A volta de Bruno, o goleiro assassino

O goleiro Bruno foi condenado como mandante do assassinato de Eliza Samudio, mas agora está solto | Reprodução

É um escândalo ver Bruno de novo como profissional do futebol, nove anos após ser preso por homicídio triplamente qualificado. Por que triplo? Motivo torpe, crueldade e recurso que impede a vítima de se defender. Um crime pra lá de covarde. O feminicida confesso volta ao gramado seis anos e meio após ser condenado como mandante do crime. Sábado agora, lá estará no gol. Um gol contra as mulheres esfaqueadas, queimadas, estranguladas, esquartejadas, jogadas da janela, atropeladas, baleadas por maridos, namorados, amantes e ex. Foi premeditado o crime de Eliza Samudio, mãe de Bruninho, o bebê de 4 meses que Bruno se recusava a reconhecer como seu.
O Brasil tem memória curta. É o país da impunidade, um clichê. Firulas legais são usadas para libertar culpados por crimes hediondos. A incompetência e a lerdeza da Justiça beneficiam assassinos e punem vítimas. É legal que Bruno esteja em casa, em regime semiaberto, contratado pelo Poços de Caldas, um time da terceira divisão? Sim, de acordo com a lei brasileira. Preso há nove anos, ainda sem julgamento em segunda instância, Bruno tem direito a estar solto para recorrer da sentença. Ajudado pelas falhas da Justiça. É legal mas imoral.

A pena inicial foi de 22 anos e três meses. Deveria ser 30 anos, mas foi amenizada pela confissão do jogador. Depois, foi reduzida para 20 anos e nove meses porque prescreveu o crime de ocultação de cadáver. O corpo de Eliza nunca foi encontrado, o atestado de óbito só foi sacramentado em 2017! Uma versão de terror, nunca comprovada, é a de que Eliza teria sido esquartejada e suas partes jogadas a cães.
Assassinos que seguem o exemplo de Bruno somem com o cadáver. Confessam, deixam a arrogância de lado e passam a andar de cabeça baixa. Aí se comportam bem na cadeia, jogam uma peladinha no pátio, fazem amigos, começam a orar, arrumam uma noiva. Pronto. No Brasil, a segunda instância demora um tempão mesmo e sempre surgirá um ministro do Supremo, no caso Marco Aurélio Mello, que baterá o martelo por sua liberdade, baseado na letra da lei. Juízes e advogados se queixam da “mídia sensacionalista” e do “clamor popular” contra a regeneração do réu. Ah, ele é primário e tem bons antecedentes! Sim, as pessoas se recuperam. Mas não tão cedo. Aí o crime se banaliza, ser goleiro de novo vira prêmio. Não aceito punições brandas para crimes com requintes de perversidade. São um estímulo a outros feminicidas. É epidemia no Brasil.

Lembremos o caso tenebroso. Eliza conheceu Bruno numa dessas orgias do mundo do futebol. A amante do jogador tinha 25 anos. Grávida, comprovou bofetões de Bruno. Disse que ele “enfiou uma arma na cabeça dela” para obrigá-la a abortar. Foi morta em junho de 2010, em Vespasiano, Minas Gerais, após ser levada à força do Rio de Janeiro para o sítio do goleiro em Esmeraldas (MG), onde foi mantida em cárcere privado. O bebê foi poupado, não se sabe se por sorte ou compaixão. Foi encontrado com desconhecidos numa favela em Ribeirão das Neves (MG).

No dia seguinte ao crime, Bruno deu um festão em seu sítio. Diante do sumiço de Eliza, deu entrevista no campo do Flamengo com a marra de sempre: “Torço para que ela possa aparecer viva”. Ria muito e ganhava R$ 300 mil por mês. O último encontro com Eliza tinha sido “há dois, três meses” e ela sumira “para resolver questões pessoais”. Tudo mentira. Cínico.

Bruninho hoje tem nove anos e vive com a avó, a quem pergunta, desde que soube de tudo no ano passado: “Por que meu pai quis me matar, se eu era um bebê?” Também viu um vídeo da mãe dizendo que Bruno a ameaçara de morte na gravidez. “Se eu te matar e te jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu. Sou frio e calculista.” Nisso ele estava certo. A juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues, de Belo Horizonte, considerou Bruno “frio, violento e dissimulado”. Para ela, o crime foi “uma trama diabólica meticulosamente calculada”. O maior exemplo foi o sumiço do corpo: “A supressão do corpo humano é a verdadeira violência, um ato de desprezo e vilipêndio”.

O goleiro assassino Bruno volta agora a agarrar, para alegria da galera. Vai enfrentar o Independente de Juruaia. O diretor da Kuati Loko, torcida organizada do Poços de Caldas FC, prometeu preparar um canto para o Bruno. “Gritos e cantos sempre tivemos. Vamos bolar algo”. Uma sugestão: “Torcida ida ida, xô feminicida”.
 
Eliza e Bruninho, filho do goleiro. O bebê de quatro meses foi poupado por sorte ou compaixão | Reprodução

Fonte: O Globo

Expo Liber: evento na UnB une direito, literatura e jornalismo

Projeto, que ocorre neste sábado (05/10/2019), quer integrar diversas áreas do conhecimento e celebrar os 31 anos da Constituição Federal.
A Universidade de Brasília (UnB) recebe, neste sábado (05/10/2019), a primeira edição da Expo Liber, organizada pelo Projeto de Extensão Habeas Liber, da Faculdade de Direito. O objetivo do evento é integrar os campos do direito às demais áreas de conhecimento, como a literatura e o jornalismo, em comemoração aos 31 anos da promulgação da Constituição Federal.

A programação será aberta às 9h pelo presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), desembargador Romão Cícero de Oliveira; e encerrada, às 16h30, pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Sepúlveda Pertence.

Entre os palestrantes previstos, estão Ryan Maia, escritor mais jovem do Brasil; o ex-procurador federal Judivan Vieira; o magistrado Márcio Barbosa Maia, da Justiça Federal do DF; e Marcos Mairton, magistrado em Fortaleza (CE) e juiz instrutor no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O evento, que ocorrerá na Faculdade de Direito, tem como coordenadores o professor e juiz Vallisney de Oliveira, da 10ª Vara da Justiça Federal do DF, e o estudante Ronaldo de Oliveira Melo.

Direito e jornalismo policial

A intersecção entre o jornalismo investigativo e o direito será tema abordado pelo presidente do Sindicato dos Escritores de Brasília, Marcos Linhares. Autor do livro Não Existe Crime Perfeito, o jornalista vai relembrar a cobertura de casos históricos que marcaram o Distrito Federal. A diretora-executiva do Metrópoles, Lilian Tahan, vai compor a mesa de conversas.

Além dos debates, o público terá acesso a apresentações musicais, exposição de curtas, de livros, sorteio, entre outros atrativos, como o lançamento do livro Corações Libertários, uma coletânea de autoria de estudantes e ex-alunos da UnB.

A Expo Liber conta com o patrocínio da Alumni, Associação dos Ex-alunos de Direito da UnB; do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Faculdade de Direito da UnB. No lugar, haverá a presença food trucks.

A participação é gratuita e os interessados podem se inscrever pelo formulário disponível em https://bit.ly/2oymNsB

Confira a programação:

9h
Abertura
Palestra Justiça e Cidadania – Romão Cícero de Oliveira (Presidente e desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios)

10h
Inauguração da Galeria/Quadro editorial dos professores da Faculdade de Direito (Parceria: Faculdade de Direito, Alumni e Habeas Liber)

10h15
Palestra A Corrupção no Mundo – Judivan Vieira (Pós-doutor em direito. Procurador Federal Aposentado)

11h15
Palestra Crime e Literatura: Não Existe Crime perfeito – Marcos Linhares (Jornalista, escritor, presidente do Sindicato dos Escritores do DF e coordenador-geral da 32ª Feira do Livro)

12h
Intervalo para almoço com música ambiente, artes, feira de livro e fast food

13h30
Painel I

Palestra Cinema e Literatura – Fauston da Silva (Cineasta, estudante de direito da UnB, produtor, roteirista e diretor de cinema)
Apresentação do Filme: O Balãozinho Azul

14h
Palestra: Literatura de Cordel: normas e formas – Marcos Mairton (Juiz federal, poeta e músico)

14h40
Sorteio de Rifa e Sorteio de Livros

15h
Painel II
Palestra: A Harmonia dos Direitos Humanos – Márcio Barbosa Maia (Juiz federal, músico, mestre em direito constitucional)
Ryan Maia (Escritor mirim, autor de obras infantis e literárias) – Apresentação de livro e bate-papo interativo
Apresentação Musical (Márcio Barbosa/Marcos Mairton)

15h50
Lançamento do livro Corações Libertários – Coletânea de autoria de estudantes e ex-estudantes da UnB

16h30
Palestra 31 anos da Constituição de 1988 – Sepúlveda Pertence (Ex-ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, e ex-procurador-geral da República, advogado e jurista)

Fonte: http://bit.ly/2nMhQwg

Polícia busca autor do 25º feminicídio do ano no Distrito Federal

Polícia busca por Wellington de Sousa Lopes, 37 anos, autor 25º feminicídio do ano. Ele assassinou a facadas a companheira, no Riacho Fundo 1
Mais dois casos de feminicídio foram registrados no Distrito Federal, contabilizando 25 mortes de mulheres em 2019, conforme levantamento do Correio. No domingo, Adriana Maria de Almeida, 29 anos, morreu após levar 32 facadas do marido, Wellington de Sousa Lopes, 37. Ele conseguiu fugir e não foi encontrado até o fechamento desta edição. Na manhã de ontem, Tatiana Luz da Costa, 35, morreu no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Ela teve 90% do corpo queimado em 23 de setembro. De acordo com a polícia, Vanessa Pereira de Souza, 34, companheira de Tatiana, é a principal suspeita de atear fogo.

Adriana e Wellington estavam juntos há sete anos e tinham uma filha de 5 anos. Atualmente, moravam em um apartamento, localizado no Conjunto 4 do Setor Placa da Mercedes, no Riacho Fundo 1. O casal havia saído no sábado e retornou de carro para casa. No início da manhã de domingo, entre 8h e 9h, eles discutiram, segundo o delegado Mauro Aguiar Machado, chefe da 29ª Delegacia de Polícia (Riacho Fundo 1).

“Testemunhas relataram que houve gritos e, pouco depois, um silêncio. Eles não chegaram a estranhar a situação, pois o casal costumava discutir. A maior parte das brigas eram por causa de ciúmes de Wellington. No domingo, não foi diferente. A quantidade de facadas que o autor deu em Adriana mostra o quão possesso de ódio ele estava”, destacou o investigador. A criança do casal estava com familiares no fim de semana.

Mauro Aguiar explicou que Wellington usou uma faca do tipo peixeira para atacar Adriana. Ela morreu na sala e a arma do crime ficou no banheiro da residência. Depois da tragédia, o motorista de transporte pirata pegou roupas e outros pertences pessoais, colocou em uma mala e fugiu. Uma câmera de segurança da região flagrou o instante em que o acusado coloca seus pertences no banco de trás do veículo dele, um Fiat Palio Fire Economy prata — placa JHZ3082.

Wellington deu a partida no automóvel e deixou a casa às 9h25. O corpo de Adriana só foi descoberto mais de 10 horas após o assassinato brutal. Familiares da vítima se preocuparam quando ela não atendeu às ligações ou respondeu às mensagens do WhatsApp. “Dois parentes vieram até a casa e escutaram o som ligado, alto. Eles bateram na porta e, como ninguém atendeu, chamaram um chaveiro. Ao abrir a porta da residência, se depararam com a mulher já morta”, explicou o delegado.

Agora, agentes da 29ª DP estão nas ruas para tentar chegar até Wellington. O investigador Mauro Aguiar pediu ajuda da população para elucidar o caso. Quaisquer informações podem ser repassadas anonimamente pelo 197. “Não resta dúvidas de que o marido de Adriana é o autor. As imagens, relatos de conhecidos, assim como o histórico do relacionamento, indicam Wellington como suspeito”, garantiu.

De acordo com a Polícia Civil, Adriana abriu dois boletins de ocorrência contra o marido, em 2015 e 2017, respectivamente. Os casos ocorreram na Área de Desenvolvimento Econômico de Águas Claras e em São Sebastião, respectivamente. Em ambos os relatos, a vítima afirmou ter sido agredida e ameaçada de morte por Wellington. Ela chegou a receber medidas protetivas, mas revogou o pedido na Justiça.

Queimada viva
Tatiana Luz da Costa morreu às 6h15 de ontem, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. A informação foi confirmada pela Polícia Civil. Ela estava internada em estado gravíssimo no Hran, desde que foi atacada pela mulher, Vanessa Pereira. O caso ocorreu em 23 de setembro, no Residencial Total Ville, em Santa Maria.

A vítima foi socorrida pelos bombeiros em casa com 90% do corpo queimado. O incêndio começou no sofá da sala e não se estendeu para outros cômodos da residência, graças a ação da corporação. Vanessa também precisou ser internada no Hran, pois sofreu queimaduras em 40% do corpo. Ela está presa preventivamente, em um leito da unidade, com escolta policial.

Segundo o delegado Alberto Rodrigues, chefe da 33ª DP (Santa Maria), com a morte de Tatiana, o caso evoluiu para feminicídio. “Quando ela deu os primeiros esclarecimentos, alegou que o incêndio foi acidental. Mas ela já havia mandado mensagens para a vítima, afirmando que iria matá-la queimada”, explicou o investigador.

Onde procurar ajuda
Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência — Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República

Telefone: 180 (disque-denúncia)

Centro de Atendimento à Mulher (Ceam)

» De segunda a sexta-feira, das 8h às 18h
» Locais: 102 Sul (Estação do Metrô), Ceilândia, Planaltina

Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam)

» Entrequadra 204/205 Sul – Asa Sul
(61) 3207-6172

Disque 100 — Ministério dos Direitos Humanos

Telefone: 100

Programa de Prevenção à Violência Doméstica (Provid) da Polícia Militar

Telefones: (61) 3910-1349 / (61) 3910-1350

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Gêmeas siamesas separadas no DF dão primeiros passos sozinhas

Mãe das meninas gravou momento familiar em que as duas mostram desenvoltura para percorrer pequenas distâncias sem perder o equilíbrio.

Cinco meses depois da cirurgia na qual foram separadas, as gêmeas siamesas brasilienses Mel e Lis estão dando os primeiros passos sozinhas. Na última sexta-feira (27/09/2019), a mãe das meninas, Camilla Vieira Neves, 25 anos, gravou vídeos caseiros em que elas mostram autonomia para percorrer pequenas distâncias sem precisar de auxílio para manter o equilíbrio.

Além dos familiares, a equipe médica que realizou a separação das gêmeas craniópagos comemorou o progresso no desenvolvimento das meninas. “Significa que a recuperação delas está indo muito bem e que devem cumprir nossa expectativa de que não apresentem sequelas”, informou o neurocirurgião Benício Oton de Lima, que comandou a equipe que fez a separação das gêmeas. O procedimento, de alta complexidade e inédito no país, foi realizado em 27 de abril de 2019 no Hospital da Criança de Brasília.

Mel e Lis, que nasceram unidas pela parte da frente da cabeça, completam um ano e quatro meses na terça-feira (01/10/2019). As duas continuam a cumprir uma rotina de cuidados no Hospital da Criança. As meninas frequentam a unidade médica duas vezes por semana para sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

O médico Benício Oton de Lima lembra que, antes da cirurgia, elas tentavam engatinhar e não conseguiam justamente por conta da condição em que nasceram. “O desenvolvimento motor delas está compatível com crianças da mesma faixa etária, isso nos deixa muito esperançosos”, afirmou

A nova etapa emocionou a mãe das meninas. “Eu sempre sonhei com o dia em que elas seriam crianças normais. Vê-las andando sozinhas foi muito especial”, afirmou Camilla.

Fonte: metropoles.com

Caderno Especial – EDUCAÇÃO

Escolha a Escola do seu filho

*Caderno Especial*: Escolas e professores têm se preparado para acompanhar as mudanças e preparar o profissional do futuro, em um mundo onde a tecnologia, aliada ao equilíbrio emocional, andam lado a lado

MATÉRIAS
Escolas e professores têm se preparado para acompanhar as mudanças e preparar o profissional do futuro, em um mundo onde a tecnologia, aliada ao equilíbrio emocional, andam lado a lado.

Matéria completa…

Fonte: http://bit.ly/2ntV2B0

Meninos….

MENINOS-SOLDADOS
A INFÂNCIA A SERVIÇO DO TRÁFICO DE DROGAS
Violência e metas a bater: menores no narcotráfico é uma das piores formas de trabalho infantil, segundo a OIT. Realidade que deve ser tratada como exploração, e não crime, de acordo com especialistas

A cicatriz no ombro diminuía à medida que Thiago Alves Moreno crescia. É a marca de uma guerra urbana: aos 13 anos, ele sofreu o primeiro ataque a facadas em briga por drogas. Com 12 anos, Alessandro da Silveira Maciel viu-se privado de liberdade. Antes de completar 18 anos, Jeconias Lopes já tinha 11 passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente.

Eles aceitaram contar suas histórias de exploração pelo tráfico de drogas vividas na infância e adolescência. Descrevem uma realidade que afeta milhares de crianças e jovens a serviço do narcotráfico no Brasil, inclusive na capital do país, no quintal dos Três Poderes da República.

Quem deveria manusear livros e brinquedos tem em punho armas de fogo e carrega na mochila porções de entorpecentes para negociar com consumidores. Trata-se de um mercado no qual é preciso bater metas, respeitar hierarquias, cumprir longas jornadas e correr iminente risco de morte.

Apesar de constar na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a atuação de crianças e adolescentes no tráfico de drogas não é considerada como trabalho infantil pela Justiça brasileira.

Assim, prevalece o aspecto de ato infracional análogo ao crime de tráfico de drogas, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o que leva à aplicação de medida socioeducativa ao menor de 18 anos, mas não à proteção de direitos fundamentais.

O Brasil é signatário da Convenção 182 da OIT e, por meio do Decreto nº 3.597/2000, enquadra o tráfico como trabalho infantil, determinando ações imediatas para sua eliminação. Estudos apontam ambiguidade jurídico-normativa em relação ao tema. Enquanto não se chega a um entendimento, a juventude em situação de vulnerabilidade social fica refém de um Estado que não cumpre as leis e, assim, condena o próprio futuro.

INFÂNCIA E JUVENTUDE EXPLORADAS
A EXPRESSÃO “AS PIORES FORMAS DE TRABALHO INFANTIL” ABRANGE:

TODAS AS FORMAS DE ESCRAVIDÃO OU PRÁTICAS ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO, TAIS COMO A VENDA E TRÁFICO DE CRIANÇAS, A SERVIDÃO POR DÍVIDAS E A CONDIÇÃO DE SERVO, E O TRABALHO FORÇADO OU OBRIGATÓRIO, INCLUSIVE O RECRUTAMENTO FORÇADO OU OBRIGATÓRIO DE CRIANÇAS PARA SEREM UTILIZADAS EM CONFLITOS ARMADOS.

⇒ A UTILIZAÇÃO, O RECRUTAMENTO OU A OFERTA DE CRIANÇAS PARA A PROSTITUIÇÃO, A PRODUÇÃO DE PORNOGRAFIA OU ATUAÇÕES PORNOGRÁFICAS.

⇒ A UTILIZAÇÃO, O RECRUTAMENTO OU A OFERTA DE CRIANÇAS PARA A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES ILÍCITAS, EM PARTICULAR A PRODUÇÃO E O TRÁFICO DE ENTORPECENTES, TAIS COM DEFINIDOS NOS TRATADOS INTERNACIONAIS PERTINENTES.

⇒ O TRABALHO QUE, POR SUA NATUREZA OU PELAS CONDIÇÕES EM QUE É REALIZADO, É SUSCETÍVEL DE PREJUDICAR A SAÚDE, A SEGURANÇA OU A MORAL DAS CRIANÇAS.

Fonte:
OIT

“A GENTE CHAMA O TRAFICANTE DE PAI”
Thiago Alves Moreno, 26 anos

“Desde os 13 anos, eu moro sozinho. Comecei a traficar com 12, na Favelinha, uma área do Recanto das Emas. Só entende isso quem sabe da realidade. Não tinha cama na minha casa, era um colchão no chão. Quando meu pai saía pra trabalhar, tinha que pular por cima da gente. E ele dizia: ‘Esses vagabundos vão ficar dormindo?’. Isso a gente era criança. Fiz até a sétima série, porque meu foco era ganhar dinheiro.

Uma criança que nem eu já cresce na ira. Meu pai era alcoólatra, vendeu a nossa casa e gastou tudo com bebida. Ele nos xingava e nos batia. Não tinha teto, não tinha comida, a gente vivia no esgoto a céu aberto. Como que eu ia abrir a porta para viver fora da guerra? Todo dia tinha três, quatro, mortos na rua. Precisava pular o cadáver para ir à escola. Nunca sonhei com nada, nunca me imaginei fora daquilo.

Com 14 anos, eu vendia 2 kg de maconha em uma semana. Não tinha nem guarda-roupa, ficava tudo na mochila. Eu achava que aquilo era um ganha-pão. Comecei de aviãozinho, ia buscar lanche para o traficante. Depois fui ser vapor, comecei a vender. Se agrada ao patrão, você vai crescendo até ser o braço direito dele.

Quando eu tinha 13 anos, tentaram arrancar meu braço com um facão numa briga por ponto de venda de droga. Levei 52 pontos. A cicatriz foi diminuindo enquanto eu crescia, mas ainda está aqui. Tenho marca de tiro e de outra facada também. Tudo isso antes dos 15 anos. É um milagre eu estar vivo.

A gente chama o traficante, o chefe, de pai. Pega uma arma e diz: ‘Ó como eu tô bonito, pai’. Minha primeira medida socioeducativa foi com 14 anos. Ali você tem que decidir se é 100% do crime ou 100% trabalhador. Na primeira opção, você esquece que tem família e vai viver para o tráfico. Fui até o Paraguai buscar droga. Eu tinha a chance de ganhar em um dia três vezes o que receberia por um mês num serviço comum. Só que nessa o crime leva o que você tem de mais precioso, a alma.

Tem um ditado que diz: ‘O que põe a droga na favela não morre por ela’. Os caras vão ficando ricos e saem da favela. Até que ficam só os ‘de menor’ na linha de frente. Quem está levando tiro é o soldadinho. Eles vão criando soldados e ligeiramente se desligam dali. O peso fica nas costas da criança e do adolescente, que são o ponto de equilíbrio da bocada.

Quando eu tinha 18 anos, o Yago, meu filho, nasceu. Aí pensei: ‘Não vou deixá-lo viver com um pai ausente’. Tenho três filhos, já catei lixo, sou carpinteiro, pedreiro. Mas não é fácil, agora mesmo estou desempregado. Não falta convite para o mal. Escrevi na parede do quarto: ‘A carne é fraca quando a conduta não é forte’. Se não me conhece, não me odeie. Estou tentando escrever uma história diferente.”

“COM 12 ANOS, EU JÁ FAZIA O CORRE. PERDI A INFÂNCIA ATRÁS DAS GRADES”
Alessandro da Silveira Maciel, 20 anos

“Cresci na Quadra 2 de Sobradinho, ao lado da [Vila] Dnocs. Minha mãe é secretária, meu pai, eletricista. Tenho quatro irmãos, todo mundo sempre trabalhou. Na escola, conheci minha primeira droga, a maconha. Eu olhava as pessoas que traficavam no bairro e pensava: ‘Como elas têm tanto dinheiro?’. Resultado: aos 12 anos, tive minha primeira passagem. Já pensou como é para uma criança ir para a cadeia? O Caje [extinto Centro de Atendimento Juvenil Especializado] era uma cadeia, com outro nome, mas era.

Nesse tempo, eu parei de brincar. Antes soltava pipa na rua, depois passei a manusear armas, como todo traficante. Com 14 anos, comprei a minha e até os 17 tive cinco passagens por porte ilegal [de arma de fogo].

Comecei vendendo 5 kg de crack. Ia dividindo em doses. Depois, eram 10kg. Uma dola é tipo 1 grama, custava uns R$ 10. Eram 20 dolas pro traficante e 10 para mim. Fiquei oito anos nessa. A gente vai crescendo, vai batendo meta. É o que tem por perto, um círculo vicioso. Pegava a droga na boca na segunda e tinha que vender até o sábado. Dava para tirar R$ 2,5 mil em uma noite sem fazer nada.

Quem financia o tráfico é a burguesia, que não tem vergonha de comprar droga de criança. O tráfico está em todos os lugares: na porta do bar, da escola, do supermercado, na cara do Congresso Nacional.

No fim, eu tinha 23 passagens pela polícia. Cumpri a medida [socioeducativa] mais longa dos 16 aos 20 anos. Na primeira, eu estava na 5ª série. Quando saí, já estava no 1º ano do ensino médio. Perdi a infância atrás das grades. Uma coisa vai puxando a outra. A maioria dos meus amigos também tinham 12 ou 13 anos quando começou nisso e hoje mais de 15 morreram. A disputa por ponto onde vender gera muita morte, surras. A expectativa de vida não chega a 18 anos. Quem sobreviveu é porque está na igreja.

O fato de o meu pai ter morrido me influenciou muito também. Com 12 anos, eu já fazia o corre. Na primeira vez que rodei, dois policiais descaracterizados me pegaram vendendo. Prisão era só um lugar onde eu conhecia gente e fazia contato. Saía de lá com um monte de esquema, um tempo totalmente perdido.

Podia ter saído da internação com um curso de cozinheiro, de padeiro, mas não tinha nada disso. Era só um lugar para apanhar e ser chamado de bicho. Os educadores lá dentro diziam que a gente não tinha jeito. É um ensaio para a cadeia, porque o futuro da criança que trafica é virar adulta e ir para a cadeia, se sobreviver.

Tem quatro meses que saí. Fiz novas amizades, mudei de bairro, conheci os amigos do Clube da Leitura.

Comecei a entender de amor próprio, penso muito no tempo que perdi. Terminei o ensino médio e quero entrar em um cursinho, fazer faculdade. Quero ser a prova de que as pessoas mudam.”

MUITO ANTES DE UM CRIME, PARA CRIANÇAS O TRÁFICO É UMA VIOLAÇÃO DE DIREITOS
Jeconias Lopes, 27 anos

Quem vê Jeconias Lopes de terno e gravata, falando articuladamente sobre maioridade penal — ele é contra a redução —, educação, literatura, sociologia, religião e desigualdade social não imagina o passado dele.

Aos 13 anos, o então adolescente cumpriu sua primeira medida socioeducativa, no antigo Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). Antes dos 18, já tinha 11 passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente. Ele é de família pobre, cresceu no bairro Areal, em Taguatinga (DF), e frequentou escolas públicas. “A gente ia ao colégio procurar educação e encontrava droga na porta. A rua não tinha esgoto, asfalto, nada do básico”, lembra.

Nesse contexto social e sem uma família estruturada, Jeconias logo foi recrutado pelo tráfico. Como já sabia dirigir muito antes da maioridade, tornou-se motorista do grupo. Até que acumulou dinheiro suficiente para comprar a própria droga e revendê-la. “Na escola, você é tratado como um moleque levado. No tráfico, é sujeito homem com 12 anos. A educação tem que encontrar o caminho para concorrer com isso”, afirma.

Ele perdeu as contas de quantas vezes esteve em unidades de internação — acha que foram 26, pelo menos. Ao sair vivo do sistema socioeducativo, o adolescente é aclamado e ganha o respeito de seus pares na comunidade. “O jovem chama o tráfico de trampo, de corre, é um trabalho e também uma violação de direitos”, diz.

O ponto de virada para Jeconias foi o acesso à educação e o apoio da mãe, uma cozinheira que jamais se envolveu com atos ilícitos. “Não sei como seria se ela tivesse desistido de mim. Quem não acredita na mudança nega a própria existência humana. A natureza muda o tempo todo, os planos, por que não as pessoas?”, explica.

Ao deixar o sistema, o rapaz encontrou, por meio de contatos da mãe, um projeto social da Igreja Adventista no qual jovens comercializavam livros para custear os estudos. Também vendeu dindim na rua para juntar dinheiro e estudar.

Por intermédio desse programa, Jeconias fez teologia na Universidad Adventista del Plata, na Argentina, onde formou-se em 2017. Lá, ele conheceu o professor romeno Laurentiu Ionesco, responsável por alimentar no jovem o amor pela leitura. O educador o apresentou a Victor Hugo, George Orwell e Fiódor Dostoiévski, entre dezenas de outros grandes autores.

Foi a primeira vez que Jeconias teve contato com obras clássicas. Encantou-se por Jean Valjean, o protagonista de Os Miseráveis, do escritor Victor Hugo. Na trama, o personagem é preso por roubar pão para alimentar sua família. Com Dostoiévski, em Crime e Castigo, conheceu o conceito de ter “um caráter todo feito de imprevistos”.

Ao pensar sobre desigualdade social, Jeconias viu-se como protagonista da própria história e decidiu escrever um final diferente. Quando retornou ao Brasil, fundou um clube de leitura com ex-detentos, que passaram a dar palestras em presídios e unidades de internação de menores.

Jeconias também tornou-se embaixador da Juventude da Organização das Nações Unidas (ONU). Para tanto, inscreveu seus projetos sociais em um concurso da entidade, no qual a primeira etapa era análise de currículo. A segunda fase consistia em enviar um vídeo explicando o porquê de ser merecedor da vaga. A peneira reduziu o número de concorrentes para 50. O ex-interno do Caje ficou entre os 20 melhores colocados e conquistou o título.

Atualmente, ele auxilia 150 famílias em Samambaia e 138 crianças em Planaltina (ambas cidades da periferia do Distrito Federal), por meio da Adra Brasil. A entidade é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) de objetivos assistenciais, beneficentes e filantrópicos da qual Jeconias é diretor-geral. Com frequência, ressoa em sua mente um trecho de Crime e Castigo: “Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes os hábitos”.

CONHEÇA O PROJETO DE LITERATURA QUE UNIU AS VIDAS DE JECONIAS, ALESSANDRO E THIAGO:

Ex-detentos criam clube do livro e descobrem o poder da literatura

PACTO PARA SALVAR A INFÂNCIA
Para garantir o cumprimento da lei, um grupo formado por defensores da infância e da juventude elaborou recentemente relatório com proposições voltadas ao combate do aliciamento de crianças e adolescentes pelo narcotráfico. As medidas tratam essa realidade como trabalho infantil, e não pelo viés criminal. A iniciativa reuniu representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT), da OIT e do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), além de acadêmicos e membros de organizações não governamentais (ONGs).

“Além da responsabilização desse jovem, é preciso garantir o seu retorno à escola, oferecer profissionalização, assistência social, condições para que se desenvolva plenamente. A punição sem o reconhecimento da violação de direitos não é transformadora”, explica a socióloga Isa Oliveira, secretária-executiva do FNPETI.

O objetivo dos encontros mantidos pelo grupo era chegar a um consenso com argumentos qualificados para reconhecer a atuação desses jovens no tráfico como trabalho infantil. Foram ouvidos inclusive gestores do poder público e responsáveis pela aplicação das medidas socioeducativas. Reforçou-se a conclusão de que o tráfico de drogas é uma cadeia de comercialização, uma rede de trabalho estruturada em etapas produtivas.

Do debate saíram reflexões que foram enviadas aos principais órgãos públicos, como o Ministério do Desenvolvimento Social, e a instâncias da Justiça relacionadas à infância e à juventude.

“A intenção é que exista uma articulação de políticas e serviços para garantir a reinserção desse adolescente na sociedade”, afirma Isa. “É preciso sensibilizar a Justiça para haver o entendimento de que esse jovem é uma responsabilidade de toda a sociedade”, reforça.

O relatório sugere ações de fortalecimento de escolas e comunidades, como projetos artísticos ou esportivos, e a criação de locais de lazer. “As praças estão tomadas pelo tráfico. É preciso reaver esses espaços, oferecer encantamento ao jovem. A gente não pode continuar perdendo as nossas crianças para violência”, conclui a socióloga.

O ORGANOGRAMA DO TRÁFICO
O RECOLHE É O GERENTE (RECOLHE O DINHEIRO DE TODAS AS BOCAS DO MESMO DONO) E FAZ O “FECHA” DA SEMANA (CONTABILIDADE). RECEBE R$ 2 MIL POR SEMANA (*).

O VENDEDOR GANHA 10% OU 15% DE COMISSÃO SOBRE O VALOR VENDIDO NO DIA. PODE FLEXIBILIZAR O TRABALHO E CHAMAR OUTRA PESSOA PARA ATUAR JUNTO COM ELE.

O CAMPANA “GUARDA A LIBERDADE” DO VENDEDOR E O FUNCIONAMENTO DA “BIQUEIRA”. GANHA ENTRE R$ 50 E R$ 60 POR 12 HORAS DE TRABALHO (*).

O ABASTECE PODE TRABALHAR EM APENAS UMA BIQUEIRA OU EM VÁRIAS. CUIDA DO LOCAL ONDE A DROGA FICA GUARDADA OU PODE TRANSPORTÁ-LA. GANHA ENTRE R$ 600 E R$ 1 MIL POR SEMANA, DEPENDENDO DO MOVIMENTO

QUANDO O TRÁFICO OFERECE UM LUGAR NO MUNDO
A exploração de crianças e adolescentes no tráfico de drogas não segue a mesma dinâmica em todos os estados brasileiros, mas, ainda assim, o perfil das vítimas se repete Brasil afora: jovens negros e pobres.

A pesquisa “Tráfico de drogas entre as piores formas de trabalho infantil: mercados, famílias e rede de proteção social”, lançada ano passado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo, ajuda a compreender a realidade de jovens explorados pelo tráfico na capital paulista.

Dos 9.127 internos da Fundação Casa, 40% respondem por tráfico de drogas. Por meio de geoprocessamento, a pesquisa criou mapas que mostram o local de atuação e de moradia de parte desses adolescentes.

“A maioria é negra e pobre. Além disso, vive muito perto de onde trabalha, o que caracteriza um trabalho quase doméstico”, relata a cientista social Ana Paula Galdeano, que coordenou o estudo ao lado do pesquisador Ronaldo Almeida.

De 14 adolescentes diretamente entrevistados (pais e agentes socioeducativos também foram ouvidos), 11 têm familiares presos. Entre eles, seis tiveram parentes assassinados. O estudo conclui que é preciso oferecer medidas protetivas a esses jovens, o que envolve acompanhamento escolar e assistência social.

“No debate público, a categoria ato infracional análoga ao crime de tráfico é mais enfatizada. A perspectiva do trabalho infantil não é considerada. O resultado são as facções criminosas incorporando esses adolescentes como mão de obra. O crime dá um lugar no mundo para eles”, ressalta a cientista social.

COTIDIANO DE TRABALHO
FALTAS E “RAMELADAS” SÃO PUNIDAS COM ADVERTÊNCIA, SUSPENSÃO DO TURNO OU PENALIDADES MAIS SEVERAS E PODEM CAUSAR A PERDA DO TRABALHO.

ENVOLVE SITUAÇÕES MENTALMENTE, FISICAMENTE, SOCIALMENTE E MORALMENTE PERIGOSAS E PREJUDICIAIS.

TRABALHO EXAUSTIVO, PROLONGADO E NOTURNO.

INCAPACIDADE DE FREQUENTAR A ESCOLA.

CONTATO COM SUBSTÂNCIAS QUE OFERECEM RISCO À SAÚDE.

ADOLESCENTES VIVEM ONDE TRABALHAM. AS FRONTEIRAS ENTRE A VIDA PESSOAL E O TRABALHO SÃO BORRADAS. OS JOVENS FICAM MAIS EXPOSTOS A FORMAS DE ASSÉDIO E DE COERÇÃO POR PARTE DE SEUS SUPERIORES.

O VENDEDOR SUBORNA A POLÍCIA E É OBJETO DE “RESGATE” PARA “ACERTOS” COM O DONO DA BIQUEIRA.

O ENFOQUE DA REPRESSÃO ESTÁ JUSTAMENTE NO PEQUENO OPERADOR, MAIS MARGINALIZADO E VULNERÁVEL.

RIO DE JANEIRO, FÁBRICA DE MENINOS-SOLDADOS
O Observatório das Favelas monitora a presença de crianças e adolescentes no tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O percentual de pessoas com idade entre 10 e 12 anos que entram para essa atividade ilegal na capital fluminense passou de 6,5% em 2006 para 13% em 2017, segundo o estudo “Novas configurações das redes criminosas após a implantação das UPPs”.

Foram 261 entrevistados no Departamento Geral de Ações Socioducativas (Degase) e em comunidades do Rio. A maioria tem entre 16 e 24 anos (62,8%); 96,2% são do sexo masculino; e 72% se declararam pretos ou pardos.

“Grande parte deles é proveniente de famílias numerosas, chefiadas por mulheres com baixo nível de renda. Esses elementos indicam que o problema está associado a desigualdades socioeconômicas, raciais, etárias e de gênero”, relata Raquel Willadino, diretora do Observatório das Favelas.

A pesquisa traz análise sobre o perfil e as práticas de jovens inseridos na rede do tráfico de drogas no varejo em favelas do Rio de Janeiro. Também traduz as dinâmicas que afetam o campo da saúde pública.

O estudo pretende oferecer subsídios para a construção de políticas e ações públicas que visem a superação da lógica da “guerra às drogas”. “Consideramos que uma maior compreensão sobre o perfil e as práticas desses jovens é fundamental para romper com estigmas e impulsionar a criação de alternativas”, afirma Raquel Willadino.

POR QUE ENTREI PARA O TRÁFICO
AJUDAR A FAMÍLIA/GANHAR MUITO DINHEIRO – 62,1%
LIGAÇÃO COM AMIGOS – 47,5%
ADRENALINA – 15,3%
DIFICULDADE EM CONSEGUIR QUALQUER OUTRO EMPREGO – 14,6%
DIFICULDADE EM CONSEGUIR OUTRO EMPREGO COM A MESMA RENDA – 9,2%
DIFICULDADE EM ESTUDAR – 6,5%
VIOLÊNCIA FAMILIAR – 3,8%
SENSAÇÃO DE PODER – 3,8%
VONTADE DE USAR UMA ARMA – 3,4%
FACILIDADE PARA CONSUMIR DROGAS – 2,7%
STATUS – 2,7%
OUTROS – 11,9%
Fonte: estudo “Novas configurações das redes criminosas após a implantação das UPPs”/Observatório das Favelas

Quanto à trajetória escolar, 78,2% dos jovens entrevistados tinham abandonado a escola. Os principais motivos apresentados para a evasão foram razões de natureza econômica, falta de atrativos do colégio e, em alguns casos, incompatibilidade com a atividade desenvolvida no tráfico de drogas.

É IMPORTANTE DESTACAR QUE NA MAIORIA DOS CASOS A EVASÃO ESCOLAR OCORREU DURANTE A ADOLESCÊNCIA, MESMO PERÍODO EM QUE PREDOMINA O INGRESSO NO TRÁFICO. ESSA RELAÇÃO É UM ELEMENTO IMPORTANTE PARA O DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO.

Raquel Willadino, diretora do Observatório das Favelas

Para a especialista, vale ressaltar que 66,3% dos entrevistados tiveram experiências profissionais anteriores ao tráfico de drogas. Porém, os tipos de trabalho disponíveis aos jovens ouvidos, em geral, são muito ruins, com vínculos frágeis e baixos rendimentos.

“A falta de atratividade da escola, a precariedade das condições de trabalho às quais eles tiveram acesso e a perspectiva de um rendimento mais alto na rede ilícita são fatores que favorecem o tráfico de drogas ser percebido como uma atividade atrativa”, esclarece.

Em relação aos fatores que podem impulsionar a saída do tráfico, os jovens destacam os vínculos afetivos e a possibilidade de acesso a um trabalho digno e rentável.

“Um dado muito relevante é que 40,2% dos entrevistados já se afastaram do tráfico em algum momento de modo voluntário. Esse resultado coloca em evidência que são muitos os jovens que querem construir outras trajetórias”, observa Raquel Willadino. “Nesse sentido, é fundamental investir na formulação de políticas públicas que contribuam para a sustentabilidade desse movimento de saída”, conclui a diretora do Observatório das Favelas.

38,7%
DOS ENTREVISTADOS AFIRMARAM TER POUCA OU NENHUMA SATISFAÇÃO COM A VIDA QUE LEVAM NO TRÁFICO

O RISCO DE MORTE É
APONTADO POR
82,8%
DOS JOVENS COMO O PIOR
ASPECTO DA VIDA NO TRÁFICO

PENSANDO EM SOLUÇÕES
O ESTUDO DO OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS APRESENTA PROPOSIÇÕES QUE VISAM CONTRIBUIR PARA A CRIAÇÃO DE ALTERNATIVAS COMO:

FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS PARA A PREVENÇÃO AO INGRESSO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA REDE ILÍCITA E PARA A CRIAÇÃO DE ALTERNATIVAS DESTINADAS AOS QUE NELA ATUAM E DESEJAM SAIR;
INVESTIMENTO EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE PREVENÇÃO SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA;
PRIORIZAÇÃO DAS DIMENSÕES RACIAIS, ETÁRIAS, DE GÊNERO E TERRITORIAIS NAS POLÍTICAS PREVENTIVAS, POTENCIALIZANDO AÇÕES VOLTADAS À VALORIZAÇÃO DA VIDA DA JUVENTUDE NEGRA MORADORA DE FAVELAS E PERIFERIAS;
REALIZAÇÃO DE BUSCA ATIVA PARA A INSERÇÃO NO SISTEMA EDUCATIVO E DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS QUE FAVOREÇAM A MANUTENÇÃO DO VÍNCULO COM O CONTEXTO ESCOLAR;
FOMENTO DE OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM E POLÍTICAS EFETIVAS DE GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA PARA OS JOVENS E SEUS FAMILIARES;
CONSTRUÇÃO DE PROGRAMAS DE FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL VOLTADOS ESPECIFICAMENTE PARA JOVENS ENVOLVIDOS NA REDE ILÍCITA QUE DESEJAM SAIR, RESPEITANDO SUAS DEMANDAS, ANSEIOS PROFISSIONAIS E PERFIS SOCIOECONÔMICOS;
FORTALECIMENTO DE INICIATIVAS VOLTADAS PARA JOVENS EGRESSOS DO SISTEMA PENITENCIÁRIO E ADOLESCENTES SAÍDOS DO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO;
DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS QUE CONTRIBUAM PARA ROMPER COM A ESTIGMATIZAÇÃO DESSES JOVENS E QUE POTENCIALIZEM A CONSTRUÇÃO DE ALTERNATIVAS À REDE ILÍCITA;
DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS DE MEDIAÇÃO DE CONFLITOS;
FORTALECIMENTO DE MECANISMOS E PROGRAMAS DE PROTEÇÃO A PESSOAS AMEAÇADAS DE MORTE;
CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA QUE TENHAM A PROTEÇÃO DA VIDA COMO PREMISSA FUNDAMENTAL E QUE POSSIBILITEM ROMPER COM LÓGICAS QUE PRIORIZAM O CONFRONTO E A MILITARIZAÇÃO PROGRESSIVA.

Fonte: http://bit.ly/2m4kGvX

DIRETORA-EXECUTIVA
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EDITORA-EXECUTIVA
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EDITORA-CHEFE
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COORDENAÇÃO
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ILUSTRAÇÃO
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TECNOLOGIA
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Saulo Marques
André Marques

Convite

Olá amigos:

Neste mês de “PREVENÇÃO DO SUICÍDIO”, convidamos você e sua família, para compartilhar conosco de um momento especial sobre a “PREVENÇÃO DO SUICÍDIO E O LUTO DOS SOBREVIVENTES”.

*DIA:* 18/09, 4a feira.

*Local:* Paróquia São João Paulo lI, em Águas Claras.

*Horário* 20h às 21:30h,

COMm a especialista no assunto:

*Psicóloga Tânia Borges*

Contato: (61) 9.9213.1031