E DA ESCURIDÃO SE FEZ LUZ

Projeto de alfabetização dá novo sentido à vida de idosas no Varjão
A professora Eunice (E) formou-se em pedagogia aos 53 anos e hoje alfabetiza idosos como Ella (ao centro), Lindaura e Rita no Varjão

Havia uma escuridão sem fim. A vida inteira, a maior parte da vida foi assim. Elas sabiam disso. Sentiam-se envergonhadas por isso. Havia culpa e medo. Mas, um dia, elas descobriram, no mesmo lugar onde foram cegas por tanto tempo, que, até todo o breu, um dia, pode se dissipar. E a luz, um pouco dela, ainda fugidia, pode surgir. Até mesmo quando a vida andou tanto, com todo o cansaço. O que importa é a própria claridade.

Esta é uma história que a gente ouve falar, num dia. E, no outro, corre para ver de perto, para enxergar essa mesma luz. Para escutar o que mudou depois que a vida se alumiou. Esta história precisava ser contada. Ela é a prova de que catarses, até mesmo nos lugares mais improváveis, impensáveis, quando tudo parece consumado, podem ser reais. E a gente descobre que são esses os renascimentos mais comoventes, os que realmente valem a pena. Os que fazem sentido.

Última terça-feira, 9h40. Chegamos à Associação dos Idosos do Varjão — a menor cidade do DF, com pouco mais de nove mil habitantes e com 46,17% dessa população, quase a metade dela, apenas com o ensino fundamental incompleto e 2,8% analfabetos, mais de 250 pessoas. São dados do último levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), em 2015. Educadores estimam, contudo, que o número de analfabetos na cidade pode ser muito maior.

Encravada atrás do nobre Lago Norte, no Varjão, torna-se clara a percepção de que como a vida foi dividida entre dois mundos — tão perto, tão colados e ao mesmo tempo anos-luz um do outro. Lá, sentadas em círculos, em cadeiras de escola, estão senhoras com idades variadas — de 35 a 89 anos. E, em cada uma, uma história de recomeço comovente.

“Felicidade é passar o que sei”

O lugar é uma pequena chácara, cercado por mangueiras. E, hoje, povoado por uma gente que caminhou tanto, pelejou tanto, que até os poucos sonhos foram adiados. E agora, depois da peleja, quer pelo menos escrever, literalmente, o que ainda puder ser escrito. E ler, ler tudo que olhos opacos ainda deixarem. Isso se chama luz. Elas foram ali atrás dessa luz.

Perto das mulheres sentadas em círculos nas cadeiras de escola, está a professora: Eunice Nascimento dos Santos, baiana de Correntina, 57 anos, seis filhos e uma história de recomeço. Doméstica a vida inteira nas casas abastadas do Lago Norte, ela sabe a importância de mudar o destino. “Uma ex-patroa minha me incentivou a estudar. Ela me disse que eu era inteligente”, conta. E assim, limpando a arrumando casas e vidas alheias, Eunice acreditou, sobretudo, em si mesma. E foi assim que conquistou cada série escolar. “Eu trabalhava de dia e, à noite, ia para a escola. Eu queria ser diferente, deixar de ser empregada.”

Mas Eunice queria mais. “Eu jurei a mim mesma que não seria doméstica a vida inteira”, diz. Há três anos, aos 53, ela recebeu o que tanto queria. O diploma da faculdade. Formou-se em pedagogia, pagando o curso com o próprio dinheiro.

Três vezes por semana, está ali na Associação dos Idosos do Varjão, voluntariamente, para dizer àquelas mulheres que, não importa o que tenham passado, ainda há tempo para contar outra história. Os homens, sempre em minoria, até se matriculam nas aulas de alfabetização. Nos últimos três anos, 100 mulheres e 18 homens passaram por ali. “Mas depois de um mês, ou até menos, eles somem. Sentem vergonha de alguém saber que eles não sabem ler. É uma pena”, avalia a professora.

E a mulher que aprendeu a ler e escrever adulta, formou-se depois dos 50 e tem três filhos formados, logo se enche de orgulho pelo prazer de tentar mudar rumos: “A felicidade da minha vida hoje é passar o que aprendi para outras pessoas”.

“O mundo tinha cor”

A manhã seria de estudo. No meio das alunas, uma, de longe, chama atenção. Ela fala com os olhos, apesar de parte deles já ter perdido o brilho. Ainda assim, aos 89 anos, quer descobrir a vida, a mesma vida que permaneceu no escuro por mais de oito décadas. Lindaura Graciana Sousa é daquelas pessoas que a gente conhece e quer levar pra casa, de cara. Ela é tão real que emociona qualquer um que tiver o privilégio de ouvi-la.

Baiana de Mundo Novo, Lindaura chegou ao DF antes mesmo de o DF existir. Era 1956. “A gente veio com o sonho da nova capital”, conta. No que hoje é Varjão, ela e o marido se ajeitaram. “Quando nós chegamos, aqui só tinha umas quatro chácaras”, lembra. Lindaura pariu 21 filhos, alguns ainda na Bahia — 13 estão vivos. “Eu tive o meu primeiro com 14 anos. Era tão menina que nem sabia como se tinha. Minha mãe me disse que, quando chegasse a hora, a barriga ia se abrir.”

Lindaura viu e sentiu que a barriga não se abriu. E assim, mesmo sem a barriga se abrir, ela pariu todos os outros, a maioria com parteira. Hoje, tem 42 netos, 37 bisnetos e três tataranetos. “O terceiro tataraneto ainda tá na barriga.”

Sem saber ler e escrever, Lindaura foi aprendendo a tatear a vida. Virou auxiliar de serviços gerais da Secretaria de Educação. Limpava banheiros e sala de aula onde nunca conseguiu se sentar. “Eu ficava só vendo as letras no quadro-negro”, conta. E prossegue: “Passei muita vergonha, não sabia ler o ônibus que eu ia pegar. No trabalho, era uma amiga quem assinava o meu nome. Minha carteira de identidade tinha: ‘Não alfabetizada’. Era muito triste”.

Há três anos, ela chegou à Associação dos Idosos do Varjão. “A Eunice me disse que eu ia aprender a ler. Eu disse que não tinha mais tempo, que tava velha. Ela insistiu. Aí eu comecei de pouquinho.” Passado o tempo, ela hoje conhece as letras, lê um bocadinho e não falta às aulas.

Perto dos 90 anos, a primeira conquista: a nova carteira de identidade, com a própria letra, que demorou quase nove décadas para existir. “Parece que eu renasci”, sente. E, com emoção à flor da pele, diz, com a voz embargada: “Quando eu comecei a ler, eu enxerguei a vida e me enxerguei. E vi que o mundo tinha cor”. Ouvir isso é ter a certeza de que renascimentos diários existem.

“De primeiro, tudo era escuro”

Colega de Lindaura, a paraibana de São José da Lagoa Tapada, perto de Sousa, Rita Leite Martins, de 59 anos, uma filha e três netos, hoje também é só alegria. A arrumadeira das casas do Lago Norte queria muito saber ler. “Eu tinha vontade de ler a Bíblia. Era o meu sonho”, admite.

Hoje, Rita ainda soletra sílaba por sílaba, ainda derrapa nas palavras, mas abre o livro de que mais gosta com prazer. “De primeiro, tudo era escuro. Agora, eu vejo as letras, reconheço as palavras, não pego mais ônibus errado, tenho mais confiança em mim e não sinto mais vergonha de nada.”

Do mesmo entusiasmo de Rita, compartilha a colega de alfabetização Ella Fiamoncino, de 88 anos. Descendente de alemães, Ella nasceu em Ibirama (SC). Mas, em 1978, chegou ao DF com o marido marceneiro. Pararam no então Morro do Urubu, hoje Varjão. Ela se dedicou à criação de galinhas. Hoje viúva, Ella mora com uma das filhas — pariu 10, tem 25 netos, 28 bisnetos e seis tataranetos. A mulher que criava galinhas confessa que sempre quis ser médica. Hoje, com um pouquinho do que tem aprendido nas aulas, adora ler bula de remédio. E confessa uma tristeza: “Casei com 17 anos e lembro que nem meu nome eu soube assinar na hora”.

Ella também admite que até para viajar tudo ficou mais fácil. “Eu leio as placas, as coisas na rua. É uma maravilha.” E decidiu, do alto dos seus 88 anos: “Ninguém me atrapalha mais com nada. Isso é felicidade”.

“Elas nos ensinam a viver”

Antes de essa revolução de vidas chegar a esse lugar, em 2010, uma mulher visionária levou livros, centenas deles, sonho e esperança àquela associação. Por meio do Projeto Bibliotecas Casa do Saber — que durou 10 anos, contou com apoio fundamental da população de Brasília e inaugurou 182 desses espaços pelo DF e muito longe daqui — Carmen Ganzelevitch Gramacho montou mais um lugar voltado à leitura.

É lá na Associação dos Idosos do Varjão que Carmen, 73, moradora do Lago Norte, agora também será uma das voluntárias do curso de alfabetização. Uma vez por semana, ela ajudará ainda mais nos renascimentos de Lindaura, Rita, Ella e de todas aquelas pessoas. “Elas nos ensinam a viver”, diz, emocionada, Carmen. Lindaura, a mulher que limpou privadas e salas de aula por muitos anos e só agora viu sua vida se transformar, é também toda emoção: “O bom pedir faz um bom dar”. Depois, como se estivesse fora dali, em outra dimensão, deixa escapar: “Eu ouço, gosto de perguntar e vou cultivando na memória. Quem não estuda não existe”.

Lindaura, que nasceu num lugar chamado Mundo Novo, lá nos confins da Bahia, de fato, agora enxergou a sua luz. Fez o seu novo mundo. Uma vida mais cidadã. E não importa se isso demorou 85 anos. Hoje, aos 89, ela se olha no espelho e realmente acredita que renasceu. Esta história precisava ser contada.

 Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Gêmeas siamesas

Médicos separam siamesas unidas pela cabeça, em cirurgia inédita no DF

As irmãs nasceram unidas pela cabeça em junho do ano passado. Cirurgia inédita no DF ocorreu no último sábado. Caso havia sido mantido em sigilo até agora a pedido dos pais

Uma cirurgia delicadíssima e inédita no Distrito Federal, da qual dependia a vida de duas pequenas brasilienses muito especiais, ocorreu no ultimo sábado, 27 de abril, no Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Depois de uma preparação de mais de um ano, uma equipe de médicos da cidade separou irmãs gêmeas que nasceram unidas pela cabeça. As meninas, agora, seguem em observação, cercadas de todos os cuidados, como vem acontecendo desde que exames de pré-natal mostraram que elas eram siamesas.

A pedido dos pais, o caso foi mantido em sigilo pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Respeitando o desejo da família, que ainda pede para se preservar a identidade das meninas, o Correio não deu, inicialmente, detalhes que possibilitem a identificação das duas. Na segunda-feira, os pais — Camila Neves, 25 anos, e Rodrigo Neves, 30 — divulgaram os nomes das meninas: Mel e Lis.

Ao longo dos últimos 10 meses, a reportagem acompanhou a história e conversou com alguns dos profissionais envolvidos no caso. O processo de preparação para a realização da primeira cirurgia desse tipo na capital federal começou ainda no pré-natal. Os exames mostravam que elas estavam unidas pela cabeça, único caso registrado até hoje em Brasília.

Prontamente, foi mobilizada uma grande equipe, incluindo neurologistas pediátricos, microcirurgiões, cirurgiões plásticos, obstetras, anestesistas e enfermeiros, entre outros profissionais. “Não era caso para uma pessoa só, mas para um time”, diz ao Correio o neurocirurgião Benício Oton, responsável pela operação. Mais de 50 profissionais participaram do procedimento.

Ao menos 12 médicos acompanharam as meninas desde o início. Uma equipe de especialistas em siameses dos Estados Unidos, um deles com 24 casos no currículo, também foi acionada para ajudar. Cinco profissionais norte-americanos estavam no hospital no momento da separação, apoiando o time brasiliense, que recebeu muitos elogios dos estrangeiros.

Nascimento
As meninas nasceram em junho do ano passado, no Hospital Materno-Infantil de Brasília (Hmib). Após a cesariana, foi possível confirmar quais órgãos e tecidos elas dividiam. Constatou-se, então, que elas tinham em comum parte da pele da testa, do crânio e da meninge, um conjunto de membranas que envolve o cérebro.

Era um bom sinal. Como não compartilhavam nenhum órgão vital, a operação era viável e as chances de que a cirurgia de separação corresse bem eram muito boas. O impedimento inicial era o fato de serem recém-nascidas, logo frágeis demais para um procedimento médico como o que enfrentariam.

A solução era esperar que elas crescessem, ganhassem peso e ficassem prontas para o desafio. Depois de um mês na UTI, foram para a enfermaria do hospital e continuaram a ser acompanhadas enquanto se desenvolviam. Ao mesmo tempo, a equipe não queria esperar muito. A ideia, afinal, era permitir que as irmãs pudessem se desenvolver naturalmente e aprendessem a andar já independentes uma da outra.

Molde tridimensional
A preparação incluiu reuniões, análise de exames, estudo de outros casos e até a construção de um molde tridimensional da cabeça das crianças. Nas análises, percebeu-se também que, após a separação, a recomposição da pele era uma questão crucial. Uma equipe de microcirurgia plástica ficou a postos para realizar um transplante de pele vascularizado. “É uma medida necessária para evitar uma infecção ou um caso de meningite”, explica Oton.

Todas essas medidas ajudaram para que a operação fosse um sucesso. O grande dia foi o sábado passado, 27 de abril, pouco antes de as meninas completarem 11 meses. Depois de mais de 20 horas, a cirurgia chegou ao fim. “Foi um sucesso. Elas estão reagindo como esperávamos”, diz o médico. Agora, separadas pela primeira vez nesse curto tempo de vida, as irmãzinhas continuam cercadas de cuidado, para que possam crescer independentes, unidas apenas pelo amor de irmãs e pela certeza de que, juntas, superaram, logo no início da vida, um grande desafio.

O caso das siamesas de Brasília passo a passo
A CONDIÇÃO
As gêmeas nasceram com uma condição conhecida no meio médico como craniopagia, ou seja, elas eram unidas pela cabeça. Histórias assim são raras, acontecem uma vez a cada 2,5 milhões de nascimentos. No caso das duas brasilienses, elas estavam unidas pelas testas

CAUSA
A gemelaridade imperfeita, como é tecnicamente conhecido o caso de gêmeos siameses, acontece uma vez em cada 100 mil nascimentos. É causada por um erro na divisão celular após o 12ª dia da concepção em embriões de gêmeos de um único óvulo e um espermatozoide

O NASCIMENTO
As meninas nasceram no Hospital Materno-Infantil em junho de 2018. Como o pré-natal já indicava que elas eram siamesas, toda uma equipe de profissionais, de diferentes áreas, foi mobilizada para realizar o parto, que foi uma cesariana. Pelo menos 12 médicos acompanharam o caso desde a gestação

DIAGNÓSTICO
Após o nascimento, confirmou-se que as irmãs estavam ligadas pela testa e dividiam pele, parte do crânio e meninge, um conjunto de membranas que reveste o cérebro. O fato de as crianças não dividirem nenhum órgão vital foi uma ótima notícia, pois esse fato diminuía consideravelmente o risco de uma delas morrer durante o procedimento de separação ou mesmo de ficar com sequelas graves após a cirurgia

PREPARAÇÃO
Toda a preparação incluiu reuniões, análise de exames, estudo de outros casos e até a construção de um molde tridimensional da cabeça das crianças

ESPERA
O principal obstáculo à cirurgia era esperar que as crianças estivessem fortes o suficiente para passar pelo procedimento cirúrgico. Assim, elas foram acompanhadas durante os primeiros meses de vida para que ganhassem peso e ficassem prontas

A OPERAÇÃO
Finalmente, no sábado 27 de abril, pouco antes de as meninas completarem 11 meses, a cirurgia foi realizada com sucesso no Hospital da Criança de Brasília, por uma equipe de profissionais da cidade.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Projeto na CLDF quer criar delegacia para bichos em situação de maus-tratos

Projeto na CLDF quer criar delegacia para bichos em situação de maus-tratos

Nove projetos voltados para os animais foram apresentados pelos deputados distritais nesta legislatura. A criação do SamuVet e da delegacia para os bichos em situação de maus-tratos chamam a atenção entre as proposições
Distritais apostam em projetos que defendem as causas animais(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )

O brasiliense adora pets. Nos domicílios do DF, há 507 mil cães e 122 mil gatos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os bichinhos conquistaram também a atenção dos deputados distritais que assumiram mandato em 2019. Três meses e meio após a posse, os parlamentares apresentaram nove projetos de lei voltados para o mundo pet. No ano passado, na legislatura anterior, apenas uma proposição relacionada ao tema foi apresentada na Casa.

Entre as propostas dos distritais, algumas se destacam. Agaciel Maia (PR) propõe a criação de uma delegacia voltada para a proteção animal. A unidade ficaria responsável por registrar ocorrências e instaurar inquéritos relacionados principalmente a abusos, maus-tratos e crimes contra bichos domésticos ou não. “É incontroversa a necessidade de se criar instrumentos públicos para proteção dos animais, uma vez que é público e notório que os mesmos são comumente submetidos a tratamentos cruéis”, diz o deputado, em trecho da justificativa apresentada com a iniciativa.

O deputado Roosevelt Vilela (PSB) é autor de outra ideia que chama a atenção. Ele propôs a instituição de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) específico para resgate e socorro de animais nas vias públicas do Distrito Federal. O SamuVet teria funcionamento 24h e atenderia bichos que fossem atropelados ou estivessem em situação de rua ou soltos nas vias públicas.

De acordo com o projeto, os veículos do SamuVet teriam estrutura semelhante a um pequeno hospital voltado para os animais, o que permitiria atendimento rápido e dentro das normas até que eles fossem encaminhados para um local adequado a fim de continuar o tratamento. Iniciativas semelhantes são realizadas em cidades como Florianópolis (SC), Campinas (SP) e Salvador (BA). “A implementação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência Veterinário trará grandes benefícios sociais e ambientais para DF, além de contribuir para a conscientização da população sobre a importância de um tratamento digno aos animais”, justifica Vilela.

De acordo com o IBGE, há 507 mil cães e 122 mil gatos nos domicílios do DF(foto: Luciano Selivon/Divulgação )

Barulho

O transtorno causado para os animais pelos ruídos dos fogos de artifício é o alvo de um projeto de lei do deputado Reginaldo Sardinha (Avante). A proposição proíbe a utilização de fogos e artefatos, à exceção dos que não produzem estampidos de alto volume. “O som ensurdecedor e o brilho intenso emitidos em shows pirotécnicos são fontes de perturbação para inúmeras espécies de animais domésticos e silvestres no mundo todo”, argumenta Sardinha.

Além do medo que o barulho causa em bichos sem problemas de saúde, a proposta destaca os danos em pets com problemas cardíacos e neurológicos. “O estresse e o medo podem causar vômitos, falta de ar, convulsões e arritmias cardíacas nesses casos”, alerta. Se o projeto for aprovado, quem descumprir a determinação pagará multa de R$ 2,5 mil, valor que será dobrado em caso de reincidência.

Outra proposição, de autoria dos deputados Eduardo Pedrosa (PTC) e Robério Negreiros (PSD), estabelece permitir a entrada de animais domésticos em hospitais públicos para visitas a pacientes internados. Pedrosa é o parlamentar com mais proposições direcionadas para os pets. São três projetos ligados ao tema.

Tema em alta

O especialista em marketing político Marcelo Vitorino, professor e consultor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), ressalta que a atenção aos pets é um tema em destaque na sociedade atualmente. Isso tem reflexo direto na atuação legislativa, pois motiva parlamentares a se envolverem com o assunto por proximidade ou em busca de mais capital político. “Essa é uma pauta que a população tem olhado bastante e que tem ajudado até a eleger candidatos”, comenta. “Diversos políticos hoje conseguem sucesso por serem defensores da causa animal.”

Do ponto de vista da estratégia política, Vitorino alerta, no entanto, que a atuação precisa ser honesta e que tentar aproveitar a visibilidade do assunto pode não funcionar. “As pessoas que se mobilizam em favor desse tema vão fiscalizar e acompanhar o trabalho de perto. Se o parlamentar ficar só no discurso, não vai conseguir sucesso”, avalia. O especialista frisa que a consolidação de políticos como defensores dessas pautas leva tempo. “Não é algo que se firma em poucos meses. Exige um trabalho longo, com atuação direta e real no tema”, ressalta Vitorino.

Os projetos

Confira propostas relacionadas com pets apresentadas pelos distritais em 2019

» PL nº 258/2019

Institui a Delegacia de Proteção Animal no âmbito do Distrito Federal (DPADF)

Autoria: Agaciel Maia (PR)

» PL nº 203/2019

Assegura, no âmbito do Distrito Federal, a divulgação de informação que facilite e incentive a adoção, o apadrinhamento e o lar temporário de animais

Autoria: Eduardo Pedrosa (PTC)

» PL nº 202/2019

Institui o Certificado Selo de Responsabilidade Social para a causa animal, denominado Parceiros de proteção de animais

Autoria: Eduardo Pedrosa (PTC)

» PL nº 150/2019

Assegura o direito de liberação de entrada de animais de estimação em hospitais públicos para visitas a pacientes internados e dá outras providências.

Autoria: Eduardo Pedrosa (PTC) e Robério Negreiros (PSD)

» PL nº 146/2019

Dispõe sobre a instituição do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência Veterinário (SamuVet) para resgate e socorro de animais nas vias públicas do Distrito Federal

Autoria: Roosevelt Vilela (PSB)

» PL nº 138/2019

Dispõe sobre a cassação da inscrição estadual de empresas que provoquem maus-tratos a animais

Autoria: Cláudio Abrantes (PDT)

» PL nº 109/2019

Autoriza o transporte de animais domésticos no serviço de transporte coletivo de passageiros do Distrito Federal

Autoria: Daniel Donizet (PSDB)

» PL nº 48/2019

Institui a campanha de prevenção ao abandono de animais Dezembro verde.

Autoria: Rodrigo Delmasso (PRB)

» PL nº 38/2019

Proíbe o manuseio, a utilização, a queima e a soltura de fogos ou qualquer artefato pirotécnico que produza estampidos no âmbito do DF

Autoria: Reginaldo Sardinha (Avante)

Memória

Situações recorrentes

No mês passado, alguns casos de maus-tratos chamaram a atenção no Distrito Federal. No Paranoá, um homem de 47 anos foi detido após ser flagrado abusando sexualmente de uma cadela. Em Santa Maria, cinco cachorros foram resgatados pela Polícia Militar Ambiental em situação de maus-tratos. Os animais estavam presos e expostos a sol e chuva. Também não tinham água, comida e condições de higiene.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Cirurgia pioneira no cérebro dá sons e voz a menina 100% surda

Leia, 7, tinha um tipo raro de surdez profunda; seus pais a submeteram a cirurgia pioneira para tentar lhe dar uma oportunidade de ouvir, e sua recuperação superou todas as expectativas.

Leia tinha um tipo raro de surdez profunda — Foto: Guy’s and St Thomas/ NHS

Leia Armitage, 7, viveu em silêncio total durante seus dois primeiros anos de vida. Hoje, graças a uma cirurgia pioneira no cérebro e a anos de terapia, a menina britânica conseguiu descobrir – e usar – a própria voz.

“Ouvimos (dos médicos) que nem se colocássemos uma bomba atrás da orelha dela ela escutaria a detonação”, conta o pai de Leia, Bob, lembrando-se do momento em que descobriu que sua filha bebê tinha um tipo raro de surdez profunda.

Leia não tinha o nervo auditivo, o que significa que nem mesmo aparelhos auditivos ou implantes cocleares poderiam ajudá-la. Eram poucas as perspectivas de que Leia aprendesse a falar.

Diante desse quadro, os pais de Leia brigaram para que ela fosse uma das primeiras crianças britânicas a serem submetidas a uma cirurgia cerebral – ainda arriscada -, para a colocação de um implante auditivo no tronco encefálico.

Leia passou pela cirurgia aos dois anos.

O NHS, sistema de saúde público britânico, afirma que a cirurgia é “capaz de mudar vidas” e que financiará novos procedimentos para outras crianças em situação similar à de Leia.

‘Oportunidade na vida’

Bob conta que foi muito difícil a decisão de submeter a filha à cirurgia, mas que ele e a mulher Alison queriam “dar a Leia a melhor oportunidade na vida”.

O casal esperava que a cirurgia permitisse à menina passar a escutar carros buzinando quando ela atravessasse a rua – para que pudesse, enfim, se locomover fora de casa com mais segurança.

Mas, nos cinco anos passados desde o procedimento, o progresso de Leia superou muito essas expectativas iniciais.

Leia (à dir) com os pais e o irmão; ela superou as expectativas iniciais da cirurgia — Foto: Guy’s and St Thomas/ NHS

Começou devagar, pouco depois da cirurgia, com Leia reagindo a sons como o das portas do metrô.

Aos poucos, ela passou a entender o conceito de som à medida que seus pais repetiam palavras e pediam que ela os imitasse.

Hoje, após anos de fonoaudiologia e outras terapias, ela consegue falar frases completas, cantar músicas e escutar conversas no telefone.

“Se ela estiver no andar de cima da casa e a gente chamar, ela vai ouvir”, conta Bob.

‘Eu te amo’

Mas é na sala de aula (ela frequenta uma escola tradicional, com crianças de audição regular) que Leia está tendo o desempenho mais surpreendente, graças a assistentes que a acompanham individualmente, usando linguagem de sinais.

“Ela está aprendendo cada dia mais e não está muito atrás dos demais na maioria das coisas”, prossegue Bob.

Em casa, o que deixa Bob e Alison mais felizes é ver Leia usando a própria voz.

“‘Te amo, papai’, é provavelmente a melhor coisa que já ouvi ela dizer”, conta ele.

“Quando estou colocando ela para dormir, ela já diz ‘boa noite, mamãe’, algo que eu nunca imaginei ouvir”, agrega Alison.

A cirurgia

A cirurgia pela qual Leia passou é pioneira e envolve inserir um aparelho diretamente no cérebro, para estimular os canais auditivos em crianças nascidas sem os nervos específicos.

Um microfone e um processador de som acoplados ao lado da cabeça transmitem o som ao implante.

Esse estímulo elétrico é capaz de prover sensações auditivas, mas nem sempre consegue restaurar uma audição normal.

No entanto, o otologista Dan Jiang, diretor clínico do Centro de Implantes Auditivos do Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust, explica que algumas crianças, como Leia, conseguem desenvolver a fala.

“Os resultados variam muito. Alguns pacientes se saem melhor do que outros”, diz. “Exige adaptação, e crianças pequenas se adaptam melhor, então gostamos de inserir o implante o mais cedo possível.”

Crianças com menos de cinco anos têm mais facilidade em aprender novos conceitos de som e respondem bem a terapias intensivas, ele agrega.

Susan Daniels, executiva-chefe da Sociedade de Crianças Surdas do Reino Unido, afirma, ao mesmo tempo, que “cada criança surda é diferente e, para algumas, tecnologias como implantes cerebrais podem fazer uma enorme diferença em suas vidas”.

“Com o apoio adequado, crianças surdas conseguem se sair tão bem quanto as que escutam, e esse investimento (na cirurgia) é mais um passo importante em direção a uma sociedade em que nenhuma criança surda fique para trás.”

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude

Pena maior os assassinos da estudante Maria Cláudia Del’Isola

Em recurso no STJ, MPDFT conseguiu aumentar as condenações do caseiro Bernardino e da empregada Adriana. Crime ocorreu em 2004

O Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) conseguiu decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para aumentar as penas de Bernardino do Espírito Santo Filho e Adriana de Jesus Santos, condenados pelo assassinato da estudante Maria Cláudia Siqueira Del’Isola.

A vitória veio em recurso que contestou decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) que reduziu as penas dos condenados para 44 e 38 anos, respectivamente.

De acordo com a sentença inicial, eles haviam sido condenados a 65 e 58 anos. Após despacho do STJ, proferido no último dia 29, Bernardino do Espírito Santo Filho deve receber a pena de 50 anos e 6 meses, enquanto Adriana de Jesus Santos deverá cumprir 40 anos de reclusão. Ambos em regime fechado. O recurso foi interposto pela Coordenadoria de Recursos Constitucionais do MPDFT.

A dupla foi condenada pelos crimes de homicídio triplamente consubstanciado, estupro, atentado violento ao pudor, ocultação de cadáver e furto qualificado. O MPDFT explica que ainda cabe recurso sobre a decisão.

Preso em 2007, Bernardino Espírito Santo obteve progressão para o semiaberto em 2016 e está no Centro de Internação e Recuperação (CIR). Segundo o MPDFT, Adriana está no mesmo regime, com trabalho externo. Com a nova decisão, a situação prisional dos réus deve ser reanalisada pela Vara de Execuções Penais (VEP).

Entenda o caso
O crime ocorreu em dezembro de 2004 e foi considerado um dos assassinatos mais bárbaros do Distrito Federal. Bernardino do Espírito Santo era caseiro da família de Maria Claudia Del’Isola, enquanto Adriana de Jesus, sua namorada, trabalhava como empregada doméstica na mesma residência.

O caso aconteceu no Lago Sul, um dos bairros mais nobres de Brasília.

Antes de sair para a faculdade, a vítima foi abordada pelo casal, agredida com um soco e obrigada a informar a senha do cofre. Em seguida, estuprada, esfaqueada e morta com um golpe de pá na cabeça. A dupla enterrou a universitária debaixo da escada principal da residência. O corpo foi encontrado três dias depois.

O Metrópoles tenta contato com os advogados de Bernardino e Adriana. (Com informações do MPDFT)

Saiba mais em: www.metropoles.com

Justiça aumenta pena de casal que matou Maria Claudia Del’Isola

 

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu parecer favorável ao pedido do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) que solicitou o aumento da pena para os réus Bernadino do Espirito Santo Filho e Adriana de Jesus Santos, casal acusado de matar Maria Cláudia Del’Isola em 2004. Cabe recurso da decisão.

Os dois haviam sido condenados a 65 e 58 anos de prisão pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), mas recorreram da decisão e conseguiram a redução para 44 e 38 anos de prisão em regime fechado, respectivamente.

Após decisão do STJ, proferida na última sexta-feira (29/3), Bernardino Filho deve receber a pena de 50 anos e seis meses, enquanto Adriana Santos deverá cumprir 40 anos de reclusão, ambos em regime fechado.

Eles foram condenados pelos crimes de homicídio triplamente consubstanciado, estupro, atentado violento ao pudor, ocultação de cadáver e furto qualificado.

Preso em 2007, Bernardino Espirito Santo obteve progressão para o regime semiaberto em 2016. Com a nova decisão, a situação prisional do réu deve ser reanalisada pela Vara de Execuções Penais.

Morta em casa

Durante três dias, a família de Maria Cláudia acreditava que a jovem estivesse desaparecida. Somente em 12 de dezembro eles descobriram que a filha mais nova estava morta e enterrada dentro da própria casa, perto do jardim.

O crime teria sido planejado por Bernadino, de acordo com os depoimentos de Adriana à polícia. Ela relatou, em depoimento, que decidiu apoiá-lo porque tinha inveja e ciúmes da estudante por ela ser “rica e bonita”, enquanto Adriana era “pobre e feia”. Os assassinos recebiam ajuda dos patrões para criar o filho único do casal.

Veja mais em : www.correiobraziliense.com.br

Justiça aumenta pena de assassinos de Maria Cláudia

STJ fixou pena de Bernardino do Espírito Santo em 50 anos por estuprar, matar e esconder corpo de universitária. Adriana de Jesus Barbosa foi sentenciada a 40 anos.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o aumento da pena de Adriana de Jesus Santos e Bernardino do Espírito Santo Filho – condenados pelo estupro e morte da jovem Maria Cláudia Del’Isola, em 2004. A decisão prevê pena de 50 anos e seis meses de reclusão para o homem, e 40 para a mulher. Cabe recurso.

A determinação foi do ministro do STJ Antônio Saldanha Pinheiro, que atendeu a pedido do Ministério Público do DF. Adriana continua presa, mas Bernardino conseguiu progressão para o regime aberto em 2016. A situação deve ser reavaliada pelo Tribunal de Justiça do DF.

Bernardino e Adriana foram condenados pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, estupro, atentado violento ao pudor, ocultação de cadáver e furto qualificado. Em primeira instância, a Justiça fixou a pena dele em 65 anos e a dela, em 58.

As penas, no entanto, foram reduzidas em análise de segundo grau: 44 e 38 anos, respectivamente. O Ministério Público, então, recorreu da decisão.

A defesa dos dois condenados é feita por um defensor público. O G1 acionou a Defensoria Pública do DF e aguarda resposta.

Maria Cláudia Del’Isola, que foi morta aos 19 anos dentro de casa, em Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução Maria Cláudia Del’Isola, que foi morta aos 19 anos dentro de casa, em Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução

Homicídio
O crime ocorreu em dezembro de 2004. À época, Maria Cláudia Del’Isola tinha 19 anos e estudava psicologia. Bernardino trabalhava como caseiro na casa da vítima, no Lago Sul, e Adriana de Jesus era empregada da família. Os dois tinham um relacionamento.

Segundo as investigações, a dupla estuprou, esfaqueou e estrangulou a jovem, escondendo o corpo em um cômodo dentro da casa. O cadáver foi descoberto três dias depois por um amigo da família que era agente de polícia.

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De 68 feminícidios no DF, 11 assasdinos tiraram a própria vida

Caso mais recente foi registrado domingo (31/3) e vitimou Isabella de Oliveira, morta com tiro no olho. Ex-companheiro se matou após o crime

Crime bárbaro e trágico, o feminicídio foi seguido de suicídio em 16% dos 68 casos registrados entre março de 2015 e 18 de março de 2019, conforme análise da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. No total, 11 homens se mataram após assassinarem mulheres.

As tristes histórias se repetem com infeliz frequência. A última noticiada na capital da República vitimou Isabella Borges de Oliveira, 25 anos. Nesse domingo (31/3), o ex-companheiro dela, Matheus Cardoso Galheno, 22, a matou com um tiro no olho dentro de casa no Paranoá. Em seguida, ele tirou a própria vida. Embora essa ocorrência esteja fora da estatística, concluída antes do crime, vai engrossar futuros levantamentos dos órgãos de segurança.

Para a psicóloga e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) nas áreas de ciúmes, gênero e violência Maísa Campos Guimarães, 16% é um percentual alarmante. “O que fica evidente é o sentimento de posse”, destacou.

Segundo a especialista, o suicídio, nesses casos, pode ser avaliado como tentativa de fugir da punição, mas não é só isso. “Existe a ideia de que a vida não faz mais sentido se não tiver a propriedade ou controle sobre a outra pessoa”, completou.

Maísa alerta que não é possível prever se e quando uma ocorrência em potencial será concretizada. “É preciso levar as ameaças a sério”, reforçou. A fim de evitar tragédias, também é uma observação para os profissionais da área de saúde fazerem escuta detalhada dos homens que manifestam a idealização de suicídio – uma vez que essa predisposição pode acarretar episódios de violência contra terceiros antes da execução do ato.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o assunto não venha a público com frequência, para que o ato não seja estimulado. O silêncio, porém, camufla outro problema: a falta de conhecimento sobre o que, de fato, leva essas pessoas a se matarem e, em alguns casos, ceifar outras vidas antes disso.

Porta-voz do Centro de Valorização da Vida (CVV), Leila Herédia conta que a instituição oferece apoio gratuitamente e sob sigilo. “O sofrimento psíquico, como tristeza e angústia, indica quando é hora de procurar ajuda”, explicou. “A fala pode ser terapêutica.”

A pesquisadora em estudos de gênero e professora da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello sugere que a intervenção deve ocorrer o mais cedo possível. “A gente tem de pensar cada vez mais não só no sentido de parar relações violentas mas de prevenir. Precisamos de políticas públicas de intervenção nas masculinidades.”

Assim como Maísa, Valeska avalia que o suicídio após o feminicídio aponta vínculo marcado pela propriedade. “O homem não suporta que a mulher termine ou não queira mais a relação. Ele acaba matando a companheira – às vezes, os filhos – e, em seguida, tira a própria vida. É muito mais raro que a mulher cometa o mesmo tipo de violência”, concluiu. Como saldo da tragédia, ficam famílias devastadas.

Histórias
Nas estatísticas da SSP, todos os casos são de brutalidade extremada. Com requintes de crueldade, Leandro Brabosa de Jesus, 61, matou a pauladas a mulher, Maria das Graças de Sousa, 46, em outubro de 2018. À época, o delegado de plantão da 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas), Sérgio Bautzer, detalhou que a vítima queria se separar, mas o homem não concordou. “Ela disse que deixaria a casa, porém ele não aceitava e acabou matando a esposa com pauladas na cabeça e no rosto”, relatou o investigador.

O homem avisou a parentes que havia matado a companheira, mas ninguém acionou a polícia. Ele chegou a ir até a casa de duas de suas noras, antes de voltar ao local do crime e se matar com uma faca. Os dois corpos só foram encontrados após um sobrinho de Maria das Graças ir à residência da tia e visualizar manchas de sangue no chão.

No dia em que a Lei Maria da Penha completou 12 anos de sanção, em agosto do ano passado, um PM matou a mulher e tirou a própria vida no Riacho Fundo II. De acordo com informações da Polícia Militar, Epaminondas Silva Santos, 51, lotado no 8º Batalhão (Ceilândia), assassinou a companheira, Adriana Castro Rosa Santos, 40.

O homem não admitia ceder o divórcio proposto pela esposa. Após matar a mulher, Epaminondas se suicidou com um tiro na têmpora. Ao ouvirem os tiros e os gritos de desespero da avó, os filhos do casal – de 11 e 8 anos – correram descalços e ainda de pijama até o quintal e se depararam com os corpos dos pais sangrando.

Em março de 2018, o piloto do Metrô-DF Júlio César dos Santos, 38, pegou um revólver calibre .38 e tirou a vida da esposa, Mary Stella Maris Gomes Rodrigues dos Santos, 32, e depois se matou. Tudo na frente de um dos filhos, de apenas 2 anos.

Segundo uma testemunha-chave ouvida pelo Metrópoles, o menino estava no colo do pai, que tentava forçar a porta durante a briga com a mulher. Logo em seguida, a vítima saiu gritando “socorro, socorro” e correu para o portão. Antes que os vizinhos chamassem a polícia, Júlio César fez os disparos.

Outros dados
Nos episódios em que os criminosos não se mataram, a partir das informações coletadas pela Secretaria de Segurança Pública, é possível dizer que os autores eram ou foram casados com a vítima (82,3% dos casos) e citaram ciúmes, não aceitação do término da relação ou vingança por traição como razões para a prática do ato bárbaro (na soma, 82,2% das ocorrências).

O levantamento revela, ainda, que o assassinato de mulheres, na maioria das vezes, acontece dentro de casa (91,2%), aos finais de semana – crimes ocorridos entre sábado, domingo e madrugada de segunda somam 47,1% dos casos – e entre 18h e 6h, 63,3%.

Outra informação importante encontrada durante a análise foi que em 72,1% dos casos não havia registros na Polícia Civil de violência doméstica praticada pelo agressor contra a vítima. “Isso reforça a necessidade de elas denunciarem, para que o poder público possa entrar com as medidas protetivas cabíveis”, salienta o secretário-executivo da SSP, Alessandro Moretti.

As informações estão sendo compartilhadas entre a Secretaria de Segurança Pública, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). O detalhamento, com um perfil de vítimas e agressores, também servirá para nortear decisões a respeito das medidas protetivas a serem adotadas em casos de violência doméstica.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país. Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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DF: suspeito de feminicídio pediu demissão do emprego após crime

Barbeiro é procurado pela Polícia Civil depois de corpo de Maria dos Santos Gaudêncio ser achado em casa, no Itapoã, com cinco facadas

A Polícia Civil procura pelo barbeiro Antônio Alves Pereira, 40 anos, principal suspeito de ter assassinado a comerciante Maria dos Santos Gaudêncio (foto em destaque), 52. O corpo da vítima foi encontrado nessa terça-feira (19/3) em estado de putrefação, com cinco facadas e uma lesão na nuca. O casal namorava há cerca de dois anos.

Tudo indica que Maria foi morta no domingo (17). O corpo dela, porém, foi achado pela filha mais velha, de 28 anos, na terça (19), na Quadra 2 da Fazendinha, no Itapoã. Ambas moravam juntas. Sábado (16) foi o último dia que ela viu a mãe com vida.

A jovem saiu para comemorar o aniversário do namorado e, quando retornou, na segunda (18), encontrou o quarto da mãe trancado. Na noite de terça (19), ela começou a sentir um odor forte e resolveu arrombar a porta. Os bombeiros e a PM foram chamados.

Como nada foi roubado, a suspeita do assassinato recaiu sobre o namorado. Isso porque era a única pessoa que tinha acesso à casa, segundo familiares da vítima. De acordo com a delegada-chefe da 6ª DP (Paranoá), Jane Klébia, não há registros anteriores de violência doméstica contra o homem. Apesar disso, ele é procurado pelo crime.

Ela diz que existem indícios de que o feminicídio tenha sido premeditado. No sábado (16), segundo as investigações, Antônio pediu adiantamento de salário na barbearia onde trabalha. Na segunda-feira (18), demitiu-se, alegando que havia ganhado na loteria. Chegou a dizer que doou roupas velhas, conforme mensagem encaminhada ao patrão.

Uma testemunha relatou ter visto a vítima junto com Antônio no domingo (17), na porta de casa. Por volta das 23h, ele teria deixado o local às pressas de bicicleta. A filha mais nova de Maria, que não reside com ela, a viu pela última vez no mesmo dia. A mãe foi visitá-la com o namorado. De acordo com o relato, Maria queria ter ficado mais tempo, mas Antônio a convenceu a deixar o local.

Na 6ª DP, a caçula disse que sua mãe chegou a lhe mostrar algumas mensagens trocadas entre ela e Antônio em que ambos discutiam, mas “nada sério”, conforme contou. Maria tinha um bar do lado de casa. Assim como na residência, nada foi roubado do estabelecimento.

O crime chocou a vizinhança. A esteticista Luzia Almeida, 36, amiga da família, diz que não consegue dormir desde que recebeu a notícia da morte de Maria e têm crises de choro constantes. “Não dava para desconfiar dele [Antônio]. Sempre foi tranquilo, apenas muito quieto”, ressaltou.

Caso as suspeitas sejam confirmadas, será o 6º caso de feminicídio no DF apenas neste ano. Até a semana passada, a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) registrou 3.101 ocorrências de violência doméstica.

No dia 5 de janeiro, Vanilma Martins dos Santos, 30, foi morta com uma facada desferida pelo marido. Os dois viviam juntos no Gama e tinham um filho pequeno. Pouco mais de 20 dias depois, Diva Maria Maia da Silva, 69, levou cinco tiros no apartamento da família, na Asa Norte. O assassino — Ranulfo do Carmo, 74 — também era companheiro da vítima.

Em seguida, Veiguima Martins, 56, foi assassinada a facadas na Asa Norte pelo marido, que acabou sendo achado morto no apartamento que foi incendiado. Ainda em janeiro, Patrícia Alice de Souza, 23, foi atingida por um tiro nas costas. As investigações concluíram que foi feminicídio.

Cevilha Moreira dos Santos, 45, foi encontrada morta no dia 11 de março, em Sobradinho. A vítima tinha marcas de facada no peito. O namorado dela é o principal suspeito de matar a mulher que sequestrou um bebê no Conic e foi morta dois anos depois.

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