Obras dos palácios do Planalto e da Alvorada são devolvidas a museu do Rio

Curadores criticam devolução de obras para o Museu Nacional de Belas Artes. O acervo fazia parte da ambientação dos locais há 55 anos

image002-5postado em 03/01/2017 09:01
Nahima Maciel

Reprodu??o/FacebookChegada das obras do acervo dos palácios da Alvorada e do Planalto devolvidas ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro

No último 29 de dezembro, o historiador Claudio Suarez Rocha e o curador Rogério Carvalho viram o trabalho de mais de uma década destinado ao patrimônio brasiliense se desmanchar. Seguindo autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para um acordo entre o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Diretoria de Documentação Histórica do gabinete da Presidência da República, um total de 48 obras que compunham a ambientação dos palácios do Planalto e do Alvorada há 55 anos foram devolvidas ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro. As obras vieram para Brasília de acordo com uma seleção de Oscar Niemeyer e Ana Maria Niemeyer e foram cedidas em comodato para integrar as áreas públicas e privadas dos dois palácios presidenciais. Entre as obras havia pinturas de Cândido Portinari, Rodolfo de Amoedo, Alberto da Veiga Guignard, Maria Leontina, Eliseu Visconti, Arcângelo Ianelli e Djanira da Mota.
image003-1Historiador do Arquivo Nacional, Claudio foi cedido para a Presidência da República em 1988 para cuidar dos acervos dos presidentes da República. Em 2003, se tornou Diretor de Documentação Histórica do gabinete, cargo do qual foi exonerado em 16 de dezembro, segundo ele, por discordar da devolução das obras. Junto com o curador e arquiteto Rogério Carvalho, que também trabalhava na presidência desde 2008, Claudio era responsável por cuidar da correta ambientação dos palácios, um ofício que envolve a compreensão dos contextos históricos nos quais móveis, obras de arte e arquitetura se inserem. Os cargos foram criados por um decreto de Luís Inácio Lula da Silva, que instituiu uma comissão de curadoria com a intenção de apresentar o Brasil tanto para o exterior quanto para a própria população. Rogério e Claudio estão indignados com a devolução das obras para o MNBA, resultado de uma postura, segundo eles, equivocada da diretora da instituição, Monica Xexéo.

Ela teria alegado que as obras precisam de restauro, mas os dois curadores explicam que 65% do acervo cedido em comodato pelo MNBA estão em perfeitas condições e que o restauro das pinturas restantes poderia ser feito em Brasília. Como a ambientação não era tombada pelo Iphan — proposta, inclusive, apresentada ao órgão pelos curadores ao longo dos anos —, o fim do comodato seria concluído com a devolução das obras. Mas Claudio e Rogério lembram que os quadros vieram para Brasília para integrar os palácios que representam a República brasileira e jamais poderiam ser devolvidos ao museu porque sua ausência descaracterizaria um projeto de Estado.

Além disso, Claudio e Rogério acusam o MNBA de ter levado as obras sem as condições técnicas adequadas. “Veio a desculpa de que vieram duas técnicas para embalar. Foi num avião da FAB sem seguro, sem a climatização necessária. Eles mostram as fotografias de umas caixas, mas as caixas não foram com os quadros do Planalto, as caixas eram dos Portinaris que vieram da Finep e que ela (Mônica Xexeo) levou de brinde. Eles mostram as caixas como se aquilo fosse o padrão utilizado. As obras foram, provavelmente, embrulhadas em plástico bolha, socadas num caminhão e levadas até o avião. Que nível de compromisso a diretora do MNBA tem com essas obras?”, questiona Rogério. Abaixo, a dupla explica por que entende o ato da diretora do MNBA como uma afronta e o que isso representa para o patrimônio brasileiro.

Barbara Cabral/Esp. CB/D.A PressClaudio Suares Rocha e Rogério Carvalho estão indignados com a transferência doas obras

Curadores pediram o tombamento >> Entrevista // Claudio Suarez Rocha e Rogério Carvalho

Você disse que havia um conjunto de obras de Portinari que não faziam parte do acervo do MNBA mas que também foram levadas. Como é isso?
Claudio Suarez Rocha — A Finep cedeu essas obras. E eles entraram em contato comigo e falaram que tinham total interesse em manter a coleção completa e que queriam que ficasse no Palácio do Planalto. São 120 quadros. A gente ainda estudou fazer um espaço inteiro do Portinari no Palácio do Planalto. Só que a administração enrolou, enrolou, enrolou e isso foi cedido para o MNBA.

Rogério Carvalho — Acharam que, de alguma forma, o MNBA poderia receber essas obras. Mas a Finep tem sede em Brasília, no Rio e em Belo Horizonte. Então, ela não pode, em momento nenhum, dizer que esses Portinaris que foram para lá eram do Rio de Janeiro. Ela que devolva para Minas Gerais.

Vocês estão estudando o instrumento do usocapião para tentar reaver as obras. Como funciona?
Rogério — Falei com Pedro Mastruobono, que é advogado, colecionador de São Paulo, e ele vem ganhando causas sequencialmente usando esse instrumento do usocapião relacionado a bens móveis. Ele acha possível. Se a sociedade civil organizada, a população do DF solicitar o usocapião das obras, pode funcionar. Ele disse que seria interessante que a gente entrasse em contato com a sociedade civil mesmo, uma OAB, instituições que de alguma forma se juntassem e apresentassem essa proposta

Em que circunstâncias essas obras foram selecionadas para Brasília?
Claudio — É uma ironia tudo isso. A capital da República mudou para Brasília, não sei se o Museu Nacional de Belas Artes sabe disso. E Oscar Niemeyer tinha selecionado, junto com Ana Maria Niemeyer, obras modernistas que tivessem a ver e ambientassem os palácios.

Rogério — Essa seleção do MNBA dava conta justamente da arte brasileira porque Ana Maria tinha feito uma compra grande de estrangeiros. Então a representatividade dos artistas brasileiros dentro dos prédios de Brasília e selecionados pela Ana Maria era justamente para você ter um equilíbrio e não ter apenas obras estrangeiras.

Vocês temem que essa devolução abra precedentes. O que isso significaria?
Claudio — Seria o mesmo que a Biblioteca Nacional exigir a devolução de livros que, eventualmente, tenha cedido para a biblioteca do Palácio. A biblioteca do Alvorada foi concebida por Antonio Houaiss, José Honório Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Edson Néry da Fonseca. E agora vão devolver os livros para Rio? Não. Houve uma mudança da capital da República, caso eles não tenham percebido. E isso fez parte da seleção do que tinha que decorar esses palácios. Outra justificativa era que o público não tinha acesso. Como não tinha acesso?

Rogério — Tem visitação todos os dias no Planalto, visitação de escolas públicas, inclusive.

Como foi feita essa ambientação?
Claudio — Participei de três ambientações do Palácio da Alvorada. Quando o FHC (ex-presidenrte Fernando Henrique Cardoso) chegou lá, estava muito depauperado e ele melhorou muito. Dona Ruth Cardoso entrou em contato com Oscar Niemeyer, pediu autorização para tirar uns espelhos, colocar uns quadros do Portinari que tirou do Banco Central, e colocou um espaço do Portinari. Comprou mobiliário novo e montou um palácio digno. Quando o Lula assumiu, teve um perrengue com a administração, que fez uma bobagem e recolheu tudo. Eu montei novamente o Alvorada para eles. Depois, o Alvorada foi restaurado com supervisão do escritório do Niemeyer, com o Iphan e eu ali dentro de curador. Remontei o Alvorada, tanto a parte pública quanto a parte privada, para o casal. Dilma chegou, tiveram algumas mudanças, ela mexeu na parte íntima e na parte de trabalho, que é a que pode ser mexida.

O Brasil tem essa dificuldade de separar a coisa pública da privada?
Claudio — Sim, estamos discutindo exatamente essa questão do público e privado. A gente tentou, diversas vezes, convencer o Iphan a tombar a ambientação.

O Iphan não quis? Não há registro de tombamento de ambientação…
Claudio — Seria inédito.

Rogério — O acervo não é tombado, mas passou por inventário, que eu coordenei, inclusive. A partir do momento que o Iphan inventaria, ele demonstra interesse. O que a gente queria era o tombamento da ambiência, que seria um tombamento inédito, mas que iria muito ao encontro dessa história. A ambiência é a relação daquilo que está colocado com o espaço.

Por que a proposta não foi adiante?
Rogério — A gente chegou a conversar com a Jurema Machado (ex-presidente do Iphan) , mas ela já estava naquela de “ vou cair”. Conversamos também com o anterior, antes da Jurema, o Luiz Fernando de Almeida. Essa história da ambientação é muito nessa linha do que é a Casa Branca. Tem um vídeo do Obama falando da relação respeitosa que ele tinha com o espaço e que ele não se sentia no direito de mudar nada porque, afinal de contas, aquilo era a realização de um Estado, não era a realização de um governo. O que a gente fez, principalmente no Palácio do Planalto, é a realização de algo que o Planalto nunca viu. E aquilo foi feito a partir de um decreto presidencial.

O MNBA já havia pressionado antes?
Claudio — Desde Lula, eles querem essas obras de volta. Ela (Monica Xexéo) era uma técnica comum e vem querendo as obras desde FHC. Não pressionou tanto num primeiro momento do Lula não. No início da Dilma, veio uma pressão mais forte e disseram que as obras precisavam de restauração. E não é verdade.

Rogério — O restauro pode ser feito aqui. Quando fiz o procedimento de restauração da capela do Alvorada, a santa que hoje está lá foi restaurada na capela. O Claudio tem o laudo do ano retrasado que diz que mais de 65% das obras estão em excelentes condições.
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Mãe que teve filha morta por caseiro luta para manter condenado na cadeia

Cristina Del’sola lamenta a possibilidade de um dos assassinos da filha ser beneficiado pela progressão de regime, do fechado para o semiaberto. Para ela, caso serve de exemplo para que “outras Marias não se tornem vítimas nas mãos dele”

postado em 29/12/2016 06:05
Thiago Soares
Daniel Ferreira/CB/D.A Press – 1/12/14 “Não posso me calar”

image001-12“Eu não quero vingança, eu apenas não quero que nenhuma outra mãe seja alvejada como a minha família foi”. Assim reagiu Cristina Del’Isola, mãe da jovem Maria Cláudia Del’Isola, ao avaliar a possibilidade de concessão de um benefício àquele que assassinou a filha dela, em 2004. No último dia 12, o ex-caseiro da família da vítima Bernardino do Espírito Santo Filho obteve a progressão de pena em regime fechado para semiaberto. Ele ainda não saiu às ruas porque aguarda exames psicológicos que possam atestar a condição de reintegração. “O perfil dele é de psicopata. A minha necessidade é sensibilizar as autoridades à frente dessa decisão para que outras Marias não se tornem vítimas nas mãos dele”, argumenta Cristina (leia Depoimento).

Saiba mais

Ao tomar conhecimento da decisão na segunda-feira, Cristina, presidente do Movimento Maria Cláudia, preferiu silenciar. Mas a situação fez com que a mãe relembrasse toda a tristeza provocada por um dos crimes mais bárbaros da história de Brasília. Em 9 de dezembro, completaram-se 12 anos do homicídio. Bernardino e a então namorada, a empregada doméstica da casa, Adriana de Jesus Santos, foram condenados pelo assassinato. Segundo a investigação, eles abordaram a garota quando ela saía de casa, no Lago Sul, para a faculdade. A dupla imobilizou e agrediu Maria Cláudia, e, depois, o homem a estuprou. O corpo dela foi encontrado três dias depois, enterrado debaixo da escada da residência dos Del’Isola.

“Foram quase três anos de convivência dele (Bernardino) com a família, e ele se mostrou dissimulado com todos. O que quero lembrar neste momento é que perdi a minha filha de uma forma brutal e monstruosa. O fato é que estamos diante de um assassino inescrupuloso. A minha preocupação é saber que alguém com esse perfil pode, daqui a alguns dias, estar empregado, convivendo com outras pessoas sem elas saberem o que aguardam ao lado. O medo é da possibilidade de um novo crime”, afirma a mãe.
Dor

A Justiça sentenciou Bernardino a 65 anos de prisão em 2007. Mas, assim como Adriana, ele conseguiu reduzir a pena para 52 anos. Contra o ex-caseiro também há uma condenação por tentativa de homicídio e estupro contra uma adolescente de 13 anos, crime que ocorreu meses antes da morte de Maria Cláudia. “Diante de tantos crimes, nunca imaginei que ele poderia ser beneficiado pela Justiça”, lamenta Cristina.

Adriana também tenta o mesmo benefício de Bernardino. Em novembro de 2015, ela apresentou proposta de emprego à Justiça, mas ela foi vetada após exames atestarem transtornos psicológicos. A possibilidade de progressão de regime do ex-caseiro só foi possível pelo fato de que, à época do crime, a Lei de Execuções Penais previa que os presos com bom comportamento poderiam ser beneficiados depois de cumprirem um sexto da pena. No caso dele, no dia da decisão, ele havia cumprido aproximadamente 12 anos de reclusão. “A minha filha não voltará. Essa é a minha realidade, e eu tenho de conviver com essa dor. Mas o que não quero para mim, eu não quero para o próximo; por isso, peço que as autoridades sejam sensíveis e analisem bem o que isso pode representar”, conclui a mãe de Maria Cláudia.
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Justiça dá benefício a Bernardino, assassino de Maria Cláudia Del'Isola

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Condenado a 52 anos de prisão pelo estupro e morte de Maria Cláudia Del’Isola, o ex-caseiro conseguiu a progressão do regime da pena de prisão para o semiaberto. Para que comece a trabalhar fora, ele precisa ainda de avaliação

postado em 28/12/2016 09:41 / atualizado em 28/12/2016 09:51
Isa Stacciarini
Breno Fortes/CB/D.A PressAntes do crime, Bernardino estuprou uma menina de 13 anos

Condenado por matar e estuprar a universitária Maria Cláudia Del’Isola em 2004, o ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho obteve o benefício da progressão do regime de prisão fechado para o semiaberto. Mas a possibilidade de sair da penitenciária para trabalhar durante o dia e retornar à noite precisa, primeiro, ser avaliada por meio de exame criminológico. A decisão é de 2 de dezembro do juiz substituto da Vara de Execuções Penais (VEP) do DF Valter André de Lima Bueno Araújo. Significa que o assassino já teve a mudança do regime de prisão, mas ainda não recebeu benefícios externos, como o de trabalho e dos saidões de Natal e revéillon, por exemplo.

A transferência de um preso para o regime semiaberto não lhe dá, necessariamente, o direito a benefícios fora da cadeia. O Código Penal estabelece que o trabalho externo é admissível, mas frisa que cabe ao magistrado a decisão sobre a concessão. O exame é de praxe e solicitado pela Justiça principalmente quando o condenado praticou crimes de estupro. O objetivo é avaliar, por meio de análises psicológicas, se o apenado tem algum transtorno de psicopatia ou de personalidade. Se constatado o diagnóstico, é orientado tratamento médico.

O ex-caseiro da residência onde o crime ocorreu foi condenado a 65 anos de prisão em 2007, porque também recebeu pena por furto. Mas, assim como a comparsa e ex-empregada doméstica da casa, Adriana de Jesus Santos, ele conseguiu reduzir a pena para 52 anos. Pela regra, ele já tem direito ao benefício, porque, à época da morte de Maria Cláudia, a Lei de Execuções Penais previa que os presos com bom comportamento poderiam ganhar o benefício do regime semiaberto depois de cumprirem um sexto da pena: o que ocorreu em 2015.

Contra Bernardino, também há uma outra condenação de 58 anos e meio por tentativa de homicídio e estupro contra uma adolescente de 13 anos. O crime ocorreu em 2004, às margens do Lago Paranoá, meses antes da morte de Maria Cláudia.

Adriana tenta, como Bernardino, utilizar o benefício do regime semiaberto. Em novembro de 2015, ela apresentou proposta de emprego à Justiça, mas a Justiça vetou a saída dela da prisão em razão de os exames realizados atestarem transtornos psicológicos.

A defesa de Bernardino é feita pela Defensoria Pública do DF. Segundo defensores públicos em plantão do Núcleo de Execuções Penais, Bernardino cumpriu, até a data da decisão da progressão do regime, aproximadamente 12 anos de reclusão. “Assim, satisfez o requisito temporal para a obtenção do benefício”, informou a Defensoria. Por meio de nota, os defensores alegaram que, em relação aos requisitos subjetivos para a obtenção do benefício, Bernardino também os preencheu, uma vez que foi reconhecido o bom comportamento dele durante a pena.

O Correio procurou o pai de Maria Cláudia Del’Isola, Marco Antônio Del’Isola. Ele não tinha conhecimento da decisão da Justiça, mas preferiu não comentar o caso. A reportagem também falou com a mãe da vítima, Cristina Del’Isola, que hoje preside o Movimento Maria Cláudia. Ela contou que soube da decisão na segunda-feira, mas ainda está impactada com a notícia e pediu para não falar a respeito.

O que diz a lei
O preso só conseguiu a progressão para o regime semiaberto porque o crime ocorreu antes da Lei 11.464/2007. A nova regra determina que, para crimes hediondos, o tempo para a progressão do regime é de dois quintos para sentenciados primários e três quintos para reincidentes. O artigo 112 da Lei de Execuções Penais prevê o sistema progressivo de cumprimento de pena, visando a ressocialização do apenado e não apenas a punição. A lei só permite a progressão para o semiaberto quando o sentenciado comprova que vai estudar ou trabalhar.

Memória

Crime bárbaro
O crime, um dos mais bárbaros da história de Brasília, completou 12 anos em 9 de dezembro. Maria Claudia Del’ Isola foi assassinada em 9 de dezembro de 2004, em sua casa, no Lago Sul.

O então caseiro da família, Bernardino do Espírito Santo, e sua namorada, a empregada doméstica da casa, Adriana de Jesus Santos, abordaram a jovem para forçá-la a contar a senha do cofre. Tinham a intenção de roubar R$ 1,7 mil. Eles a imobilizaram, a agrediram com um soco e depois Bernardino a estuprou. Por fim, a dupla a esfaqueou e acertou a cabeça dela com uma pá. Enterraram o corpo da vítima debaixo da escada principal da residência. Ele foi encontrado três dias depois, quando a família ainda acreditava que Maria Cláudia pudesse ter sido sequestrada.

Cuidado redobrado ao nadar

Foram registrados 20 acidentes no local até hoje, três deles com morte. No ano passado inteiro, foram 21, com o mesmo número de óbitos. Equipes de salvamento são reforçadas nos fins de semana, quando o público que visita a região é maior
Publicação: 05/12/2016 04:00

O ano ainda não chegou ao fim, mas a quantidade de afogamentos no Lago Paranoá praticamente se iguala ao do ano passado inteiro. Até o momento, foram registrados 20 acidentes do tipo no local — três deles com morte, assim como no ano anterior. Em 2015, dos 60 afogamentos contabilizados no Distrito Federal, 21 ocorreram lá. A expectativa das autoridades é de que, com a chegada do verão, das festas de Natal e das férias escolares, esse número aumente ainda mais.

Os maiores inimigos dos banhistas são o excesso de confiança, a falta de acessórios de salvamento, a ingestão de álcool e a execução de manobras radicais, como saltos de pontes. Esses fatores criam o cenário perfeito para a ocorrência de afogamentos, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF). Crianças não acompanhadas nos mergulhos são ainda mais vulneráveis a esse tipo de ocorrência.
Sara Cardoso Ventura, 24 anos, é frequentadora do Lago Paranoá e combate o excesso de confiança com a vigilância. Mãe de gêmeos, ela costuma ir ao Piscinão do Lago Norte, um dos locais considerados críticos pelo Corpo de Bombeiros, e fica de olho nos pequenos. “Eu nem nado aqui, minha atenção fica toda voltada para eles”, relata.

Muitos dos afogados no lago sabem nadar. “O que mais provoca afogamentos é a falta de sensibilidade aos riscos. Normalmente, a pessoa quer atravessar o lago, chegar a algum ponto que ela vê como desafiador, ou ainda quer fazer a travessia após ter ingerido bebidas alcoólicas”, explica o tenente Mendonça, do Grupamento de Busca e Salvamento do Corpo de Bombeiros.

Ele destaca ainda que mesmo os nadadores profissionais,precisam ter preparo para mergulhar em lugares como esses, porque as condições de nado são diferentes. Quem está habituado à prática em piscinas, por exemplo, normalmente tem referências tanto das margens, como do fundo. No entanto, no lago, não é possível definir os limites. Muitas vezes, após nadar uma longa distância, o banhista não consegue chegar ao ponto desejado, voltar, ou se apoiar no fundo. Nessas ocasiões, pode perder o controle emocional e se afogar.

Monitoramento
O Corpo de Bombeiros promoveu pesquisas em setembro e em outubro de 2015 para identificar onde o público é maior e desenvolver trabalho de prevenção a esse tipo de acidente. Com o levantamento, foi possível identificar os pontos críticos em duas das três raias do Lago — centro, norte e sul (veja o quadro). Devido à desocupação na orla do lago, que ocorreu em julho deste ano, a corporação acredita que o número de banhistas e frequentadores tenha aumentado ainda mais.

Coordenador do Movimento Amigos do Lago Paranoá, Guilherme Scartevine diz já ter presenciado de tudo um pouco. “Cada acidente tem sua particularidade, mas algumas coisas são muito recorrentes. Das mais de 20 pessoas que resgatei, apenas uma não havia bebido”, relata. Antonio Carlos Marques, 23, assume que ingere bebidas alcoólicas quando passeia pela região, mas diz que não costuma ir muito longe ao nadar. “Não desafio os limites, principalmente quando trago bebidas. Sei que é perigoso”, garante.

Quem faz o uso de barcos também precisa obedecer a algumas regras. O condutor não pode ingerir bebidas alcoólicas e deve ter a Carteira de Habilitação Amador (CHA). O tenente Mendonça reforça ainda que a colaboração dos visitantes com o respeito às regras é essencial, mesmo com reforço da corporação nas áreas com maior movimentação e nos fins de semana. “O bombeiro nesses locais vai trazer um pouco mais de segurança, mas as pessoas precisam ter o cuidado.”
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Uma parada para a arte

Artista plástica leva aos pontos de ônibus do Cruzeiro, lugar onde nasceu e construiu toda a vida, um pouco mais de cor. E presenteia os moradores com desenhos que remetem às memórias de infância, ao cerrado e às belezas da cidade

ROBERTA PINHEIRO
Especial para o Correio
Publicação: 15/10/2016 04:00
Na parada da Quadra 4, Vivi Dourado retratou um pouco da infância – dela e de tantas outras crianças – no Cruzeiro:

Na parada da Quadra 4, Vivi Dourado retratou um pouco da infância – dela e de tantas outras crianças – no Cruzeiro: “Quero que esses pontos passem uma inspiração de um futuro melhor”

 Da mãe, ela carrega o sobrenome de cor, Dourado. Do pai, aprendeu sobre urbanismo e guardou as instruções: “Minha futura arquiteta, capricha nos desenhos, insista na caligrafia e nunca deixe de ler”. Seguindo esses passos, a brasiliense e designer gráfica Viviane Ferreira Dourado, 41 anos, mais conhecida como Vivi Dourado, transformou os rabiscos na parede de casa em trabalhos com personalidade, alegria e, principalmente, amor pela cidade natal. Quem está acostumado a pegar ônibus no Cruzeiro Velho, agora, vai dividir a espera com os desenhos da brasiliense.

O sol escaldante do cerrado, os blocos de três andares do Plano Piloto, os pássaros, a infância candanga e a Paróquia Nossa Senhora das Dores são alguns elementos que se destacam no meio das casas e do comércio da região. Amanhã, Vivi Dourado pinta mais uma parada em homenagem aos 55 anos da escola de samba Aruc — que surgiu a partir da reunião de um grupo de moradores do Cruzeiro Velho. A ideia de dar uma cara nova para os pontos de ônibus surgiu no ano passado, mas só foi possível concretizar agora. “Na gestão passada, eles fizeram uma estrutura de banner, com fotos, e fiquei pensando por que artistas locais não pintavam as paradas. Tinha sonhado com isso. Estava voando pela região”, conta.

Vivi Dourado sempre morou no Cruzeiro. Criou com a região administrativa laços quase familiares. Ali, aprendeu a pintar com professores locais, construiu seu ateliê e sua vida. “Quando pensei em transformar os pontos de ônibus, já trabalhava com ícones de Brasília, como a fauna, a flora, o cerrado e a arquitetura. Mas por que não pintar o Cruzeiro com sua origem e sua história?”, relembra. E falar da localidade é falar da história e da infância da designer. Não à toa, um dos desenhos preferidos é o da Paróquia Nossa Senhora das Dores. “Foi onde meus pais se casaram. Quero que as pessoas se sintam nela”, comenta.

O pai de Vivi, Andarilho Ferreira dos Santos, veio da Bahia para a capital trabalhar na construção do sonho de Juscelino Kubitschek. “Ele fez a curva da Rodoviária”, afirma orgulhosa. Segundo Vivi, foi com ele que aprendeu a urbanizar e arborizar a cidade, a se envolver. “A ideia não é ter moradores de rua dormindo nas paradas. Mas confesso que fiquei emocionada ao ver um rapaz deitado em um dos bancos, porque imaginei que aqui ele encontrou paz. Quero que esses pontos passem uma inspiração de um futuro melhor, de que podemos plantar uma semente e propagar”, afirma. Em menos de 15 dias, a arte de Vivi chamou a atenção e virou ponto turístico. Na página dela nas redes sociais, as pessoas compartilham fotos nas paradas. “Principalmente, os idosos. Eles adoram. É uma forma de aproximar as pessoas da cidade”, complementa.

Andarilho Ferreira faleceu em 1996, após uma parada cardíaca, mas a filha sabe que ele está com ela desde a concepção dos projetos. “Acho que o meu pai está aqui hoje. Com certeza, estaria comigo fazendo o mesmo, assinaria embaixo. Ele participa comigo desde quando sonho”, afirma com carinho. O patriarca era alfaiate e foi observando o trabalho dele que Vivi se apegou às linhas. “Vou atrás do traço e daquilo que ele representa no momento. Desenho em guardanapo de restaurante. Tenho vários blocos”, comenta. Sua visão é diferente. Para cada muro com um portão, imagina uma janela com flores e muitas cores. “Por isso que dizem que nós (artistas) somos doidas”, brinca. Também foi da insistência de Andarilho para que a filha fizesse caligrafia que surgiu a assinatura Vivi Dourado, com letras bem redondas, uma das marcas registradas da designer.

Para buscar as referências e inspirações, a designer vai a campo. Conversa com os moradores, olha os pontos da cidade e vai lá no fundo da caixinha de memórias encontrar as lembranças da infância. Depois dos traços, a filha Giulia, 18 anos, é quem dá o aval final. “Ela é bem crítica. Se ela gosta, tudo bem; mas, se não gosta, eu refaço”, confessa, aos risos.

(Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A Paróquia Nossa Senhora das Dores, onde os pais de Vivi se casaram, serviu de inspiração para a artista, assim como o sol escaldante do cerrados e os prédios de três andares do Cruzeiro (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A Paróquia Nossa Senhora das Dores, onde os pais de Vivi se casaram, serviu de inspiração para a artista, assim como o sol escaldante do cerrados e os prédios de três andares do Cruzeiro

Comunidade
Viabilizar o projeto de Vivi só foi possível com a ajuda da Administração Regional do Cruzeiro e dos comerciantes. A administração faz o reparo das paradas, pinta de branco e deixa no ponto para a artista fazer a arte. “É um resgate cultural da própria cidade. Ela está contando a história do Cruzeiro”, comenta o administrador Reginaldo Rocha Sardinha. Os comerciantes ajudam, doando as tintas. Ao todo, 17 pontos de ônibus serão transformados e, assim que finalizarem as pinturas no Cruzeiro, a ideia segue para o Sudoeste e para a Octogonal. Sempre priorizando os artistas locais.

“Primeiro, quando vi, achei que era sujeira. Depois, vi que era um menino empinando pipa”, relembra a diarista Guirmar Nunes, 54 anos. Há cinco meses, ela pega ônibus na parada da Quadra 4. Com os desenhos de Vivi, a espera ficou mais agradável. “A parada suja dá uma sensação de medo e de que está largado”, comenta. Apesar da delicadeza dos traços e da alegria das cores, é comum no cenário da cidade encontrar os pontos de ônibus pichados e sujos. A designer sabe que isso pode ocorrer um dia com seu projeto, mas não tem medo. “Vou persistir até mudar a cabeça das pessoas. Não podemos desistir na primeira etapa. Temos que dar o exemplo”, declara.

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Assista a um vídeo com Vivi Dourado.

Temático
Veja quais os próximos desenhos criados por Vivi Dourado:

Igreja Batista da Quadra 10
Igreja Santa Terezinha
Boate Kremlin
Creche do Cruzeiro
A Feira Permanente
Os pioneiros
Suvaco da Asa
Grupo Pellinsky

Após devolver US$ 1,4 mil que achou no lixo, catador ganha emprego

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catador
O dinheiro foi jogado fora acidentalmente pelo cunhado do fonoaudiólogo Bruno Temístocles. Ele já tinha desistido de encontrar a quantia, quando recebeu um telefonema de João com a boa notícia

O Catador de materiais recicláveis João Rodrigues Cerqueira, 20 anos, encontrou na terça-feira (20/9) US$ 1,4 mil (cerca de R$ 5 mil) em meio ao lixo e devolveu todo o dinheiro ao dono, o fonoaudiólogo Bruno Temístocles, 34 anos. A atitude do rapaz rendeu a ele uma recompensa de R$ 500, um novo emprego e muito orgulho para a família. “Não tinha nem arroz em casa. Agora, deu para comprar comida e fraldas”, disse ao Metrópoles.

João mora em um barraco na Chácara Santa Luzia, na Estrutural, com a mulher e a filha, de dez meses. Ele recebeu o apoio da família pela ação. “A minha mãe disse que eu fiz a coisa certa. Eles estão orgulhosos de mim e isso me deixa contente”, comemorou.

A oportunidade de um novo trabalho foi dada pelo próprio Bruno na empresa do pai dele. A entrevista será realizada nesta quarta-feira (21/9).

Os dólares foram comprados na última sexta (16) para serem utilizados em uma viagem que Bruno fará com a noiva para a Europa, em fevereiro de 2017. A quantia teria sido descartada por engano pelo cunhado do fonoaudiólogo, que tem apenas sete anos.

A quantia estava embrulhada em um papel, no console do carro. “Nós havíamos pedido para ele recolher e jogar fora todo o lixo que estava dentro do veículo. Ele não teve culpa. Depois que soubemos que o dinheiro tinha ido parar no lixo, fomos atrás da cooperativa para encontrar o caminhão e correr atrás do prejuízo”, disse.

Após acionar a empresa responsável pela coleta, Bruno foi até a cooperativa, na Estrutural, procurar o dinheiro, mas não encontrou. “Eu fiquei das 18h até as 22h procurando sem parar. Reviramos todo o material e, já sem esperança, deixei o meu contato com os catadores para que me procurassem caso achassem a quantia”, explicou.

Ao saber da história, João contou que ficou mais atento ao serviço e acabou encontrando os dólares. “Sou funcionário da cooperativa há seis meses. O meu salário é de R$ 600 (quase 10 vezes menos do que o valor dos dólares). Eles estavam tão desesperados que me empenhei nas buscas até achar”, explicou.

A atitude nobre e a humildade do homem de 20 anos sensibilizaram o fonoaudiólogo, que agora considera João um novo amigo.“Nem acreditamos quando ele ligou. Estou muito feliz com essa honestidade. Foi bem bacana o que ele fez por mim”, afirmou Bruno.

Funcionária sofre discriminação racial de cliente na fila do cinema

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Manoela Alcântara
Publicação: 01/05/2012 08:05 Atualização: 01/05/2012 08:24
A Polícia Civil investiga a denúncia de discriminação racial em um shopping da Asa Norte, na tarde do último domingo. O acusado fugiu após clientes e funcionários do estabelecimento chamarem seguranças do centro comercial. Os agentes tentam identificar o suspeito por meio de imagens do circuito interno e dos depoimentos das testemunhas. Até a noite de ontem, no entanto, ele não havia sido encontrado. A vítima é a atendente de cinema Marina Serafim dos Reis, 25 anos. De pele negra, ela trabalhava na bilheteria quando um homem de aproximadamente 40 anos começou a confusão na fila para compra dos tíquetes. Ele teria chegado atrasado à sessão e queria passar na frente dos demais. Os insultos começaram quando a funcionária disse que ele teria de esperar. “Ele disse que meu lugar não era ali, lidando com gente. Falou que eu deveria estar na África, cuidando de orangotangos ”. Indignados, clientes e funcionários acionaram a segurança, mas o homem conseguiu fugir. A 5ª Delegacia de Polícia (Área Central) investiga o caso.

Marina Serafim dos Reis, a vítima, diz que nunca enfrentou algo parecido: “Fiquei muito nervosa, me senti humilhada”

O acusado chegou a comprar o ingresso para assistir ao filme Habemus Papam, mas não conseguiu chegar até a sala. Quando percebeu a reação dos demais espectadores na fila, caminhou rápido até as escadas rolantes. Vídeos gravados pela segurança interna do shopping mostram o momento em que o homem começou a correr pelo shopping na fuga. As testemunhas o chamavam de racista e pediam aos vigilantes que o detivessem. Mas ele correu até o carro. “Conseguimos ouvir os gritos e ainda tentamos segui-lo, mas ele conseguiu entrar no carro e fugir”, contou um segurança, que preferiu não se identificar.

Debate no Senado começa com reivindicação de política de segurança pública mais consistente

O Senado começou a debater na manhã desta quarta-feira (8) com representantes do poder público, advogados, juristas e secretários estaduais a relação entre os problemas da segurança pública e as leis penais. Logo no início, o presidente da Subcomissão Permanente de Segurança Pública da Casa, senador Pedro Taques (PDT-MT), procurou determinar o ponto de partida para o ordenamento da questão:

– Não basta focar na repressão e no aumento das penas. É preciso uma política pública consistente para a segurança – afirmou o parlamentar mato-grossense.

Ele também criticou o contingenciamento de recursos no Ministério da Justiça, “fato que contrasta com o discurso do governo federal de priorização da segurança”.

A audiência pública desta quinta, solicitada por Pedro Taques, conta com a participação de secretários estaduais de segurança pública e de representantes da comissão de juristas encarregada de elaborar o anteprojeto de um novo Código Penal.

– Precisamos discutir o que a comissão de juristas fez nos últimos quatro meses. E eles já desenvolveram um bom trabalho – afirmou o senador.

Além disso, Pedro Taques lembrou que os secretários de segurança pública apresentaram recentemente uma série de propostas, como a de tipificação do terrorismo e a de criminalização do “jogo do bicho”.

– Os secretários nos podem trazer a visão de quem lida diretamente com a criminalidade, para que nós da subcomissão e os juristas da comissão especial tenhamos uma melhor percepção do que é concreto – argumentou ele.

O relator da subcomissão, senador Eduardo Braga (PMDB-AM) fez também uma exposição inicial e afirmou que, sem um novo Código Penal, “todo esforço [na área de segurança pública] terá poucas chances de ter sucesso”. Relator da Subcomissão Permanente de Segurança Pública do Senado, o parlamentar participa de debate sobre as leis penais e a segurança pública.

O senador afirmou que o código atual, elaborado em 1940, está ultrapassado “e sem a dinâmica de uma sociedade moderna”. Ele também ressaltou que a preocupação com a segurança pública aparece como prioritária em várias pesquisas de opinião pública realizadas em diversos estados do país.

– A segurança é uma prioridade para a população brasileira – frisou.

Ao lembrar que hoje se comemora o Dia Internacional da Mulher, Eduardo Braga declarou que o novo Código Penal, “ao representar os anseios de uma sociedade mais moderna, deve garantir os direitos das mulheres”.

Conforme Taques, o objetivo do debate é pavimentar o caminho para a modernização da legislação penal brasileira”. Entre os convidados, estão o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Gilson Dipp, e o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame.

O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), a que a Subcomissão está ligada abriu a reunião e participa da discussão.

Como o projeto da comissão de juristas trata do aborto, ativistas de movimentos contrários a institucionalização desse procedimento exibem cartazes no auditório da comissão, localizado na sala 3 ala Alexandre Costa.

Da Redação

Agência Senado

Para Sarney, impunidade é raiz das altas estatísticas de homicídio

Ao apresentar o projeto de lei de sua autoria que torna mais severas as punições aos autores do crime de homicídio (PLS 38/2012), o presidente do Senado, José Sarney, classificou seu discurso como uma “denúncia”, na qual discorreu sobre os alarmantes índices de violência no Brasil, apontados pelo Mapa da Violência no Brasil. Com apenas 3% da população mundial, o Brasil é responsável por 12% dos homicídios no mundo.

Para ilustrar a gravidade das estatísticas, que revelaram a ocorrência de 1,1 milhão de assassinatos no país nos últimos 30 anos, o senador recorreu aos conflitos armados ocorridos ao longo da história brasileira. Na Guerra do Paraguai, por exemplo, 100 mil brasileiros morreram. Já na Cabanagem foram 40 mil. Na tragédia de Canudos, cerca de cinco mil. Mesmo em comparação a guerras internacionais, as estatísticas brasileiras são assustadoras. A luta pela independência do Timor, que durou 26 anos, teve 100 mil mortos. A guerra civil em Angola em 27 anos contabilizou 550 mil mortos

Os números brasileiros, no entanto, podem ser ainda maiores, ressaltou José Sarney. O Mapa da Violência baseia-se nos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, e não faz cruzamento com outros dados. Assim, a estimativa é que a ocorrência real seja ainda 20% maior do que a oficial, chegando a cerca de 1,33 milhão de assassinatos.

O presidente do Senado alertou para o fato de que as principais vítimas da violência são os jovens de sexo masculino. O alto número de mortes de jovens na faixa de 15 a 29 anos demonstra, em sua avaliação, a “insuficiência das políticas de enfrentamento da violência”. Os dados do Mapa da Violência apontam para uma taxa de 43,7 homicídios para cada grupo de cem mil brasileiros entre 15 e 19 anos de idade. Esse índice sobe para 60,9 considerada a faixa etária entre 20 e 24 anos e vai para 51,6 entre jovens de 25 a 29 anos.

Com relação às mulheres, as estatísticas também são preocupantes. Mais de 4,2 mil mulheres foram vítimas de homicídio em 2010, em uma proporção de 4,4 homicídios para cada cem mil mulheres no país. Já o número de negros mortos em 2010 foi de 33.264, contra 13.668 de brancos.

– É evidente que as perdas causadas pelos homicídios são incalculáveis. As consequências para o país são as mais gravosas e não podem ser ignoradas pelas autoridades públicas, na medida em que a impunidade está na raiz desse cenário desolador. Por outras palavras, o sistema de justiça criminal no Brasil não tem funcionado a contento para reprimir crimes de gravidade tão elevada, seja por carência de recursos logísticos, seja por conta de uma legislação leniente – criticou.

Em meio a esse cenário, destacou Sarney, a população vive com medo. Pesquisa do Sistema de Indicadores de Percepção Social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), realizada em 2010, revelou que 78,6% da população têm muito medo de ser assassinada, enquanto 11,8% dos entrevistados disse ter pouco medo. Apenas 9,6% das pessoas ouvidas manifestaram ter nenhum medo de ser vítima de homicídio. Ou seja, nove em cada dez brasileiros têm, em menor ou maior grau, medo de ser assassinado.

O presidente do Senado registrou ainda que, ao se analisar países populosos, mas com baixas taxas de homicídio, como China, Índia e Estados Unidos, percebe-se que a repressão a crimes contra vida é mais rigorosa do que a do Brasil, onde é comum que o assassino, mesmo se réu confesso, se defenda em liberdade. Outro dado citado por Sarney é de que existem no Brasil aproximadamente 115.376 inquéritos policiais sobre homicídios ainda não concluídos e um em cada dez assassinatos sequer chegam a ser denunciados à Justiça. O senador lamentou, entretanto, que mesmo diante desses números, “ninguém se choca ou se sensibiliza”.

– Tirar a vida de alguém no Brasil é menos grave que traficar entorpecentes. O resultado de nossa política penal mais branda não é menos crimes, mas mais crimes – enfatizou.

Para Sarney, a raiz do problema está na aprovação da Lei 5941/73, que ficou conhecida como Lei Fleury, por beneficiar o delegado Sérgio Fleury, acusado de inúmeras mortes em serviço. A lei permitiu que réus primários e com residência fixa pudessem responder o processo em liberdade.

– A partir daí fui um dos que levantei a voz contra esta lei e lutei na Assembleia Constituinte para que nós não permitíssemos que a doutrina da Lei Fleury continuasse na nossa Constituição. Infelizmente, o ponto de vista da lei foi vitorioso. Corresponde a este tempo, os 30 anos de existência da lei, o aumento do número de homicídios. É o tempo em que o criminoso de morte pode defender-se solto. Portanto há uma correlação entre uma coisa e outra – argumentou.

O senador informou ainda ter apresentado projeto de lei de auxilio às vitimas (PL 3503/04, na Câmara dos Deputados), já que a legislação brasileira assegura pensão às famílias dos que estão presos, mas as vitimas não têm outra coisa “senão esquecimento”. Sarney lembrou que, muitas vezes, a família que perde o parente não tem nem recursos para enterrá-lo. O projeto foi aprovado no Senado em 2004 e está há sete anos na Câmara sem ser votado.

Agência Senado

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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Ciclistas fazem "bicicletada" para pedir segurança e educação no trânsito

www.correiobraziliense.com.br

Roberta Abreu
Agência Brasil
Publicação: 06/03/2012 20:31 Atualização: 06/03/2012 20:48

Mais de 50 ciclistas se reuniram em frente ao Museu e à Biblioteca Nacional, no começo da noite desta terça-feira (6/3), para protestar por mais segurança nas ruas do DF. A manifestação ganhou força nas redes sociais e teve eventos simultâneos em diversas cidades do país.

Sem destino certo, os ciclistas brasilienses saíram às 19h40 e, com placas e cartazes, pediram medidas contra a violência no trânsito e campanhas educativas direcionadas aos motoristas. “Bicicleta não polui”, “Bicicleta é amor” e “Menos carros, mais bicicletas”, protestaram.
O gerente comercial Ricardo Vieira Nunes, 38 anos, ficou sabendo da manifestação pela internet. Ele utiliza a bicicleta como meio de transporte somente aos fins de semana e considera o movimento importante. “O trânsito está muito violento e o motorista tem que se conscientizar da existência da bicicleta. As ruas estão cada vez mais pesadas e a bicicleta é uma das soluções”, acredita. “Aqui em Brasília, a segurança ainda é muito pouca e não temos ciclovias suficientes, por isso não me arrisco durante a semana. Pedalo menos do que gostaria”, completou Nunes.

Chamada de Bicicletada Nacional, a iniciativa é uma ampliação dos passeios que grupos realizam semanalmente em cidades de todo o país e foi desencadeada depois que ao menos menos três ciclistas perderam a vida, atropelados em apenas um dia.

Na última quinta-feira (2), a bióloga Juliana Dias, 33 anos, foi atropelada por um ônibus quando transitava pela Avenida Paulista, em São Paulo, uma das mais conhecidas vias do país. No mesmo dia, pelo menos mais dois ciclistas também morreram atropelados.

O mecânico Hélio Nunes da Costa, 43 anos, foi atingido por um carro ao tentar atravessar a BR-316, na região metropolitana de Belém (PA) e a poucos metros de uma passarela de pedestres. A terceira morte foi registrada no Riacho Fundo (DF).

Somente na capital paulista, 439 ciclistas morreram no trânsito entre 2005 e 2010, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).