Desempregada oferece serviços de beleza em troca de comida no DF

Sem trabalho fixo há duas semanas, Milene Alves Silva, moradora de Ceilândia, precisa de dinheiro para alimentar as duas filhas pequenas

Milene, Alice e Ester Alves Silva

Milene Alves Silva, 20 anos, está desesperada. Desempregada desde 26 de julho, quando não teve o contrato de auxiliar de serviços gerais renovado, a jovem passou a oferecer serviços para arrumar o cabelo ou as unhas em troca de comida e fraldas. Ela precisa de recursos para as filhas Ester, 3 anos, e Aline, 2.

A ideia surgiu no último dia 2. Depois de entregar o currículo em vários lugares e não ter recebido resposta, Milene decidiu divulgar suas especialidades nos quatro grupos do bairro de Ceilândia em que mora, o P Sul. “Foi a saída que encontrei para tentar conseguir me sustentar. Como sei que muita gente acaba não querendo pagar pelos serviços, mesmo quando eu cobro R$ 10, que não paga nem os produtos, ofereci a troca por alimentos”, conta.

Autodidata, ela diz que nunca teve dinheiro para pagar algum curso de aperfeiçoamento. Todo o conhecimento, tanto para fazer as unhas quanto para cuidar de cabelos, foi adquirido em vídeos na internet. “Fui aprendendo sozinha. Testava na minha mãe e na minha irmã até pegar a prática e me sentir segura para fazer em outras pessoas.”

A necessidade de trabalhar veio logo aos 16 anos, quando teve a primeira filha, Ester. Além dos serviços de beleza, ela chegou a trabalhar como balconista em uma padaria e, mais recentemente, trabalhou por três meses como auxiliar de serviços gerais. “Infelizmente, depois que passou o período de treinos, eu e a maioria das pessoas fomos dispensadas. Nesse momento estou desesperada”, conta.

Com o marido também desempregado e o aluguel vencido desde a última quarta-feira (07/08/2019), Milene não vê outra saída que não deixar o pequeno imóvel onde mora. “A solução é eu voltar com minhas filhas para a casa da minha mãe e meu esposo para a dele. Vamos ficar longe um do outro, mas é o jeito de conseguirmos economizar”, explica.

A mudança, no entanto, não será fácil. De acordo com a mãe dela, Marlene Alves Veloso, 47, na casa não cabe mais ninguém. Também desempregada e sobrevivendo com apenas R$ 200 por mês – valor referente à pensão que recebe –, ela não sabe como será possível sustentar todos. “A situação já está complicada e vai ficar ainda mais difícil. Quem me ajudava era a Milene, que comprava o gás e me dava R$ 100.”

Milene, Alice e Ester Alves Silva

Necessidade
Mesmo tendo conseguido várias curtidas e comentários positivos nas postagens que fez, Milene conta que, até o momento, apenas três pessoas marcaram com ela. “Uma cliente trouxe algumas verduras, outra pessoa fez a doação de alimentos. Até agora, foi isso”, resume.

Apesar de ser grata pela ajuda, o que ela arrecadou até agora é muito pouco. Sem gás em casa há três semanas e recebendo do açougue carne que seria descartada aos cachorros, ela não sabe o que pode fazer caso mais pessoas não se interessem pelo trabalho dela. “Até a lâmpada da sala já queimou e não a trocamos. Preciso de arranjar algo o mais rápido possível”, diz.

Quem estiver interessado na prestação de serviços de Milene pode entrar em contato com a jovem por meio do número (61) 99659-6800.

Fonte: www.metropoles.com

 

Quase um terço das vítimas em acidentes fatais conduziam motos

Quase um terço das vítimas em acidentes fatais ocorridos neste ano conduziam motos. O crescente número de pessoas fazendo entregas por meio de aplicativos preocupa o Detran

A série histórica de acidentes de trânsito com mortes no Distrito Federal traz dados preocupantes para motociclistas. Apenas no primeiro semestre do ano, 44 morreram nas vias da capital, 30,5% das vítimas em acidentes fatais. Neste século, o pior índice de um ano inteiro ocorreu em 2017, quando 26,37% das colisões vitimaram motociclistas. Só os pedestres morrem mais do que condutores de motos. Os dados são do Departamento de Trânsito (Detran-DF).

Apaixonado por moto, Audinei Freire gostava da liberdade de dirigir sem pegar engarrafamentos nem precisar sair de casa horas antes do trabalho, como pedreiro. “Nós dois tínhamos acabado de ter uma filha, em 2015, quando recebi a notícia de que um carro tinha batido nele e o meu marido não tinha resistido”, lembra a viúva, a técnica de enfermagem Luciene de Carvalho, 21 anos. Audinei tinha 18.

O bebê do casal tinha oito meses quando o pai morreu. “Depois do nascimento dela, pedi muito para que ele comprasse um carro e a gente pudesse ficar mais tranquilo, até porque o Audinei já tinha caído e se machucado, mas a moto era uma praticidade grande que ele tinha, por morar em Santo Antônio do Descoberto (GO) e trabalhar no Lago Norte, na Asa Sul e em outras cidades de Brasília”, conta Luciene.

Para a técnica de enfermagem, atitudes de conscientização poderiam diminuir de forma considerável o número de acidentes. “Parece que os motoristas dos carros têm raiva dos motoqueiros e vice-versa. Mas, no trânsito, não pode ser assim, tem que existir respeito e cuidado com o outro condutor”, defende.

Um pedido recorrente dos motociclistas são faixas exclusivas, de acordo com Luiz Carlos Galvão, presidente do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do DF (Sindmoto-DF). “Há anos temos essa reivindicação, mas todos os que já foram responsáveis pela mobilidade do DF prometeram projetos que não saíram do papel”, lamenta. Algo que vem dando certo e poderia ser ampliado, na visão de Luiz, são os bolsões para motoqueiros na frente dos carros, em semáforos. “Isso impede que a gente fique parado nos corredores e deixa o trânsito mais seguro e fluido”, afirma.

Trabalho arriscado
O número de motoristas que usam o próprio veículo para trabalhar aumentou com o surgimento de empresas de transporte por aplicativo. Motociclistas que fazem entrega de comidas e outros produtos, por exemplo, são constantemente vistos no trânsito sem cumprir as especificações necessárias para o serviço. De acordo com o Artigo nº 139 do Código Brasileiro de Trânsito, que fala sobre o motofrete, é necessária uma autorização do Detran para o transporte remunerado de mercadorias. “Muita gente sem emprego recorre a esse meio, sem as condições necessárias para isso, o que acaba aumentando a estatística de mortes. Para realizar entrega, o motociclista deve cumprir regras, como ter mais de dois anos de habilitação, mas tem muita gente que nem tem carteira dirigindo, porque não há fiscalização necessária”, opina Galvão Luiz.

O diretor de Educação de Trânsito do Detran-DF, Marcelo Granja, reconhece o problema. “O crescimento de entregas por aplicativos tem feito com que a gente pense em novas estratégias de conscientização e fiscalização. Há normas de segurança que são colocadas para preservar a vida do motociclista. A moto tem que ter um registro específico e o entregador deve ter curso necessário, por exemplo”, observa.

Marcelo também cita que a forma como são transportados os produtos causa vários acidentes, pois muitos motociclistas usam mochilas de grande peso, em vez do baú acoplado à moto. “Isso desequilibra o condutor, causa derrapagens e acidentes graves. Fazemos bons trabalhos de conscientização em múltiplos setores, tanto que temos obtido bons resultados com pedestres e outros motoristas, mas ampliaremos ainda mais as fiscalizações com os motociclistas.”

O que diz a lei
» Segundo o Artigo nº 139 do Código de Trânsito, “as motocicletas e motonetas destinadas ao transporte remunerado de mercadorias — motofrete — somente poderão circular nas vias com autorização emitida pelo órgão ou entidade executiva de trânsito dos Estados e do DF (Incluído pela Lei nº 12.009, de 2009)”. No DF, a autorização é obtida no Curso de Formação para Motofrete. O interessado deve ter mais de 21 anos; ser habilitado, no mínimo, há dois anos na Categoria A; não estar cumprindo penalidade de suspensão ou cassação do direito de dirigir, bem como não estar impedido judicialmente de exercer o direito de dirigir; ter realizado o Curso de Formação para Motofrete.

Fatalidade
Confira as vítimas de acidentes com morte no primeiro semestre de 2019:

Pedestres: 55
Motociclistas: 44
Passageiros: 18
Ciclistas: 10
Demais condutores: 10

Idade das vítimas

Até 9 anos: 3
De 10 a 19 anos: 3
De 20 a 29 anos: 25
De 30 a 39 anos: 38
De 40 a 49 anos: 27
De 50 a 59 anos: 24
60 anos ou mais: 21
Não informada: 3

Batida fatal em Santa Maria

Um motociclista de 31 anos morreu após colidir com um caminhão Santa Maria, às 7h30 desta quarta-feira (31/7), na DF-290, no Polo JK. Duas viaturas e oito militares foram acionados para participar do atendimento, mas Igor Pereira de Jesus morreu na hora. O motorista do caminhão, de 40 anos, não se feriu e prestou depoimento à Polícia Civil. Uma perícia realizada no local vai determinar a causa do acidente. A motocicleta colidiu contra o parachoque traseiro do caminhão.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Artista do DF quer deixar de viver nas ruas por meio de seus quadros

Querendo recomeçar, o jovem está usando a arte para mudar de vida

Weverton Moura teve uma vida conturbada. Após a mãe falecer, em 2012, o jovem deixou de ter esperanças e perdeu o sentido da vida. Entrou de cabeça no álcool e nas drogas e acabou na rua. Porém, desde o início de 2019, está procurando melhorar de vida e, com talento para arte, começou a pintar quadros para vender na capital federal.

“Eu comecei a desenhar aos 10 anos. Sempre pegava produtos da minha mãe e saia fazendo ilustrações. Depois que ela faleceu, fiquei desmotivado com a vida. Larguei tudo o que tinha e saí de casa. Mas, no início deste ano, encontrei um projeto para moradores de rua e decidi mudar o meu futuro. Parei de beber, de usar drogas e voltei a pintar”, disse Weverton.

Brasília (DF), 26/07/2019 Artista morador de rua Weverton Moura apresenta um pouco do seu trabalho com pintura e spray Foto: Raimundo Sampaio/Esp. Metrópoles

Com aptidão, o jovem viu seu dom ser reconhecido. “No colégio em que eu estudava, tinha aula de artes. Lá, comecei a pintar e a professora notou que eu era bom. Há cerca de um mês, comecei a fazer os quadros e consegui vender alguns. Inclusive, já tive até proposta de encomenda do Rio de Janeiro”, revelou o artista.

Além de quadros, Weverton trabalhou com cerâmica e grafite. “Pintei em alguns lugares aqui de Brasília. Se você passar pela Ponte JK ou pela Costa e Silva, por exemplo, vai encontrar alguns desenhos que fiz nos suportes delas.” O pintor expõe seus quadros de segunda a sexta-feira, à noite, na Quadra 4 do Setor Comercial Sul. Aos finais de semana, ele está em frente ao Parque da Cidade. O valor? R$ 100 para os quadros grandes e R$ 30, os pequenos. Quem quiser entrar em contato com Weverton basta ligar para o número (61) 99530-9740 ou (61) 99672-8153.

Recomeço

Weverton decidiu mudar de vida após conhecer o projeto do apresentador Rogério Barba. Ele também foi morador de rua por 30 anos e começou seu tratamento de reabilitação em 2014. Ficou por cerca de 1 ano e 6 meses no Missão Batista Cristolândia, que tem como objetivo tratar dependentes químicos. Após esse período, recomeçou e decidiu ajudar novas pessoas.

“A ajuda ao Weverton não é de agora. Ele nos procurou e disse que queria sair das ruas. Então, desde o início deste ano, nós estamos auxiliando ele. Notamos uma melhora e decidimos investir em seu talento. Ficamos sabendo que ele pintava e compramos tintas e algumas telas. Mas não é tão fácil conseguir o material, porque é um pouco caro. Por isso, começamos uma campanha para ajudar a divulgar seu trabalho”, contou Rogério.

Projeto

Pouco tempo depois da sua recuperação, Rogério Barba criou o projeto Coletivo Barba na Rua. Ele ajuda a comunidade sem-teto com cultura e lazer. Além de promover jogos de futebol, Barba compra produtos para os moradores venderem e também disponibiliza um ônibus com chuveiros para eles tomarem banho.

Barba disse que mais de 100 pessoas já receberam ajuda para sair das ruas, voltar a suas cidades de origem e restaurar a vida. “Quando a pessoa nos procura e diz que quer mudar, nós começamos a investir nela. Encaminhamos para locais de trabalho, para casas terapêuticas, compramos mercadorias para eles venderem e, até mesmo, ajudamos com passagens de ônibus. Porque muitos não são aqui do Distrito Federal”, revela Rogério.

Barba age em parceria com a organização não governamental (ONG) Futuro Esperança, que, além dos banhos, também ajuda com alimentação. Os participantes e voluntários distribuem comidas e organizam os eventos do programa. A ação ajuda diversos moradores e costuma acontecer aos sábados, no Setor Comercial Sul. Qualquer um pode participar e se tornar um voluntário.

Fonte: www.metropoles.com

Condenados por Maria da Penha não podem assumir cargos comissionados

De acordo com alteração na Lei Orgânica, transgressores dos estatutos do Idoso e da Criança e do Adolescente (ECA) também serão vetados

Condenados em decisão transitada em julgado, quando não há mais recurso, por crimes tipificados nos estatutos da Criança e do Adolescente (ECA), do Idoso ou na Lei Maria da Penha, ou ato que causa inelegibilidade prevista na legislação eleitoral, não poderão assumir cargos comissionados ou de confiança nos órgãos do Governo do Distrito Federal.

De acordo com a emenda à Lei Orgânica do Distrito Federal (LODF), publicada no Diário Oficial desta sexta-feira (26/07/2019), essas pessoas estão inaptas a assumir o cargo no período que vai desde a condenação até oito anos após o cumprimento da pena. A determinação altera o artigo 19, parágrafo 8º, da LODF. A medida é assinada pela Mesa Diretora da Câmara Legislativa do DF (CLDF).

Balanço
De acordo com o balanço atual de comissionados na estrutura do GDF, o Palácio do Buriti acomodou 13.324 pessoas em funções comissionadas até o final de junho de 2019. No levantamento anterior, feito em março, foram registradas 12.515 nomeações desta natureza. Ao longo de três meses, portanto, foram 809 pessoas a mais, o que dá um crescimento de 6,45%.

Do total, 53,35% são servidores concursados do GDF nomeados para funções de confiança. Os demais – 46,65% – são contratados sem vínculo com a administração pública. Foram indicados por critérios políticos, técnicos ou ambos. Na comparação com a edição anterior, existe uma tendência de aumento da nomeação de apadrinhados desvinculados com o DF. Em março, eles somavam 45,51%.

O número de comissionados na atual gestão é menor do que na anterior. No final de 2018, o ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB) deixou o GDF com 14.340 comissionados. No começo do mandato, em março de 2015, o socialista tinha nomeado 13.764 apadrinhados.

Outro lado
O Metrópoles entrou em contato com o GDF para saber o motivo da evolução do quadro de comissionados no último balanço. Em nota, o Buriti destacou: “A Secretaria de Fazenda, Planejamento, Orçamento e Gestão informa que a diferença entre o primeiro e o segundo trimestre se deu em decorrência dos ajustes necessários para a adequação da máquina administrativa, diante da necessidade de atendimento das demandas da sociedade, bem como a composição das equipes dos novos gestores”. A ideia do governo é cortar até 30% dos cargos em comissão até o fim de 2022.

 

Fonte: www.metropoles.com

Condenada pela morte de Maria Cláudia Del’Isola é copeira do GDF

Secretaria de Justiça e Cidadania informou, em nota, que Adriana de Jesus Santos tem autorização da Vara de Execuções Penais para prestar serviço externo. No regime semiaberto, ela é contratada da Funap desde outubro de 2018

Condenada pelo assassinato da estudante Maria Cláudia Siqueira Del’Isola (foto em destaque), Adriana de Jesus Santos cumpre pena em regime semiaberto e trabalha como copeira no Governo do Distrito Federal (GDF). Ela é contratada da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap-DF) desde outubro de 2018. A informação foi confirmada pela Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus).

O crime ocorreu em dezembro de 2004 e foi considerado um dos assassinatos mais bárbaros da capital da República. A Sejus informou, em nota, que a presa tem autorização da Vara de Execuções Penais (VEP) para trabalho externo.

A Funap integra a administração indireta do GDF e é vinculada à Secretaria de Justiça e Cidadania. A entidade tem como função “contribuir para a inclusão e reintegração social das pessoas presas, oportunizando melhorias em suas condições de vida por meio da qualificação profissional e oportunidades de inserção no mercado de trabalho”. Atualmente, a Funap presta serviços para outros órgãos do Executivo local, do governo federal e a três empresas particulares.

Até a última atualização deste texto, a reportagem não havia conseguido contato com a defesa de Adriana.

Morte no Lago Sul
Bernardino do Espírito Santo era caseiro da família de Maria Cláudia Del’Isola, enquanto Adriana de Jesus, sua namorada, trabalhava como empregada doméstica na mesma residência. O caso aconteceu no Lago Sul, um dos bairros mais nobres de Brasília.

A dupla foi condenada pelos crimes de homicídio triplamente consubstanciado, estupro, atentado violento ao pudor, ocultação de cadáver e furto qualificado. Preso em 2007, Bernardino Espírito Santo obteve progressão para o semiaberto em 2016. Adriana está no mesmo regime, com trabalho externo.

Antes de sair para a faculdade, a vítima foi abordada pelo casal, agredida com um soco e obrigada a informar a senha do cofre. Em seguida, foi estuprada, esfaqueada e morta com um golpe de pá na cabeça. A dupla enterrou a universitária debaixo da escada principal da residência. O corpo foi encontrado três dias depois.

Em março de 2019, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) conseguiu decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para aumentar as penas de Adriana e do outro condenado pelo crime. De acordo com a sentença inicial, as penas eram de 65 e 58 anos, que posteriormente foram reduzidas para 44 e 38 anos, respectivamente.

Após despacho do STJ proferido em 29 de março, Bernardino do Espírito Santo Filho deve receber a pena de 50 anos e 6 meses, enquanto Adriana de Jesus Santos deverá cumprir 40 anos de reclusão.

 Fonte: https://www.metropoles.com/distrito-federal/condenada-pela-morte-de-maria-claudia-delisola-e-copeira-do-gdf

No regime semiaberto, assassina de Maria Cláudia Del’Isola dá expediente no GDF


Helena Mader

Condenada por estupro, ocultação de cadáver e pelo homicídio da estudante Maria Cláudia Del’Isola, Adriana de Jesus Santos obteve a progressão para o regime semiaberto e hoje trabalha na Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal. Ela é contratada pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap). Quase 15 anos depois de um dos crimes mais chocantes da história de Brasília, Adriana conseguiu autorização judicial para o trabalho externo. Ela dorme na Penitenciária Feminina e dá expediente no GDF, mas não atua no atendimento ao público. Ela trabalha na área administrativa.

Em nota, a Secretaria de Justiça e Cidadania informou que “Adriana de Jesus Santos está no regime semiaberto e tem autorização da Vara de Execuções Penais para trabalho externo. Ela está contratada pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap) e trabalha normalmente”.

A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do DF informou que o processo de execução penal da assassina de Maria Cláudia “está tramitando em segredo de justiça, por determinação judicial”. “Dessa forma, somente podem ter acesso às informações contidas no processo a interna, sua defesa constituída e o representante do Ministério Público que atua junto à Vara de Execuções Penais”, informou o TJDFT.

Adriana de Jesus Santos preencheu as determinações legais para receber o benefício de progressão para o regime semiaberto. A Lei de Execuções Penais estabelece requisitos como o cumprimento de um sexto da pena no regime inicial e bom comportamento carcerário, atestado pelo diretor do presídio.

Barbárie
Maria Cláudia tinha apenas 19 anos quando foi morta, em 9 de dezembro de 2004, na própria casa, no Lago Sul. Os autores do crime foram Adriana, à época empregada da família, e o então caseiro, Bernardino do Espírito Santo. A dupla queria forçar a jovem a abrir um cofre. Eles imobilizaram, agrediram e estupraram a estudante. Por fim, a dupla esfaqueou Maria Cláudia e acertou a cabeça dela com uma pá. O corpo da universitária foi enterrado embaixo da escada da casa da família Del’Isola e a polícia só conseguiu localizar o cadáver três dias depois.

Em 2007, Adriana de Jesus Santos foi condenada a 58 anos de prisão por homicídio, estupro, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver. Mas, em 2010, o Tribunal de Justiça aceitou reduzir a punição da ré e excluiu a condenação por atentado violento ao pudor. Isso foi possível por conta da Lei Federal nº 12.015/09, que unificou os crimes de estupro e atentado violento ao pudor. Com isso, a pena caiu para 38 anos e três meses de reclusão.

Em abril deste ano, o Superior Tribunal de Justiça acatou um recurso do Ministério Público e aumentou novamente as penas dos réus. A pena final de Adriana foi de 40 anos de reclusão.

Fonte: http://blogs.correiobraziliense.com.br/cbpoder/no-regime-semiaberto-assassina-de-maria-claudia-delisola-da-expediente-no-gdf/

Crianças espancadas pela tia em Planaltina (GO) estão internadas

Irmãos, os três sobreviventes das agressões, praticadas por um jovem de 19 anos e uma adolescente de 17, tia delas, estão sob cuidados médicos. O casal está preso por torturar e matar a quarta vítima, que não resistiu as pancadas

Terreno onde as vítimas moravam com os agressores, na periferia de Planaltina de Goiás: barraco de madeira de 10 m² e um só cômodo(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

As três crianças sobreviventes de uma série de espancamentos, na quarta-feira (29/5), em Planaltina de Goiás, estão internadas e sob tutela do Estado. Irmãs, elas têm 1, 3 e 9 anos. Com duas fraturas no braço, a do meio apresenta o estado mais preocupante, por isso, foi transferida nesta quinta-feira (30/5) para o Hospital Regional de Planaltina, no Distrito Federal. As outras duas serão encaminhadas para um abrigo no município do Entorno após receberem alta médica. Uma quarta, de 7 anos, morreu em função das agressões.

Agora, a Polícia Civil de Goiás quer saber como as quatro crianças ficaram sob os cuidados de uma adolescente de 17 anos, tia delas, após os pais serem presos em fevereiro por tráfico de drogas. Na data do crime, ela foi apreendida, e o namorado, Bruno Diocleciano da Silva, 19, preso em flagrante por homicídio qualificado e tortura qualificada.

As crianças apanharam porque, em um ato de desespero devido ao abandono, elas pediram comida a um vizinho. Quando o casal voltou, o morador da casa ao lado chamou a atenção dos jovens por terem deixado as três meninas e o menino sozinhos. Segundo relatos das vítimas, eles chegaram a apanhar com um vergalhão de aço. Testemunhas acionaram o Conselho Tutelar, mas os tios não permitiram a entrada dos conselheiros no imóvel.

Enquanto a equipe saiu para pedir auxílio à Polícia Militar, a menina de 7 anos passou mal e teve uma convulsão. Vizinhos acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que esteve no local e constatou o óbito, além de vários sinais de violência nas crianças. Policiais militares chegaram em seguida e prenderam os agressores.

O delegado Antonio Humberto Soares Costa, coordenador do Grupo de Investigação de Homicídios, disse que o casal relatou a violência com “muita frieza” e que ela acontecia “havia algum tempo”. Ele contou que adolescente disse ter pegado as crianças na rua e levado para o Setor Aeroporto, na periferia do município goiano. “Elas (as vítimas) foram brutalmente espancadas. Como se não bastasse o que a criança de 7 anos sofreu, os tios ainda haviam deixado ela passar a noite no quintal, ao relento”, acrescentou.

Brutalidade

O Conselho Tutelar não tinha registros de ocorrências relacionadas à família, até quarta-feira. “No mesmo dia em que chegou a informação, estivemos lá”, afirmou o presidente do órgão, Antônio Freire. “Estive com as crianças e elas estão bem melhor, comendo biscoito e, cada uma, com duas caixas de chocolate. O povo da cidade está ajudando. Agora, esperamos que a família toda perca o vínculo. Aquilo não é família. As crianças tiveram, no máximo, genitores”, completou.

Um vizinho afirmou que era comum ouvir brigas, gritos e choro das crianças. Ele contou que, antes da morte da menina de 7 anos, viu a adolescente arrastá-la pelos cabelos no meio da rua. Sem aguentar tanta brutalidade, a mulher dele acionou a polícia. Além das agressões contra os pequenos, eram comuns cenas de violência entre o casal. “Gritavam, batiam-se, faltavam se matar. Eles chamavam uns malas o tempo todo. Sempre tinha festa e música alta”, detalhou.

De acordo com o delegado Antonio Humberto, a adolescente disse que a menina era a que mais apanhava, sobretudo dela, por ser a tia. “Ela contou que batia em todos, mas mais nessa menina, pois ela costumava urinar e defecar nas roupas.” Vizinhos ainda relataram que o casal consumia drogas e promovia brigas de galo. “No dia que aconteceu, eles não tinham usado nada. São pessoas violentas, que usavam qualquer pretexto para atacar essas crianças. Não precisavam de entorpecente para isso”, ressaltou o delegado.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br

Homem invade igreja, abre fogo e atinge diversos fiéis em Paracatu (MG)

Suspeito deu uma facada no pescoço da ex-namorada e, depois, abriu fogo contra fiéis de uma igreja evangélica na cidade mineira

Um homem entrou em uma igreja da cidade de Paracatu, cidade mineira a 234km do Distrito Federal, e efetuou vários disparos de arma de fogo na noite desta terça-feira (21/5). O crime aconteceu na Igreja Batista Shalom, no Bairro Bela Vista. O atirador foi identificado como Rudson Aragão Guimarães, 39 anos, ex-militar da Aeronáutica. Ele foi atingido por um tiro de fuzil, disparado pela Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), e levado ao hospital logo em seguida. No total, quatro pessoas foram mortas pelo suspeito.

Segundo a PM mineira, antes de abrir fogo no templo religioso, o suspeito esteve na casa da ex-namorada. Enfurecido, ele desferiu uma facada no pescoço da ex-companheira, que morreu na hora. A mãe e a irmã da jovem também estavam em casa na hora do crime, mas não foram atingidas.

Após cometer o primeiro homicídio, o atirador foi para a igreja, onde abriu fogo contra os fiéis. Inicialmente, Rudson matou dois idosos, ambos com disparos na cabeça. Depois, o atirador pegou uma mulher como refém. Assim que os militares chegaram ao local da ocorrência, o homem efetuou um novo disparo e tirou a vida da refém.

Para conter Rudson, policiais militares atiraram contra ele, atingindo-lhe a clavícula. O homem foi levado ao hospital da cidade em estado grave e, até a última atualização desta reportagem, estava internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Populares tentaram invadir o hospital de Paracatu e a polícia precisou cercar o local.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, o pastor da igreja sofreu um ferimento no tornozelo. Não há informações sobre o estado de saúde dele.

O porta-voz da Polícia Militar, major Flávio Santiago, disse que policiais que estavam a patrulha próximo ao local evitaram um massacre maior. “Temos a informação de que ainda haviam 20 pessoas no local e ele estava com mais 6 munições intactas, se a PM não tivesse chegado a tempo, a situação seria muito pior”, disse o militar.

Um militar que frequentava os cultos religiosos informou que Rudson frequentava a igreja. A PM diz que ele já teve problemas com drogas e que esse teria sido o motivo de sua saída da congregação. Segundo moradores de Paracatu, o homem reclamava de ouvir vozes. “Tudo indica que foi um surto psicótico”, afirmou o tenente-coronel Luiz Magalhães, do 45ª Batalhão de Polícia Militar de Paracatu.

O atirador usou uma garrucha com capacidade para um tiro. A arma foi apreendida com seis munições não deflagradas.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/

Servidora é morta na sede da Secretaria de Educação

Crime aconteceu na manhã desta segunda-feira. Policial civil entrou, disparou contra a companheira e se suicidou logo em seguida

Uma servidora da Secretaria de Educação foi assassinada em um prédio do órgão, na manhã desta segunda-feira (20/5). O crime aconteceu no interior da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiroo, na 511 Norte, onde funciona, desde o fim de abril, a Subsecretaria de Gestão de Pessoas da pasta.

A vítima, Debora Correa, e o assassino, Sergio Murilo dos Santos

Segundo informações da Polícia Miliitar do Distrito Federal (PMDF), o policial civil Sergio Murilo dos Santos, que teve relacionamento com a vítima, entrou no prédio, foi até o terceiro andar e disparou contra ela ao menos duas vezes. Ele se matou em seguida. A servidora foi identificada como Debora Tereza Correa, 43 anos.

As informações foram confirmadas ao Correio pelo secretário Rafael Parente, que cancelou a agenda da manhã e se deslocou para o local do crime. Logo depois, ele confirmou o crime também pelo Twitter. “Houve um homicídio agora na nova Sede II, na 511 norte. Estou a caminho. A Caravana da Educação da Regional do Núcleo Bandeirante está suspensa”, escreveu.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

E DA ESCURIDÃO SE FEZ LUZ

Projeto de alfabetização dá novo sentido à vida de idosas no Varjão
A professora Eunice (E) formou-se em pedagogia aos 53 anos e hoje alfabetiza idosos como Ella (ao centro), Lindaura e Rita no Varjão

Havia uma escuridão sem fim. A vida inteira, a maior parte da vida foi assim. Elas sabiam disso. Sentiam-se envergonhadas por isso. Havia culpa e medo. Mas, um dia, elas descobriram, no mesmo lugar onde foram cegas por tanto tempo, que, até todo o breu, um dia, pode se dissipar. E a luz, um pouco dela, ainda fugidia, pode surgir. Até mesmo quando a vida andou tanto, com todo o cansaço. O que importa é a própria claridade.

Esta é uma história que a gente ouve falar, num dia. E, no outro, corre para ver de perto, para enxergar essa mesma luz. Para escutar o que mudou depois que a vida se alumiou. Esta história precisava ser contada. Ela é a prova de que catarses, até mesmo nos lugares mais improváveis, impensáveis, quando tudo parece consumado, podem ser reais. E a gente descobre que são esses os renascimentos mais comoventes, os que realmente valem a pena. Os que fazem sentido.

Última terça-feira, 9h40. Chegamos à Associação dos Idosos do Varjão — a menor cidade do DF, com pouco mais de nove mil habitantes e com 46,17% dessa população, quase a metade dela, apenas com o ensino fundamental incompleto e 2,8% analfabetos, mais de 250 pessoas. São dados do último levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), em 2015. Educadores estimam, contudo, que o número de analfabetos na cidade pode ser muito maior.

Encravada atrás do nobre Lago Norte, no Varjão, torna-se clara a percepção de que como a vida foi dividida entre dois mundos — tão perto, tão colados e ao mesmo tempo anos-luz um do outro. Lá, sentadas em círculos, em cadeiras de escola, estão senhoras com idades variadas — de 35 a 89 anos. E, em cada uma, uma história de recomeço comovente.

“Felicidade é passar o que sei”

O lugar é uma pequena chácara, cercado por mangueiras. E, hoje, povoado por uma gente que caminhou tanto, pelejou tanto, que até os poucos sonhos foram adiados. E agora, depois da peleja, quer pelo menos escrever, literalmente, o que ainda puder ser escrito. E ler, ler tudo que olhos opacos ainda deixarem. Isso se chama luz. Elas foram ali atrás dessa luz.

Perto das mulheres sentadas em círculos nas cadeiras de escola, está a professora: Eunice Nascimento dos Santos, baiana de Correntina, 57 anos, seis filhos e uma história de recomeço. Doméstica a vida inteira nas casas abastadas do Lago Norte, ela sabe a importância de mudar o destino. “Uma ex-patroa minha me incentivou a estudar. Ela me disse que eu era inteligente”, conta. E assim, limpando a arrumando casas e vidas alheias, Eunice acreditou, sobretudo, em si mesma. E foi assim que conquistou cada série escolar. “Eu trabalhava de dia e, à noite, ia para a escola. Eu queria ser diferente, deixar de ser empregada.”

Mas Eunice queria mais. “Eu jurei a mim mesma que não seria doméstica a vida inteira”, diz. Há três anos, aos 53, ela recebeu o que tanto queria. O diploma da faculdade. Formou-se em pedagogia, pagando o curso com o próprio dinheiro.

Três vezes por semana, está ali na Associação dos Idosos do Varjão, voluntariamente, para dizer àquelas mulheres que, não importa o que tenham passado, ainda há tempo para contar outra história. Os homens, sempre em minoria, até se matriculam nas aulas de alfabetização. Nos últimos três anos, 100 mulheres e 18 homens passaram por ali. “Mas depois de um mês, ou até menos, eles somem. Sentem vergonha de alguém saber que eles não sabem ler. É uma pena”, avalia a professora.

E a mulher que aprendeu a ler e escrever adulta, formou-se depois dos 50 e tem três filhos formados, logo se enche de orgulho pelo prazer de tentar mudar rumos: “A felicidade da minha vida hoje é passar o que aprendi para outras pessoas”.

“O mundo tinha cor”

A manhã seria de estudo. No meio das alunas, uma, de longe, chama atenção. Ela fala com os olhos, apesar de parte deles já ter perdido o brilho. Ainda assim, aos 89 anos, quer descobrir a vida, a mesma vida que permaneceu no escuro por mais de oito décadas. Lindaura Graciana Sousa é daquelas pessoas que a gente conhece e quer levar pra casa, de cara. Ela é tão real que emociona qualquer um que tiver o privilégio de ouvi-la.

Baiana de Mundo Novo, Lindaura chegou ao DF antes mesmo de o DF existir. Era 1956. “A gente veio com o sonho da nova capital”, conta. No que hoje é Varjão, ela e o marido se ajeitaram. “Quando nós chegamos, aqui só tinha umas quatro chácaras”, lembra. Lindaura pariu 21 filhos, alguns ainda na Bahia — 13 estão vivos. “Eu tive o meu primeiro com 14 anos. Era tão menina que nem sabia como se tinha. Minha mãe me disse que, quando chegasse a hora, a barriga ia se abrir.”

Lindaura viu e sentiu que a barriga não se abriu. E assim, mesmo sem a barriga se abrir, ela pariu todos os outros, a maioria com parteira. Hoje, tem 42 netos, 37 bisnetos e três tataranetos. “O terceiro tataraneto ainda tá na barriga.”

Sem saber ler e escrever, Lindaura foi aprendendo a tatear a vida. Virou auxiliar de serviços gerais da Secretaria de Educação. Limpava banheiros e sala de aula onde nunca conseguiu se sentar. “Eu ficava só vendo as letras no quadro-negro”, conta. E prossegue: “Passei muita vergonha, não sabia ler o ônibus que eu ia pegar. No trabalho, era uma amiga quem assinava o meu nome. Minha carteira de identidade tinha: ‘Não alfabetizada’. Era muito triste”.

Há três anos, ela chegou à Associação dos Idosos do Varjão. “A Eunice me disse que eu ia aprender a ler. Eu disse que não tinha mais tempo, que tava velha. Ela insistiu. Aí eu comecei de pouquinho.” Passado o tempo, ela hoje conhece as letras, lê um bocadinho e não falta às aulas.

Perto dos 90 anos, a primeira conquista: a nova carteira de identidade, com a própria letra, que demorou quase nove décadas para existir. “Parece que eu renasci”, sente. E, com emoção à flor da pele, diz, com a voz embargada: “Quando eu comecei a ler, eu enxerguei a vida e me enxerguei. E vi que o mundo tinha cor”. Ouvir isso é ter a certeza de que renascimentos diários existem.

“De primeiro, tudo era escuro”

Colega de Lindaura, a paraibana de São José da Lagoa Tapada, perto de Sousa, Rita Leite Martins, de 59 anos, uma filha e três netos, hoje também é só alegria. A arrumadeira das casas do Lago Norte queria muito saber ler. “Eu tinha vontade de ler a Bíblia. Era o meu sonho”, admite.

Hoje, Rita ainda soletra sílaba por sílaba, ainda derrapa nas palavras, mas abre o livro de que mais gosta com prazer. “De primeiro, tudo era escuro. Agora, eu vejo as letras, reconheço as palavras, não pego mais ônibus errado, tenho mais confiança em mim e não sinto mais vergonha de nada.”

Do mesmo entusiasmo de Rita, compartilha a colega de alfabetização Ella Fiamoncino, de 88 anos. Descendente de alemães, Ella nasceu em Ibirama (SC). Mas, em 1978, chegou ao DF com o marido marceneiro. Pararam no então Morro do Urubu, hoje Varjão. Ela se dedicou à criação de galinhas. Hoje viúva, Ella mora com uma das filhas — pariu 10, tem 25 netos, 28 bisnetos e seis tataranetos. A mulher que criava galinhas confessa que sempre quis ser médica. Hoje, com um pouquinho do que tem aprendido nas aulas, adora ler bula de remédio. E confessa uma tristeza: “Casei com 17 anos e lembro que nem meu nome eu soube assinar na hora”.

Ella também admite que até para viajar tudo ficou mais fácil. “Eu leio as placas, as coisas na rua. É uma maravilha.” E decidiu, do alto dos seus 88 anos: “Ninguém me atrapalha mais com nada. Isso é felicidade”.

“Elas nos ensinam a viver”

Antes de essa revolução de vidas chegar a esse lugar, em 2010, uma mulher visionária levou livros, centenas deles, sonho e esperança àquela associação. Por meio do Projeto Bibliotecas Casa do Saber — que durou 10 anos, contou com apoio fundamental da população de Brasília e inaugurou 182 desses espaços pelo DF e muito longe daqui — Carmen Ganzelevitch Gramacho montou mais um lugar voltado à leitura.

É lá na Associação dos Idosos do Varjão que Carmen, 73, moradora do Lago Norte, agora também será uma das voluntárias do curso de alfabetização. Uma vez por semana, ela ajudará ainda mais nos renascimentos de Lindaura, Rita, Ella e de todas aquelas pessoas. “Elas nos ensinam a viver”, diz, emocionada, Carmen. Lindaura, a mulher que limpou privadas e salas de aula por muitos anos e só agora viu sua vida se transformar, é também toda emoção: “O bom pedir faz um bom dar”. Depois, como se estivesse fora dali, em outra dimensão, deixa escapar: “Eu ouço, gosto de perguntar e vou cultivando na memória. Quem não estuda não existe”.

Lindaura, que nasceu num lugar chamado Mundo Novo, lá nos confins da Bahia, de fato, agora enxergou a sua luz. Fez o seu novo mundo. Uma vida mais cidadã. E não importa se isso demorou 85 anos. Hoje, aos 89, ela se olha no espelho e realmente acredita que renasceu. Esta história precisava ser contada.

 Fonte: www.correiobraziliense.com.br