Juíza que trabalhou como faxineira para pagar curso de direito lança livro

“Fui até motivo de piada. Sem ninguém na área jurídica na família, pobre, negra… Ninguém acreditava em mim, mas eu acreditava”
image002 (14)postado em 30/04/2017 09:09
Diário de Pernambuco
Adriana Maria Queiroz/Arquivo Pessoal

Adriana Maria Queiróz estudou em escola pública e trabalhou como faxineira para poder pagar a faculdade e, hoje, é juíza de direito. Titular da 1ª Vara Cível e da Vara da Infância e do Adolescente, de Quirinópolis, em Goiânia, Adriana vai lança um livro, no dia 29 de abril de 2017, intitulado “Dez passos para alcançar seus sonhos – A história real da ex-faxineira que se tornou juíza de direito”.

“O objetivo do livro é motivar as pessoas que, como eu, já estiveram muito distantes dos seus sonhos. É mostrar que é possível superar condições adversas, ir contra paradigmas preestabelecidos. Vale a pena lutar pelo que você acredita e você deve acreditar nos seus sonhos, independentemente do tempo que leve para realizá-los”, disse a juíza ao portal do UOL.

Ela nasceu no interior de São Paulo, em Tupã, onde seus pais, trabalhadores rurais do Sertão da Bahia, foram para buscar mais oportunidades de vida. “Era uma família humilde. Sempre estudei em escolas públicas e depois, quando passei na faculdade de Direito da cidade, tive que usar todas as minhas forças possíveis, pois meus pais não tinham condições de pagar”.

Para custear o sonho, Adriana conseguiu um trabalho como faxineira na Santa Casa da cidade onde morava, trabalhando na limpeza hospitalar enquanto estudava durante a noite. Porém, isso não era suficiente, então ela foi atrás do diretor da faculdade. A direção se sensibilizou com a história de Adriana e, então, deram 50% da bolsa de estudos para que ela concluísse o curso, que ela já havia escolhido desde o Ensino Médio.

O sonho de ser juíza veio quando ela estava na faculdade, mas outra dificuldade se apresentou: ela teve que lutar contra o preconceito e a descrença. “Minha decisão de estudar Direito teve a ver com injustiça social, com os motivos de exclusão que eu via. Busquei conhecimento e uma forma de mudar esse contexto. Dentro da faculdade, conhecendo as áreas, quis me preparar para ser juíza. Algumas pessoas da minha família e conhecidos ficaram surpresos. Fui até motivo de piada. Sem ninguém na área jurídica na família, pobre, negra… Ninguém acreditava, mas eu acreditava. Nunca isso foi requisito para ser juíza”.

Ao concluir a faculdade, Adriana pediu demissão, juntou o dinheiro da rescisão e foi para a capital de São Paulo fazer cursos preparatórios para o concurso de Magistratura. Com o dinheiro que tinha, conseguiria ficar por dois meses em um pensionato de estudantes. Como não conseguiu emprego logo, Adriana passou a achar que não conseguiria realizar seu sonho, mas então Damásio de Jesus, diretor de um curso de direito, se sensibilizou com a história e lhe ofereceu 100% de bolsa de estudos e um emprego na biblioteca na escola. Foi ele, inclusive, quem escreveu o prefácio do livro de Adriana.

“Foram sete anos trabalhando e estudando em São Paulo. Sábados, domingos, feriados… Foram muitas reprovações até que em 2010 eu fui aprovada. Em janeiro de 2011, tomei posse como juíza em Goiânia. Eu realmente estava obstinada a alcançar meu sonho. Passei por momentos de desânimo, as dificuldades pesaram muito, a distância que eu estava e onde queria chegar era muito longa… Mas desistir nunca passou pela minha cabeça”.

Com paralisia cerebral, gêmeos competem nas Paraolimpíadas Escolares

Com paralisiaa cerebral, gêmeos competem nas Paralimpíadas Escolares
Irmãos de Santa Catarina representam o estado nos jogos disputados no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo

postado em 25/11/2016 15:41 / atualizado em 25/11/2016 15:53
Victor Gammaro* /Correio Braziliense
São Paulo — Os gêmeos Lucas Felipe da Cruz e Bruno Rafael da Cruz foram uma das grandes atrações das Paralimpíadas Escolares. Com paralisia cerebral, os irmãos competem na bocha e, para a infelicidade da mãe, a tabela do torneio colocou os meninos frente a frente.
Lucas e Bruno disputam a classe BC3, que engloba os paratletas com deficiências muito severas e que usam um instrumento auxiliar, podendo ser ajudados por outra pessoa. No caso de Bruno, a mãe Rosana faz o papel de calheira — nome dado ao auxiliar do competidor. Já Lucas conta com o auxílio do amigo e calheiro Gabriel Osório, de 14 anos.

image001-19Rosana, a mãe, e Rafael Osório, o amigo, ajudam os irmãos gêmeos na hora da competição

No confronto das Paralimpíadas, melhor para Lucas, que tem um retrospecto de três vitórias e uma derrota contra o irmão. Rosana conta que é impossível escolher um lado para torcer. “Na primeira parcial, o Bruno estava ganhando e fiquei chateada por ver o Lucas triste. Depois, a situação se inverteu e foi o Bruno que ficou cabisbaixo. É difícil pra mim. Eu chorei um pouquinho, dói”, confessa a dona de casa de 45 anos.
Rosana afirmou que só é confortada por saber que a delegação de Santa Catarina sairá vencedora sempre quando o duelo for entre família.

Já Gabriel Osório não hesita em escolher um dos lados, mas confessa não ficar muito confortável com a derrota de um dos amigos. “Quando estou jogando, quero ganhar, apesar de ficar triste pelo Bruno”, disse o calheiro.
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Márcio Rodrigues/MPIX/CPBLucas e Bruno em ação: um perde, mas pelo menos a medalha vai para Santa Catarina

Bruno Rafael, o derrotado do confronto, afirma que não fica “nem um pouco triste” pelo revés para o irmão gêmeo. “Ele geralmente ganha de mim, não fico chateado. Foi bem legal, apesar de ter perdido”, comentou o paratleta de 12 anos, morador de Porto União, cidade à 444km de Florianópolis.

Bocha
O esporte é praticado por pessoas com elevado grau de paralisia cerebral ou deficiências severas. O Brasil tem tradição na bocha paralímpica. Nos Jogos do Rio de Janeiro, por exemplo, o país conquistou uma medalha de ouro com Antonio Leme e Evelyn Vieira, nas duplas mistas categoria BC3 — a mesma dos gêmeos.
O maior nome da modalidade no Brasil é Dirceu Pinto. O paulista tem quatro medalhas de ouro em Paralimpíadas: duas em Pequim e duas em Londres. No Rio de Janeiro, Dirceu não passou em branco e conquistou uma medalha de prata. Todas as medalhas foram na categoria BC4, disputada por atletas com deficiências severas, mas que não recebem assistência.

* Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles. Victor Gammaro viajou a convite do Comitê Paralímpico Brasileiro

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UNESCO divulga metas globais para a educação até 2030

Relatório aponta que entre 2005 e 2014, 15% dos adultos do mundo não possuíam habilidades funcionais de alfabetização

Patrícia Rodrigues – Especial para o CB / Postado em 05/09/2016 21:01

Reduzir a taxa de analfabetismo até 2030 é uma das metas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O órgão divulga na manhã de amanhã (6/08) o Relatório de Monitoramento Global da Educação 2016, em Brasília.

O documento aponta que no período entre 2005 e 2014, cerca de 758 milhões, ou 15% dos adultos do mundo, não possuíam habilidades funcionais de alfabetização. O desejo é que um número substancial de pessoas estejam alfabetizadas e tenham conhecimentos básicos em matemática nos próximos 14 anos.

Para a coordenadora de Educação da UNESCO, Rebeca Otero, o Brasil já teve avanços. “O país assume compromissos internacionais, melhorou em alguns pontos, mas precisa avançar em outros”, ponderou.

As prioridades para a educação apresentadas no documento foram elencadas pelos 193 Países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) durante a 70ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2015, nos Estados Unidos.

ODS
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são metas criadas por diversos países e formam uma Agenda Universal até 2030. As prioridades são construídas em conjunto e abordam desafios sociais, econômicos e ambientais. Educação de qualidade é apenas uma das 17 metas para o mundo.

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ENTREVISTA IVAN CAMARGO

Será um ano politicamente agitado”
Às vésperas do início das aulas na Universidade de Brasília (UnB), o reitor traça planos para alcançar o equilíbrio orçamentário e investir em áreas essenciais. Além disso, 2016 será agitado por eleições, nas quais o gestor tentará a reeleição

» FLÁVIA MAIA

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“A tentativa que fizemos nesses últimos três anos é a de racionalizar o uso das empresas terceirizadas. Uma transição difícil. Estamos, por exemplo, hoje, sem motoristas”

A Universidade de Brasília (UnB) começará o ano letivo em 7 de março, mais uma vez, em deficit. Desta vez, são R$ 18,6 milhões a menos do que a instituição gasta para manter a estrutura. Desde o ano passado, a UnB acumula duas pressões orçamentárias: além do vermelho que a acompanha há anos, recebe menos verba do Ministério da Educação (MEC) por causa dos cortes da União. Embora o atual reitor, Ivan Camargo, mantenha postura de arrocho na gestão — e receba duras críticas por isso —, a conta ainda não fecha. A verba de R$ 1,7 bilhão por ano que o MEC repassa não é suficiente para manter setores estratégicos.

Os cortes nos contratos terceirizados têm sido uma das saídas da administração. Ao Correio, o reitor disse que, para garantir o funcionamento da universidade, tem ido ao MEC de “pires na mão”. “Em 2014, eu comecei a pedir dinheiro em outubro. Em 2015, em janeiro. Neste ano, precisava pagar uma conta e não contava com o orçamento, embora tivesse financeiro. Consegui nos 45 minutos do segundo tempo”, afirmou. “A vida do gestor público não está fácil”, complementou.

Uma das soluções que a reitoria estuda para conseguir investir na UnB é a venda de parte do milionário patrimônio — são 1,5 mil imóveis avaliados em R$ 6 bilhões. A projeção da 207 Norte, única quadra vazia no Plano Piloto, e as coberturas podem ser os primeiros. A ideia é aplicar em áreas essenciais bastante prejudicadas, como na construção e modernização dos laboratórios. Como a decisão da venda não cabe apenas ao reitor, Ivan afirma que fará um plano detalhado ao Conselho Universitário da UnB (Consuni).

Além disso, 2016 reserva eleições para reitor, para a Associação dos Docentes (ADUnB) e para o Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub). Ivan tentará a reeleição. “A gente precisa ficar mais um tempo. Quatro anos é pouco”, resume.

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“É dramática essa realidade. Porque você tira o investimento do futuro para apagar incêndio do presente. Custeio é presente. Investimento é futuro”

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“Eu tenho laboratórios em várias partes da universidade absolutamente sucateados. São esses tipos de investimentos que precisam ser feitos. Eu tenho certeza que a gente não fará esse ano”

2015 foi um ano de arrocho, com cortes do MEC para as
universidades federais. O que esperar para 2016?
Tudo leva a crer que será um ano difícil. Já começou com dificuldades. Eu tinha a ilusão, no fim do ano passado, de que 2016 seria um ano mais tranquilo. A lei (Orçamentária) está aprovada, definida… Mas começamos o ano com restrições financeiras.

O senhor diz isso da UnB ou do governo federal?
100% do dinheiro da universidade vem do governo federal. A dependência é total, mas temos tido uma relação com o governo e com o MEC de muita parceria, conseguimos sobreviver 2015 e vamos conseguir sobreviver 2016.

Os contratos terceirizados
são que mais se pode cortar?
O nosso orçamento tem uma parte gigantesca — a maior de todas —, que é de salário e pensão. Isso ninguém fala. Tem uma parte bem menor, que de é custeio e investimento. Nessa pequena parte que a gente pode trabalhar. Dessa parte, 70% é terceirizada. A tentativa que fizemos nesses últimos três anos é a de racionalizar o uso das empresas terceirizadas. Uma transição difícil. Estamos, por exemplo, hoje, sem motorista.

A universidade sofre duas pressões, de um histórico de
desequilíbrio financeiro e da redução orçamentária que
está acontecendo agora…
Exatamente. Em 2012, a gente gastava R$ 150 milhões/ano com custeio, três vezes o que estava previsto. Um desequilíbrio orçamentário enorme. Passamos esses últimos três anos em uma postura de controle orçamentário muito sério.

Já conseguiram enxugar R$ 100 milhões?
Claro que não. Estamos equilibrando ainda. Os contratos têm duração. Você pode ajeitar detalhes. Mas eu acredito que nos próximos dois anos essa conta deva se equilibrar.

A verba do Reuni (Reestruturação e Expansão das Universidades
Federais) era até 2012. Esse pode ser um dos motivos
do descompasso orçamentário da UnB?
O grande custo do Reuni foi a entrada de novos alunos. E isso é permanente. Expande-se o quadro e dobra-se o número de alunos, isso é superpositivo. Tivemos uma verba para obras, usamos. Mas estamos com um grande problema de infraestrutura. Estamos gastando muito com custeio. Estamos reproduzindo na UnB a mesma realidade do GDF, do governo federal. Agora, é dramática essa realidade. Porque você tira o investimento do futuro para apagar incêndio do presente. Custeio é presente. Investimento é futuro. Temos que equilibrar as contas para que sobre investimentos para a universidade voltar a crescer.

Quando o senhor fala em investimento
em infraestrutura, qual é a área prioritária?
Espaço físico na UnB é uma briga de foice. Todo mundo quer expandir os seus laboratórios. Além disso, faltam equipamentos. Eu tenho laboratórios em várias partes da universidade absolutamente sucateados. São esses tipos de investimentos que precisam ser feitos. Eu tenho certeza que a gente não fará esse ano. Mas, se não se equilibrar, não fará nunca. Eu fico otimista porque, ao contrário das outras universidades, a UnB tem receita própria e significativa. Temos prédio, temos patrimônio.

A ideia do Darcy Ribeiro era a de que
esse patrimônio desse autonomia para a UnB…
Isso. Eu acho que o Darcy imaginava que, com essa receita, a gente teria autonomia. Não conseguimos. A receita é pequena, comparada com o custo da universidade.

Quanto a universidade gasta hoje?
A gente gasta mais ou menos R$ 1,3 bilhão por ano. Quase tudo vai para pessoal, pensão e aposentadoria. Fora isso, tem uns R$ 250 milhões entre infraestrutura, custeio e outros gastos como assistência estudantil. Toda essa verba vem do MEC. A nossa verba própria é de R$ 60 milhões por ano. Se comparar com os R$ 250 milhões que são a nossa verba de custeio, é significativa. Se eu comparar com R$ 1 bilhão, é quase nada.

Quais são as fontes de receita próprias da UnB?
São duas. Patrimônio — apartamentos — e o Cespe, com execução de serviços de concursos. É meio a meio.

A mudança do Cespe, antes ligado à UnB, para Cebraspe, agora
empresa pública, tem algum impacto financeiro na arrecadação da UnB?
Há um contrato prevendo repasse de recurso do Cebraspe para a UnB, que é mais ou menos da mesma ordem de grandeza que tínhamos no passado.

A administração já pensou em mexer nesse patrimônio para
fazer algum investimento? Ou é complicado?
Não é não. A lei que criou a Universidade de Brasília fez o conselho diretor, formado por seis pessoas. Eu faço parte, presido esse conselho. E ele delibera sobre o patrimônio da universidade. Se o conselho diretor decidir: “vou vender uma projeção para construir um prédio para a faculdade A, B, C qualquer”, de patrimônio para patrimônio, não tem problema nenhum. Na nossa regulamentação, a gente não permite a venda de patrimônio para virar custeio. Para eu, por exemplo, fechar as minhas contas no fim do ano, eu vendo um apartamento. Isso é proibido. Tem de ser vinculado.

Se fosse vender parte do patrimônio,
quais seriam as prioridades?
O conselho diretor agora está trabalhando num eventual processo para ocupar a 207 Norte. Mas é um investimento muito grande. A 207 é a única quadra completamente vazia e é integralmente da UnB. E a gente tem de usar, transformar esse patrimônio em outro patrimônio. A gente não pode transformar em custeio, mas em um patrimônio que nos dê receita. Essa que é a ideia. Esse processo nem começou. Quer dizer, não vou dizer que nem começou porque, evidentemente, o conselho diretor sabe desse patrimônio, sabe das restrições que temos. Os nossos advogados estão preocupados, vendo quais são as possibilidades legais, uma possível licitação. Nós estamos antenados nesse problema, mas ainda não tem nenhuma decisão. O conselho diretor não se manifestou ainda sobre esse assunto.

E as coberturas?
A gente tem uma dificuldade muito grande para alugar as coberturas. O aluguel é caro. Uma das coisas que tem se proposto é vendê-las. Dão mais dor de cabeça do que lucro. Mas, antes de vender, preciso saber: vou pegar esse dinheiro e transformar em quê? A venda tem de estar direcionada à infraestrutura.

No ano passado, a UnB subiu vários postos
em rankings nacionais e internacionais.
Como conciliar menos dinheiro com qualidade de ensino?
Não há paradoxo nenhum. Quando você gasta dinheiro com displicência, temos a sensação de que a casa está descuidada. Essa postura de controle orçamentário melhora a excelência. O dinheiro aqui é gasto com parcimônia, com racionalidade.

A pesquisa travou por causa da falta de verba?
Dificulta um pouco, sim. Pesquisa é caro e não tem garantia de resultado. Se tivesse, não seria pesquisa. Tem um grau de incerteza enorme, mas precisa fazer. E o ambiente é a universidade. 80% da pesquisa do Distrito Federal é feita na UnB. Os nossos quadros, de professores e alunos, são brilhantes.

Os pesquisadores podem captar recursos próprios…
Sim. Normalmente, esses recursos são captados, e a gente faz a gestão dos recursos, ou as fundações de apoio.

Existia uma resistência de parceria público-privada
na universidade. Isso mudou?
Eu acho que ainda tem exagerado isso na universidade, mas discordo frontalmente. Pesquisa é caro e precisa de parceria, precisa de gente, estar em contato com a vida real, com os problemas reais. Eu sempre fui, e não mudei nada no meu discurso, a favor de investimentos privados na universidade para a pesquisa.

Em 2015, vocês operaram com
quanto a menos em caixa?
De cabeça, eu não sei. Você vai se perguntar por que eu falei de deficit e não sei o valor. Mas foi porque em 2014, em outubro, eu comecei a pedir dinheiro para o MEC. Em 2015, em janeiro, eu já estava lá de pires na mão. Agora, em 2016, tinha de pagar uma conta e tinha o orçamento, mas o financeiro não tinha liberado. Foi liberado às 18h, aos 45 minutos do segundo tempo. A vida do gestor público está muito dura. Muito ruim. Podia ser muito melhor.

Qual será a grande
mudança no ano letivo?
A gente diz, com muita satisfação, que o calendário está regularizado. Nos últimos três anos, os professores da Universidade de Brasília não entraram em greve. Portanto, tivemos três anos de regularidade. Isso faz uma diferença fantástica. As greves causam um prejuízo incalculável. Neste ano, temos eleições dos docentes, da associação dos docentes, do sindicato dos servidores. Será um ano politicamente agitado na Universidade de Brasília.

E a reitoria?
Ainda não está definido o calendário das eleições para a reitoria. Quem vai definir é o Consuni (Conselho Universitário). Mas já tem algumas discussões avançadas que eu acho importante. ficou de alguma forma acordado entre os candidatos em 2012 que não faríamos mudanças no processo para a eleição de 2016. Será muito parecido com o de 2012. Eventualmente, se a comunidade quiser discutir, é até bom, mas não no calor da decisão. Deixa para discutir em 2017 eventuais mudanças.

O senhor pensa em se candidatar de novo?
Quando for o momento. Acho que sim. A gente precisa ficar mais um tempo. Quatro anos é pouco. O Poder Executivo tem tido essa história de quatro mais quatro. Talvez seja o mais certo a fazer. Essa não é uma decisão fácil. Mas, com muita alegria, muitos amigos falam: “Vamos continuar nesse processo”. Um processo que é longo, você estabilizar, regularizar, acertar o orçamento para conseguir investir no futuro.

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ESCOLA DE MÚSICA » Protesto no retorno às aulas

A proposta de formar turmas coletivas para aulas que antes eram individuais é um dos pontos que desagradam a alunos e professores

MARIANNA NASCIMENTO
Especial para o Correio

O diretor Ayrton Pisco diz que a nova proposta não influenciará na qualidade do ensino na EMB: Não háindicativo de que aulas individuais sejam melhores 201D (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press – 23/9/15

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O diretor Ayrton Pisco diz que a nova proposta não influenciará na qualidade do ensino na EMB:%u201CNão háindicativo de que aulas individuais sejam melhores%u201D

Estudantes e professores da Escola de Música de Brasília (EMB) reclamam da reorganização da grade horária e da formação das turmas para o ano letivo de 2016. As aulas começam na segunda-feira, quando, segundo uma das professoras da instituição, que prefere não se identificar, os estudantes vão se mobilizar contra a nova proposta do diretor, Ayrton Pisco. A aluna de canto erudito Bárbara Fragoso observa que aulas teóricas, como artes cênicas e idiomas, são feitas coletivamente, mas as instrumentais são específicas e individuais. “O projeto de enturmação consiste em colocar vários alunos de canto erudito, por exemplo, na mesma turma”.

A ideia, segundo Bárbara, é inviável e prejudica o aprendizado. “A aula é muito rápida, são apenas 50 minutos por semana em que faço aquecimento vocal e repasso meu repertório com a professora. Se o tempo é pouco para mim, imagina com três ou quatro alunos”, diz Bárbara. O espaço físico é outra limitação que a cantora aponta. “A sala é minúscula. Tem um sofá e um piano. A professora fica em pé. Não cabe um monte de gente naquele espaço. O canto erudito tem muitas particularidades. Até o processo de ingresso na escola é delicado e individual; como podemos fazer a aula juntos?”, questiona.

A troca de professores é outro ponto que, de acordo com Bárbara, faz parte do novo esquema de organização das aulas e causa danos à formação. Ela conta que, antes, o mesmo estudante tinha apenas um professor ao longo dos semestres — o que, segundo ela, facilita um acompanhamento cuidadoso, personalizado e, consequentemente, mais efetivo. Na nova proposta, os estudantes têm um professor por semestre. “Não há como formar voz de solista profissional com aula em grupo e, ainda por cima, mudando de professor todo semestre. O professor sabe das nossas peculiaridades. As aulas serão muito superficiais e isso vai de encontro ao objetivo da escola, que é oferecer um curso profissionalizante”, afirma.

Outra professora também é contra a reformulação e diz que a troca semestral de docentes não favorece a evolução. “Cada um tem uma metodologia de escolas diferentes. Quando um aluno cursa um semestre seguindo um método e, no outro, ele é obrigado a trocar, é como se ele recomeçasse. Não há progresso, a formação fica completamente prejudicada.”

A professora afirma também que as mudanças não foram propostas ao corpo docente ou à comunidade escolar, mas impostas em uma reunião realizada na quinta-feira. “[O diretor] foi contra a lei da gestão democrática, que diz que essas coisas precisam ser discutidas. Essa reformulação vai contra o projeto político-pedagógico da escola e os planos de curso. Ele não justificou a mudança, apenas disse que eram ordens da Secretaria de Educação”, relata. Ainda segundo a educadora, os alunos reunidos na mesma turma serão de níveis diferentes.

Estímulo
O diretor da escola, Ayrton Pisco, diz que as acusações não são verdadeiras e a escola não funciona como os professores e estudantes relatam. “As aulas em turma já aconteciam, mas não havia uma regra. Alguns tinham aulas individuais, outros não. Era algo absolutamente aleatório e de acordo com a conveniência e horário do professor. A mudança é que as aulas aleatoriamente ministradas para dois ou três estudantes de níveis distintos serão padronizadas para toda a escola.”

Pisco nega que essa mudança vá influenciar a qualidade do ensino musical da EMB. “Não há nenhum indicativo de que aulas individuais sejam melhores. Muito pelo contrário, alguns que fazem aulas coletivas têm ótimo desempenho. Há inclusive um estímulo, porque se trabalha com outros colegas, em que o outro observa e aprende junto”, diz. Ele diz também que o tópico não é passível de discussão com a comunidade escolar. “Só é possível fazer essa organização no momento em que se tem uma lista de alunos. Este ano, ela ficou pronta em 18 de fevereiro. Não havia tempo para discutir. Além disso, não existe discussão para decidir se vamos ou não seguir regras. A legislação especificamente diz que é atribuição do grupo de gestores formar e distribuir turmas.”

Para Pisco, a reação à nova organização tem motivos diferentes, parte dos professores e os alunos estão sendo usados. E acrescenta que a escola não estava acostumada a seguir regras da Secretaria de Educação. “Ano passado, estudantes foram levados a se manifestar, e alguns nem sabiam o que estava acontecendo. Agora, novamente, o ano letivo nem começou e eles já combinam de se manifestar contra”. O diretor declara que a mudança semestral de professores também está de acordo com a legislação. “A lei diz que, a cada semestre, o professor com maior pontuação escolhe a própria turma. É um direito dele, não há novidade nisso.”

Ele afirma que a EMB, fundada em 1974, funcionou por 42 anos de maneira liberal. “Em 2012, passamos a responder à Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, que quis colocar a escola nos eixos. Houve auditoria do Tribunal de Contas e investigação do Ministério Público”. O MPDFT, segundo Pisco, encontrou “uma série de aspectos heterodoxos”, que ele preferiu não especificar.

Falta transparência
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) iniciou, em fevereiro do ano passado, uma investigação contra a Escola de Música. “A abertura do processo foi motivada pela ausência de transparência da instituição”, declara a Promotora de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc) Cátia Vergara. “A comunidade não tem acesso a informações básicas como o objetivo de cada curso e as datas da entrada e saída de estudantes. Alguns professores são direcionados há um único aluno, que pode desistir do curso. Nesse caso, a carga horária do docente não é cumprida. São problemas sérios que tratam de dinheiro público”.

A promotora afirma que, em julho de 2015, foi formado um Grupo de Trabalho na Secretaria de Educação, que estipulou um prazo, até o mês seguinte, para a entrega de um relatório que mapearia tudo o que acontece na EMB. “Até hoje, não recebemos o resultado. O documento não foi encaminhado à promotoria. Até onde sabemos, ele sequer foi homologado na Secretaria de Educação”. Vergara destaca que essa falta de transparência viola o princípio da publicidade da administração pública. “A gente não sabe o que está sendo feito com a verba pública, se professores cumprem a carga, quem está se formando na escola ou para quê. É uma caixa-preta”, acrescenta.

lINHA DO TEMPO
O Correio noticiou, durante o ano de 2015, problemas enfrentados pela Escola de Música de Brasília

image002Manifestação de estudantes em frente ao Palácio do Buriti (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press – 29/4/15)

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio do Buriti

13 de março
» Escola de Música pede socorro
Reportagem tratou de instrumentos sucateados, prédio sem estrutura e falta de professores.A mudança de plano pedagógico, que prevê o aumento do número de estudantes em sala de aula, já era discutida na época

28 de abril
» Briga entre direção e corpo docente da Escola de Música prejudica semestre
Clima de guerra foi instalado na instituição. Professores e integrantes do Conselho Escolar pediam exoneração de Ayrton Pisco, sob alegação de má gestão e difamação

29 de setembro
» Com orçamento pífio, Escola de Música pede socorro
A falta de verba foi novamente raiz dos problemas da instituição, cuja sede estava ameaçada pela especulação imobiliária

26 de outubro
» Sem verbas, Curso de Verão da Escola de Música está ameaçado em 2016
O Correio aborda a luta de professores e funcionários para manter o curso, mesmo em meio à falta de dinheiro

7 de outubro
» Bancada federal do DF propõe ajuda à Escola de Música
A falta de verba para a manutenção dos instrumentos, as precárias condições das instalações físicas do local, a falta de pessoal e a questão da enturmação estavam entre os principais problemas apontados pelos frequentadores

9 de outubro
» Projetos de reforma da Escola de Música de Brasília nunca saíram do papel
Duas propostas criadas por arquitetos brasilienses previam reforma completa no local, que, como contou a reportagem, vivia a maior crise financeira e estrutural em mais de 40 anos de história

12 de outubro
» Estudantes e funcionários da Escola de Música lamentam degradação do local
A reportagem do Correio documentou o abandono, falta de instrumento e cuidados na EMB

14 de outubro
» Grupo Amigos da Escola tentará levantar fundos para salvar Escola de Música
Não havia dinheiro para socorrer a instituição e executar emendas propostas pelo governador, quando era deputado e senador, para amenizar o desgaste no local

"A saúde só muda se a educação mudar", diz presidente da Rede Sarah

Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí.” “Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem.”
image001O reconhecimento internacional da Rede Sarah se deve, em boa medida, aos multitalentos de Lúcia Willadino Braga. Em uma trajetória marcada por caminhos improváveis e quase aleatórios, a gaúcha de Porto Alegre foi decisiva para tornar o centro de reabilitação inaugurado em 1960, por JK, uma referência mundial na medicina e na gestão pública. Neta de alemã e de índio, musicista autodidata e de uma curiosidade insaciável, ela deve a Brasília o espírito inovador que marca seus projetos em neurociência. Em meio àquela utopia que nascia no Planalto Central naqueles anos pioneiros, Lúcia aprendeu cedo que era possível fazer tudo a partir do nada. “Todo mundo tinha que criar, e acho que isso me abriu uma proposta de criação”, diz. Com forte inovação e uma gestão de alto nível, marcada pela participação de todos os colaboradores, Lucinha — como é conhecida — representa o expoente de um modelo exemplar, diametralmente oposto à calamidade frequentemente diagnosticada na saúde pública nacional — inclusive no Distrito Federal. Nesta entrevista ao Correio, Lúcia, presidente da Rede Sarah, avalia que a ausência de uma filosofia e de um projeto de longo prazo são graves lacunas que impedem avanços no atendimento à população. E acredita que a solução para os hospitais está nas escolas: “Com educação você já melhora muitíssimo o nível de saúde.”

A infância numa cidade em construção influenciou sua trajetória?
Foi determinante. Mostrou que qualquer um pode fazer alguma coisa, se quiser, se você se empenhar. Isso me influenciou e me influencia até hoje. Não consigo ver que uma coisa é impossível. Vejo que há obstáculos que a gente supera. E outra coisa que me influenciou muito foi o plano educacional.

Onde você estudou?
O Anísio Teixeira e o Darcy Ribeiro criaram uma proposta educacional completamente inovadora e fomos cobaias. Mas foi uma maravilha ter sido cobaia disso. Estudei num lugar chamado Escola de Aplicação, que era um barraco de madeira, do lado do Elefante Branco. Isso no ensino de primeira a quarta séries. Nas escolas, não tínhamos que decorar nada. A ideia era ensinar a pensar. Não decorei nem a tabuada. Até hoje não sei e nunca me fez falta nenhuma. A ideia era aprender a pensar. E isso me influenciou muito.

Depois veio a ditadura…
Tinha uma coisa nas escolas que era um tanto quanto subversiva. Os professores diziam: “Olha, você não pode falar isso, mas tem que pensar aquilo”. Isso estava arraigado nos professores. O professor vinha, por exemplo, com Construção, do Chico Buarque, para debater. Havia um processo de politização. E quando entrei na UnB, em 1976, muito jovem, a ditadura ainda não tinha conseguido sufocar a universidade. E aí você podia fazer matéria em qualquer departamento.

Que curso?
Fiz música, psicologia. Fiz matérias de vários departamentos. Acho que sou uma autodidata, porque, olhando hoje o conceito de neurociência, vejo que desde muito cedo, nos anos 1970, venho buscando essa diversidade. Pensava que seria música porque, com cinco anos, aprendi a ler partitura sozinha e curti. Aprendi “n” instrumentos.

Qual é o preferido?
Gostei de todos. Aprendi regência com o Cláudio Santoro, na UnB, toquei piano, oboé, violino, flauta… Pensava que faria isso da minha vida, mas, quando cheguei à UnB, vi que tinha uma matéria sobre o desenvolvimento do pensamento da criança. Pensei: “É isso que me interessa…” Aí tinha matéria sobre neurologia. Achei muito legal. Comecei, então, a pegar as disciplinas e montar ideias na minha cabeça.

Foram os primeiros projetos?
No meio do segundo semestre, tive a ideia de desenvolver um projeto, numa bolsa de iniciação científica do CNPq, que era trabalhar parâmetros do som com as crianças com lesão cerebral para desenvolver o pensamento. Foi em cima da ideia de trabalhar o pensamento cognitivo. Esse projeto foi aprovado, super bem cotado. Eu tinha 19 anos. E aí me disseram que, se conseguisse um lugar para implantar o projeto, poderia executar. Deixei o projeto no Hospital de Base e no Sarah. De repente, o Sarah falou que poderia vir. Cheguei aqui, não tinha local para mim e muito menos material. Aí arrumei, dentro daquela ideia de que se você não tem, faz. Eles me deixaram guardar o material dentro do ar-condicionado. E trabalhava do lado de fora.

Conheceu Campos da Paz nessa época?
Ele me viu aqui, na enfermaria, tocando flauta. Fazia esse trabalho com as crianças. Ele achou curioso o projeto e me convidou para apresentar numa sessão clínica. Quando me formei, fiz seleção para cá e entrei no Centro de Pesquisa. E aí, já trabalhando aqui, fui fazer mestrado e doutorado, sempre em estudos sobre o cérebro. Depois, fiz pós-doutorado em ciências. Campos tinha essa abertura para o novo. Ele não se assustava.

Como você, que não se enquadra e busca sempre o novo, tem esse lado executiva? Isso se encaixa? São duas Lucinhas ou uma só?
Encaixa-se muito. É uma Lucinha só. Da mesma forma que posso criar um novo método de tratamento, posso construir uma organização do trabalho, posso construir um hospital. Então, é uma coisa gostosa. Bem novinha, já tinha essa facilidade de organizar as coisas e as pessoas. Tanto que assumi a chefia da área de lesão cerebral com 22 anos. Assumi a coordenação porque a própria equipe pediu. Organizava bem. Você pode ser criativa na gestão. Combina bem. A gestão não precisa ser pesada, burocratizada. Então comecei no setor de lesão cerebral infantil. Depois, no setor de lesão cerebral como um todo, coordenei praticamente todos os programas do Sarah. No fim, nos anos 1980, era gerente de reabilitação. Tudo sobre reabilitação era comigo.

O fato de não ser médica prejudicou? Sofreu preconceito?
Nunca senti preconceito porque nunca tentei ocupar o espaço de ninguém. Muitas pessoas falam: “A dra. Lúcia não é médica”. É comum ouvir isso, mas não incomoda porque acho natural que as pessoas pensem que, para ser diretor de hospital, precisa ser médico. Então, por mais que diga que não sou, volta. É recorrente. Mas não me afeta porque nunca quis ser médica.

Teria feito o curso, se quisesse…
Passei no vestibular com uma das maiores notas da UnB. Meu sogro era médico e ele queria muito que fizesse medicina. Só fiz matérias que me interessavam, estudei anatomia e outras. Gosto de aprender e faz muito bem para o cérebro.

Por que é tão difícil adotar um modelo de sucesso como o do Sarah na saúde pública?
Tem muitos fatores. O Sarah tem alguns diferenciais. Por exemplo, a gente tem uma filosofia. Todo mundo vem para uma seleção pública, faz um treinamento para igualar princípios filosóficos. Trabalhamos com dedicação exclusiva. Então, um grupo pequeno de profissionais pode dar um atendimento de qualidade. Muitos hospitais nos procuraram querendo fazer igual. Mas muitos dizem que dedicação exclusiva não dá. Aí começa a não dar certo.

São bons salários para dedicação exclusiva?
São salários dignos. Para ter um bom profissional, não posso pagar uma miséria, porque ele não estará aqui. Mas o que a gente vê lá fora é que o trabalho de um é dividido por quatro pessoas, cada uma fazendo algumas horas. A organização do trabalho é muito importante. Há também um diferencial nosso em termos da gestão de materiais. Muitas unidades têm o tomógrafo, mas está quebrado; têm a agulha, mas falta a linha; têm o cirurgião, mas falta o anestesista. Em saúde, não pode faltar nada. Isso não é uma questão de custo. É uma questão de planejamento. Claro que se paga por tudo o que se utiliza, mas não deixamos as coisas perderem a validade, não deixamos as coisas no estoque e conseguimos planejar. Isso em saúde é fundamental.

Falta de medicamentos e má utilização de equipamentos são grandes problemas da saúde pública…
Sim, na falta de planejamento, a pessoa manda comprar um equipamento e não tem onde instalar. Como vou comprar uma ressonância sem ter onde instalar? Outra coisa fundamental é manutenção. Estamos num prédio de 1980 e aqui não tem nada quebrado. Não fica nada quebrado nenhum dia. Aqui trabalhamos também com o princípio da economicidade. Não somos donos do Sarah. O dono do Sarah é o povo brasileiro. Essas responsabilidades, essa consciência, esse cuidado com o bem público são muito fortes na nossa filosofia. Ninguém deixa uma luz ligada; a gente usa iluminação natural, ventilação…

Tem muito rigor?
Sim. Mas quem não se adapta vai embora. Não aguenta. Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí. A pessoa que limpa o chão faz uma seleção pública, recebe treinamento que passa por um olhar no microscópio. Passa por uma filosofia. Ele sabe que precisa limpar para retirar as bactérias. Com isso, temos a menor taxa de infecção do mundo. Esses profissionais de higiene são profissionais de saúde.

Usar organizações sociais na gestão de hospitais é uma saída?
Depende das instituições contratadas. Já houve uma experiência em Brasília que não deu certo. As organizações sociais surgiram como espelho do Sarah. Só que a gente tem essas peculiaridades que vão desde o treinamento de um auxiliar de higiene até os profissionais de saúde. A gente tem, por exemplo, um programa muito legal, que se chama Paciente por um dia. O pessoal novo se coloca como tetraplégico, paraplégico, afásico (não fala), e os outros colegas vão tratar dele. Alguém vai alimentar, vai ver o ritmo… Isso dá um outro olhar, mais humano. Temos uma perspectiva humanística. Quando se pergunta a um ortopedista: “O que você olha num paciente?” Olhe o olho.

Então, depende mais de uma filosofia de trabalho?
De uma filosofia e de um modelo de trabalho. Tem que ter o modelo, desde a gestão dos recursos humanos; precisa ter os profissionais trabalhando com prazer. Assim é também no tratamento, precisa ser prazeroso para os pacientes. Desenvolvemos um método que se chama neuroreabilitação ecológica. Se você não pode tirar uma pessoa do hospital para a vida, então tem de levar o hospital para a vida. Um exemplo: as pessoas remando no lago, no Sarah Lago Norte. Lutei muito para construir aquela unidade. Enfrentei muita oposição. Só faltavam me matar.

Por que um hospital na beira do lago?
Justamente pela possibilidade de fazer coisas mais lúdicas, de ter um visual mais legal, um espaço aberto. A pessoa fica paraplégica e precisa de braços muito fortes. Quando ela vai se transportar da cadeira para a cama, para o carro, usa todo o peso do corpo no braço. Se você botar a pessoa para carregar um peso, vai encher a paciência dela. Se você coloca para remar, é muito mais interessante. Para quem precisa trabalhar o equilíbrio, velejar é muito melhor. São coisas assim que temos feito.

Como foi o trabalho de envolver a família nos tratamentos?
Em 2005, escrevi um artigo em que comprovei que a participação da família propicia um tratamento muito melhor.

Hoje em dia, nos hospitais, quando alguém está em fase terminal, cada vez mais o médico comanda o destino daquele paciente longe da família. Acha correto?
Isso é muito prejudicial. Em paciente em estágio terminal, a gente tem que ter uma linha de cuidados paliativos de dar conforto, tranquilidade, amor. Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem. Parece surreal. Já diziam os Beatles: “All we need is love”.

Foi difícil provar essa tese?
A comunidade científica não aceitava. Quando comecei a trabalhar no Sarah, a família não entrava, ficava do lado de fora. Vinha o paciente para tratar, a mãe ficava do lado de fora. Dizia: “Isso não vai dar certo. A mãe passa 24 horas por dia em 365 dias por ano com o filho. Ela tem muita informação para dar.” Não tive dúvidas: peguei meu tapete e coloquei do lado de fora do hospital. Comecei a atender as famílias. Dava um resultado incrível. Mas, quando comecei a apresentar isso, tive que quebrar um tabu muito forte. Ouvia: “Eu sou a fisioterapeuta, como a mãe vai fazer os exercícios?”; “Eu sou a fonoaudiológa.”… Achava que tudo aquilo poderia ser ensinado para as famílias. Peguei um grupo tratado durante um ano com a participação da família, e um outro grupo sem a participação. Quem teve a família foi muito melhor. Provei que a variável mais importante para uma criança melhorar é a afetiva. É o amor.

A criança se sente mais segura?
Quem mais quer o bem dessa criança? Quem ensina uma criança a andar? Não é o fisioterapeuta. É a mãe, a família. Quis devolver à família o papel natural. Quando comecei a falar sobre isso fora do Brasil, também me deu muito problema. Hoje a família é muito bem-aceita. Publiquei um livro que ensinava tudo com desenho, a fazer estimulação motora, cognitiva, da linguagem…

Que imagem o Sarah tem lá fora?
Hoje, o Sarah é um dos modelos mais reconhecidos em reabilitação no mundo. Esse método da família é usado em muitos países. Fui convidada no ano passado até para inaugurar um hospital na Holanda, em Haia, que usa basicamente os métodos que desenvolvi. Hoje recebo visitantes para treinar aqui. Vem gente da Noruega, da Suécia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, França, Dinamarca, África do Sul… Temos projetos de colaboração com vários centros do mundo.

Não é um reconhecimento fácil…
É uma coisa que se constrói no dia a dia. Nunca coloquei isso como meta, mas sempre quis mostrar que esses métodos eram importantes. Nos últimos 20 anos, sempre sou chamada para abrir congressos. Amigos meus, que começaram a trabalhar comigo, de outros países, brincam: “Pôxa, você, a menorzinha de nós, latino-americana, mulher, é a convidada especial”.

Nesse período, sentiu preconceito lá fora?
Teve momentos em que senti. Essa questão da família enfrentou muita resistência. Uma vez fui falar em Curitiba sobre a importância da família e as pessoas se levantaram no meio da fala, em protesto.

Existe muita arrogância na ciência?
Existe. Alguns franceses acharam legal meu projeto da família, alguns alemães também. Mas nem todos. Tinha um amigo alemão, que me tratava muito bem, mas nunca comentava as pesquisas com a família. Uns anos depois, ele me liga: “Meu filho sofreu um acidente de carro e teve uma lesão cerebral. Estou me sentindo excluído. Só agora entendi seu lance com a família. Quero levar meu filho para você tratar, e fazer parte do tratamento”.

E a vaidade no mundo científico?
Há uma vaidade intelectual. Mas tem um lado na ciência: tudo você precisa comprovar. Como provei, com todas as estatísticas, com amostra grande, vários estudos com ressonância magnética funcional em que se mostra dentro do cérebro da pessoa, então não há um questionamento. Aí você publica esse estudo na Science, a comunidade científica acolhe, segue e tenta dar um passo à frente. Então hoje tem menos esse embate.

Como está a saúde hoje no país?
É um momento muito difícil. O país é muito grande. Garantir qualificação, qualidade, a distância… Seria necessária a formação de gestores em saúde. Ser um bom médico não significa ser um bom gestor. Mas a gestão de materiais e a manutenção do sistema são complexas. E é isso que a gente vê muito nos escândalos: falta remédio, equipamento parado. A saúde só vai mudar se a educação mudar. Minha sensação é de que o país precisa investir em educação. Com educação, você já melhora muitíssimo o nível de saúde. Uma coisa que já discuti com alguns governos: por que não se coloca no fim do ensino médio disciplinas de enfermagem, de medicina? Com um ano de formação mínima, haveria muito menos procura de pronto-socorros. Haveria muito mais ações preventivas.

Para não sobrecarregar o sistema?
Isso. A pessoa vai saber quando a situação é grave e que precisa correr para o pronto-socorro ou se pode esperar. Essa noção básica se resolve com educação. Os países que fizeram as grandes mudanças pensam nos próximos 20 anos. Veja o que era a Suécia antes de investir em educação: a pobreza, a miséria, a prostituição, o alcoolismo… E o que é a Suécia hoje, e os países escandinavos.

Mas, aqui no DF, se resolve como? É educação, gestão?
É gestão. Uma coisa que tenho informação, que me foi dito pelo próprio Rollemberg, é que tem um número muito grande de médicos na administração. Não tem nenhum médico na gestão da rede Sarah toda. E ninguém faz só gestão. Faço gestão, faço pesquisa e atendimento de pacientes. O gestor que não for para a base não sabe o que está acontecendo. Se eu não for ao meu ambulatório, à minha enfermaria, vou ficar fazendo o que aqui? Ficar de rainha da Inglaterra? E o que faz esse tanto de gente, esse tanto de médico? Por que estão na administração e não na frente? Por que não se monta um sistema de compra de material que seja minimamente planejado? Por que quando se compra um equipamento não se contrata a manutenção? Não dá para ter uma visão imediatista. Essa ideia de pensar o país a longo prazo é o que falta. É como aqui no GDF.

Qual é a solução?
Deveria se pensar assim: vamos virar a mesa e partir do zero. Vamos construir uma coisa nova? O que sinto dos sucessivos governos são remendos para dar conta durante alguns mandatos.

Seria uma mudança estrutural?
Isso. Parar tudo e ver quem está fazendo o quê. Quem vai cuidar do quê… Eu, que já fiz tantos hospitais, acho tão simples. Olhar o problema de frente, encarar. Ter a participação das pessoas. Esse também é um problema. Você não pode fazer uma gestão que não seja participativa. Não posso dizer: agora sou a secretária de Saúde e vocês vão fazer assim. Ninguém vai fazer porque quero, mas porque acredita. Passaria por uma revisão geral. Vamos construir juntos. Uma coisa muito complicada é ficar se queixando, dizendo que não pode fazer porque não tem condições. Então, descola. Providencia. Briga por isso. Se houver uma boa intenção, você vai conseguir ajuda.

Já foi convidada para ser ministra?
Fui convidada por três diferentes presidentes. Fui convidada para ser secretária de Saúde do DF, mas a estrutura política do Brasil é muito difícil. Tem a coisa da divisão partidária. A vida toda trabalhei com profissionais concursados. Acho complicado esse universo criado pelos políticos de indicar determinado profissional porque tem ligação partidária, política. O cargo de ministro é político. Não é um cargo de gestor público e o meu cargo aqui é de gestor público, de responsabilidade enorme e com cuidado muito grande dos recursos públicos. Nunca tivemos nenhum questionamento do TCU nem da CGU. Se for tudo no preto e no branco, não tem questionamento.

Na hora de pedir recursos do orçamento, há dificuldades?
A gente tem sempre um apoio muito grande da bancada do DF, de todos os partidos. Os grandes aliados do Sarah são as pessoas que nele se tratam. Os parlamentares são eleitos pela população e a população está satisfeita. O nível de satisfação do paciente do Sarah, na última pesquisa, foi de 98,3%. Quando a gente pede uma emenda, não enfrenta dificuldades. E aqui a gente não faz nenhum tipo de diferença partidária ou religiosa.

O aparelhamento político atrapalha?
Atrapalha, mas em que ministério é diferente? Acontece em todo o sistema político.

Na saúde, o peso de indicações políticas não é maior?
Saúde e educação são áreas que não deveriam ter influência política. Se fosse ministra da Saúde, teria de brigar muito. Não iriam me querer em três meses. Logo me dariam alta. Temos que viver para a saúde e não sobreviver da doença.

Como é sua relação com os pacientes?
Sou contra distanciamento. Eu beijo, abraço, gosto. Defendo o envolvimento. Meus pacientes vão se tornando meus amigos. Você comemora cada vitória. É muito bom ver que a pessoa está melhorando e você melhora junto. A gente se “co-constrói”.

Com as derrotas, você acaba sofrendo também?
Não acredito em derrota. Tudo depende do objetivo a ser alcançado. Não posso querer que uma pessoa que comprometeu toda a medula volte a andar. Não posso considerar uma derrota não a fazer andar. Tenho que trabalhar com ela um objetivo que lhe dê qualidade de vida, e a gente vai comemorar muito, a gente vai curtir.

Muitos pacientes chegam com a esperança de cura. Como dizer a eles que nunca mais vão andar?
Acho natural que as pessoas venham com a expectativa acima da realidade. Acontece. Você não pode tirar a esperança de ninguém, mas também não pode alimentar expectativa falsa, porque reversão de expectativa é que causa sofrimento. Acontece assim: a pessoa vai conversar com outras que têm o mesmo problema. Aí, ela começa a digerir. Quando a pessoa está pronta para perguntar ao médico, ela pergunta. Não é preciso antecipar. Trabalho muito o seguinte: o que você tem, e não o que você não tem. Se você gosta de esportes, não pode ser um campeão de corrida, mas pode ser um campeão de remo. Existem “n” possibilidades. O caminhar é mais importante para as pessoas que não têm problema do que para as pessoas que têm. Se você não andar, mas souber contornar isso, será feliz, como a gente vê em milhares de paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos.

Têm ocorrido muitos acidentes de trânsito por uso de celular?
Demais. É impressionante. Antes os problemas de trânsito eram causados por bebida alcoólica. Hoje são principalmente causados pelo celular. É aquela ideia de que você vai ganhar tempo. Na verdade, acaba perdendo um tempo enorme. Passar meses e anos se reabilitando. É um filme que não volta.

Vocês ainda têm programas de orientação para jovens?
Sim. Temos um programa de prevenção que é muito legal. A gente começou pensando em jovens do ensino médio próximos de tirar a carteira. Mas aí descobrimos o óbvio: adolescentes contestam os adultos. Então baixamos a faixa etária para um pessoal bem novinho, porque a criança chega em casa e fala: “Ah, pai, se não botar o cinto, não vou”.

Como fazer com que as pessoas tenham cuidado?
É interessante essa questão da prevenção: ninguém chega e fala: hoje vim me prevenir de um câncer ou de uma lesão na medula. Viável é convidar as escolas para uma visita. É o espaço da educação. Aí você vai trabalhar a formação das crianças. Seria muito legal que as crianças tivessem essa formação. A prevenção passa por aí.

Como enxerga a educação hoje no país?
É preciso investir mais na remuneração do professor. Acho impressionante que não se veja o valor desses profissionais. E investir no ensino fundamental. Um ensino fundamental de qualidade muda muito a realidade. O resto é consequência.

Há situações em que você não acreditaria que o paciente chegaria lá?
A gente nunca acha que a pessoa não vai chegar lá. A questão é construir dia a dia. Sempre se pode dar um passo a mais. Talvez seja um passo diferente, por outra via. O importante, em recuperação e reabilitação, é comemorar cada passo. Cada melhora é uma melhora.

E quanto à força de vontade do paciente?
É fundamental. Quando recebo algum paciente adulto, com uma lesão cerebral mais grave, falo: “Quer melhorar? O mais importante para melhorar é querer. Senão não vai ter como fazer nada, nem sua família, nem ninguém. A pessoa é responsável pela própria saúde.

Vocês atendem de celebridade e político a pessoa comum. O tratamento é padrão?
É absolutamente igual. Aqui não há infecção social. A família chega, toma um banho e veste um uniforme. Isso é para evitar infecção hospitalar e infecção social. A roupa que o acompanhante da celebridade vai usar é a mesma do acompanhante do paciente em uma situação econômica mais precária. Os pacientes usam o mesmo uniforme, o mesmo tratamento, a mesma enfermaria, comem no mesmo refeitório, a mesma comida. A pirâmide socioeconômica do Sarah é igual à do Brasil. Aumentou a classe C no Brasil, aumentou no Sarah. O acesso era todo por telefone, agora é pela internet. O que a gente tem, diferentemente de outros hospitais públicos, é muita busca de pessoas que poderiam pagar. Porque elas buscam a qualidade.

O índice de satisfação com o Sarah é alto. Mas há quem critique porque não consegue consulta. Por quê?
Aí depende. Muitos casos a gente não atende porque as pessoas não têm noção do trabalho do Sarah. Acham que aqui trata fratura. E aqui não trata fratura. O acesso é tranquilo. Entra no site, escolhe a unidade. Você vai ver, por exemplo, que não há ortopedia e neurocirurgia em Fortaleza. Foi definido assim. Tudo é dentro de uma única perspectiva, mas alguns têm especialidades que outros ainda não têm. Tudo isso passa pelo governo federal, porque todos os nossos recursos são públicos.

A arquitetura tem um peso fortíssimo em todos os Sarah. Tudo tem a mão do Athos e do Lelé. Você enxerga os dois?
Isso é uma coisa maravilhosa. Até outro dia comentava… Éramos quatro pessoas muito ligadas: eu, Campos da Paz, o Lelé e o Athos. Sempre fui a caçula da turma, hoje só fiquei eu. O arquiteto não faz um hospital se você não tem um bom programa. E um programa de reabilitação não funciona se não há uma boa arquitetura. Se tivéssemos cubículos, não conseguiríamos fazer um atendimento humanizado. Então adotamos alguns princípios: abertura com a natureza, ventilação natural, iluminação natural, espaços amplos e abertos, multidisciplinariedade. Isso tudo faz parte de um programa de reabilitação. A filosofia do Sarah também se sustenta na arquitetura. Ninguém tem o seu consultório, em nenhuma unidade da rede. A gente divide boxes.

Não foram projetados?
Exatamente. Não temos computadores pessoais. Achei estranhíssimo quando vim para a diretoria — não queria vir. Não tenho talento para ficar em gabinete. Gosto de trabalhar do lado de fora. Quando vim para essa sala e vi que podia abrir a porta e botar uma mesa do lado de fora, carreguei a mesa para a grama e comecei a trabalhar. A arquitetura foi toda pensada assim: os elementos do Athos sempre conversaram com a arquitetura do Lelé. Isso a gente ensina também na formação dos profissionais do Sarah. Ninguém cola um Mickey Mouse em cima de uma peça do Athos. Lelé e Athos tinham uma conversa muito gostosa para cada hospital. Os azulejos do Sarah de São Luís, Athos pensou de maneira diferente, porque é uma cidade com tradição de azulejos. No Sarah centro, o Athos começa com o painel marrom, o painel verde. Você chega ao Sarah Lago, ao Sarah Fortaleza, explode em cores. Um dia falei ao Athos: “Você começou fazendo o Teatro Nacional todo branco… de repente explodiu em cores. Como foi isso?” Ele respondeu: “Lucinha, fiquei velho, perdi a vergonha” (risos).

Que influência tiveram na sua vida?
Tive oportunidades e estou tendo ainda de conhecer pessoas interessantes. Estou sempre muito aberta a aprender, a ouvir o outro. Aprendi muito com Campos, com Lelé, com Athos… Tinha outras pessoas também. Jorge Amado, Zélia Gattai, Millôr Fernandes, pessoas de uma sabedoria.

Do que mais sente falta de Campos da Paz?
Do humor. Na vida diária, a gente tinha uma relação muito próxima. Teria idade para ser filha dele. E um dia ele me falou: “Engraçado, as pessoas pensam que você é tipo minha filha, mas você é tipo minha mãe” (Risos). E é verdade. Porque ele era muito impulsivo. E eu dizia: “Não, não pode, se comporte!” A gente tinha essa liberdade.

Ele disse uma vez sobre você: “O professor se realiza quando descobre que o aluno é melhor que ele”.
Ele botou isso no livro dele. Falei para ele: “Não bota isso não”. Sou do tipo low profile.

Trabalha quantas horas por dia?
Quantas horas for preciso. O envolvimento que a gente tem vem da paixão pelo trabalho. Deve ser muito triste uma pessoa trabalhar numa coisa de que não gosta. Morreria. A gestão me dá prazer. Acho muito gostoso organizar as coisas, ver o resultado e envolver as pessoas. É preciso pensar junto, porque a conquista é do grupo. Aqui todo mundo é muito preocupado em não rasgar o papel, de imprimir um papel que não precisa, de sair e deixar uma luz acesa.

Como cortar gastos e manter bons salários?
Há 15 anos, cortaram muito o nosso orçamento. E os preços subindo. O dinheiro estava limitado e o salário, uma porcaria. Falei: “O salário da gente está ruim, não está? Também acho, porque também sou funcionária. Se todo mundo diminuir o custeio, dá para aumentar o salário”. Imediatamente todo mundo fez uma economia enorme no custeio e reverteu em salário no mês seguinte. Mas a gente sabia que tinha de manter. E até hoje temos essa filosofia.

Como você enxerga a crise no país?
A gente não pode se deixar levar pelo baixo astral. Tem tanta gente batalhando por alguma coisa boa… Tudo passa se a gente resolver cooperar para que as coisas sejam superadas.

E o teatro do Sarah? Os pacientes frequentam?
Sempre achei legal trazer arte para dentro do hospital. Logo que vim para cá, trazia filmes, uns amigos da Escola de Música para tocar. A gente ia fazer um barulho lá fora. Quando resolvemos ampliar o auditório, fizemos um que serve também de teatro. É um espaço com acessibilidade. Os pacientes adoram. Tem gente que vem de maca, tomando quimioterapia. Já falo logo para os artistas: se alguém sair, não é nenhuma crítica (risos). E agora comecei a perceber que diminuiu muito o uso de analgésicos, porque você levanta o astral das pessoas.

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MEC apresenta documento preliminar da Base Nacional Comum Curricular

Proposta define as diretrizes e reformas do currículo escolar em todo o país

postado em 16/09/2015 14:38 / atualizado em 16/09/2015 17:52
Augusto Berto – Especial para o Correio
O ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, anunciou nesta quarta-feira (16), o documento preliminar da Base Nacional Comum Curricular. A proposta definirá as reformas do currículo escolar dos ensinos fundamental e médio no Brasil e ainda está em fase de elaboração. As diretrizes definidas pelo Ministério da Educação (MEC) correspondem a 60% dos conteúdos que serão ministrados em sala de aula. Os 40% restantes atenderão as necessidades de ensino regionais e serão definidos pelos estados e municípios.

“Os conteúdos regionalizados têm como objetivo valorizar as peculiaridades de cada estado, como a história, a geografia e a literatura, que não circula nos grandes centros. A Base é democrática e empodera cada região do país na sua diversidade”, afirmou o ministro.

O plano foi elaborado a partir de quatro áreas de conhecimento: matemática, linguagens e ciências da natureza e humanas a ser ministrado para alunos das 190 mil escolas de educação básica do país. Durante um ano, o documento estará aberto ao debate com a sociedade civil e comunidade científica. “Pela primeira vez a sociedade irá definir como deve ser esse documento. A partir do plano teremos uma orientação mais clara sobre professores, livros didáticos. É uma tarefa de anos e os especialistas oferecem uma grande contribuição para iniciar esta discussão”, completou o ministro
A versão final da Base Nacional Comum Curricular deverá ser entregue em 26 de junho do próximo ano. A Base Nacional Comum Curricular é resultado do trabalho coletivo de mais de cem diferentes atores do contexto educacional entre especialistas das áreas de conhecimento, gestores, professores da educação básica, estudantes e público em geral.
A definição de uma base nacional comum para a educação básica está prevista no Plano Nacional da Educação, aprovado em 2014. Os documentos com os conteúdos curriculares de cada ano de ensino podem ser acessados no site, onde também é possível apresentar propostas.

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Para refrescar o hábito da leitura

Educador popular espalha geladeiras-bibliotecas pelo Guará. Depois da QE 32, Lucas Rafael deixou mais um eletrodoméstico cheio de livros, desta vez na QE 17. A comunidade contribui para o aumento do acervo, que qualquer um pode pegar emprestado

» ROBERTA PINHEIRO
Publicação: 15/07/2015 04:00

image001 (1)À primeira vista, Everaldo Oliveira pensou que era lixo
descartado. Hoje, desfruta dos livros do eletrodoméstico (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

À primeira vista, Everaldo Oliveira pensou que era lixo descartado. Hoje, desfruta dos livros do eletrodoméstico.

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Lucas Rafael já usava a geladeira como armário, em casa,
e decidiu transformá-la em uma ação educativa e cultural (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Lucas Rafael já usava a geladeira como armário, em casa, e decidiu transformá-la em uma ação educativa e cultural.

Uma geladeira no meio de uma praça é algo inusitado. À primeira vista, pode parecer abandono ou descarte irregular de lixo. Mas, ao abri-la, a surpresa. Ela está repleta de livros. Há publicações de turismo, física, filosofia, literatura infantil e romances, entre outras. Tem até opções em inglês, por exemplo. “Doe livro. Leia e devolva”, orienta o aviso escrito no utensílio doméstico, que está na praça da QE 17, no Guará II.

A geladeira-biblioteca anda refrescando as ideias e colocando em dia a leitura dos moradores. “Vi um rapaz abrindo a porta uma vez e escolhendo um livro, mas não sabia que podia pegar”, comenta a pequena Maria Clara Viana Lima, 11 anos. Ao descobrir que todos aqueles exemplares poderiam ser desvendados por ela, a menina não perdeu tempo e foi correndo escolher a primeira leitura. “Gosto de ler gibi e a série Diário de um banana. Vou pegar um livro infantil”, afirma. Maria Clara não vai parar por aí. Na próxima vez que for à praça da QE 17, levará algumas publicações que a mãe tem em casa e não usa mais. “São livros de amor”, descreve. “É legal, porque podemos pegar e devolver depois. Não precisa comprar. É como se fosse uma biblioteca, só que livre”, define Maria Clara.

A ideia de montar e implementar as geladeiras-bibliotecas foi do educador popular e videoartista Lucas Rafael, 30 anos. A inspiração veio de iniciativas semelhantes, como o do açougue T-Bone. Além disso, Lucas já usava o eletrodoméstico como armário em casa. Quando foi se mudar, resolveu transformar o que tinha em uma ação educativa e cultural. “Leitura é cultura e sempre trabalhei para fomentá-la de várias formas. Além disso, as mudanças que queremos para o nosso país só vão acontecer por meio da educação”, explica.

Para reformar o utensílio e deixá-lo com cara nova, Lucas convidou amigos grafiteiros. Com as ilustrações, a geladeira-bibliotecas chama ainda mais atenção. Morador do Guará há 11 anos, ele escolheu a região porque se identificou com o local. “Aqui é um celeiro de artistas e acredito que pode se tornar uma efervescência cultural”, justificou. A primeira geladeira foi colocada por Lucas na QE 32. Ali, deixou alguns livros que tinha em casa. Há cerca de dois meses, ele instalou outra na QE 17. Dessa vez, uma escola doou algumas publicações repetidas. “Mas boa parte é a própria comunidade que abastece”, afirma.

Uma das doadoras é a moradora Maria Beatriz Martins, 71 anos. Todos os dias, ela vai até a lotérica que fica próxima à praça e deixa alguns livros na geladeira. Entre eles, já foram exemplares para o público infantil e sobre religião. “Eles ficam lá em casa em desuso. Então, quando saio, falo: ‘vou levar lá na geladeira’”, conta Maria Beatriz. Adepta da leitura desde criança, a moradora adora a quantidade de opções que o eletrodoméstico literário oferece. “Pego um e leio de trás para a frente, uma mania que tenho.”

Em um primeiro momento, o aposentado Everaldo Oliveira Paraguaçu, 62, achou suspeito o motivo de colocar uma geladeira usada no meio da praça. “Pensei que era lixo e me perguntei se deixariam aqui (praça)”, relembra. Mas, quando começaram a organizar a biblioteca e a pintar a geladeira, Everaldo mudou de ideia e aprovou o projeto. Amante dos romances literários, ele sempre passa pela praça, escolhe um exemplar e se senta para desfrutar da leitura. “Abre a mente e é uma ótima terapia”, afirma.

O idealizador das geladeiras-bibliotecas quer ampliar o projeto. No entanto, faltam recursos. Ele entrou com um pedido de parceria na Secretaria de Cultura para disponibilizar livros de artistas locais. “E é legal ver como a ideia já proliferou. Um amigo que participou conosco decidiu montar uma semelhante na QE 38”, conta.
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“É legal, porque podemos pegar e devolver depois. Não precisa comprar. É como se fosse uma biblioteca, só que livre” Maria Clara Viana Lima, 11 anos.

Biblioteca Popular

A ação do açougue T-Bone, de Luiz Amorim, disponibiliza livros para os usuários do transporte coletivo nas paradas de ônibus da Asa Norte. Em 2013, 600 obras foram queimadas em um ponto na 703 Norte. A recuperação ocorreu de forma rápida. A equipe que cuida do projeto compareceu ao local, pintou a prateleira, limpou a sujeira e não deixou a população nem um dia sequer sem o acervo. Todos os títulos são frutos de doações. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) reconhece a iniciativa de fomento à leitura, que começou em 2007 e é copiada por estados do Brasil e até por outros países. Todos os dias, uma equipe do açougue usa duas kombis para repor os livros doados pela população nas prateleiras das paradas. Ela limpa o espaço e zela para que o serviço prestado aos usuários seja de excelência.

Fonte:www.correiobraziliense.com.br

Brasileiros conquistam três medalhas na Olimpíada Internacional de Física

postado em 13/07/2015 19:25

Paula Braga /Especial para o Correio

Equipe brasileira conquistou três medalhas na Olimpíada Internacional de Física

O Brasil volta para casa com três medalhas conquistadas na 46ª Olimpíada Internacional de Física para Secundaristas (IPhO, na sigla em inglês), que terminou no último domingo (12) em Mumbai, na Índia. Os alunos Felipe de Castro Silva e Tafnes Silva, 18 anos, do Ceará; e Felipe Vieira Coimbra, 17, do Piauí; terminaram a disputa com uma medalha de bronze cada. Participaram da competição 382 estudantes de 82 países. O Brasil foi representado na disputa por cinco estudantes – todos de escolas particulares do Nordeste.

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“A disputa foi bastante difícil, mas foi muito importante fazer parte da equipe que colocou o Brasil nesta posição. Esse tipo de competição faz uma diferença enorme para aqueles que querem seguir uma carreira acadêmica na área”, afirmou Felipe de Castro Silva, aluno da escola Farias Brito, no Ceará. Em publicação nas redes sociais, o professor de física do medalhista Felipe Coimbra elogiou o esforço e o desempenho do aluno na competição. “O resultado foi fruto de investimento e da dedicação focada dele, que chegou à Índia como destaque mundial na física”, disse.

Os outros dois brasileiros na disputa – Delson de Oliveira Filho, 16, de Sergipe; e Mateus Arraes Barbosa, 17, do Ceará – terminaram a competição com menções honrosas pelo desempenho alcançado. Com o resultado, o Brasil terminou a olimpíada com a melhor colocação entre os países ibero-americanos na disputa. A Coreia do Sul foi a campeã da competição. A delegação brasileira chega ao país nesta terça-feira (14).

Mantendo a tradição
Os colégios Cavalcante, Farias Brito e Ari de Sá, de Fortaleza, têm tradição em enviar alunos para a Olimpíada Internacional de Física para Secundaristas – a última instituição soma mais de 60 medalhas em competições acadêmicas nacionais e internacionais. Na escola Farias Brito, a preparação dos estudantes foi acompanhada pelo professor de física Carlos Eduardo. “Para eles chegarem a este nível de competição internacional, faz toda a diferença o papel do professor como um guia, indo além do material básico para materiais de mestrado ou livros russos, dando um diferencial”, disse o professor, que dá aulas para Felipe de Castro Silva e Tafnes Silva, em entrevista ao Correio durante a competição. “São dois alunos diferenciados que descobriram o interesse por olimpíadas na matemática e depois quiseram participar na física. Eles adoram desafios”, completou.

Saiba mais

· bande4ira
Olimpíada Internacional de Física leva brasileiros à Índia
O professor Munemasa Machida, líder do time e coordenador da Olimpíada Brasileira de Física pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) desde abril do ano passado, foi um dos responsáveis por ministrar as aulas preparatórias para a competição aos alunos, realizadas entre maio e junho, e também acompanhou a delegação brasileira na viagem. No ano passado, sob a liderança de Machida, a delegação brasileira conquistou cinco medalhas de bronze na 45ª edição da disputa que ocorreu em Astana, no Cazaquistão.
A IPhO ocorre todos os anos desde 1967, sempre em um país diferente. As provas aplicadas no evento foram planejadas a partir do programa geral, conhecido como Syllabus, aprovado pelo comitê internacional, que inclui conteúdos mais avançados do que os exigidos pelo Ministério da Educação (MEC) para o ensino médio. O objetivo da competição é reconhecer a crescente
importância dos estudos da física nas áreas de ciência e tecnologia internacional.
Os alunos que participaram da disputa foram selecionados entre mais de 200 mil estudantes de todo o país. A Olimpíada Internacional de Física para Secundaristas do próximo ano será disputada em Liechtenstein, na Suíça.

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