a interna, que ocorre quando um colaborador da própria empresa extrapola os acessos que lhe foram confiados, acessando informações e computadores sem autorização; e a externa que está relacionada à entrada de hackers no sistema. Ambos podem causar prejuízos dos mais diversos, desde a retirada de um site do ar ou a divulgação de informações confidenciais da corporação, até fraudes de milhões, com a que Albert Gonzalez cometeu.
Esse tipo de situação demonstra a necessidade do serviço de investigação digital, que se vale de pequenos detalhes do sistema operacional, na rede, ou na internet para ser capaz de responder perguntas do tipo “o que aconteceu?”, “quando aconteceu?”, “quem foi o responsável?” e, até mesmo, “quais foram suas motivações?”. Casos em que problemas são comprovados, além de dar forte embasamento às soluções como a demissão por justa causa de funcionários infratores, podem contribuir com as empresas na medida em que detectam suas vulnerabilidades tecnológicas e evitam reincidências.
Há uma crescente demanda por esse tipo de serviço, principalmente de bancos e financeiras, alvos naturais de criminosos virtuais, mas organizações dos mais diversos segmentos podem se beneficiar na medida em que a investigação digital pode contribuir para esclarecer uma suspeita ou mesmo descobrir uma prática prejudicial para os negócios.
Tony Rodrigues é analista de negócio da Provider IT

Autoridades, responsáveis pelo mais hediondo descaso

Acompanhei o quanto pude o julgamento do casal Nardoni, acusado e finalmente condenado pelo assassinato da inocente Isabella. Decisão justa do júri. Mas o resultado foi fruto de um trabalho sério desde o início das investigações e, principalmente, do afinco dos profissionais responsáveis pela perícia. Entretanto, qual terá sido o peso desse trabalho tendo a mídia por trás, que, de forma exaustiva instigou as autoridades a trabalhar no caso? Técnicos altamente qualificados que utilizaram equipamentos e produtos de alta tecnologia para comprovar a autoria do assassinato, recursos estes nem sempre disponíveis a outros casos. Basta ver que não foi a única criança vítima de seus próprios pais ou madrasta.

A polícia sem equipamentos e recursos e, porque não dizer, sem preparo para enfrentar esses bandidos que estão cada dia mais equipados em todos os sentidos e dando mostra de muita organização; sem a mídia para dar cobertura ao caso e desafiar os órgãos competentes a realizar o trabalho que deveria ser de sua competência; sem vontade dos órgãos competentes para investigar a real possibilidade do que possa ter acontecido naquela noite de 29 de setembro de 2005.

O diferencial entre o caso Isabella Nardoni e o do assassinato do meu filho Mário, ocorrido na noite de 29 de setembro de 2005, em circunstâncias até hoje não esclarecidas pelos organismos de segurança pública do Rio Grande do Sul é justamente esse.

Espero ansiosamente por Justiça! É um sentimento bem distante do de vingança. Desde que meu filho Mário, um jovem de apenas 20 anos foi assassinado, tenho lutado para que os verdadeiros culpados sejam identificados e punidos: também clamo por Justiça!
O exemplo de bom trabalho policial, de respaldo e desafio da mídia é exatamente o que faltou no assassinato do meu filho, cuja autoria caiu no esquecimento dessas autoridades, responsáveis pelo mais hediondo descaso.
Mas o descaso e o esquecimento premeditado e, portanto, intencional, não faz com que eu desista ou esmoreça na busca da Justiça!

Continuarei na minha luta por Justiça, com o apoio dos amigos, como vocês, pessoas sensíveis, ao contrário dessas autoridades da segurança pública, que preferem tratar o assassinato do meu filho Mário, apenas como mais um caso insolúvel, nas suas vergonhosas estatísticas.

Acordo todos os dias na esperança de ver a Justiça sendo feita! Meu filho merece isso!
Enquanto a dor e a saudade me acompanham dia após dia; enquanto em minha vida persiste esse enorme vazio; enquanto minhas lágrimas brotam dos olhos, vou cobrar o fim desse descaso, até que essas autoridades identifiquem os executores e/ou mandantes da morte do meu filho Mário, para que sejam julgados pelo crime que cometeram.

Como pai e cidadão que paga seus impostos em dia continuarei exigindo uma explicação e justiça! afinal neste dia 29 fará 53 MESES !!!!!

Sérgio

Álcool gera violência


O drama de Adriano ganha visibilidade graças à posição que ocupa no esporte mundial. Ídolo do futebol, o Imperador tem protagonizado tristes episódios de violência. A mais recente ocorreu na Favela Vila Cruzeiro, no Rio. Briga com a namorada tornou-se caso de polícia. Ao voltar ao Flamengo depois de 11 dias de falta aos treinos, confessou à presidenta Patrícia Amorim que precisava de ajuda. A razão: dependência de álcool.

Não é de hoje que se chama a atenção para os riscos do álcool. A droga é combustível para a violência. Apesar do perigo que representa, porém, é socialmente aceita. Em família, não há mal em abusar de vinho, cerveja, vodca ou cachaça. É comum pais permitirem que filhos “provem” a bebida. A publicidade recorre a astros e estrelas da televisão, da música ou do esporte para divulgar as vantagens de beber. O glamour e o sucesso são a tônica. Advertência para consumir com moderação tropeça na subjetividade. O significado do substantivo para uns não é o mesmo para outros.

O alcoolismo, apontado pelo Ministério da Saúde como um dos principais responsáveis pelos óbitos decorrentes de doenças do aparelho circulatório, associa-se a histórias de violência. O trânsito serve de exemplo. Tragédias do asfalto se devem muito mais a falhas humanas que mecânicas. Buraco nas estradas, má sinalização, falta de acostamentos são menos culpados do que se alardeia. A questão é mundial. Nos Estados Unidos e em países da União Europeia, cerca de 40% dos acidentes envolvem alguém alcoolizado — pedestre ou motorista. Nos fins de semana, o índice dispara.

No Brasil faltam pesquisas definitivas. Mas estima-se percentual semelhante. Associar álcool e direção acarreta três problemas. Um deles: o motorista perde o reflexo. Reagir tardiamente aumenta o risco de acidente. A 60km, a demora de um segundo permite que o carro ande 17m. Outro: a pessoa muda o comportamento. Sobretudo negligencia perigos. Atenção e limite de velocidade perdem importância. O último mas não menos importante: o bêbado tem menos chance de sobrevivência — ou porque o organismo reage mal aos medicamentos, ou porque o indivíduo relaxa no papel de autoajuda.

A violência familiar, como prova Adriano, tem também estreita relação com o álcool. Pesquisas provam que agressões ocorrem três vezes mais em casas onde a bebida está presente. Em 83% das ocorrências registradas, a bebida é o principal motivo da barbárie porque rebaixa a crítica e aumenta a agressividade. Impõe-se esclarecer a população para o perigo da droga social. Campanhas de esclarecimento devem ganhar espaço crescente na mídia. Escolas, igrejas, clubes sociais e de serviços precisam empenhar-se na luta contra a banalização do mal que destrói famílias e ceifa vidas.

Mulheres à deriva

Danielle Martins Silva
Dario Jardim Cruvinel
Mariana Fernandes Távora
Tiago Alves de Figueirêdo
Promotores de Justiça
Chico Buarque, com singular sensibilidade para a leitura da alma feminina, brindou a MPB enaltecendo as qualidades do amor de Lúcia, personagem da Ópera do malandro: um homem de jeito manso, que roubava os sentidos e violava os ouvidos da mulher amada com segredos e delicadezas infinitas.

No entanto, outras tantas Carolinas, Cecílias e Joanas brasileiras, menos afortunadas, têm os corpos e almas violados pelos parceiros, com uma brutalidade que tem por objetivo roubar-lhes a dignidade, a integridade física, a altivez e a capacidade de reação. Isso quando não lhes rouba a vida.

O STJ decidiu, em 24/2/10, que, em casos de violência doméstica, é preciso manifestação da mulher agredida para que o agressor seja punido. A mensagem foi clara: a família, para o Judiciário brasileiro, deve preservar-se a qualquer custo, mesmo que às expensas das mulheres agredidas e já quebrantadas em sua vontade e dos filhos constantemente expostos à violência.

É certo que a questão da violência doméstica é por demais complexa para ser reduzida a temas exclusivamente jurídicos, e o direito penal está longe de ser a panaceia dos males sociais. No entanto, continua a ser um instrumento de tutela imediata de bens muito caros ao direito, como a vida, a dignidade e a integridade física das pessoas. A Lei Maria da Penha, em grande parte ultrajada pela decisão do STJ, trouxe um leque de opções de atuação estatal em favor da mulher, tais como a possibilidade de decretar a prisão preventiva do agressor e deferir medidas protetivas, desonerando as vítimas da difícil decisão de processar ou não os algozes companheiros.

A decisão do STJ implica negativa de acesso à Justiça a grande contingente de mulheres vítimas de violência doméstica. É provável que se esteja vivendo a maior discriminação institucionalizada da história democrática brasileira, pois a não atribuição ou a supressão de direitos, por parte das instâncias formais de controle social, é uma das formas de negar visibilidade a determinado grupo, de negar-lhe poder.

Na violência doméstica, há crenças no sentido de que as mulheres agredidas vivem sempre sob a dependência econômica dos companheiros, ou que a violência ocorre por causa do consumo de álcool, quando esse é apenas catalisador de comportamentos, não seu determinante. Há crenças também no sentido de que as mulheres gostam ou merecem apanhar (porque provocam os agressores). Enfim, há uma série de verdades de senso comum muito difíceis de serem desconstruídas por trás desse fenômeno tão corriqueiro em todo o mundo, em todas as classes sociais, sob uma matriz comum: a crença de que um gênero (masculino) é superior a outro (feminino).

Quando a relação não é de igualdade, mas de superioridade, não há amor, não há troca, não há crescimento. Sem igualdade, o ser é apenas uma fração do que poderia ser, porque será apenas aquilo que alguém dele espera e exige (obediência e submissão). Como acreditar no amor construído sob a égide da submissão e da violência (física ou psíquica), a pior face da desigualdade?

A felicidade nesses termos é algo bastante questionável. Não haveria problema caso o direito jamais tivesse que se ocupar do que se passa no interior da uma família construída sobre essas bases, pois cada um vive a felicidade possível. Porém, uma vez noticiada a agressão, o que resta aos agentes públicos e políticos? Dizer que a “harmonia familiar”, que a felicidade deve ser preservada? Que cabe apenas à mãe decidir se os filhos continuam ou não a ser espectadores da violência no lar?

Argumenta-se que não se pode retirar da mulher o poder de escolha entre punir ou não o agressor. Interessante observar que sempre que o Estado circunscreve um grupo inferiorizado socialmente a uma determinada gama de direitos (e não a todos eles), a pretexto de respeitar a autonomia desse grupo, o faz para garantir que ele permaneça apático e controlado. A autonomia dos judeus, após serem confinados nos guetos, por exemplo, era respeitada na Alemanha nazista.

Resta aos esperançosos e aos irresignados a crença na sabedoria de Norberto Bobbio, notabilizada pelo estudo da história das sociedades, de sua política e seu direito: “Precisamente porque esses preconceitos interpostos entre o homem e a mulher dizem respeito à metade do gênero humano e não apenas a pequenas minorias, é de considerar que o movimento pela emancipação das mulheres e pela conquista, por elas, da paridade de direitos e condições, seja a maior – eu estaria mesmo tentado a dizer a única – revolução do nosso tempo”.

Pinceladas

Por Jane Godoy
Com Sophia Wainer
janegodoy.df@dabr.com.br

du Gomes/CB/D.A Press – 15/4/09

· A educadora Cristina Del’Isola (foto), mãe da saudosa Maria Cláudia, será homenageada hoje, às 15h na Biblioteca Demonstrativa de Brasília pelo Dia Internacional da Mulher. Cristina desenvolve um importante trabalho solidário, com a criação de um movimento, com ajuda de familiares e amigos, que batizou Maria Cláudia pela paz. A homenagem coincide com o recomeço das atividades do Grupo de Atualização da Mulher.

Elvis não morreu!

Luiz Fernando Oderich

Ilustríssimo Senhor Doutor Juiz de Direito

Varal de Execução Criminal,

Permita-me apresentar-me. Sou Elvis Ferreira Meireles e, como dá para perceber, Elvis não morreu. Desde os cinco anos de idade tenho uma bala na cabeça, que não pode ser operada, o que me deixou condenado, eternamente, à cadeira de rodas. Tenho vinte anos, moro no Rio de Janeiro, freqüentei escolas públicas, fazendo apenas provas orais, pois não consigo escrever.

Estive em Brasília, no dia 8 de março de 2005, entregando um abaixo assinado com 1.200.000 assinaturas, pedindo mudanças urgentes na legislação penal. Fui junto com o pessoal do Gabriela – Sou da Paz. Lá ouvi muitas vezes ser pronunciada a palavra Justiça, embora não entenda muito bem o que ela signifique. Ouvi também uma frase poderosa: todos nós somos iguais perante a lei. Por isso, resolvi lhe escrever.

A igualdade que pleiteio é a de ser tratado como criminoso e não como vítima. Necessito de fisioterapia permanente e, meu deslocamento em cadeira de rodas, pelos ônibus dessa cidade, torna-se uma provação, para mim, para meus familiares e para as pessoas que se comovem com minha situação e me ajudam. Gostaria de receber, como os presos, transporte gratuito e exclusivo, com acompanhamento de um funcionário público para me ajudar e de horário privilegiado na assistência médica.

D´outra sorte, se somos como diz a lei, todos iguais, gostaria de receber também o Auxílio-Reclusão, a que têm direito os presos, para ajudar seus familiares. Aqui sim, tenho certeza, posso preencher bem o espírito da lei. Tenho dificuldade de gerar renda, tenho necessidade material desse recurso e estou impossibilitado de fugir. Sou e serei eternamente recluso a essa cadeira de rodas, dela não podendo me afastar, em qualquer circunstância.

Sei que não preencho todos os requisitos para receber o benefício legal, pois não roubei, não matei, não violentei, não seqüestrei, nem pratiquei qualquer crime enunciado no Código Penal, mas conto com sua sensibilidade e militância no grupo de Direitos Humanos, quiçá minha realidade possa comovê-lo.

Nestes termos peço e espero deferimento,

P.S.: Conheci o jovem Elvis em 2005, em Brasília. Os fatos que dizem respeito a ele são verdadeiros. Todo o demais é liberdade literária e corre por minha conta.

Luiz Fernando Oderich é presidente da ONG Brasil sem Grades.

Uma chance para tentar

Há quatro anos, Fábio ficou tetraplégico. Quer chegar aos Estados Unidos, para tratamento. As possibilidades de voltar a andar são mínimas, mas ele luta para recuperar o movimento das mãos e voltar a trabalhar

  • Marcelo Abreu

  • Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
    A dependência de Fábio é diária, nos mínimos detalhes. “Não é justo fazer isso com minha família”, diz


    Corria o ano de 2005. Uma amiga de época do ensino fundamental, que há algum tempo ele não via, um belo dia, ligou. Contou o acidente de carro que tinha sofrido. Falou das suas limitações. E de como era complicado viver num mundo não feito para quem não conseguia andar. A amiga ficara tetraplégica, mas já conseguia, com muitos exercícios, movimentar um pouco braços e mãos. Pediu que ele visse, na faculdade onde estudava jornalismo, se o câmpus era adaptado para deficientes. Se havia elevador, rampas, acesso fácil aos banheiros. Prontamente, ele ouviu o desabafo da moça. Emocionou-se. Falou com os seus professores. E ligou em seguida, feliz em poder ajudar a amiga: “Pode vir sem medo. Aqui todo mundo vai te receber bem”.

    Animada, a moça foi. Comemoram juntos a chegada dela. Ele a ajudou no dia a dia. A esperança renovada, por mais difícil que fosse refazer planos. No ano seguinte, como essas voltas que a vida dá, era ele, também tetraplégico, que entrava na mesma faculdade numa cadeira de rodas. Em 2008, chegaram ao fim do curso juntos, empurrando suas pernas emprestadas.

    Junho de 2006, Copa do Mundo. Brasil e Austrália fazem o segundo jogo do mundial. A casa de um amigo no Lago Sul foi o lugar escolhido para a reunião. Fábio Grando, então com 21 anos, natural de Guaporé (RS), torcedor doente do Grêmio, frequentava o lugar e conhecia bem as dependências dele. Inclusive a piscina. O jogo prosseguiu. O calor estava grande.

    Fábio entrou na piscina.“Pulei de ponta e bati no fundo. Lembro da batida, do barulho da cabeça na piscina. Não desmaiei, fiquei consciente, mas não conseguia mais nadar”, lembra. De repente, a piscina ficou escura. Era o sangue da cabeça de Fábio. Um amigo percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Pulou na piscina para socorrê-lo. Os amigos ligaram para o Corpo de Bombeiros, que,imediatametne, chegou. Colocaram-lhe um cordão cervical e o levaram para a ambulância. “Ouvia os bombeiros dizendo: ‘Vai devagar’. Não entendia por que falavam aquilo. Eu permaneci consciente o tempo todo.”

    Ao chegar ao Hospital de Base (HBDF), Fábio encontrou os pais. “Foi quando consegui relaxar.” O rapaz foi levado às pressas para a emergência. Exames revelaram que ele havia fraturado a medula. E, na emergência do HBDF, ficou por quatro dias, à espera de uma cirurgia e posterior remoção para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor.

    Infarto
    A mãe, nutricionista, parou de trabalhar e passou a cuidar do filho dia e noite. Um dia, depois do almoço, no quarto do filho, ela se queixou: “Fábio, vomitei tudo. Não tô bem”. Jovem, então com 40 anos, check-up em dia, ela cuidava da alimentação com muita rigidez. Fábio só ouviu o barulho da mãe caindo ao lado da sua cama. Sem mover braços, pernas nem pescoço (apenas movimentava os olhos), ele não entendia o que se passava. Tampouco conseguia chamar alguém.

    Uma enfermeira, nessa hora, passou. E socorreu a mãe do rapaz que não conseguia mais nem pedir socorro. Solange Grando teve um infarto. Do Sarah, ela foi levada às pressas para o Instituto do Coração (Incor-DF). Durante o trajeto, sofreu sete paradas cardíacas. Fez cateterismo. Resistiu, sem sequelas. Passou uma semana internada. O pai dele, o comerciante Éder Grando, então com 43 anos, se dividia entre o Incor e o Sarah.

    “Se ela não fosse socorrida a tempo, se estievesse na rua, por exemplo, não teria resistido. Precisei ficar assim para salvar a minha mãe. Foi essa a grande lição que tirei disso tudo”, emociona-se Fábio.

    O infarto de Solange foi causado pelo esgotamento emocional (estresse), afirmaram os médicos. Em 10 de julho, 22 dias depois do mergulho na piscina, ele foi operado. Colocaram quatro parafusos no pescoço e uma placa de titânio para fixar a vértebra.

    No Sarah da Asa Sul, Fábio ficou internado por quatro meses. Voltou para casa, com um colar cervical e numa cadeira de rodas. “O pior momento pra mim foi quando me colocaram nela (na cadeira de rodas). Aí, comecei a perceber o tamanho das minhas limitações”.

    Estados Unidos
    Começou 2008. Ele voltou à faculdade. Terminou o curso de jornalismo. Sentiu o que sua amiga cadeirante sentia. Formou-se e nunca pôde exercer a profissão. Não consegue ainda mexer as mãos nem as pernas.

    A mãe parou de trabalhar de vez. Cuida dele 24 horas. “O que me angustia é essa dependência”, resume.

    É por isso que hoje, aos 25 anos, ele tenta chegar a San Diego, nos Estados Unidos. Quer uma vaga no Project Walk — tratamento desenvolvido por um fisioterapeuta daquele país que se baseia na repetição dos movimentos, no método de pilates. “Quero tentar pelo menos mexer um pouco as mãos, ser mais independente, para voltar a trabalhar (antes, ele estudava e trabalhava como assessor de imprensa).“Aí, as pessoas me perguntam: ‘Mas você só quer isso?’ Isso já seria muito. Queria retomar minha vida. Deixar minha mãe desobrigada de me levar ao banheiro, me dar banho e até água na boca. Não é justo o que ela, o meu pai e meu irmão têm passado por mim”.

    O tratamento custará US$ 55 mil (cerca de R$ 112 mil). Os amigos que não foram embora se organizam em festas para arrecadar a quantia necessária. Há 20 dias, a campanha Bora, Fabito! foi lançada. Folderes espalhados pela cidade. “Já arrecadamos R$ 3,9 mil. Equivalem a sete dias do meu tratamento”, contabiliza Fábio, cheio de motivação, no blog que criou para contar sua história e luta. “Vou agradecer a cada pessoa que me ajudou.”

    Mesmo que nunca mais ande, o que ele quer e sonha é apenas mover as mãos, abrir os dedos, para empurrar sua própria cadeira. Beber água sozinho, escrever sem ajuda do adaptador. Acenar para um amigo na rua. Pouco, muito pouco, para quem não tem ideia disso. Muito, demasiadamente muito, para quem precisa de tão pouco.
    SOLIDARIEDADE// Quer ajudar Fábio a tentar? Banco do Brasil – Agência: 3596-3 – Conta Corrente 9411-0 – Blog: www.fabiogrando.blogspot.com

    O santuário Maria Cláudia

    Cinco anos após a trágica morte de Maria Cláudia Del’Isola, seus pais, os professores Cristina Maria e Marco Antônio Del’Isola, ainda aprendem a conviver com a ausência da estudante. Transformaram em oratório o local onde ela foi assassinada e planejam, para a missa de quinto aniversário, uma grande homenagem aos que os acompanham nessa dor.
    Fé que ressuscita


    Para a missa do quinto ano da morte de Maria Cláudia Del’Isola, os pais da estudante preparam uma grande homenagem a todos que caminharam com eles nessa dor. Voltaram para casa e, no local onde a filha foi assassinada, construíram um oratório

  • Marcelo Abreu
  • Fotos: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press
    Os pais de Tatinha admiram as imagens sagradas: local do assassinato

    O Natal de Marco Antônio e Cristina Maria nunca mais será o mesmo. No espaço decicado à filha, fotos da estudante. O sorriso bonito que marcou sua vida de 19 anos. A avó, até hoje, não entendeu a perda da neta

    Eles passaram 30 meses fora do lugar onde um crime chocou Brasília e o país. Mas estiveram do outro lado da rua, sempre perto, numa casa alugada. Há um ano e meio, decidiram voltar. E transformaram o ambiente. Pintaram paredes com cores mais claras. Mudaram portas. E no piso inferior, perto da piscina, no lugar onde a cena brutal foi consumada e a filha caçula viveu seus últimos e piores momentos (foi assassinada pelo caseiro e pela empregada e enterrada dentro da própria casa), um oratório foi construído. Imagens de Nossa Senhora, anjos, santos, terços, uma Bíblia aberta. E a foto enorme dela — de Maria Cláudia Del’ Isola, a Tatinha, a moça que estudava psicologia e pedagogia, amava as pessoas, sentia prazer em viver e havia acabado de completar 19 anos.

    Assim que se entra no oratório, chamado Sorriso de anjo, sente-se uma sensação boa de paz. Do alto e no meio de uma grande estante de madeira, a imagem de Jesus Cristo parece receber quem ali chega. Ao lado, ao fundo, um banner com a fotografia de Maria Cláudia. Ela sorri, com o sorriso encantador que marcou todos que a conheceram. “Eu perdi a graça em tudo. Ela era a alegria em pessoa”, diz, em lágrimas, a avó materna Fernanda Magalhães Grangeon, 80. E repete, enxugando o choro que escorre há cinco anos: “A gente se conforma porque tem fé, mas é muito difícil”.

    Cinco anos depois da tragédia que marcou a cidade, os pais de Maria Cláudia, os professores Cristina Maria, 51, e Marco Antônio Del’Isola, 54, abriram, com exclusividade, as portas da casa, na QL 6 do Lago Sul, ao Correio Braziliense. Na manhã chuvosa da última quinta-feira, eles falaram de uma dor que dói todos os dias. Dor que sangra. Arrebenta. E estrangula. Contaram como sobreviveram até aqui. Do pior momento: encarar os assassinos da filha, no julgamento. E reveviver detalhes que jamais gostariam de lembrar. De onde buscam forças. E do resgate que o Movimento Maria Cláudia pela Paz foi capaz de promover em suas vidas.

    Diante da primeira e inevitável pergunta, aquela que faria compreender o fato de a família ter voltado para a mesma casa, Cristina Maria, com voz pausada e olhos enternecidos, às vezes olhando para o infinito, responde: “Voltamos principalmente por ela. Precisávamos voltar. Queríamos transformar toda uma dor em alento e luz”. E fala por ela mesma: “O meu tempo nessa casa é o tempo de Deus”.

    Voltaram. E ali, a cada dia 9 de todo mês, é feita uma oração pela vida e pela paz. O movimento, uma entidade de caráter filantrópico, criado em 8 de março de 2005, pela família, parentes e amigos, hoje congrega mais de 500 voluntários cadastrados. Gente de todos lugares de Brasília e do país. Gente de todas as camadas sociais com histórias de perdas ou não, com vontade de ajudar outras pessoas, transformar, falar de dor, superação, vida e fé — seja ela de que credo for.

    Ao longo do ano, o movimento atua em asilos e instituições com crianças e adolescentes carentes. Perto do Natal, atravessa Brasília de ponta a ponta para levar esperança e um pouco de alento a quem nada tem. Marco Antônio engole a dor e se veste de Papai Noel. Disfarça as lágrimas e sorri para crianças que acreditam que aquele velhinho de barba branca e saco cheio de presentes realmente existe. Hoje, o movimento fará a grande festa de Natal do Instituto Nossa Senhora da Piedade, para as crianças e suas famílias atendidas ali.

    Foram essas ações, com a fé inabalável, o que salvou Marco Antônio e Cristina Maria. A casa dos Del’Isola — palco de um cruel assassinato — se transformou num lugar de oração e esperança. É por isso que os dois sobreviveram. “Costumo dizer que a dor do parto é enorme. Mas é uma dor que dá a possibilidade de trazer a vida. E ela passa. A dor de perder um filho é definitiva. Nunca será normal um filho ir na frente dos seus pais. Viola a lei de todo ser vivo”, desabafa a mãe. O pai, com serenidade comovente, emenda: “É uma dor eterna. Nossos dias têm sido de altos e baixos”.

    Saudade

    Depois que Maria Cláudia morreu, meses seguintes, as duas cadelas da família morreram de câncer. Deprimiram-se e definharam a olhos vistos. Uma delas, a boxer Kiara, a que estava na casa havia dois anos e 10 meses e era mais ligada a Tatinha, parece ter presenciado toda a agonia da estudante. “Quando eu cheguei em casa e ainda não sabíamos do crime, ela me levava ao fundo do quintal. Acho que tentava me apontar alguma coisa”, lembra Cristina Maria. E continua: “Depois, soubemos que ele (o assassino) revelou em depoimento que a Kiara tinha atrapalhado durante o crime. Ela tentou defender minha filha”.

    O silêncio e a dor invadiram aquela casa. Dilacerados e aconselhados por amigos, decidiram sair do lugar que lutaram para dar o conforto à família. Alugaram uma casa no mesmo conjunto, do outro lado da rua. A presença de Maria Cláudia apenas mudou de endereço. Ela estava nas fotografias, no cheiro, nos objetos pessoais. “A saudade vem de uma forma muito interna. Vem nos momentos em que acordo de madrugada, revendo fotos e relembrando tudo que vivemos juntas. Aí, vejo que preciso intensificar minhas orações e minha fé”.

    Marco Antônio revela: “Não tem um único dia em que não pense nela. O que nos conforta é acreditar que nossa filha foi acolhida junto ao Pai”. Maria Cristina, novamente olhando para o infinito, diz: “Maria Cláudia não voltou em vão. Ele vive em plenitude”. A tia-avó, Georgete Magalhães, 90, que mora em Salvador, mas veio a Brasília especialmente para a missa do quinto ano, é a personificação da dor: “Não entendo como Deus permitiu que ela vivesse 19 anos e morresse dessa forma.” Um silêncio se faz por instantes naquela sala de paredes claras, rodeada de porta-retratos de Maria Claudia sempre sorrindo.

    Tudo mudou na vida do casal Del’Isola. Até os ponteiros do relógio. “O tempo de quem passa por uma dor como essa começa a ser contado diferente. Foi preciso trazer algum benefício dessa dor”, ela reflete. Fernanda Del’Isola, hoje com 26 anos, estava no hospital — em decorrência de um problema no coração — quando a irmã caçula foi assassinada. Em cadeira de rodas, foi ao enterro. Agora filha única, iniciando o mestrado em arquitetura, Fernanda fez-se forte. Mostrou aos pais que todos deveriam sê-lo. Ano que vem, vai se casar. “Ela tá preparando, em mosaico, uma lembrança para todas as madrinhas (do casamento)”, conta Cristina Maria, pela primeira vez sorrindo durante a entrevista.

    Celebração

    A fé ressuscitou os Del’Isola. Permitiu que eles seguissem, mesmo com a dor que dói todos os dias. “O Movimento Maria Cláudia pela Paz não é da família ou dos parentes da minha filha. É de todas as pessoas que são alimentadas por essa causa”, diz Cristina Maria. Encorajados por ele, na próxima quarta-feira, 9, irão se reunir no Lago Sul, para a missa do quinto ano da morte de Tatinha.

    A mãe explica que essa celebração, em especial, tem uma grande motivação: “É um louvor à vida. Iremos agradecer aos nossos amigos, que nos fortaleceram com a presença, em pensamento e oração. O apoio veio de todas as crenças e esse foi o nosso grande ensinamento”. Comovida, olhando para a foto da filha, Cristina Maria conclama: “Estou pedindo para que as pessoas não deixem de ir. No final, haverá uma homenagem a todas elas”.

    No oratório, o casal se dá as mãos. Olha para o Cristo crucificado. Tudo é silêncio e dor. Dor tatuada nos olhos, no coração e na alma de Cristina Maria e Marco Antônio. Nem todo o tempo do mundo dissipará essa dor. Nem as horas serão capazes de amenizar. Mas, ainda assim, há um alento, que veio com a fé. Em pedaços, cortada por dentro, a vida do pais de Maria Cláudia precisou continuar. Tatinha pede isso a eles, todos os dias, quando sorri nas fotos espalhadas pela casa onde morreu.

    SOLIDARIEDADE
    Missa do quinto ano de morte de Maria Cláudia Del’Isola — Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima, dia 9/12 – 19h30, na SMDB QI 17, Área Especial.

    Assassino de médico vai a júri popular no Fórum do Paranoá


    O fazendeiro Flávio Parente Macedo sentará no banco dos réus do Tribunal do Júri, no Fórum do Paranoá, dia 23 próximo, pelo assassinato do médico Fábio Henrique de Oliveira (foto), à época com 41 anos. O crime ocorreu em 27 de agosto de 2006, no condomínio Ville de Montagne, no Paranoá. O médico não teve a mínima chance de defesa. Depois de levar golpes de cassetete na cabeça, Fábio Henrique recebeu dois tiros no peito, quando já não tinha condições de reagir. A vítima e sua namorada, a enfermeira Rosineide Martins da Silva, retornavam de uma viagem a Belo Horizonte, onde faziam um curso de especialização em dermatologia. Ambos foram surpreendidos pelo fazendeiro, que estava escondido dentro da residência à espera do casal. Não houve tempo para muita discussão. Fábio foi agredido e, em seguida, alvejado.
    Além de executar o médico, o fazendeiro Flávio Macedo espancou a enfermeira Rosineide da Silva e abusou sexualmente da sua filha, uma adolescente de 15 anos. Flávio foi casado, por nove anos com a enfermeira, e há cinco estavam divorciados.
    Depois do crime, o fazendeiro colocou a enfermeira e a adolescente no carro e seguiu em direção a Valparaíso de Goiás. No caminho, a ex-mulher insistiu que precisava de atendimento médico, porque sentia muitas dores. Flávio Macedo parou, por volta das 3h, na emergência do Hospital Santa Lúcia, no fim da Asa Sul. Enquanto a enfermeira era atendida, Flávio ameaçou a adolescente. Mataria sua mãe caso contasse a alguém o que havia ocorrido. No hospital, a enfermeira contou ao médico o que tinha ocorrido. O medico pediu a confirmação da adolescente, que negou a versão da mãe. À saída da clínica, por volta das 6h30, Rosineide aproveitou do fato do fazendeiro estar dormindo no banco de espera, foi ao banheiro com a filha, de onde ligou para pai da jovem, o policial civil Wellington Luiz de Souza. Mas quando o policial chegou ao hospital, o fazendeiro Flávio Macedo havia fugido
    Por mais de dois meses, Flávio Macedo ficou longe do alcance da polícia no interior de Goiás. Mas acabou se entregando. Em janeiro de 2007, o Ministério Público denunciou o fazendeiro à Justiça pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, lesão corporal grave, atentado violento ao pudor e tentativa de ocultação de cadáver. Em julho do mesmo ano, a 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, por unanimidade, decidiu que o fazendeiro deveria ser julgado pelo Tribunal do Júri.

    À espera de justiça
    A mãe do médico Zilda Lara de Oliveira buscou orientação na Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-Vitima). Ela levará para o tribunal um conjunto de depoimentos sobre a vida de seu filho, que atuava em comunidades carentes do Distrito Federal e no município de Santo Antônio do Descoberto, onde participava do projeto Conte Comigo.
    “Ele era uma pessoa dedicada, sempre pronta para ajudar a quem precisasse, principalmente os idosos”, lembra Zilda, confiante na condenação do assassino do seu filho.
    Ela reconhece que a punição do fazendeiro não trará seu filho de volta, mas acredita que a Justiça deve ser implacável para inibir a violência. Para o julgamento, são esperadas dezenas de pessoas, boa parte delas ex-pacientes do médico Fábio de Oliveira. Nos depoimentos gravados por Zilda, homens e mulheres falam emocionados sobre a atuação do jovem médico, compromissado com os menos favorecidos.
    “Quando um paciente precisava de internação, meu filho carregava no próprio carro e batia de porta em porta dos hospitais até conseguir o atendimento necessário”, recorda, com orgulho, Zilda de Oliveira.
    Além da perda violenta do filho, Zilda chora também a morte do marido. Segundo ela, desde o assassinato de Fábio, o marido não conseguiu superar o sofrimento. “Ele já não tinha a saúde muito boa e depois do assassinato do Fábio, meu marido foi definhando e, há quatro meses, morreu”, conta.