Bernardino e Adriana condenados

 

Ex-caseiro terá que cumprir 65 anos pelos crimes de estupro, atentado violento ao pudor, assassinato, ocultação de cadáver e roubo qualificado. Em segundo julgamento, ex-empregada tem pena mantida


Guilherme Goulart e Roberto Fonseca
Da equipe do Correio

Fotos: Breno Fortes/CB
O MP pediu a condenação máxima: 58 anos para ela e 66 para ele

Os pais de Maria Cláudia ficaram perplexos com a mudança da versão apresentada pelos dois acusados, mas tinham certeza de que eles seriam condenados
 

Depois de quase 30 horas de julgamento, o juiz João Egmont começou a ler à 0h22 a sentença do Tribunal do Júri de Brasília que condenou na madrugada de ontem o ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, e a ex-doméstica Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos, pelo assassinato da estudante Maria Cláudia Siqueira Del’Isola, 17 anos, ocorrido em dezembro de 2004 no Lago Sul. Os jurados consideraram Bernardino culpado por cinco crimes: estupro, atentado violento ao pudor, homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e roubo qualificado. Serão 65 anos em regime fechado, sem direito de recorrer em liberdade.

Já Adriana, julgada pela segunda vez por homicídio, pegou 30 anos — vai cumprir mais 28 por estupro, ocultação de cadáver e atentado violento ao pudor, também em regime fechado. “Foi um dos crimes mais bárbaros de que se tem notícia”, disse o juiz, durante a leitura da sentença. Apesar da condenação imposta a Bernardino e Adriana, ambos têm grandes chances de voltar ao Tribunal do Júri de Brasília. A ex-empregada doméstica conta com a possibilidade de conseguir a redução da pena e até pedir novo julgamento, mesmo que seja uma terceira vez — em novembro, ela foi sentenciada pelos crimes de estupro, atentado violento ao pudor, homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

O benefício também se estende ao ex-caseiro. Bernardino foi condenado pelos mesmos crimes que Adriana, além de roubo qualificado: antes de fugir para a Bahia, ele levou US$ 1,8 mil dólares da casa da família Del’Isola. O ex-caseiro também terá o direito de recorrer da decisão dos jurados, pois recebeu pena maior do que 20 anos. Isso, mesmo se receber uma pena inferior. “O defensor público pode alegar irregularidade no julgamento ou no processo. Caso o juiz acate as alegações, ele é anulado e outro remarcado”, explicou o promotor Andrelino Bento Santos Silva, da 3ª Promotoria do Júri de Brasília.

Especialista na defesa de acusados de homicídio, o advogado Antônio Carlos Almeida Castro explica que, quando o réu pega mais de 20 anos, quase que automaticamente é marcado um segundo julgamento. “Mas há também hipótese de se pedir a anulação do julgamento por alguma irregularidade. Ao réu é garantida a ampla defesa dentro do processo penal”, ressaltou. Ele, no entanto, conta que é difícil um advogado fazer esse tipo de alegação: “Os tribunais do Júri têm se cercado de todos os cuidados para evitar furos jurídicos”.

Redução de pena
Em 14 de novembro, Adriana acabou condenada a 58 anos de cadeia por participação no assassinato e estupro de Maria Cláudia, além de ocultação de cadáver — a vítima foi enterrada nos fundos de casa. A Defensoria Pública pediu novo julgamento pelo homicídio, que começou na segunda-feira, e estuda apelação à segunda instância do Tribunal de Justiça para tentar reduzir as penas dos crimes sexuais e de ocultação de cadáver.

Os desembargadores não podem livrar a ex-empregada, pois a decisão dos jurados é soberana. Mas podem entender que não é preciso estabelecer a pena máxima. O defensor público André Ávila, advogado de Bernardino, disse ontem à tarde, no intervalo da sessão, não saber do futuro do cliente. “Quando terminar esse julgamento, zera tudo. Ainda não sei se vou apelar para novo júri. Isso precisa ser estudado”, comentou.

Com a condenação de Adriana confirmada pelo Tribunal do Júri, composto por jurados diferentes do primeiro julgamento, ela passa da condição de presa provisória para definitiva. Com isso, ganha direitos como a progressão de regime: depois de cumprir um sexto da pena, pode pedir à Vara de Execuções Criminais (VEC) a mudança do regime fechado para o semiaberto. Nessa situação, ela pode ganhar o direito de trabalhar fora da cadeia, estudar e visitar familiares durante o dia.

COLABORARAM RENATO ALVES E GIZELLA RODRIGUES

Réus são desmentidos por testemunhas

Os depoimentos das testemunhas arroladas pelo Ministério Público desmontaram a versão apresentada por Bernardino do Espírito Santo, 33 anos, e Adriana de Jesus dos Santos, 24, de que o ex-caseiro executou sozinho a estudante Maria Cláudia Del’Isola. As quatro testemunhas de acusação confirmaram que a ex-doméstica confessou, em detalhes, o crime.

A fase de depoimentos começou na noite de segunda-feira, foi interrompida às 2h05 de ontem e recomeçou às 10h30. O policial civil Ricardo Ferraz, chefe de Investigação da 10ª Delegacia de Polícia na época do crime, emocionou-se ao responder uma pergunta do promotor Maurício Miranda: pelo que conheceu durante a investigação, como Ferraz imaginava ser Maria Cláudia? “O senhor me pergunta uma coisa muito difícil de responder. Eu sou pai e ela era uma menina que todo pai gostaria de ter como filha”, resumiu, com voz embargada. A resposta levou o pai de Maria Cláudia, o professor Marco Antônio Del’ Isola, às lágrimas.

Sem pressão
Ricardo Ferraz contou detalhes da investigação, relatou o telefonema que recebeu de um delegado da Bahia, informando sobre a prisão de Bernardino e a confissão dele: o ex-caseiro afirmava que Adriana havia participado do crime. Na ocasião, Adriana já estava presa em Brasília e confessou a participação. O pai de Maria Cláudia, um
a amiga da estudante e o caseiro de uma casa vizinha à da família Del’Isola também foram ouvidos.

Marco Antônio Del’Isola lembrou ter ouvido a ex-empregada confessar à polícia participação no crime minutos após o corpo ter sido encontrado. Essa confissão espontânea também foi relatada por um amigo da família, que estava na casa dos Del’Isola na ocasião. Uma das testemunhas mais importantes, que acompanhou o depoimento de Adriana na delegacia, garantiu que a ex-doméstica estava tranqüila, não foi pressionada pelo delegado e não apresentava sinais de agressão. O policial fez apenas quatro perguntas à Adriana. Ela respondeu contando em detalhes todo o crime.

Traição
Outras duas testemunhas, o taxista que levou Bernardino para a Bahia após o crime e um policial, também seriam ouvidas, mas foram dispensadas pelos defensores públicos, pela promotoria e pelos jurados. Promotoria e defesa começaram a fazer suas alegações em seguida. A acusação empenhou-se em mostrar a violência do crime e como os réus traíram a confiança dos Del’Isola. O defensor público André Ávila, que representa Bernardino, tentou desqualificar as acusações de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Já o representante de Adriana, o também defensor público Michel de Souza, ressaltou que sua cliente não teve qualquer envolvimento com o caso.

Às 21h10, com o fim da fase de sustentação oral, o juiz titular do Tribunal do Júri de Brasília, João Egmont Lopes, distribuiu aos sete jurados as cédulas de votação e explicou como eles deveriam proceder. Não havia previsão de quanto tempo eles levariam para chegar a um veredicto.

A família Del’Isola estava esperançosa de ver os dois réus condenados e, de preferência, sentenciados à pena máxima. “Vamos continuar firmes. Temos certeza de que teremos uma resposta. Só queremos entender por que esse crime aconteceu”, resumiu, emocionado, o pai de Maria Cláudia durante um dos intervalos da sessão. (Marcela Duarte e Gizella Rodrigues)

Vamos continuar firmes. Temos certeza de que teremos uma resposta. Só queremos entender por que esse crime aconteceu.

Marco Antônio Del’Isola

Nessa hora, imagino como seria importante se nós tivéssemos nossas autoridades ouvindo isso. É um absurdo réus confessos mentindo de forma tão dissimulada.
Cristina Del’Isola

 

Apoio de anônimos

Público menor no Tribunal do Júri de Brasília no segundo dia de julgamento de Adriana e Bernardino. A sessão começou com muitas cadeiras vazias, mas os lugares foram preenchidos lentamente, ao longo do dia. Os pais de Maria Cláudia, Cristina e Marco Antônio Del’ Isola chegaram juntos, acompanhando a avó materna da estudante, Fernanda Magalhães, 78 anos.

Cristina comentou que a noite foi difícil e mostrou indignação ao escutar as novas versões apresentadas pelos réus. “Nessa hora, imagino como seria importante se nós tivéssemos nossas autoridades ouvindo isso. É um absurdo réus confessos mentindo de forma tão dissimulada”, desabafou ela. Maria Fernanda, a irmã de Maria Cláudia, também ficou ao lado dos pais durante a sessão.

A avó de Maria Cláudia, Fernanda Magalhães é um exemplo de fé e fortaleza. Aos 78 anos, está sempre ao lado de Cristina. As pessoas que estavam no Tribunal comentavam, emocionadas, sobre a força dos Del’ Isola e o carinho que a família divide com familiares, amigos e até desconhecidos — o desfecho do crime que chocou os moradores do Distrito Federal tem levado várias pessoas a acompanhar o julgamento, a maioria estudante de direto.

Durante os dois dias, o advogado Zeno Prioto, 57 anos, compareceu ao Plenário do Tribunal do Júri de Brasília. “Não trabalho na área criminal. Mas o julgamento está sendo uma grande lição. Não só do ponto de vista profissional, mas também para a vida”, comentou. A dona-de-casa Isoldina Rodrigues da Silva, 51 anos, líder comunitária em Samambaia, também ficou tentada a assistir o julgamento. Ontem pela primeira vez, deixou de ir ao banco e resolver os seus afazeres para ver Bernardino e Adriana sentados nos bancos dos réus. “Isso é falta de Deus”, disse, referindo-se à violência do crime. (MD)

Editor: Samanta Sallum // samanta.sallum@correioweb.com.br
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FIM DA EXPECTATIVA

 
Juiz anuncia penas de assassinos de Maria Cláudia Del'Isola
 

A justiça prevaleceu. Os familiares de Maria Cláudia Del'Isola, assassinada em dezembro de 2004, vão ter um pouco mais de paz. A Justiça condenou a penas severas os dois indiciados pelo caso: a empregada Adriana de Jesus dos Santos e o caseiro Bernardino do Espírito Santo.

O juiz João Egmont anunciou as sentenças para Bernardino do Espírito Santo e Adriana de Jesus dos Santos: 65 e 30 anos respectivamente. Adriana, que enfrentou seu segundo julgamento, teve a pena total, de 58 anos, mantida. No julgamento que se encerrou nesta terça-feira, o caseiro foi condenado pelos crimes de assassinato, estupro, atentado violento ao pudor, furto e ocultação de cadáver.

Adriana foi julgada apenas pela participação no assassinato de Maria Cláudia. No dia 13 de novembro, ela havia sido condenada a 58 anos de cadeia por  toda a sua participação no crime. Como a pena ultrapassou os 20 anos, a ré teve direito a um novo julgamento. Com a aplicação da pena máxima para o crime de homicídio, em nada se altera o tempo total que a empregada vai ter de cumprir na cadeia.

Tanto o caseiro quanto a empregada não vão ter o direito de recorrer em liberdade.

O julgamento, reiniciado na manhã desta terça-feira, entrou pela madrugada, assim como no dia anterior. A leitura da sentença teve início à 0h25 e durou uma hora.

Durante a leitura da sentença o juiz foi enfático ao descrever a personalidade do caseiro. Ele afirmou que a "dissimulação faz parte da personalidade de Bernardino", que teria uma "completa ausência de pudor". Por várias vezes, o magistrado utilizou palavras como "dissimulados" "carrascos" e "degenerados" para se referir os réus. Ele também descreveu os criminosos como "almas consumidas pela depravação moral", que construíram uma "página macabra na história de Brasília".

Após o anúncio do resultado, familiares e amigos de Maria Cláudia fizeram uma oração e depois aplaudiram a sentença. Ao deixar o local, Marco Antônio Del'Isola, pai da vítima, disse que a família se sente "minimamente confortada" com a condenação. Ele também agradeceu à imprensa pela solidariedade prestada à família. Quando deixaram o prédio do Tribunal do Júri, os pais de Maria Cláudia foram aplaudidos por um pequeno grupo de pessoas que haviam estado no julgamento.

O promotor do caso, Maurício Miranda, também ficou satisfeito com o desfecho:  "A condenação serve de exemplo para inibir possíveis casos semelhantes", afirmou, após o julgamento.

Estratégias da defesa
Durante o julgamento, o advogado de Bernardino tentou desqualificar o crime de assassinato e, assim, diminuir a pena a ser aplicada ao caseiro. André Ávila destacou também a suposta confissão espontânea do indiciado, o que funcionaria como um atenuante da pena.

Michel de Souza Lima, advogado de Adriana, tentou demonstrar que a empregada foi acusada sem que se comprovasse sua participação no crime de assassinato. Ele alegou que o depoimento da ré na delegacia foi induzido, e que ela foi forçada a confessar o crime.

Memória
No dia 9 de dezembro de 2004, a estudante Maria Cláudia Del'Isola, de 19 anos, foi rendida com um facão, pelo caseiro Bernardino do Espírito Santo e pela empregada Adriana de Jesus dos Santos, dentro da sua própria casa. Ela foi obrigada a ligar para a mãe, avisando-lhe que iria sair com uma amiga, para justificar o fato de o carro da estudante continuar na garagem. Dominada, Maria Cláudia foi golpeada na cabeça por Adriana, com um porrete de madeira. Indefesa, a jovem foi amarrada pelo casal e amordaçada. Maria Cláudia foi esmurrada e estuprada por Bernardino. Depois disso, a estudante foi enterrada sob uma escada, em um espaço utilizado como depósito para guardar objetos do jardim. O casal havia feito o buraco antes, e escondeu a terra aos poucos no quintal para acobertar o crime. O corpo foi encontrado três dias depois do assassinato por um policial, por causa do odor.

Adriana foi presa no mesmo dia. Bernardino, que havia roubado R$ 2,5 mil, fugiu de táxi para Bahia, quando percebeu que estava prestes a ser descoberto. Ele foi encontrado nove dias depois em uma praia de Salvador (BA). Quando ainda se imaginava que Tatinha podia ter sido seqüestrada, Bernardino e Adriana participavam da corrente de orações feita pelos parentes e amigos, dentro da casa da família.

Atualizada às 2h49

Da reportagem do clicabrasilia.com.br

Eles vão pagar pelo crime


Assassinos de Maria Cláudia Del´Isola pegam 123 anos de cadeia


Grasielle Castro e Márcia Leite

Foram dois dias inteiros e mais de 30 horas de julgamento para que o caso Tatinha chegasse ao fim. À 0h35 de hoje, o juiz-presidente do Tribunal do Júri, João Egmont, começou a ler a sentença que condenou Bernardino do Espírito Santo e Adriana de Jesus dos Santos pela morte da estudante Maria Cláudia Del'Isola. Os dois foram condenados à pena máxima, que juntas totalizam 123 anos de prisão.

O ex-caseiro pegou 65 anos de cadeia por matar, violentar, estuprar e ocultar o cadáver de Tatinha, e por ter roubado dinheiro da família. A ex-empregada já havia sido condenada, no último dia 13 de novembro, a 58 anos de prisão pelos mesmos crimes, com exceção do de furto. Assegurada pela legislação brasileira, a defesa recorreu e Adriana teve direito a um novo júri pelo crime de homicídio, ao qual ela havia sido condenada a 30 anos. Nesta madrugada, a pena foi mantida. Considerando os benefícios que a lei penal os concede, Bernardino deve ficar, na verdade, 11 anos preso, e Adriana, sete.

Ao final do julgamento, à 1h15, as pessoas presentes no plenário lotado deram as mãos e a família Del'Isola puxou a oração do Pai Nosso, seguida de uma salva de palmas.

O que ajudou a manter o destino de Adriana e a condenar Bernardino foram os depoimentos prestados pelas testemunhas. Durante o julgamento, no Tribunal do Júri, os testemunhos desmentiram a nova versão apresentada pelos réus durante o interrogatório, na segunda-feira, a qual inocentava a ex-empregada e amenizava os crimes cometidos por Bernardino.

Na época do crime, os acusados confessaram que assassinaram a estudante juntos. Já na segunda-feira, no início do segundo julgamento do caso, Bernardino contou outra história. Ele disse que em nenhum momento Adriana participou da morte de Tatinha. Afirmou que fez tudo sozinho porque queria dinheiro para fugir. Adriana confirmou a nova versão de Bernardino.

No entanto, as testemunhas que foram convocadas pelo Ministério Público desmentiram a versão dos acusados. Um jornalista e o agente policial que ouviram a confissão dos réus disseram que ambos admitiram, sem pressão ou medo, que agiram juntos. Segundo o agente, assim que o corpo foi encontrado, enterrado na casa da família Del'Isola, Adriana disse: "Foi o Bernardino, eu só ajudei". Em seguida, ainda de acordo com o policial, a ex-empregada começou a chorar e contou toda a história. Na delegacia, ela deu detalhes e disse como o crime havia sido executado.

Três dias após matar Tatinha, Bernardino fugiu de táxi para a Bahia, onde foi preso. Segundo o agente, no dia da prisão do réu, o delegado de Salvador lhe perguntou se Adriana já estava presa e aconselhou que isso fosse feito logo, já que em seu depoimento, o ex-caseiro contou detalhes da participação de sua ex-namorada no crime. "Ela já estava na cadeia e a versão que o delegado me contou batia com a dela", ressaltou o agente.

Emoção
O depoimento do jornalista, que entrevistou a acusada quando ela foi presa, também contradiz com a suposta inocência da ex-empregada. Durante a entrevista, ela teria admitido que segurou Maria Cláudia para que Bernardino a estuprasse. Na segunda-feira, durante seu depoimento no Tribunal do Júri, a ex-empregada disse que só contou a versão antiga na delegacia porque os policiais a torturaram para obter a confissão.

O professor Marco Antônio Del'Isola, pai de Tatinha, primeira testemunha a depor, destacou que Adriana confessou a participação no crime logo que o corpo foi descoberto. Marco Antônio se emocionou em vários momentos e disse que Tatinha era "tranqüila e ingênua". Ao final de seu depoimento, o pai de Tatinha virou para os réus e desabafou. Disse que com o crime, todos perderam: ele, a filha; e os réus, a oportunidade de serem pessoas melhores. E encerrou com um recado. "Vocês merecem pagar exemplarmente pelo que fizeram".


Tentativa de amenizar culpa

Por mais de três horas, os advogados de Bernardino e Adriana usaram de todos os artifícios para tentar convencer o júri a "fazer justiça". Os dois defensores públicos queriam amenizar a culpa dos réus. Em um de seus argumentos, o defensor do ex-caseiro, André Ávila, procurou sustentar a tese de que não houve tortura e que o crime foi um homicídio comum. Ávila pediu que as qualificadoras de "meio cruel" e "recurso que impossibilitou a defesa da vítima" não fossem consideradas pelo júri com relação ao homicídio. O advogado tentou provar, ainda, que Bernardino não cometeu o crime de atentado violento ao pudor.

Ávila chegou a dizer que Maria Cláudia teve a chance de se defender, mas não o fez, porque confiava no empregado da família. "Não houve crueldade e sofrimento inútil", alegou. "Ele apenas a estuprou, não houve conjunção carnal (sexo anal)", defendeu, recorrendo a detalhes do caso.

O defensor reconheceu a "atrocidade" cometida pelo réu e qualificou o crime como um "teatro dos horrores". "O que Bernardino fez é macabro. Ele enganou Maria Cláudia e a levou para uma arapuca. Mas não podemos agir com sentimento de vingança, devemos fazer justiça", pediu Ávila.

Nas duas horas em que teve para defender Adriana, o advogado Michel de Souza Lima usou a mesma versão declarada pela acusada. A defesa alegou que não há provas nos autos sobre a participação da ex-empregada no crime de homicídio e pediu sua absolvição.

O defensor criticou a imprensa e disse que as declarações que Adriana deu aos veículos de comunicação, na época do crime, confessando sua participação no assassinato, não deveriam ser consideradas. "Em nenhum momento ela confessou ter matado Maria Cláudia. Bernardino não precisou da ajuda de Adriana para cometer esse crime", afirmou.

No entanto, a versão apresentada por uma das testemunhas, um agente policial, reforça a tese de que o crime foi mesmo premeditado pelos dois acusados. Segundo esse policial, o ex-caseiro teria comentado com Adriana que pretendia roubar a família e fugir. Então, a ex-empregada sugeriu que ele estuprasse Tatinha, já que ele tinha desejo por ela. Bernardino respondeu que se fizesse isso teria que matá-la para ninguém saber. "Então mata", teria respondido Adriana, de acordo com o depoimento do policial. O agente contou ainda que após o acordo, nas palavras de Bernardino, ela ficou "infernizando" ele para que executasse logo o plano.

Publica
do em: 12/12/2007

Penas somam 123 anos de cadeia para assassinos

A primeira guerra da família Del’Isola para condenar os assassinos da estudante Maria Cláudia terminou na madrugada de ontem. O ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, e a ex-empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 24, receberam a pena máxima pelo assassinato da jovem. Adriana foi condenada novamente a 30 de prisão por homicídio triplamente qualificado. Já o ex-caseiro, julgado pela primeira vez, recebeu 65 anos pelos crimes de estupro, atentado violento ao pudor, homicídio, ocultação de cadáver e furto. Ao contrário do que ocorreu com a ex-empregada doméstica, a defesa de Bernardino não vai pedir a formação de um novo júri. O defensor público André Ávila explica que entrará apenas com recurso para rever a quantidade de anos que o ex-caseiro deve ficar na cadeia. O réu ainda pode se beneficiar do regime de progressão de pena, se tiver bom comportamento durante a prisão. Com isso, Bernardino pode estar de volta ao convívio social dentro de oito anos. Durante o julgamento, a defesa de Adriana tentou convencer os jurados de que ela não participou dos crimes. Já o defensor de Bernardino tentou retirar os requintes de crueldade – o motivo torpe e a impossibilidade de defesa da vítima.  Apesar disso, o promotor de Justiça Maurício Miranda já esperava o resultado da sentença. Miranda ressaltou que os pais de Maria Cláudia não tinham como prever a atitude criminosa do ex-caseiro e da ex-empregada. O promotor trabalhou sua contestação de forma a derrubar as mentiras contadas pelos réus. Em depoimento, Bernardino afirmou pela primeira vez que Adriana não havia participado do crime. A versão provocou indignação no público que assistia ao julgamento. – O Marco Antônio (pai de Maria Cláudia) não tinha como visualizar essas duas feras. A família vivia em harmonia com os empregados da casa. Por que maltratar alguém que só deu amor e carinho? – disse Miranda. Em outra ocasião, a avó de Maria Cláudia, Fernanda Siqueira, 78 anos, disse que o assassinato da jovem desestruturou a família por completo. Dona Fernanda teve de mudar de bairro, em Salvador, para não dar de cara todos os dias com a casa onde conheceu Bernardino. Foi ela quem indicou o caseiro para trabalhar na casa dos Del’Isola. Com ele, veio a namorada, Adriana. – Por que tanta barbaridade, tanta falta de humanidade com a minha neta? – questionou. Para o pai da estudante, Marco Antônio, as sentenças foram justas e um exemplo de combate à impunidade. – Não se comemora um resultado desses. Mas a gente sai fortalecido por saber que, nesse caso, os criminosos vão responder pela crueldade que praticaram.

Defesa tenta reduzir crimes do assassino de estudante

No segundo dia do julgamento de Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, a estratégia da defesa do réu foi tentar retirar dois agravantes do crime de homicídio. Segundo o defensor de Bernardino, André Ávila, não houve crueldade na morte da estudante Maria Cláudia Del’Isola. O advogado alegou também que a vítima teve possibilidade de defesa e que Bernardino não teria praticado o crime de atentado violento ao pudor. Até o fechamento desta edição, o juiz João Egmont não havia pronunciado a sentença. A previsão era de que o julgamento terminasse ontem por volta do início da madrugada de hoje. Bernardino poderá ser condenado a pena máxima de 66 anos. Se for beneficiado pela redução de pena, prevista em lei, o ex-caseiro cumpriria apenas um sexto da pena, ou seja, 11 anos de detenção. Pesam sobre Bernardino as acusações de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, estupro, furto qualificado e atentado violento ao pudor. De acordo com a defesa de Bernardino, a estudante Maria Cláudia teria sido morta em razão de um único golpe de pá, proferido por Bernardino. Por este motivo, não teria existido crueldade no crime. – Pela lei, a qualificadora de crueldade existe quando se infringe a vítima um sofrimento desnecessário para que ela morra. Mas, pelo laudo cadavérico, pelo conjunto da única lesão externa no corpo, só houve um golpe de pá – disse o defensor de Bernardino. O advogado tentou retirar também a acusação do crime de atentado violento ao pudor. Com isso, Bernardino teria uma redução de pena entre 10 e 12 anos. Já a nova versão dada por Bernardino, de que ele não tinha a intenção de matar Maria Cláudia, mas que queria apenas roubá-la, foi contestada pelo promotor Maurício Miranda. – Por que este crime aconteceu? Ele teve chance de pegar o dinheiro. Mas o dinheiro não era o motivo do crime. O verdadeiro motivo do crime era a maldade. O dinheiro ele teria, sem encostar nem um dedo em Maria Cláudia – afirmou. De acordo com a acusação, Bernardino teria premeditado o crime pelo menos 15 dias antes. – Já estava tudo preparado. O buraco onde ela seria enterrada, os elementos materiais, a fita, o fio usados no crime já estavam separados – disse Maurício Miranda. Marcas da crueldade O promotor mostrou ao jurados fotos dos ferimentos provocados pelos golpes de pá no rosto de Maria Cláudia, para demonstrar a crueldade dos golpes. O promotor destacou que, antes de falecer, a estudante viveu entre 30 e 40 minutos de sofrimento. Já a estratégia da defesa de Adriana de Jesus Santos, 24 anos, foi negar a participação dela no crime. Adriana teve direito a um segundo julgamento porque foi condenada a uma pena superior a 20 anos de prisão pelo crime de homicídio. Na segunda-feira, Bernardino tentou inocentar a ex-amante. Disse que ela ficou o tempo todo na cozinha da casa e que não ajudou a matar Maria Cláudia. Mas, de acordo com a acusação, não há dúvidas da participação da ex-doméstica, que teria inclusive, ajudado a segurar a jovem no momento em que Maria Cláudia era violentada sexualmente por Bernardino. Na manhã de ontem, um policial que trabalhou no caso, prestou depoimento como testemunha da acusação. O policial contou que Adriana confessou ter ajudado a matar Maria Claudia, porque sentia inveja e ciúmes da vítima. A testemunha contou que, quando os policiais encontraram o corpo de Maria Cláudia enterrado dentro da própria casa, Adriana foi imediatamente questionada e confessou ter participação do crime. – Ela disse que foi só o Bernardino e que apenas havia o ajudado e começou a contar toda a história. "Nós tinhamos planejado matá-la. Eu não gostava dela" – disse o policial. De acordo com a testemunha, na Delegacia, Bernardino contou que, inicialmente, o plano era apenas roubar, mas que a própria Adriana teria sugerido que ele violentasse e matasse Maria Cláudia. – Quando ele expôs a idéia do roubo a Adriana, ela disse: "Porque você então não pega a menina? Você não gosta dela? Mas daí terá que matar, senão ela vai nos entregar", foi o que disse Adriana. Segundo palavras do próprio Bernardino, Adriana ficou "infernizando a vida dele para que o plano fosse colocado em ação" – contou a testemunha. Muito emocionado, o pai de Maria Cláudia, Marco Antônio Del’Isola, disse que não há explicação para um crime tão brutal. – Jamais entenderemos o porquê de tudo isso. Talvez apenas em um outro plano. Aqui, prosseguimos com a nossa dor – disse.

Caseiro tenta inocentar ex-amante

O ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, um dos acusados de torturar, violentar e executar a estudante Maria Cláudia Del’Isola, há três anos, tentou inocentar a sua cúmplice e ex-amante, a doméstica Adriana de Jesus Santos. Nos depoimentos prestados à polícia, Adriana havia confessado participação no crime. Admitiu que foi movida por ciúmes e inveja da vítima. O crime ocorreu dentro da casa da estudante, que teve seu corpo ocultado em um cômodo próximo à sala de visita. Ontem, Marco Antonio e Cristina Del’Isola voltaram ao Tribunal do Júri de Brasília para assistir ao julgamento dos acusados de matar a sua filha. Desta vez, o júri não foi desmembrado.  Bernardino e Adriana são julgados ao mesmo tempo. A previsão é que a sentença sai hoje a noite. Condenada Esta é a segunda vez que Adriana senta no banco dos réus. No mês passado, ela foi condenada a 58 anos de prisão, pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, estupro, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver. Mas, como recebeu uma pena superior a 20 anos pelo crime de homicídio, Adriana teve direito a um segundo julgamento. Bernardino é acusado dos mesmos crimes, além de furto qualificado. O juiz João Egmont não acatou ao pedido da defesa para que Adriana e Bernardino fossem julgados separadamente. O juiz considerou que os dois deveriam ser julgados ao mesmo tempo, para que houvesse unidade processual. O primeiro a ser ouvido foi Bernardino. Ao ser questionado sobre o que ocorreu no dia do crime, Bernardino mudou a versão apresentada à polícia e à imprensa na época do crime. Agora, ele afirma que Adriana ficou o tempo todo na cozinha da casa e que não viu e nem participou do assassinato. – Quero hoje dar o verdadeiro depoimento. Adriana não participou de nada. Eu fiz tudo sozinho. eu não combinei nada com Adriana. Vim falar a verdade, porque ela ia ficar presa por algo que não cometeu – disse. Bernardino afirmou que foi coagido por policiais para acusar Adriana. – Colocaram um saco na minha cabeça. Me deram tapas, fizeram com que eu dissesse coisas que não tinha nada a ver. Eu dizia uma coisa e escreviam outra – afirmou. O depoimento de Bernardino, muito confuso, durou quase três horas. Ele não soube explicar o porque rendeu, violentou e matou Maria Claudia, já que segundo ele, seu único interesse era roubar o dinheiro que ela tinha para poder fugir. Ele contou que precisava de dinheiro porque estava desesperado, estava com medo de ser preso por outro crime. Poucos meses antes de matar Maria Cláudia, Bernardino havia estuprado uma menor de 14 anos. – Eu vi helicópteros e carros de polícia passando perto da casa. Por isso, precisava fugir. Eu queria apenas pegar o dinheiro dela. Mas, na hora, perdi o controle e dei dois golpes de pá na cabeça dela – disse. Nova versão Depois de um intervalo para o almoço, foi a vez de Adriana ser ouvida. Ela confirmou a versão dada por Bernardino. Disse que ficou o tempo todo na cozinha e não percebeu nenhuma movimentação estranho na casa no momento do crime. Adriana também alegou ter sofrido coação para confessar o crime. – Colocaram palavras na minha boca. Quando eu assumia o crime eles paravam de me bater. Eles me bateram e me fizeram confessar. estou pagando por um crime que não cometi – disse Adriana. O promotor Maurício Miranda disse que já esperava que Bernardino tentasse livrar a culpa de Adriana, mas que não há dúvidas de que ela participou do crime. A mãe de Maria Cláudia, Cristina, se mostrou indignada com a versão apresentada por Bernardino. – Cheguei com esperança de que aqueles dois monstros pudessem ter um minuto de lucidez e assumissem definitivamente as consequências dos atos praticados por eles. Mas, em vão. Eu vejo que eu ainda sou muito ingênua – disse Cristina, visivelmente abalada.

Progressão de pena causa indignação

Mas parentes de vítimas promete que ficarão olho nos assassinos A mãe de Maria Cláudia, Cristina Del’Isola, garante que continuará de olho no destino de Adriana e Bernardino mesmo depois do julgamento. Cristina revolta-se com a possibilidade de a empregada doméstica sair da cadeia em pouco mais de seis anos. Se tiver bom comportamento, Adriana pode conseguir a progressão de regime sem sequer realizar um exame criminológico. O advogado criminalista e professor da Universidade Católica Carlos André Praxedes explica que desde 2003 a avaliação criminológica só é obrigatória quando o detento entra na penitenciária. – Esses são os gargalos do Código de Processo Penal. É inaceitável, mas um atestado de bom comportamento, emitido pelo diretor da unidade prisional, supre esse documento – detalha. Praxedes esclarece que não há como impedir que Adriana e Bernardino alcancem a semiliberdade dentro de alguns anos. Uma vez que a lei brasileira não permite e prisão perpétua ou a pena de morte, todos os presos têm direito à ressocialização. No ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucional uma lei que proibia a mudança de regime nos casos de crime hediondo. – A dor dessa família é compreensível, esse é um fato que merece a repulsa de todo cidadão de bem. Mas não se pode fugir da legislação. E qualquer mudança tem de ser debatida entre toda a sociedade, sem precipitação – diz Praxedes. No regime de semiliberdade, o detento pode sair da cadeia sem vigilância, pode freqüentar curso supletivo ou profissionalizante. O preso também tem direito aos chamados saidões, pelo menos quatro vezes por ano por até sete dias. O criminalista e professor da UnB Pedro Paulo Castelo Branco Coelho ressalta que até mesmo um exame criminológico pode falhar. Conforme o professor, todos os condenados têm 50% de chance de voltar ao convívio social. – Às vezes, o preso passa cinco ou seis anos na cadeia, fazendo tudo certo. Quando sai, vai atrás da namorada, que já está com outro. Num acesso de raiva, mata a moça e se mata em seguida. Infelizmente, o juiz não tem bola de cristal para saber se a pessoa vai ou não voltar a praticar delitos – indica. Coelho afirma, porém, que no caso de Adriana e Bernardino, o bom comportamento não bastará para que eles deixem a penitenciária. – Pelo grau de violência desse crime, essas pessoas devem ser bem observadas antes voltar à sociedade – destaca. Para a mãe de Maria Cláudia, as autoridades precisam promover uma discussão sobre como deve se dar a ressocialização dos presos. Cristina ficou impressionado com a forma que Adriana apareceu no Tribunal de Justiça no primeiro julgamento. A empregada doméstica estava mais magra, com calça justa e barriga de fora e com os cabelos alisados. – Não quero que ninguém deixe de ser humano, até porque eu não sou a favor da cadeira elétrica. Mas estamos falando de criminosos que agiram de forma torpe, cruel, não se trata de um delito qualquer – comenta. Para Cristina, a postura de Adriana foi mais um desrespeito à família. – A assassina pode se apresentar assim e eu, como mãe, não posso levar a minha filha no peito. Que inversão de valores é essa? – indigna-se. A mãe de Maria Cláudia também refuta a versão difundida por algumas autoridades policiais de que a família não teve o devido cuidado ao contratar Adriana e Bernardino. – Eu me espanto com algumas colocações que são feitas de forma leviana e inconsistente. São pessoas que nada sabem sobre rotina da minha casa e, por maior que seja a vontade de responder, a gente não pode se preocupar em excesso com o que não é verdade – diz. Cristina acredita que se o caseiro tivesse cumprido por completo a condenação que sofreu na Bahia, por tentativa de homicídio, Maria Cláudia ainda estaria viva. Ela questiona também a falta de investigação em relação a um estupro que Bernardino cometeu no Lago Sul, em abril de 2004. A jovem que foi violentada fez um retrato falado do agressor, mas o material não foi divulgado. – A descrição feita pela moça é muito semelhante ao Bernardino. Pelo menos aqui no Lago Sul isso deveria ter sido repercutido. Mas nada de fala sobre isso – conclui.

Família enfrenta mais uma batalha

A família da estudante Maria Cláudia Del’Isola se prepara para enfrentar mais uma etapa da batalha para condenar os assassinos da jovem. Amanhã, a empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 24 anos, e o caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, voltam a sentar-se no banco dos réus. Adriana já foi condenada a 58 anos de prisão, mas tem direito a um novo julgamento porque a pena foi superior a 20 anos em um dos crimes – homicídio triplamente qualificado. Por coincidência, hoje completa três anos a morte da estudante, violentada e assassinada pela empregada doméstica e por Bernardino. Para lembrar a data, o Movimento Maria Cláudia pela Paz realiza uma festa de Natal para cerca de mil crianças e idosos carentes. O evento será a partir das 15h, no ginásio do Colégio Marista, na 615 Sul. Os pequenos e os idosos assistirão a uma apresentação musical e a uma peça teatral intitulada História de um Anjo. Depois do lanche, os participantes receberão do Papai Noel um brinquedo. O material foi arrecadado durante uma gincana do Marista. – As ações do movimento transformam o espírito da Maria Cláudia em iniciativas concretas. É uma das formas que tenho de me sentir abraçada por Deus – diz a mãe da jovem, Cristina Del’Isola. Ela explica que a ONG surgiu por conta da mobilização de amigos e pessoas sensibilizadas com o crime. Cristina afirma que o amparo dos cerca de 300 voluntários ajuda a superar o medo de viver em uma sociedade cada vez mais violenta. Para a mãe de Maria Cláudia, a presença de tantos envolvidos no movimento destaca um lado bonito do ser humano, que se sensibiliza com a dor alheia. – E a ONG tem muito a cara da minha filha. Para ela, não tinha tempo ruim, ela conseguia valorizar as pessoas pelo que elas tinham de melhor – lembra. A coordenadora do movimento, Marta Pantuzzo, escla-

rece que as iniciativas visam evitar tragédias como a que tirou a vida da estudante. – Nada trará a Maria Cláudia de volta. Sequer vamos curar a dor dessa família. Mas precisamos cobrar das autoridades uma resposta a tudo isso. Não se trata de vingança, é uma questão de justiça, de fazer a verdade vir à tona – disse Marta. No primeiro aniversário da morte da jovem, os voluntários entregaram aos então presidentes da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, e do Senado, Renan Calheiros, um ofício solicitando mais rigor com os criminosos. No ano passado, o movimento uniu-se com as ONGs Gabriela Sou da Paz, do Rio de Janeiro, Viva Rio e Brasil Sem Grades, do Rio Grande do Sul, para criar uma rede de integração entre as vítimas da violência. O Maria Cláudia pela Paz conta com a participação de familiares de outros jovens que perderam a vida em crimes bárbaros na capital. Hoje, o movimento encerra a distribuição de cerca de 50 mil panfletos que chamam a atenção da sociedade para o julgamento. Amanhã, a partir das 6h, o grupo estará reunido novamente em frente ao Tribunal de Justiça do DF para dar apoio aos parentes da jovem. Adriana e Bernardino entrarão juntos no Tribunal do Júri, às 9h. O promotor de Justiça Maurício Miranda não sabe se a defensoria pública pedirá o desmembramento do júri. No primeiro julgamento da empregada doméstica, no mês passado, a defesa da ré pediu que o caseiro prestasse depoimento na qualidade de testemunha. – A única maneira de Bernardino ser ouvido é se ele for julgado no mesmo dia. Para nós, o melhor é que isso ocorra, para dar celeridade ao processo – disse. Se o caseiro mudar a versão dos fatos e inocentar Adriana, Miranda esclarece que não haverá prejuízo à decisão do caso. Bernardino pode pegar até 66 anos de prisão. Assim como Adriana, ele também pode se beneficiar do regime de progressão de pena e sair da cadeia dentro de nove anos.

Bernadino e Adriana são condenados pelo assassinato de Maria Claúdia

Cecília de Castro
CorreioWeb
12/12/2007
02h52
Após quase 30 horas de julgamento o juiz do Tribunal do Júri de Brasília, João Egmont, leu a sentença que condenou o ex-caseiro Bernadino do Espírito Santo, 33 anos, e a ex-empregada doméstica, Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos, pela morte da estudante Maria Cláudia Del´Isola. Os jurados consideraram Bernadino culpado pelos crimes de estupro, atentado violento ao pudor, homicídio triplamente qualificado, roubo qualificado e ocultação de cadáver. O ex-caseiro foi condenado a 65 anos de reclusão em regime fechado, sem direito a recorrer em liberdade. Já Adriana pegará 58 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, atentado violento ao pudor, estupro e ocultação de cadáver.

O juiz João Egmont iniciou a leitura da sentença por volta das 0h25. Muito abatida a mãe de Maria Cláudia, a professora Cristina Maria Siqueira Del´Isola não se sentiu bem durante a leitura e preferiu se sentar. Já o pai da jovem, Marco Antônio Del´Isola e a filha, Maria Fernanda Del´ Isola acompanham a sentença do juiz em pé, mas de cabeça baixa. Instantes depois de Egmont tornar pública a condenação dos ex-empregados, as pessoas que estavam no plenário rezaram o Pai Nosso de mãos dadas. O julgamento foi ainda finalizado com uma forte salva de palmas.

“Acredito que houve justiça. Já havia dito que não esperávamos outro resultado. Posso dizer que saímos minimamente confortáveis. A dor continuará sendo nossa, mas uma pena dessa ordem deverá frear as pessoas que não conseguem viver em sociedade”, desabafou o pai de Maria Cláudia. Abraçadas Maria Fernanda e Cristina Maria deixaram o Tribunal do Júri.

O promotor de acusação, Maurício Miranda, acredita que a condenação de Adriana e Bernadino inibirá outros crimes. “Esse é um exemplo que servirá para outros crimes hediondos”, afirmou. Na saída o promotor de defesa de Bernadino, André Ávila, não quis dar entrevista. Porém, adiantou que a defesa recorrerá da decisão. Por ter recebido pena de mais de 20 anos, Bernadino poderá recorrer. A defesa tem até cinco dias para se manifestar.

Júri
Adriana foi julgada por duas vezes. Ela foi a júri popular nos dias 12 e 13 de novembro. Depois de mais de 19 horas de julgamento, a empregada doméstica recebeu pena máxima por todos os crimes de que foi acusada – homicídio triplamente qualificado, estupro, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver – e foi sentenciada a 58 anos de prisão. Após a condenação, no entanto, a defesa dela pediu novo júri, recurso previsto em lei para sentenças acima de 20 anos de reclusão.

Adriana e Bernardino deveriam ter sido julgados juntos no último dia 12 de novembro. Entretanto, na ocasião, seus advogados conseguiram o desmembramento do júri – discordaram quanto à escolha dos jurados e conseguiram que cada réu comparecesse à Justiça em uma data diferente. Em razão disso, Adriana ficou para ser julgada no dia, e o júri de Bernardino foi remarcado para 10 de dezembro (segunda-feira). No segundo julgamento a defesa tentou novamente o desmembramento do júri, sem sucesso.

Sentença
– Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos
Condenada a 30 anos por homicídio triplamente qualificado, 12 anos e meio pelo atentado violento ao pudor, 12 anos e meio pelo estupro e três anos ocultação de cadáver, totalizando 58 anos de reclusão. Não tem antecedentes criminais.

– Bernardino do Espírito Santo, 33 anos
Condenado a 30 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, 12 anos e seis meses de reclusão pelo crime de estupro, 12 anos e seis meses de reclusão pelo crime de atentado violento ao pudor, três anos de reclusão e multa pelo crime de ocultação de cadáver e 7 anos de reclusão por furto qualificado, totalizando 65 anos de reclusão, em regime fechado. O réu ainda responde no Tribunal do Júri de Brasília por tentativa de estupro em outro processo, no qual já foi pronunciado e deve ser julgado em breve. Bernadino tem antecedentes criminais por tentativa de homicídio, estupro e furto. Na época em que cometeu o crime ele andava com alvará de soltura, pela prática de assalto.

Memória
Maria Cláudia Siqueira Del’Isola morreu no dia 9 de dezembro de 2004, aos 19 anos. Seu corpo foi encontrado pela polícia enterrado debaixo de uma escada da casa onde ela morava com a família, no Lago Sul. A jovem foi torturada, violentada e assassinada. Os acusados pelo crime eram empregados da família: o ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo, 33 anos, e a ex-doméstica Adriana de Jesus dos Santos, 24. Adriana foi presa no dia da descoberta do corpo, e o caseiro fugiu para a Bahia, sendo detido pela polícia no dia 20 de dezembro, em uma praia de Salvador.

Mais um julgamento

 

 


Acusados de assassinar brutalmente estudante, em dezembro de 2004, serão submetidos ao Tribunal do Júri de Brasília na segunda-feira


Helena Mader
Da Equipe do Correio

Edilson Rodrigues/CB – 12/11/07
Adriana já foi condenada a 58 anos. Bernardino pode pegar 66
 

Depois de condenada a 58 anos de prisão por espancar, violentar, matar e ocultar o corpo da estudante Maria Cláudia Del’Isola, em dezembro de 2004, a ex-empregada doméstica Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos, será submetida a um novo julgamento nesta segunda-feira. O primeiro júri foi realizado nos dias 12 e 13 de novembro. A legislação penal brasileira assegura um segundo julgamento a todos os condenados a mais de 20 anos de prisão. Também está marcado para a próxima segunda-feira o júri do ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo, que responde pelos mesmos crimes que Adriana e ainda por roubo qualificado. Ele levou US$ 1,8 mil da casa dos Del’Isola após o assassinato e usou o dinheiro para fugir para a Bahia.

Com a confirmação do segundo júri da ex-doméstica, a sessão que vai decidir o destino de Bernardino pode ser adiada mais uma vez, caso haja um novo desmembramento. Isso acontece quando os advogados de defesa dos dois réus e a promotoria divergem sobre a escolha de pelo menos um dos jurados. Se todos concordarem sobre a formação do júri, Adriana e Bernardino serão julgados juntos. Se os defensores públicos optarem por jurados diferentes, a ex-empregada e o ex-caseiro terão julgamentos separadamente.

É a promotoria que escolhe quem irá primeiro para o banco dos réus, caso realmente haja desmembramento. O promotor do Tribunal do Júri, Maurício Miranda, espera que Adriana e Bernardino sejam julgados de uma única vez nesta segunda-feira. “Preferimos julgar os dois juntos, porque aproveitamos uma única sessão. Essa é a intenção da promotoria”, explica Miranda. A defesa dos acusados pode optar pelo desmembramento para não deixar um réu acusar o outro durante a sessão.

 

Os réus

Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos
A ex-empregada doméstica já foi sentenciada a 58 anos de prisão no julgamento realizado nos dias 12 e 13 e novembro. Ela foi condenada por homicídio triplamente qualificado, atentado violento ao pudor, estupro e ocultação de cadáver. No novo julgamento desta segunda-feira, Adriana será julgada apenas por homicídio, único crime cuja pena foi superior a 20 anos.

Bernardino do Espírito Santo, 33 anos
O ex-caseiro seria julgado com Adriana, mas o júri foi desmembrado e o julgamento foi remarcado para 10 de dezembro. Ele responde pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, atentado violento ao pudor, estupro, ocultação de cadáver e roubo qualificado, já que levou US$ 1,8 mil da casa dos Del’Isola. Se pegar a pena máxima, será condenado a 66 anos de prisão.

 

Punição rigorosa

Paulo H. Carvalho/CB – 13/11/07
Cristina, mãe da estudante, espera a pena máxima para os réus
 

O promotor Maurício Miranda critica o recurso que permitiu o cancelamento do primeiro julgamento de Adriana de Jesus dos Santos. “Isso causa desconforto, faz com que todo nosso trabalho seja apagado. É um recurso totalmente inadequado, que atrapalha a celeridade processual. No caso de um crime grave como esse, acho que teríamos é que acelerar a aplicação da pena”, avalia o promotor.

Adriana será julgada novamente apenas por homicídio qualificado, cuja pena foi de 30 anos (leia quadro). As penas pelos crimes de atentado violento ao pudor, estupro e ocultação de cadáver são inferiores a 20 anos e, por isso, não haverá um novo julgamento para essas acusações.

O defensor público que advoga por Bernardino, André Ávila, garante que o desmembramento é indiferente. “Isso não faz diferença, nem afeta nossa disposição. Estamos preparados para fazer a defesa na segunda-feira”, garante o advogado. Ele não quis adiantar como será feita a defesa de Bernardino, nem que argumentos usará. “Nosso discurso é voltado para os jurados. Mas não posso adiantar nada”, explicou André Ávila. O defensor público que representa Adriana não foi localizado.

A expectativa entre os familiares de Maria Cláudia é grande. Principalmente porque, neste domingo, véspera do julgamento, parentes e amigos vão lembrar o terceiro aniversário de morte da estudante, no Colégio Marista, na 615 Sul, a partir das 15h. “Todos os dias 9 de dezembro a família realiza uma missa. Mas, este ano, estamos preparando um evento que tem como objetivo a celebração pela vida, que foi o que Maria Cláudia mais amou”, conta Cristina Del’Isola, mãe da estudante.

Mais de mil crianças e idosos do Lar São Francisco, atendidos pelos voluntários do movimento Maria Cláudia pela Paz, vão participar da celebração. O grupo também organiza uma manifestação em frente ao Tribunal de Justiça, para a manhã do julgamento. Os voluntários chegarão ao local a pa
rtir das 7h, com faixas e cartazes, para homenagear Maria Cláudia e pedir a pena máxima para os dois assassinos da estudante.

Com um novo julgamento, a estratégia da defesa de Adriana de Jesus dos Santos deve ser reduzir o tempo de condenação. No primeiro júri, ela recebeu a pena máxima, pedida pela promotoria. “Sabemos que é possível que a pena seja reduzida desta vez. Nessa hora, nos sentimos impotentes, vulneráveis diante de uma legislação penal tão fragilizada”, explica Cristina Del’Isola. “Sou contra a pena de morte, mas espero a pena máxima. Essas pessoas não têm condições de serem ressocializadas. Vou fazer o que for possível para que esses dois criminosos fiquem afastados do convívio social e não ceifem novas vidas”, completa a mãe de Maria Cláudia.

Condenação
O primeiro julgamento de Adriana de Jesus dos Santos durou 19 horas e 50 minutos. A ex-empregada foi julgada por quatro homens e três mulheres. Ela recebeu a pena máxima por todos os crimes dos quais era acusada: 30 anos por homicídio triplamente qualificado, 12 anos e seis meses por atentado violento ao pudor, 12 anos e seis meses por estupro e outros três por ocultação de cadáver. A pena máxima que Bernardino do Espírito Santo pode pegar é de 66 anos: todas as decretadas para Adriana mais oito anos por roubo qualificado. (HM)