Fábio Assunção: Memes e máscaras revelam visão equivocada sobre dependência química

Especialistas afirmam que sociedade não enxerga a dependência química como doença, e sim como falha moral

Meme. Máscaras do ator Fábio Assunção são vendidas na Saara; dependência química dele virou meme na internet e tema de música; ator foi à Justiça

Ele virou disputada máscara de carnaval, foi tema de música de chacota e protagonista de uma série de memes. E a festa de Momo tem potencial para aumentar ainda mais a quantidade de zombarias dirigidas ao ator Fábio Assunção, da TV Globo, constantes ao longo do verão por conta de sua dependência química. Mas o que leva tantas pessoas a verem graça em algo tão grave? Especialistas ouvidos pelo GLOBO são taxativos: a sociedade não enxerga o alcoolismo e o vício em drogas como doença, e sim como falha moral. As piadas com o tema são resultado desse estigma e, ao mesmo tempo, uma forma de perpetuá-lo.

O próprio ator já se manifestou sobre isso, quando procurou Gabriel Bartz, intérprete da música que leva seu nome, para fazer um acordo: agora, parte do lucro que ele tiver com a canção será revertido em doações para uma associação para dependentes químicos.

— Não deveria ser piada, pelo menos — diz a psicóloga Sabrina Presman, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas.

Para ela, a sociedade brasileira é marcada pela “psicofobia”: o preconceito em relação a diagnósticos psiquiátricos.

— As pessoas veem com maus olhos qualquer transtorno psiquiátrico. Poucas vezes têm empatia suficiente para entender que, por trás do alcoolismo existe alguém doente. O julgamento moral é grande.

A dependência química é oficialmente considerada transtorno mental e doença crônica. E catalogada como problema social pela Organização Mundial de Saúde (OMS ). Quem temo distúrbio metaboliza deforma diferente a substância da qualé dependente—oque torna extremamente difícil conter o vício e afeta de modo negativo os aspectos psíquico, emocional, físico e social da vida.

Sabrina Presman compara ao câncer:

— As pessoas não fazem chacota de pacientes que estão passando por quimioterapia. Isso diz muito sobre o que elas entendem sobre o que é, de fato, uma doença.

‘PIADAS DE BÊBADO’

Mas qual é o limite entre a falta de empatia e a brincadeira? O que não falta na cultura popular do país são piadas de bêbado, por exemplo. Elas deveriam ser abolidas?

— Não dá para dizer, claro, que agora está proibido fazer piada com esse tema. Mas é preciso moderar, ainda mais quando não se trata de um “bêbado genérico”, e sim de uma pessoa que existe e que, com certeza, terá seu tratamento prejudicado por isso —afirma Sabrina.

Uma “evolução cultural” urge, na avaliação da psicóloga Ana Café, especializada na prevenção e tratamento da dependência química:

— O ideal seria que a gente pudesse evoluir culturalmente e entender a dependência como uma doença séria. Por conta das piadas, o principal sentimento do paciente e da própria família, quando a doença começa a se manifestar, é a vergonha. Isso faz com que o dependente acabe protelando a busca do tratamento. Isso é muito grave. Ninguém deixa de buscar tratamento para problema cardíaco, por exemplo —salienta a diretora do Núcleo Integrado.

A psicóloga destaca ainda que é possível se recuperar bem de um quadro de dependência, e que, em média, o período de internação dura três meses, e o de tratamento ambulatorial depois da internação leva um ano. Mas esse tempo pode variar, de acordo com a situação do paciente. E medicamentos costumam ser necessários para tratar a doença, além de participação em grupos terapêuticos.

—É preciso construir mecanismos saudáveis para evitar a primeira dose — afirma a especialista.

COMO LIDAR

O professor Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), classifica o uso das máscaras de carnaval com o rosto de Fábio Assunção como um problema que “indica um fenômeno de massa”.

Para ele, as pessoas têm dificuldade em lidar com a fragilidade humana e o uso da máscara seria uma forma de associar o problema ao outro, ou seja, de não expor a própria vulnerabilidade:

— Fazer piada com adição química é de extremo mau gosto. É surpreendente que as pessoas se dediquem a confeccionar máscaras como esta e que essa moda pegue, vire um sucesso.

Silveira destaca que mesmo alguns profissionais que tratam esses pacientes em clínicas especializadas e comunidades terapêuticas acabam por reforçar o preconceito:

— Existe um estigma relacionado à dependência química que é absolutamente lamentável. Infelizmente, as pessoas que tratam dependentes químicos muitas vezes não trabalham no sentido de acabar com esse estigma. A maioria dos modelos de grupo que conheço só reforçam o preconceito.

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Envelhecer sem emprego

Renda incerta. Sem emprego e sem os requisitos para se aposentar, Carlos dos Santos, de 61 anos, cata recicláveis. Mais de sete milhões de pessoas entre 50 e 64 anos não contribuem para o INSS

A reforma da Previdência, que começou a tramitar no Congresso com a proposta de idade mínima de 62 (mulher) e 65 anos (homem) para a aposentadoria e aumento de 15 para 20 anos no tempo mínimo de contribuição, vai obrigar o brasileiro aficar mais tempo no mercado de trabalho se for aprovada. Esse desafio será ainda maior para um segmento da população que não para de crescer: pessoas entre 50 e 64 anos que não trabalham e nem estão aposentadas. São os chamados “nemnem” maduros. Segundo um estudo do Instituto de PesquisaEconômica Apl ica da(Ipea ), esse contingente dobrou nas duas últimas décadas, chegando a 7,3 milhões de brasileiros em 2017, dado mais recente. Em comum, têm abaixa escolaridade, que dificulta o acesso ao emprego formal.

De acordo coma autora do estudo, a pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano, essa condição vem crescendo de for mamais expressiva entre os homens, embora eles sejam minoria no grupo. São 1,7 milhão de homens entre os

“nem-nem” maduros, alta de 282% desde 1999. Já o crescimento entre as mulheres é menos acelerado, com uma taxa de 75% na mesma comparação. Em 2017, elas eram 5,6 milhões “nem-nem” maduras.

TRABALHO SEM REGISTRO

Segundo a pesquisadora, os homens são mais vulneráveis à pobreza porque, geralmente, as mulheres sem trabalho e sem aposentadoria nessa faixa etária estão inseridas em arranjos familiares de apoio. Contam com a renda do marido ou têm maior assistência de filhos e outros parentes. Os homens sem trabalho e sem escolaridade nessa faixa etária são responsáveis pela renda da família ou vivem sozinhos.

José Santos Oliveira, de 59 anos, e Carlos dos Santos, 61, têm perfis típicos desse grupo. Moradores de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, ambos nasceram no interior da Bahia. Migraram já adultos em busca de trabalho, mas as dificuldades para conseguir emprego sempre os acompanharam por causa da pouca instrução.

Oliveira estudou até a sétima série do ensino fundamental.

Santos abandou a escola ainda mais cedo, mas pelo mesmo motivo: teve que começara trabalhara indana infância para ajudara família. No Rio, el estiveram ocupações como pedreiro, vigilante, porteiro e auxiliar de serviços gerais, masa maior parte delas sem carteira assinada. Assim, não têm tempo de contribuição suficiente para se aposentar.

Com o avançar da idade, os obstáculos só aumentaram. O peso da idade, problemas de saúde e o sumiço das vagas com acrise econômica iniciada em 2014 ti raramos dois de vez do mercado. Moram sozinhos, em barracos construídos por eles mesmos em uma comunidade de Santa Cruze praticamente não têm renda fixa. Oliveira faz bicos como ajudante de pedreiro, cada vez mais raros. Santos junta latas e outros materiais recicláveis pelas ruas para vender. Para comer, muitas vezes contam com doações de vizinhos.

—Se eu pudessem e aposentareganhara o menos um salário mínimo, poderia volt arpara a Bahia—sonha Oliveira, que deixou para trás mulher e filhos em Jacobina, onde nasceu, há duas décadas.

Santos, que tem problemas de memória e limitações motoras decorrentes de um acidente vascular cerebral, tem sonho mais modesto:

—Queria pelo menos ter dinheiro para comprar pés de galinha, que gosto de comer.

Ambos dizem desconhecer o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que tende a ser a saída para quem envelhece na pobreza como eles, sem emprego e sem contribuição mínima para se aposentar. Atualmente, idosos nessa situação em famílias de baixa renda têm direito a um salário mínimo (R$ 998) a partir dos 65 anos, um tipo de BPC.

A reforma prevê que o BPC seja antecipado para os 60 anos, o que poderia beneficiar gente como Oliveira e Santos com uma renda fixa mais cedo, mas com benefício menor: R$ 400. Pela proposta enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso, só quando o beneficiário completar 70 anos passará a receber o mínimo. É um dos pontos da reformaque mais têm recebido críticas. O secretário daPr evidência, Rogério Marinho, defende a mudança nas regras do BPC justamente para diferenciá-lo dos benefícios previdenciários, deixando claro para a sociedade o que é assistência (programas que não preveem contrapartida de contribuição por parte do beneficiário) e o que é Previdência (renda obtida na velhice graças a um período de contribuição durante a idade ativa ).

4,5 MILHÕES DE BENEFICIÁRIOS

Segundo o governo federal, o BPC tinha 4,5 milhões de beneficiários em 2017 (sendo dois milhões de idosos e 2,5 milhões de pessoas com deficiência ), oque representa um crescimento de 1.200% em relação aos atendi dosem 1996. No mesmo período, o custo anual dessas pensões passou de R$ 172 milhões para R$ 50 bilhões, refletindo o envelhecimento da população do país.

Especialistas alertam que o país precisa investirem políticas públicas como educação e qualificação profissional para promovera inserção social dos “nem-nem” maduros, sob pena de eles continuarem engrossando o número de dependentes do BPC.

—O BPC é mais comum entre analfabetos, sem instrução. Funciona como uma espécie de compensação pela deficiência do Estado para oferecer educação —diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Para Ana Amélia Camarano, do Ipea, além de capacitação, é preciso estimular empregadores a investir na melhoria das condições de trabalho, com saúde ocupacional, para incentivara contratação de maduros menos escolarizados:

— Para eles, hoje, não há alternativa. É o BPC ou a pobre zonas ruas.

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Casos de dengue aumentam mais de 220% em janeiro e fevereiro no DF

Os maiores aumentos foram registrados nas asas Norte e Sul, Cruzeiro, lagos Norte e Sul, Sudoeste e Varjão

O crescimento dos casos de dengue preocupa a saúde pública do Distrito Federal. Nesta quarta-feira (27/2), a Secretaria de Saúde divulgou boletim que mostra que a incidência provável da doença aumentou mais de 220% em apenas um ano. Até 16 de fevereiro deste ano, as unidades de saúde da capital registraram 1.142 casos, quando, em igual período de 2018, apenas 355 pacientes apresentaram sintomas da enfermidade.

O levantamento aponta que cidades da região central de Brasília, que quase não apresentavam casos da doença, passaram a ter maior incidência. No Cruzeiro, por exemplo, o número de casos subiu 700%. Até fevereiro de 2018, apenas uma pessoa foi diagnosticada com a doença, quando, no ano mesmo período deste, oito casos chegaram às unidades hospitalares. Na Asa Sul, os números também assustam: os casos cresceram 650%, passando de 2 para 15.

O boletim destaca que as regiões administrativas asas Norte e Sul, Cruzeiro, lagos Norte e Sul, Sudoeste e Varjão estão entre os locais com maior índice de crescimento da doença. Dentro do período de avaliação, os casos das cidades contabilizam aumento de 236,8%, passando de 19 para 69 registros.

A região leste das unidades de saúde, que comporta Itapoã, Paranoá e São Sebastião foram as regiões onde ocorreram mais casos da doença. As três cidades simbolizam 353 do total de casos, ou seja, 30,9% dos registros.

No total, a Secretaria de Saúde registrou 1.364 casos notificados de dengue. Desse número, 1.284 (94,1%) são moradores do Distrito Federal. Os casos registrados, considerados prováveis, têm um coeficiente de incidência de 36,82 por 100 mil habitantes. O boletim ainda destaca que a aceleração do número de casos “continua preocupante” e que, geralmente, esse aumento só é registrado no fim do verão ou início do outono – entre março e junho.

Mortes também crescem
Em 2019, três pessoas morreram vítimas de dengue no Distrito Federal. Uma delas era de fora da capital, mas foi atendida nos hospitais de Brasília. Em igual período do ano passado, nenhum óbito havia sido registrado por causa da doença.

O aumento no índice da doença e nas mortes acendeu o alerta na Secretaria de Saúde. De acordo com o boletim, as unidades devem reforçar e capacitar as equipes para que elas consigam fazer o reconhecimento da enfermidade para que os pacientes recebam a assistência necessária. “A organização específica do acolhimento para esse cenário pode evitar evoluções graves ou fatais”, frisa o texto.

Previna-se
Além da dengue, o Aedes aegypti pode transmitir zika e a febre chikungunya. Confira os sintomas:

Dengue: a pessoa que tenha viajado nos últimos 14 dias ou more em regiões onde esteja ocorrendo transmissão de dengue deve ficar atenta. Geralmente, os sintomas consistem em febre, entre dois e sete dias, junto a outros sintomas, como náuseas, vômitos, exantema, mialgias, artralgia e cefalia.

Chicungunya: os sintomas consistem em febre de início súbito e artralgia ou artrite intensa com início agudo, sem motivo aparente.

Zika: geralmente, pessoas com a doença apresentam manchas vermelhas pela pele junto a outros sintomas, como febre, olho vermelho sem secreção e prurido, poliartralgia (dores nas articulações) e edema.

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Cine Brasília estreia documentário canadense sobre a capital federal | O que fazer no Distrito Federal | G1

Exibição em sessão única ocorre nesta quinta-feira (28); entrada é gratuita. Assista ao trailer.

O Cine Brasília exibe, nesta quinta-feira (28), o documentário “Brasília: Vida depois do projeto”, do diretor canadense Bart Simpson. A exibição será em uma sessão única, às 20h, e a entrada é gratuita.

O longa-metragem aborda a relação que as pessoas que vivem na capital estabelecem com a cidade a partir da perspectiva de alguns moradores.

Entre eles, Sérgio, um urbanista dedicado, que defende o plano da cidade, mas sabe que precisa se adaptar. Helize, concurseira que visa o Senado Federal. E Willians, um vendedor de rua que tenta encontrar conexão com a cidade.

A estreia no Cine Brasília é, também, a primeira exibição do filme no mundo – uma homenagem à cidade que o inspirou. Após a sessão, quem estiver no local poderá conversar com o diretor e a equipe.

Programe-se
“Brasília: Life after design” (“Brasília: vida depois do projeto”)

  • Data: 28 de fevereiro
  • Local: Cine Brasília – 106/107 Sul
  • Hora: 19h (coquetel) e 20h (exibição)
    De graça

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Apontadas como ‘damas do tráfico’ são presas suspeitas de assumir negócio no lugar dos namorados, em Anápolis | Goiás | G1

Namorados das jovens de 18 e 19 anos já estavam presos pela venda de drogas, informou PM. G1 não conseguiu localizar defesas delas.

Duas jovens foram presas em flagrante no Setor Recanto do Sol, em Anápolis, nesta terça-feira (26), por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas. Apontadas pela Polícia Militar como “as damas do tráfico”, Jennifer Moreira Mesquita, de 19 anos, e Verônica Ribeiro Gomes, de 18 anos, namoram dois homens que já estavam presos pelo mesmo crime, de acordo com a PM.

Até a última atualização desta reportagem, o G1 não havia conseguido localizar as defesas das presas.

Segundo a PM, Jennifer e Verônica teriam dado continuidade à venda de entorpecentes após a prisão dos namorados. Na ação desta terça, foram apreendidos mais de 500 pontos de LSD, 300g de crack e R$ 1,6 mil em dinheiro, além de diversos cartões bancários, celulares e balança de precisão.

A polícia chegou até uma delas após receber um chamado sobre uma briga de vizinhos. Depois de se desentender com duas mulheres, Verônica teria ameaçado uma delas de morte, o que resultou na ligação ao 190.

No momento em que os militares foram ao endereço, perceberam a chegada de Jennifer na casa de Verônica em uma moto. Ao consultarem a placa, os policiais descobriram o suposto envolvimento de Jennifer com o tráfico de drogas. Segundo a PM, foi feita a abordagem e constatou-se que ela já possui antecedente criminal por tráfico.

Ainda de acordo com a Polícia Militar, Jennifer havia ido até o local para entregar alguns pontos de LSD e crack para Verônica, além de receber uma dívida. Dentro da casa, foram encontradas ainda mais porções de crack, balança de precisão, papelotes de maconha, papel de seda, papel filme, quatro celulares e diversos cartões bancários.

As duas foram encaminhadas à Delegacia Central de Anápolis e o caso está sendo investigado pela 5ª DP. Elas já foram levadas para a ala feminina do presídio da cidade, onde aguardam as audiências de custódia.

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Vanilma, a primeira mulher a sangrar pelas mãos do marido no DF em 2019

A vida e a morte da moradora do Gama se passaram em raio de 4,2 km no Setor Oeste

Na madrugada do primeiro sábado de 2019, Vanilma e Tiago estiveram juntos pela última vez. Dentro do Vectra branco da família, cumpriram o percurso de 3,2 km que separa a casa deles da emergência do Hospital Regional do Gama (HRG). No trajeto de oito minutos, duas despedidas: a da própria vida e a do homem com quem dividiu planos por 10 anos. No carro, Vanilma agonizava justamente ao lado de seu assassino, marido e pai de seu único filho.

Para evitar a prisão em flagrante, Tiago largou a mulher sozinha às 3h30 na emergência do HRG. Vanilma chegou consciente, mas sangrava muito. Tinha um talho profundo no lado esquerdo do peito. Não contou a ninguém quem a havia atacado. Estava preocupada com o filho, de 3 anos. Ele tinha ficado sozinho em casa. A mulher implorou ajuda aos policiais, para que fossem em socorro de Enzo.

Ao ser questionada pela polícia sobre os detalhes do crime, mentiu. Não quis denunciar o companheiro. Disse ter sido esfaqueada por um desconhecido. Antes mesmo de ter certeza de que o filho estava protegido, adormeceu. Primeiro pelo efeito dos sedativos. Horas depois, porque seu coração parou de bater. A fúria do marido perfurou o pulmão de Vanilma e, apesar de os médicos terem realizado duas cirurgias, foi impossível salvá-la.

Início

Um crime de feminicídio começa bem antes de o agressor aplicar o golpe fatal. O roteiro da tragédia se forma a partir de discussões, desentendimentos, mágoas, desrespeito e violências até o desfecho, quando ele faz sua vontade prevalecer por meio da força e aniquila a vítima.

É vago apontar quando uma história de amor se transforma em capítulos de uma narrativa violenta. No caso do relacionamento de Tiago Joaquim, 33 anos, e Vanilma Martins dos Santos, 30, foi em algum momento entre o fim de 2008, quando se conheceram, e a madrugada de 5 de janeiro de 2019, quando ele a matou. O enredo onde tudo se passou, entretanto, está restrito a um raio de apenas 4,2 km, entre a casa dos dois, no Setor Oeste do Gama, e o Nosso Bar, um galpão de piso de ardósia e paredes caiadas às margens da DF-180. Lá se conheceram.

Aos 20 anos, Vaninha, como sua família adotiva a tratava, era uma moça que chamava atenção pela beleza. Magra, tinha os cabelos escuros e compridos. Embora tímida, era vaidosa. Na época, fazia curso técnico de enfermagem em Taguatinga e, vez ou outra, ajudava a servir os clientes do Nosso Bar. Seus familiares mantinham o ponto comercial e moravam no mesmo endereço. Tiago, aos 23 anos, havia parado de estudar na 6ª série do ensino fundamental e frequentava o lugar para beber e jogar sinuca com amigos.

Onde morava e trabalhava Vanilma

Vanilma e Tiago começaram a namorar e, dois ou três meses depois, decidiram morar juntos, nos fundos da casa dos avós paternos dele. As melhores amigas de Vanilma à época eram a prima Polliane Martins de Oliveira, hoje com 25 anos, e a vizinha Sheila Ferreira da Silva, 29. As duas tinham namorados e, segundo elas, Vanilma também desejava encontrar um par e sonhava em formar uma família.

Tiago, no início, parecia perfeito, levava Vaninha para passear no Lago Corumbá, dava buquês de flores, era romântico. “Ela se encantou”, diz a prima e confidente Polliane. A paixão fulminante desagradou Dionice dos Santos, 49, a mãe de criação.

“Eu nunca gostei dele. A primeira impressão não foi boa”
Dionice dos Santos, mãe de criação de Vanilma

Dionice, que criava Vanilma desde os 4 anos, não sabe precisar o que a desagradou no genro. A irmã dela, Geralda Martins dos Santos, 43, lembra de uma briga violenta de Tiago com um rapaz no bar da família. “Ele quebrou uns tacos de sinuca, espancou o outro, que foi hospitalizado”, relata Geralda. A rixa foi puxada pelo adversário, ele alimentava um amor platônico por Vanilma.

Pouco tempo depois, Vaninha, já vivendo com Tiago, abandonou o curso técnico de enfermagem. As visitas dela à família de criação começaram a rarear, apenas três ou quatro vezes por ano, como se os 13 minutos de carro que separam o galpão de chão de ardósia do novo endereço fossem dias de distância. “Ele não gostava da presença dela aqui, dizia que bar não era ambiente para ela”, conta Dionice.

Um relacionamento abusivo se estabelece de maneira quase imperceptível, com um dos parceiros fazendo restrições à liberdade do outro. Geralmente, argumentando ciúmes ou proteção, o homem passa a controlar a vida da mulher, decidindo aonde ela pode ir, como precisa se vestir e com quem pode se relacionar. Para evitar brigas, a vítima cede. As restrições se intensificam e, quando ela percebe, perdeu autoestima, autonomia e individualidade.

Desde o casamento, Vanilma se afastou da família de criação e das amigas. Também não fez novos vínculos no bairro onde foi viver. As pessoas que a conheceram dizem que ela era quieta, discreta e não se queixava. No Setor Oeste, os vizinhos a consideram uma “mulher de dentro de casa”, que saía pouco, quase não conversava e não abria a intimidade.

As famílias dos dois nunca foram próximas. Uma das poucas ocasiões na qual estiveram juntas foi no aniversário de 15 anos de Alessandra, filha biológica de Dionice. A mãe de Tiago, Ilma de Souza, 51, trabalha com eventos e organizou a festa, realizada em julho de 2017 no galpão.

Em uma das fotos com a aniversariante (imagem acima), Vanilma está com o marido, que carrega o filho, Enzo, no braço. Ela usa um vestido curto e justo, com maquiagem no rosto. “Estava linda, radiante. Há tempos não se arrumava. Foi a última vez que a vi feliz”, relata Alessandra, a irmã de criação. Enzo está de terno alugado e Tiago aparece com um meio sorriso.

O desleixo de Vaninha depois do casamento era motivo de comentários daqueles que a viram crescer. “Ela, sempre vaidosa, começou a se vestir igual a uma velha”, relata Polliane. A mudança aconteceu ainda no início, quando Vaninha abandonou o figurino usual – shorts e blusinhas – para usar apenas “roupas de casa”. No entanto, ela própria nunca afirmou aos familiares que essa era uma imposição do marido.

Enzo, filho de Vanilma e Tiago, nasceu em agosto de 2015. Os dois tinham seis anos de convivência quando o menino chegou. Muito desejado pelo casal – Vanilma teve dificuldades para engravidar –, o garoto logo passou a ser o centro da vida dela.

A família de Vanilma afirma que Tiago não a deixava trabalhar. Mas, segundo a sogra, Ilma, isso nunca existiu. As condições financeiras do casal não eram estáveis, Tiago vivia de bicos como serralheiro ou pedreiro. Desde que Enzo nasceu, Vanilma cuidava exclusivamente do filho e da casa.

O lugar onde moravam é uma construção nos fundos do endereço dos avós paternos dele. A cozinha da residência principal fica virada para um dos quartos da casa do jovem casal. Na parede, há uma janela que era usada por Vanilma, vez ou outra, para pedir uma xícara de café ou um pouco de açúcar para a família do marido. “Ela era maravilhosa. A convivência deles era boa, se tratavam por ‘Amor’”, garante Maria de Fátima da Silva, 65, avó de Tiago.

“’Amor, pega minha toalha’ e ‘Amor, busca a minha sandália’ era o que a gente ouvia daqui”
Patrícia de Farias, tia de Tiago

Na madrugada violenta que teve como desfecho a morte de Vanilma, a família de Tiago afirma não ter escutado nenhum barulho vindo do terreno dos fundos. Uma intervenção poderia ter evitado o pior. “Fomos acordados no meio da noite pela polícia, perguntando se ele estava escondido aqui em casa”, afirma a avó Maria de Fátima.

No momento do crime, além do filho da vítima, Enzo, estava na casa de trás Paulo Henrique, 16, sobrinho de Tiago. Mas, de acordo com a polícia, o adolescente não teria escutado a discussão, pois jogava videogame em outro quarto, com fone de ouvido. “Meu tio me pediu ajuda para socorrê-la, disse que alguém veio da rua e a esfaqueou”, afirmou Paulo Henrique, na delegacia, quando foi ouvido. Por sorte, o filho do casal não presenciou a cena, estava dormindo.

Apesar da fuga de Tiago, não foi difícil para a polícia descobrir como o assassinato aconteceu. Ao chegar ao endereço indicado por Vanilma, os PMs encontraram a sala da casa ainda suja de sangue e informaram o fato à Polícia Civil, que foi até o local. Imediatamente, o marido passou a ser o principal suspeito do feminicídio e, em diligências, os agentes acharam a faca utilizada no crime em cima do telhado da casa dos dois.

 Brigas

Os órgãos de segurança pública enfrentam uma dificuldade crucial para evitar feminicídios: é praticamente impossível saber quando e onde ocorrerá a próxima tragédia domiciliar entre um casal que está vivendo às turras. A intimidade dos lares chega ao conhecimento do Estado apenas quando a vítima denuncia o agressor e ele está em cumprimento de medida protetiva com monitoramento constante.

Mas, independentemente de quem são os protagonistas, a trama que leva ao assassinato de uma mulher por seu companheiro segue uma história padrão, conhecida como ciclo da violência. Inicia com proibições feitas pelo agressor à vítima, passa para ataques pessoais, xingamentos, e culmina na violência física, com empurrões, chutes, socos e pontapés. O nível máximo se dá quando começam os espancamentos e as ameaças de morte.

As vítimas devem reconhecer e interromper o ciclo de violência já nas primeiras investidas, comunicando os fatos à polícia para que o agressor seja enquadrado na Lei Maria da Penha e devidamente responsabilizado. A partir daí, a situação mais segura depende de uma decisão delas: é preciso abandonar o relacionamento e evitar contato com o acusado. Mas, muitas vezes, elas não têm o apoio necessário para tomar tais atitudes. Ou não se sentem seguras.

No início de 2017, Vaninha chegou com Enzo e uma sacola de roupas à casa de Geralda, sua tia de criação, no Setor Leste do Gama. Pediu para passar um tempo porque estava se desentendendo com o marido. Segundo contou, Tiago a deixava com o filho para ir beber com os amigos. Vanilma ficou quatro dias lá, mas voltou a conviver com o companheiro quando ele foi buscá-la.

Após alguns meses, a situação se repetiu, só que, dessa vez, ela trouxe mais roupas e apareceu com uma marca roxa na perna. A tia desconfiou: “Ele está batendo em você?”. Vaninha negou, disse que tinha caído da cama. Uma semana depois, os pais dele foram buscar a nora e o neto.

De acordo com Geralda, em uma das vezes que Tiago visitou a mulher e o filho durante esses breves períodos de separação, ele se irritou porque Vanilma estava de batom. “Ele ficou bravo, achando que ela tinha saído para encontrar alguém”, conta. Vaninha havia apenas provado a maquiagem oferecida por um vendedor de cosméticos.

Em abril de 2017, Vaninha e Enzo foram ao Jardim Ingá visitar a amiga de infância Sheila, que havia acabado de dar à luz uma menina, porém já estava separada do pai da criança porque, durante a gravidez, descobriu uma traição. Vaninha, que tinha ido apenas para um encontro rápido, ficou dois dias e também revelou uma dor de amor. Disse que Tiago a traiu, mas, ainda assim, decidiu perdoá-lo. “Ela amava o Tiago, sempre amou. Ter uma família era o grande objetivo de vida dela”, afirma Sheila.

A última vez que Vaninha e o filho estiveram na casa de Dionice foi em 28 de outubro do ano passado, data do segundo turno das eleições. O marido da mãe de criação foi buscá-los no Setor Oeste antes do almoço. Os dois ficaram no Cantinho Mineiro – novo bar da família, localizado na DF-290 – até por volta das 21h, quando Tiago retornou de uma pescaria e passou para pegá-los.

Na ocasião, a irmã, Alessandra, reparou em duas manchas roxas feias no lado direito do corpo de Vaninha: uma na parte interna do braço e outra na coxa.

“Perguntei o que era, ela disse que tinha caído brincando com o filho”
Alessandra, irmã de criação

Durante aquela tarde, Enzo pediu para a tia um dos pacotes de biscoitos que estavam à venda no balcão do bar. Quando ela entregou, o menino disse: “Tia, fui no mercado comprar um salgadinho desses com a mamãe. Quando voltei, o papai bateu nela”. Alessandra não duvidou da criança e insistiu com a irmã de criação para saber os detalhes, mais uma vez, Vaninha desconversou.

A relação abusiva que resultou na morte de Vanilma se desenrolou sem alardes. Ela nunca detalhou à Dionice e às amigas o que sofria no casamento, tampouco falou sobre os episódios de violência doméstica com a família dele e, muito menos, comunicou à polícia sobre esses fatos.

Final

Na sexta-feira (4/1), Tiago saiu por volta das 15h30, para ir ao Lago Corumbá com dois amigos. Deixou a mulher, o filho e o sobrinho Paulo Henrique em casa. Retornou 10 horas depois, na madrugada de sábado (5), embriagado. Encontrou Vanilma ainda acordada, deitada na cama do casal, ao lado de Enzo.

Por volta de 1h40, os dois começaram a discutir. Vanilma reclamava do horário e do estado no qual o marido havia chegado. Brigas semelhantes, por esses mesmos motivos, já tinham acontecido, mas, dessa vez, o desfecho seria o pior possível. Tiago pegou uma faca de cortar carne que estava em cima de um balcão entre a sala e a cozinha e deu um golpe na companheira.

Segundo contou à polícia quando se entregou, ele teria apenas simulado que arremessaria a faca na direção da mulher, mas a lâmina teria “escapulido” da bainha e atingido o corpo de Vanilma, do lado esquerdo, na altura do peito. Mesmo antes de o laudo ficar pronto, o delegado Vander Braga, da 20ª DP (Gama), considerou a história inverossímil. “É uma versão que ele está criando para si mesmo. Uma faca daquele modelo não tem bainha, não escapole nem mata sozinha uma pessoa”, afirmou. A experiência deu razão ao policial: o laudo do Instituto Médico Legal (IML) indica que o corte não é compatível com um arremesso, e sim como uma punhalada.

O corpo de Vanilma foi enterrado na segunda-feira (7) em Riachinho (MG), terra natal dela, a 340 km do DF. Filha de um lar que nunca existiu – nasceu de um relacionamento eventual da mãe biológica e conheceu o pai já adulta –, Vaninha foi assassinada justamente pelo homem no qual depositou o desejo de construir uma família.

Tiago foi preso no domingo, em 6 de janeiro, e continua na cadeia. Apesar de ter escapado do flagrante, a Polícia Civil conseguiu um mandado de prisão preventiva contra ele ao convencer a Justiça que o feminicida planejava fugir do DF. O filho, Enzo, está com os avós paternos desde a madrugada do crime. Da mãe, o menino guardará apenas fragmentos de lembranças construídos pelos parentes do assassino.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

DIRETORA-EXECUTIVA
Lilian Tahan
EDITORA-EXECUTIVA
Priscilla Borges
EDITORA-CHEFE
Maria Eugênia Moreira
COORDENAÇÃO
Olívia Meireles
REPORTAGEM
Érica Montenegro
REVISÃO
Denise Costa
Viviane Novais
EDIÇÃO DE FOTOGRAFIA
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FOTOGRAFIA
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EDIÇÃO DE ARTE
Gui Prímola
DESIGN E ILUSTRAÇÃO
Stela Woo
EDIÇÃO DE VÍDEO
Isabella Almada
IMAGENS
Rafaela Felicciano
TECNOLOGIA
Allan Rabelo
Vinícius Paixão

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PCDF investiga se mulher morta em incêndio na 310 Norte foi assassinada pelo marido

Filhos da vítima alegam que o homem batia nela e a ameaçava. Ele também morreu intoxicado pela fumaça

A Polícia Civil do DF suspeita que a mulher morta durante incêndio em um apartamento do Bloco A da 310 Norte, na madrugada desta quarta-feira (30/1), tenha sido assassinada pelo próprio marido. Ele também morreu após o quarto do casal ser consumido pelas chamas e inalar muita fumaça.

Parentes do casal que foram ao prédio confirmaram as suspeitas. “Ele a agredia, prendia. Ela retirou a queixa na delegacia, pois ficou com pena dele pela idade. Batia nela há quatro anos. Ele tinha ciúmes de todo mundo, queria a atenção só pra ele. Até dos netos. Todo dia eu a alertava do perigo”, contou Raquel Martins, filha da vítima, ao Metrópoles.

“Morreu porque ficava com dó e pena dele. Minha irmã era uma pessoa de coração muito bom”, lamentou Rozilene Martins, 47, servidora pública.

Segundo o delegado Laércio Rosseto, da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), somente a perícia vai confirmar as suspeitas da família. Veigma Martins (foto de destaque), 56 anos, já havia registrado ocorrência por ameaça e lesão corporal contra José Bandeira da Silva, 80.

“Mais um evento trágico de violência contra a mulher. Ela já tinha registrado ocorrência contra ele no ano passado, pois ele dizia que ia matá-la”, disse o policial.

Agora, os investigadores aguardam o resultado da perícia para verificar a sequência de eventos. Se ele matou ou não antes de atear fogo. Outro filho da mulher, que não se identificou, confirmou ao delegado que o homem já tinha histórico de ameaça. Eles eram casados há mais de 10 anos e estavam em fase de separação.

Por volta das 4h40, equipes do Corpo de Bombeiros foram acionadas para conter as chamas. José Bandeira da Silva chegou a ser resgatado com vida, mas não resistiu à intoxicação grave pela inalação de fumaça. Os socorristas tentaram reanimá-lo por mais de 50 minutos. O corpo da mulher foi encontrado carbonizado no quarto do casal.

De acordo com informações preliminares, o fogo teria começado em um dos quartos do imóvel.

As chamas atingiram três cômodos do apartamento e a fumaça invadiu os corredores da prumada. Assustados, os demais moradores saíram correndo do prédio.

Moradores assustados
Muitos moradores do prédio ainda dormiam quando o fogo começou a se alastrar pelo quarto do casal que morreu no incêndio. De acordo com o médico Rodolfo Duarte, 37, que mora na unidade ao lado do apartamento atingido, ele não era próximo das vítimas.

“Só acordei quando os bombeiros chegaram ao local e quis ver se o cachorro estava bem. Fiquei bem assustado. Não tinha nem fumaça no meu quarto, mesmo sendo o apartamento ao lado”, relatou.

Já o vizinho Jorge Tosta, 63, estava na sala de casa quando começou a sentir o cheiro de queimado. “Minha família desceu antes e eu fui depois. Era muita fumaça, o olho ardia muito. Na hora em que fui sair, desmaiei e meu próprio peso fechou a porta. Os bombeiros me salvaram e foram muito eficazes no resgate. Quando acordei, estava desorientado ainda, assustado”, contou.

O analista de sistemas Bruno Carneiro, 34, e a publicitária Sanaa Ghazal, 33, ficaram em pânico com o incêndio. O casal procurou deixar o prédio o mais rápido possível. Bruno estava acordado e foi fechar a janela quando sentiu um cheiro muito forte de plástico queimado. Preocupado, acordou a esposa.

O morador desceu em seguida e viu o fogo. O casal começou a bater em várias portas vizinhas na tentativa de alertar outros moradores, mas muitos estavam dormindo e não ouviram. “Me senti impotente. Não tinha como alertar ninguém, pois não tínhamos recursos”, lamentou Bruno.

Outro caso
Na segunda (28), outro feminicídio chocou os moradores da Asa Norte. Ranulfo do Carmo, 74, matou a tiros a companheira Diva Maia da Silva, 69, e feriu o filho Regis do Carmo Correia Maia, 47.

Ele fugiu após o crime, mas acabou preso pela Polícia Militar. O filho do casal está internado no Instituto Hospital de Base (IHB).

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Homem mata médica e se passa por ela no WhatsApp enganando família

Por dois meses, o assassino movimentou a conta bancária da servidora do HRT, que recebia salário mensal de R$ 17 mil

A Divisão de Repressão a Sequestros da Polícia Civil do DF elucidou um crime bárbaro nesta quarta-feira (30/1). Um homem matou uma médica do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) e, por dois meses, se passou por ela, mantendo contato com a família pelo WhatsApp, dizendo que estava internada em uma clínica de repouso. No período, movimentou a conta bancária da servidora, que recebia salário mensal de R$ 17 mil.

O sumiço da servidora, num primeiro momento, não causou surpresa porque ela já havia sido internada anteriormente para tratar de depressão. No Portal da Transparência, o último pagamento informado em nome dela foi feito em novembro do ano passado.

Segundo a PCDF, Gabriela Rebelo Cunha foi morta no dia 24 de outubro do ano passado pelo seu motorista particular. O nome dele ainda não foi divulgado. Ele teria levado a vítima ao HRT no período da manhã e, por volta de 12h, seguiu com ela até uma agência bancária em Sobradinho para que a mulher fizesse uma transferência.

De acordo com as investigações, no retorno a Taguatinga, ele parou o carro próximo a uma parada de ônibus alegando que estava ouvindo um barulho na roda. Nesse momento, um comparsa teria entrado no veículo e simulado um assalto.

Chegando a uma estrada de chão, próximo a Brazlândia, a médica foi morta por enforcamento e o corpo dela foi deixado no local. Durante dois meses, o acusado manteve contato com a família de Gabriela. O motorista da vítima se passava por ela em conversas pelo WhatsApp.

A PCDF informou que ele enviava mensagens levando os familiares a crer que a vítima estaria internada em uma clínica para tratar de problemas pessoais e retornaria no Natal. Como ela não apareceu, os parentes registraram ocorrência na 12ª Delegacia de Polícia (Taguatinga), que começou a investigar o caso.

Após a prisão, o autor levou os policiais até o local do crime. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) constatou, por meio de análise comparativa de documentação odontológica, que o cadáver tratava-se de Gabriela.

Nas diligências, os policiais encontraram na residência do autor inúmeros objetos da casa da vítima, cartões bancários e dois veículos da médica.

A cirurgiã, que era diretora do HRT, era considerada uma servidora de pulso firme. Colegas relatam que, embora tivesse a personalidade exigente, era meiga e querida pela equipe da unidade. Filha de general do Exército, a médica era divorciada e tinha um casal de irmãos.

O mais novo é policial civil em Minas Gerais e foi um dos principais auxiliares na investigação da morte de Gabriela.

O assassino confesso é filho da empregada da família, que acabou adoecendo. Para manter a renda, o filho, chamado Rafael, assumiu a vaga da mãe. Desde então, passou a ganhar a confiança da médica para resolver, inclusive, problemas pessoais e bancários.

Para a investigação do crime, a Polícia Civil do DF periciou inúmeros aparelhos celulares com quem o telefone da vítima manteve contato. Em muitos desses momentos, era o próprio assassino que se passava pela médica. Segundo relatos de testemunhas, a roupa encontrada na ossada de Gabriela foi a mesma usada por ela no último dia em que foi vista no trabalho, ainda em outubro de 2018.

Médica com vasta experiência em gestão pública, Gabriela chegou a estudar no Canadá. Em Brasília, foi gestora de conhecidas unidades particulares de saúde, incluindo o Hospital Santa Lúcia. A médica deixa uma filha de 8 anos.

Fonte: metropoles.com

Herpes em bebês pode levar à morte. Saiba como previnir

Nos últimos dias, um bebê de 17 dias foi internado em São Paulo após contrair o vírus da doença. Médicos alertam para o perigo de contágio

Se você é mãe, certamente já recebeu uma foto que circula frequentemente na internet com um bebê cheio de lesões vermelhas no rosto por conta do vírus da herpes. Recentemente, em São Paulo, um bebê de 17 dias contraiu a doença (foto em destaque) após receber visitas em casa e precisou ficar internado no hospital por vários dias. A mãe publicou a imagem nas redes sociais para alertar outras pessoas sobre os perigos desse tipo de contaminação.

Coordenador de Pediatria do Hospital Santa Lúcia em Brasília e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, Alexandre Nikolay explica que a forma mais comum de contágio em bebês é a herpes simples tipo um, que se manifesta por meio de feridas na pele, principalmente na boca. Para que o bebê seja contaminado, o vírus precisa estar ativo. O médico alerta ainda que o micro-organismo “não pula”, ou seja, o bebê precisa necessariamente ter contato com a saliva da pessoa doente.

Embora seja grave, a contaminação não é necessariamente fatal, embora possa matar. Os casos variam: há bebês que ficam com lesões na pele, estomatite hepática com aftas na boca e inchaço da gengiva. Em casos mais severos, o sistema nervoso central pode ser infectado, causando meningite viral. Existe tratamento para todos esses quadros, mas os médicos recomendam que os pais procurem um hospital o quanto antes.

O médico infectologista Leandro Machado alerta que os pais podem fazer uma lista para familiares e amigos com as precauções necessárias ao visitar um recém-nascido. Entre elas, pessoas que estejam doentes não devem ir ver o bebê, e as visitas devem evitar ficar beijando a criança no rosto, mãos e boca. A higienização também é muito importante. De acordo com o especialista, a recomendação hoje em hospitais é usar álcool gel das mãos até o cotovelo.

O doutor Alexandre Nikolay explica que os pais devem evitar receber visitas e sair de casa nos primeiros dois meses, principalmente em lugares de grande aglomeração. “Tudo é bom senso. Até os 28 dias, o bebê é considerado recém-nascido e a imunidade é muito baixa”, afirma. Segundo ele, o aleitamento materno também auxilia no reforço do sistema imunológico da criança.

Fonte: metropoles.com

Feminícidio: um crime que começa na intimidade

Delegada-chefe da Deam, Sandra Melo afirma que o maior desafio para proteger as mulheres é interromper o ciclo de violência

“O feminicídio não é um crime como os outros”, sustenta Sandra Melo, delegada-chefe da Delegacia de Atendimento Especial à Mulher (Deam). Em um roubo ou assalto, a vítima vai prontamente à delegacia, registra a ocorrência e faz tudo o que estiver ao seu alcance para que o responsável seja punido. Nas situações de agressões contra a mulher, há um emaranhando de sentimentos que, muitas vezes, impede que o ciclo de violência termine antes de uma tragédia.

Na maioria dos casos, o criminoso vive com a vítima, é o pai dos filhos dela. Foi o homem por quem ela se apaixonou e com o qual dividiu projetos de futuro. Resultado: as agressões não chegam ao conhecimento da polícia – os casos são subnotificados – ou, quando as medidas protetivas são aplicadas, o descumprimento acontece em uma tentativa de reaproximação do ex-casal. “Quando a mulher quer romper, pretende que seja de forma amigável, em paz, espera poder conviver com o pai de seus filhos de forma civilizada”, relata. “Quando não quer, mantém a expectativa de que ele mude, que o relacionamento continue sem violência”, afirma.

O ciclo da violência
Sandra, que tem prêmios internacionais pelo trabalho de proteção às mulheres, explica que no Brasil a violência contra elas é estruturante, é social. Numa sociedade machista, o homem acredita em padrões antigos: deve ser o provedor e o responsável pelas decisões. A mulher precisa ser submissa, focada em cuidar da casa e dos filhos. A Amélia que o espera com o jantar pronto no final de um dia cansativo.

Mas a mulher atual quase nunca se encaixa nesse padrão. Elas são empreendedoras, provedoras e também encontraram outras aspirações que não as exclusivamente afetivas e familiares. “Isso vai causando um desequilíbrio na relação. O homem não consegue mais exercer o controle que gostaria. O casamento deixa de se encaixar no padrão que foi ensinado a ele. Aí começam os conflitos”, conta a delegada.

O ciclo de violência surge de forma quase imperceptível para a vítima. Disfarçadas de ciúmes, começam as brigas e as liberdades dela são cerceadas. A situação se agrava quando as discussões se tornam mais agressivas até que a primeira violência física é praticada. No momento seguinte, os empurrões evoluem para tapas, que evoluem para chutes e pontapés. O risco de morte, então, já está instalado dentro de casa.

Não acredito que os casos de violência doméstica estejam crescendo, acho que eles estão ganhando maior visibilidade. Hoje as mulheres aceitam menos uma situação que no passado estava naturalizada. O avanço da legislação nos impôs uma nova realidade. O brasileiro teve que enxergar e admitir que as mulheres são vítimas de uma forma grandiosa de violência praticada pelos homens que lhe são mais próximos”
Sandra Melo

O papel do Estado
De acordo com a delegada, ainda que a agressão seja comunicada às autoridades e uma medida protetiva preventiva seja determinada, é comum que a vítima desista ou abra a guarda, aceite o pedido de conversa e acabe voltando ao relacionamento na esperança de que as coisas tenham mudado.

Durante o ciclo de violência, há uma queda drástica na autoestima de vítima, que passa a acreditar que não encontrará outro parceiro ou que merece as agressões. Esses são motivos pelos quais a mulher desiste do processo ou dá uma nova chance ao algoz. Na delegacia, ela normalmente é informada do grau de risco que corre, mas acaba cedendo. “O comprometedor é esse vai e vem. Em algumas situações, o agressor foi condenado, cumpriu pena e os dois voltaram a conviver. Esse homem não mudou. O problema continua o mesmo”, lamenta Sandra.

As medidas protetivas são importantes pelo papel profilático: todos os envolvidos entendem que estão em conflito e precisam ficar separados, evitar contato, até que se possa sentar para resolver o problema. “É um tempo para esfriar. Mas deixa de funcionar quando um deles rompe com o proposto”, complementa. A delegada defende a criação de uma rede de apoio para que as mulheres se fortaleçam e tenham segurança suficiente para romper com relacionamentos abusivos.

Quando acontece o pior e a notícia da morte de uma mulher chega às delegacias brasilienses, os policiais seguem uma regra detalhada de investigação (protocolo de feminicídio). As provas devem ser robustas o suficiente para instruir o processo pessoal. “O feminicídio é um crime de ódio, de vingança, de um homem que é completamente incapaz de lidar com sua frustração”, conta.

Problema coletivo
É comum que as mulheres vítimas de violência doméstica só percebam que estão em perigo quando já correm risco de vida. A delegada afirma que não só a família mas também conhecidos, amigos e vizinhos que percebem as agressões devem, sim, meter a colher. “Os parentes e pessoas mais próximas precisam ter coragem para denunciar e ajudar a vítima, convencê-la de que a culpa não é dela”, ressalta Sandra.

Mulheres que estiverem passando por esse tipo de situação devem ligar para o número 180, que fornece informações sobre a rede de apoio. O 197, que funciona como disque-denúncia, também é uma opção para familiares, amigos e vizinhos que queiram denunciar algum caso de violência – a polícia vai até o local para apurar a situação.

“Precisamos entender que essa violência não é só daquele casal. É um problema que afeta a nossa sociedade, principalmente os jovens e as crianças. É necessário, cada vez mais, tomar alguma atitude antes que o pior aconteça”, conclui.

Fonte: metropoles.com