Picadas de escorpião no DF crescem 25,6% este ano; aprenda a se proteger

Há 10 dias, um menino de 4 anos morreu após ser picado, mesmo recebendo seis doses de soro em um hospital. É o primeiro registro fatal do ano

O número de pessoas atendidas na rede pública de saúde do Distrito Federal por acidentes com escorpião em 2019 cresceu 25,6% em relação ao ano passado. Até 22 de junho, houve 618 casos, enquanto que, no mesmo período de 2018, foram 495. Há 10 dias, um menino de 4 anos morreu após ser picado, mesmo recebendo seis doses de soro em um hospital. É o primeiro registro fatal do ano. Os dados são da Secretaria de Saúde.

A infestação de escorpiões tem deixado moradores em alerta. Temendo uma fatalidade, alguns até mudam de endereço, como Karla Machado, 39 anos. Ela decidiu se mudar do Conjunto L da QNM 7, em Ceilândia Sul, por causa da alta incidência dos aracnídeos peçonhentos na casa onde morava de aluguel com a filha de 14 anos, e uma neta de 3. “Vivi durante cinco meses na residência e, nessa temporada, matei 10 escorpiões. Eu e a minha família ficamos afugentados, sem sabermos o que fazer para evitar que o animal entrasse em casa. Vedamos portas e janelas, mas eles saíam dos ralos do banheiro e da cozinha”, relata a dona de casa.
Karla começou a notar que o terreno tinha restos de material para construção, onde escorpiões poderiam estar se escondendo. Em uma limpeza com moradores do local, encontrou outros quatro animais. “Na última semana, a minha neta quase pisou em um escorpião filhote. Vi a vida dela ser salva pelo meu cachorro, que a empurrou. Como meu cão é de porte grande, tudo ficou bem. Foi a mão de Deus que nos livrou”, lembra a dona de casa, que se mudou no fim do ano passado.

Esconderijos

Especialista em veneno de escorpiões, a bióloga Elisabeth Ferroni conta que o bicho se esconde em locais escuros, entulhos e materiais de construção. “Tratam-se de ambientes calmos, propícios para os peçonhentos, que gostam de locais secos. Entre as prevenções está, sobretudo, a limpeza do apartamento e das residências, sendo que no último caso, nas áreas externas e internas”, destaca Ferroni, pesquisadora do laboratório de Neurofarmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB).
A estudiosa diz ser preciso ter cuidado ao manusear móveis, livros e até na hora de vestir peças de roupas e calçar os sapatos. “O escorpião pode se esconder nos mais variados espaços. A atenção tem que ser redobrada na hora de usar aquele casaco de inverno que estava há mais tempo no guarda-roupa”, salienta Elisabeth Ferroni.

Biólogo da Vigilância Ambiental, Israel Martins Moreira diz que para prevenir o aparecimento dos invertebrados em casa, é necessário vedar as entradas. “Não é apenas usar proteção nas frestas das portas, mas usar telas nas janelas e nos ralos da cozinha, do tanque de lavar roupa e do banheiro. Esses animais usam as tubulações de esgoto e água, assim como os conduítes de energia, para ter acesso ao ambiente que procuram”, adverte o profissional.

Ambos os especialistas frisam que os escorpiões estão em áreas onde há alimento para a espécie, ou seja, insetos. A principal presa destes deles é a barata. “Recomenda-se a dedetização. No entanto, deve-se utilizar insecticidas sólidos, que exterminam parte da população de baratas e não agride o escorpião. Os fumacentos, como os sprays, irritam o animal e, consequentemente, ele sairá do abrigo”, esclarece Israel Moreira. “O sólido não fará o escorpião deixar a tubulação de esgoto, por exemplo. Então, a tendência é que ele morra”, completa.

Caso uma pessoa seja picada, ele tem de procurar imediatamente um hospital público (confira a lista acima). A rede particular não tem soro antiescorpiônicoou contra o veneno de qualquer outro bicho peçonhento. “Se possível, leve uma foto do escorpião, para que o médico faça a melhor avaliação do quadro. A vigilância também pode ser acionada para coletar o cadáver (do bicho), que será levado para estudos técnicos”, finaliza o biólogo.

Socorro

Onde há soro antiescorpiônico:

Hospital Materno Infantil de Brasília
Hospital Regional da Asa Norte
Hospital Regional de Brazlândia
Hospital Regional de Ceilândia
Hospital Regional do Gama
Hospital Regional do Guará
Hospital Regional do Paranoá
Hospital Regional de Planaltina
Hospital Regional de Samambaia
Hospital Regional de Santa Maria
Hospital Regional de Sobradinho
Hospital Regional de Taguatinga

Memória

Christian Silva de Jesus, 4 anos, morreu após ser picado por um escorpião enquanto dormia em casa, na última sexta-feira, em Taguatinga Norte. Os pais do garoto, o serralheiro Juliano de Jesus, 33 anos, e a autônoma Lorraine de Jesus, 27, relataram ao Correio que Christian acordou na madrugada com fortes dores. “Ele estava gritando e balançando a perninha. Eu imaginei que poderia ter sido uma picada de escorpião, porque já fui picado uma vez. Quando eu o tirei da cama, o bicho saiu correndo”, lembrou o pai. Eles moravam na QNF 20, onde há grande reclamações da incidência do animal por parte dos moradores. Os pais decidiram se mudar da região.

Medidas para evitar escorpiões em casa

– Não deixar roupas de cama em contato com o chão
– Colocar telas nas aberturas de ralos, pias ou tanques
– Fechar portas e janelas ao entardecer
– Vedar soleiras de portas e frestas em janelas
– Rebocar paredes e muros, para fechar vãos ou frestas
– Fechar bem o lixo
– Dedetizar para eliminar fontes de alimento do escorpião
– Remover folhagens, arbustos e trepadeiras das paredes externas e dos muros

Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/07/04/interna_cidadesdf,767943/picadas-de-escorpiao-no-df-crescem-25-6-este-ano-aprenda-se-proteger.shtml?utm_source=whatsapp&&utm_medium=whatsapp

Menino de 4 anos morre após ser picado por escorpião em casa

Vizinhos do garoto reclamam que é comum encontrar o animal peçonhento na região. Garoto morava na QNF 20 de Taguatinga

Um menino de 4 anos morreu após ser picado por um escorpião enquanto dormia em casa, na última sexta-feira (28/6), em Taguatinga. Christian Silva de Jesus foi encaminhado para o Hospital Regional de Taguatinga, onde passou cerca de 15 horas sendo tratado. Moradores da QNF 20, onde o garoto vivia, reclamam que é comum encontrar o animal peçonhento na região.

Os pais dos menino, o serralheiro Juliano de Jesus, 33 anos, e a autônoma Lorraine de Jesus, 27, contam que Christian acordou na madrugada com fortes dores na perna. “Quando eu levantei, ele estava gritando e balançando a perninha. Eu já imaginei que poderia ter sido uma picada de escorpião, porque já fui picado uma vez. Quando eu o tirei da cama, o bicho saiu correndo”, lembra.

A mãe, Lorraine, afirma que eles deram entrada no hospital por volta de 1h, mas, no atendimento, os médicos informaram que só havia duas doses do soro necessário para tratar a picada e Christian precisava de pelo menos três delas. “O médico teve que ir atrás do resto e conseguiu no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). Eram quase 4h quando eles foram aplicar. Nisso, ele já tinha delirado e vomitado várias vezes”, comenta. O garoto precisou tomar cinco doses de soro para escorpião, mas morreu por volta das 16h50.

Comum na região

Moradores da região relatam que é comum vizinhos encontrarem escorpiões dentro de casa. Juliano guarda um pote cheio deles. A técnica Meire Neves Pereira, 46, uma das vizinhas do casal, diz que já encontrou pelo menos três na residência dela. “Tem muito por aqui. O povo reclama. Tenho um pote com os que eu achei”, diz. Meire ainda comenta que profissionais da Vigilância Ambiental estiveram no local hoje de manhã após o acidente com Christian.

A Secretaria de Saúde informou que a Vigilância monitora a distribuição temporal e espacial da população de escorpiões e de acidentes, além de promover ações de prevenção e controle. “O atendimento à população é feito por demanda passiva, ou seja, a população aciona o serviço de saúde (telefone: 2017-1343 ou 160) para que as providências sejam tomadas”, complementou.

Até março deste ano, 344 pessoas foram atendidas na rede pública de saúde do DF após serem picadas por escorpião. Em 2018, foram 1.286 casos. As vítimas de acidentes por animal peçonhento devem procurar a emergência dos hospitais ou da Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O centro de informações tóxicas também está disponível no número 0800-644-6774 para primeiras orientações sobre os acidentes.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/07/01/interna_cidadesdf,767138/menino-de-4-anos-morre-apos-ser-picado-por-escorpiao-em-casa.shtml

Sobe para 31 número de mortes por dengue no DF este ano

Com o fim do período de chuvas, número de casos notificados começam a cair, mas a epidemia da doença continua. Tendas de hidratação serão desativadas no domingo
Subiu para 31 o número de mortes por dengue no Distrito Federal. Os dados do boletim epidemiológico referente ao período de 16 a 22 de junho, divulgados nesta sexta-feira (28/6), mostraram ainda que passaram de 35,5 mil os casos notificados da doença. Desses, no entanto, 4.369 foram descartados posteriormente. Outras duas mortes estão sendo investigadas.

Apesar disso, a Secretaria de Saúde afirma que a pior epidemia de dengue da história da capital federal começa a ser controlada. O números de novos casos registrados da doença de acordo com o último boletim – 2.803 – representam redução de quase 50% em relação ao mesmo período de maio. Por isso, os atendimentos nas tendas de hidratação serão suspensos, mas a força-tarefa de combate ao mosquito transmissor continua.

No próximo domingo (30/6), os atendimentos nas tendas serão encerrados e transferidos para outras unidades de saúde, como UPAs e hospitais. “Hoje, temos um registro maior de pessoas indo às tendas por outros problemas que apresentam os sintomas da dengue, mas não são, e pacientes retornando para acompanhamento do que de novos casos”, justificou Ricardo Ramos, subsecretário de Atenção Integral à Saúde. A população pode entrar em contato pelo telefone 199 para saber quais unidades realizarão o atendimento.

Ações conjuntas da Secretaria de Saúde com a Vigilância Sanitária, Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros continuarão para garantir a diminuição do registro de novos casos de dengue no DF. Os fumacês permanecerão ativos e será intensificado o uso nas regiões em que os índices da incidência do mosquito permanecem altos.

Visitas domiciliares serão realizadas e também haverá distribuição de armadilhas – instrumento para captura do Aedes aegypti, mosquito transmissor da doença. “A secretaria está discutindo quais são as novas estratégias, as ferramentas e os investimentos mínimos necessários”, garantiu Divino Valero Martins, subsecretário de Vigilância à Saúde.

“Apesar da queda no registro de novos casos, a epidemia da doença não acabou. Houve uma queda, estamos trabalhando, intensificando, para literalmente acabar por completo. Uma vez que os números de casos vêm caindo consideravelmente, a epidemia está controlada e as estratégias de combate estão mudando para o controle vetorial em campo”, completou Divino.

Atendimento emergencial
No período de funcionamento das tendas de hidratação, 34.017 atendimentos foram feitos, sendo, desses, 23.303 casos de suspeita de dengue. “As tendas cumpriram o papel de prestar atendimento básico e imediato a casos mais simples e de realizar encaminhamento para hospitais dos casos mais graves”, disse o subsecretário.

Gêmeas siamesas

Médicos separam siamesas unidas pela cabeça, em cirurgia inédita no DF

As irmãs nasceram unidas pela cabeça em junho do ano passado. Cirurgia inédita no DF ocorreu no último sábado. Caso havia sido mantido em sigilo até agora a pedido dos pais

Uma cirurgia delicadíssima e inédita no Distrito Federal, da qual dependia a vida de duas pequenas brasilienses muito especiais, ocorreu no ultimo sábado, 27 de abril, no Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Depois de uma preparação de mais de um ano, uma equipe de médicos da cidade separou irmãs gêmeas que nasceram unidas pela cabeça. As meninas, agora, seguem em observação, cercadas de todos os cuidados, como vem acontecendo desde que exames de pré-natal mostraram que elas eram siamesas.

A pedido dos pais, o caso foi mantido em sigilo pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Respeitando o desejo da família, que ainda pede para se preservar a identidade das meninas, o Correio não deu, inicialmente, detalhes que possibilitem a identificação das duas. Na segunda-feira, os pais — Camila Neves, 25 anos, e Rodrigo Neves, 30 — divulgaram os nomes das meninas: Mel e Lis.

Ao longo dos últimos 10 meses, a reportagem acompanhou a história e conversou com alguns dos profissionais envolvidos no caso. O processo de preparação para a realização da primeira cirurgia desse tipo na capital federal começou ainda no pré-natal. Os exames mostravam que elas estavam unidas pela cabeça, único caso registrado até hoje em Brasília.

Prontamente, foi mobilizada uma grande equipe, incluindo neurologistas pediátricos, microcirurgiões, cirurgiões plásticos, obstetras, anestesistas e enfermeiros, entre outros profissionais. “Não era caso para uma pessoa só, mas para um time”, diz ao Correio o neurocirurgião Benício Oton, responsável pela operação. Mais de 50 profissionais participaram do procedimento.

Ao menos 12 médicos acompanharam as meninas desde o início. Uma equipe de especialistas em siameses dos Estados Unidos, um deles com 24 casos no currículo, também foi acionada para ajudar. Cinco profissionais norte-americanos estavam no hospital no momento da separação, apoiando o time brasiliense, que recebeu muitos elogios dos estrangeiros.

Nascimento
As meninas nasceram em junho do ano passado, no Hospital Materno-Infantil de Brasília (Hmib). Após a cesariana, foi possível confirmar quais órgãos e tecidos elas dividiam. Constatou-se, então, que elas tinham em comum parte da pele da testa, do crânio e da meninge, um conjunto de membranas que envolve o cérebro.

Era um bom sinal. Como não compartilhavam nenhum órgão vital, a operação era viável e as chances de que a cirurgia de separação corresse bem eram muito boas. O impedimento inicial era o fato de serem recém-nascidas, logo frágeis demais para um procedimento médico como o que enfrentariam.

A solução era esperar que elas crescessem, ganhassem peso e ficassem prontas para o desafio. Depois de um mês na UTI, foram para a enfermaria do hospital e continuaram a ser acompanhadas enquanto se desenvolviam. Ao mesmo tempo, a equipe não queria esperar muito. A ideia, afinal, era permitir que as irmãs pudessem se desenvolver naturalmente e aprendessem a andar já independentes uma da outra.

Molde tridimensional
A preparação incluiu reuniões, análise de exames, estudo de outros casos e até a construção de um molde tridimensional da cabeça das crianças. Nas análises, percebeu-se também que, após a separação, a recomposição da pele era uma questão crucial. Uma equipe de microcirurgia plástica ficou a postos para realizar um transplante de pele vascularizado. “É uma medida necessária para evitar uma infecção ou um caso de meningite”, explica Oton.

Todas essas medidas ajudaram para que a operação fosse um sucesso. O grande dia foi o sábado passado, 27 de abril, pouco antes de as meninas completarem 11 meses. Depois de mais de 20 horas, a cirurgia chegou ao fim. “Foi um sucesso. Elas estão reagindo como esperávamos”, diz o médico. Agora, separadas pela primeira vez nesse curto tempo de vida, as irmãzinhas continuam cercadas de cuidado, para que possam crescer independentes, unidas apenas pelo amor de irmãs e pela certeza de que, juntas, superaram, logo no início da vida, um grande desafio.

O caso das siamesas de Brasília passo a passo
A CONDIÇÃO
As gêmeas nasceram com uma condição conhecida no meio médico como craniopagia, ou seja, elas eram unidas pela cabeça. Histórias assim são raras, acontecem uma vez a cada 2,5 milhões de nascimentos. No caso das duas brasilienses, elas estavam unidas pelas testas

CAUSA
A gemelaridade imperfeita, como é tecnicamente conhecido o caso de gêmeos siameses, acontece uma vez em cada 100 mil nascimentos. É causada por um erro na divisão celular após o 12ª dia da concepção em embriões de gêmeos de um único óvulo e um espermatozoide

O NASCIMENTO
As meninas nasceram no Hospital Materno-Infantil em junho de 2018. Como o pré-natal já indicava que elas eram siamesas, toda uma equipe de profissionais, de diferentes áreas, foi mobilizada para realizar o parto, que foi uma cesariana. Pelo menos 12 médicos acompanharam o caso desde a gestação

DIAGNÓSTICO
Após o nascimento, confirmou-se que as irmãs estavam ligadas pela testa e dividiam pele, parte do crânio e meninge, um conjunto de membranas que reveste o cérebro. O fato de as crianças não dividirem nenhum órgão vital foi uma ótima notícia, pois esse fato diminuía consideravelmente o risco de uma delas morrer durante o procedimento de separação ou mesmo de ficar com sequelas graves após a cirurgia

PREPARAÇÃO
Toda a preparação incluiu reuniões, análise de exames, estudo de outros casos e até a construção de um molde tridimensional da cabeça das crianças

ESPERA
O principal obstáculo à cirurgia era esperar que as crianças estivessem fortes o suficiente para passar pelo procedimento cirúrgico. Assim, elas foram acompanhadas durante os primeiros meses de vida para que ganhassem peso e ficassem prontas

A OPERAÇÃO
Finalmente, no sábado 27 de abril, pouco antes de as meninas completarem 11 meses, a cirurgia foi realizada com sucesso no Hospital da Criança de Brasília, por uma equipe de profissionais da cidade.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

Cirurgia pioneira no cérebro dá sons e voz a menina 100% surda

Leia, 7, tinha um tipo raro de surdez profunda; seus pais a submeteram a cirurgia pioneira para tentar lhe dar uma oportunidade de ouvir, e sua recuperação superou todas as expectativas.

Leia tinha um tipo raro de surdez profunda — Foto: Guy’s and St Thomas/ NHS

Leia Armitage, 7, viveu em silêncio total durante seus dois primeiros anos de vida. Hoje, graças a uma cirurgia pioneira no cérebro e a anos de terapia, a menina britânica conseguiu descobrir – e usar – a própria voz.

“Ouvimos (dos médicos) que nem se colocássemos uma bomba atrás da orelha dela ela escutaria a detonação”, conta o pai de Leia, Bob, lembrando-se do momento em que descobriu que sua filha bebê tinha um tipo raro de surdez profunda.

Leia não tinha o nervo auditivo, o que significa que nem mesmo aparelhos auditivos ou implantes cocleares poderiam ajudá-la. Eram poucas as perspectivas de que Leia aprendesse a falar.

Diante desse quadro, os pais de Leia brigaram para que ela fosse uma das primeiras crianças britânicas a serem submetidas a uma cirurgia cerebral – ainda arriscada -, para a colocação de um implante auditivo no tronco encefálico.

Leia passou pela cirurgia aos dois anos.

O NHS, sistema de saúde público britânico, afirma que a cirurgia é “capaz de mudar vidas” e que financiará novos procedimentos para outras crianças em situação similar à de Leia.

‘Oportunidade na vida’

Bob conta que foi muito difícil a decisão de submeter a filha à cirurgia, mas que ele e a mulher Alison queriam “dar a Leia a melhor oportunidade na vida”.

O casal esperava que a cirurgia permitisse à menina passar a escutar carros buzinando quando ela atravessasse a rua – para que pudesse, enfim, se locomover fora de casa com mais segurança.

Mas, nos cinco anos passados desde o procedimento, o progresso de Leia superou muito essas expectativas iniciais.

Leia (à dir) com os pais e o irmão; ela superou as expectativas iniciais da cirurgia — Foto: Guy’s and St Thomas/ NHS

Começou devagar, pouco depois da cirurgia, com Leia reagindo a sons como o das portas do metrô.

Aos poucos, ela passou a entender o conceito de som à medida que seus pais repetiam palavras e pediam que ela os imitasse.

Hoje, após anos de fonoaudiologia e outras terapias, ela consegue falar frases completas, cantar músicas e escutar conversas no telefone.

“Se ela estiver no andar de cima da casa e a gente chamar, ela vai ouvir”, conta Bob.

‘Eu te amo’

Mas é na sala de aula (ela frequenta uma escola tradicional, com crianças de audição regular) que Leia está tendo o desempenho mais surpreendente, graças a assistentes que a acompanham individualmente, usando linguagem de sinais.

“Ela está aprendendo cada dia mais e não está muito atrás dos demais na maioria das coisas”, prossegue Bob.

Em casa, o que deixa Bob e Alison mais felizes é ver Leia usando a própria voz.

“‘Te amo, papai’, é provavelmente a melhor coisa que já ouvi ela dizer”, conta ele.

“Quando estou colocando ela para dormir, ela já diz ‘boa noite, mamãe’, algo que eu nunca imaginei ouvir”, agrega Alison.

A cirurgia

A cirurgia pela qual Leia passou é pioneira e envolve inserir um aparelho diretamente no cérebro, para estimular os canais auditivos em crianças nascidas sem os nervos específicos.

Um microfone e um processador de som acoplados ao lado da cabeça transmitem o som ao implante.

Esse estímulo elétrico é capaz de prover sensações auditivas, mas nem sempre consegue restaurar uma audição normal.

No entanto, o otologista Dan Jiang, diretor clínico do Centro de Implantes Auditivos do Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust, explica que algumas crianças, como Leia, conseguem desenvolver a fala.

“Os resultados variam muito. Alguns pacientes se saem melhor do que outros”, diz. “Exige adaptação, e crianças pequenas se adaptam melhor, então gostamos de inserir o implante o mais cedo possível.”

Crianças com menos de cinco anos têm mais facilidade em aprender novos conceitos de som e respondem bem a terapias intensivas, ele agrega.

Susan Daniels, executiva-chefe da Sociedade de Crianças Surdas do Reino Unido, afirma, ao mesmo tempo, que “cada criança surda é diferente e, para algumas, tecnologias como implantes cerebrais podem fazer uma enorme diferença em suas vidas”.

“Com o apoio adequado, crianças surdas conseguem se sair tão bem quanto as que escutam, e esse investimento (na cirurgia) é mais um passo importante em direção a uma sociedade em que nenhuma criança surda fique para trás.”

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude

Fábio Assunção: Memes e máscaras revelam visão equivocada sobre dependência química

Especialistas afirmam que sociedade não enxerga a dependência química como doença, e sim como falha moral

Meme. Máscaras do ator Fábio Assunção são vendidas na Saara; dependência química dele virou meme na internet e tema de música; ator foi à Justiça

Ele virou disputada máscara de carnaval, foi tema de música de chacota e protagonista de uma série de memes. E a festa de Momo tem potencial para aumentar ainda mais a quantidade de zombarias dirigidas ao ator Fábio Assunção, da TV Globo, constantes ao longo do verão por conta de sua dependência química. Mas o que leva tantas pessoas a verem graça em algo tão grave? Especialistas ouvidos pelo GLOBO são taxativos: a sociedade não enxerga o alcoolismo e o vício em drogas como doença, e sim como falha moral. As piadas com o tema são resultado desse estigma e, ao mesmo tempo, uma forma de perpetuá-lo.

O próprio ator já se manifestou sobre isso, quando procurou Gabriel Bartz, intérprete da música que leva seu nome, para fazer um acordo: agora, parte do lucro que ele tiver com a canção será revertido em doações para uma associação para dependentes químicos.

— Não deveria ser piada, pelo menos — diz a psicóloga Sabrina Presman, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas.

Para ela, a sociedade brasileira é marcada pela “psicofobia”: o preconceito em relação a diagnósticos psiquiátricos.

— As pessoas veem com maus olhos qualquer transtorno psiquiátrico. Poucas vezes têm empatia suficiente para entender que, por trás do alcoolismo existe alguém doente. O julgamento moral é grande.

A dependência química é oficialmente considerada transtorno mental e doença crônica. E catalogada como problema social pela Organização Mundial de Saúde (OMS ). Quem temo distúrbio metaboliza deforma diferente a substância da qualé dependente—oque torna extremamente difícil conter o vício e afeta de modo negativo os aspectos psíquico, emocional, físico e social da vida.

Sabrina Presman compara ao câncer:

— As pessoas não fazem chacota de pacientes que estão passando por quimioterapia. Isso diz muito sobre o que elas entendem sobre o que é, de fato, uma doença.

‘PIADAS DE BÊBADO’

Mas qual é o limite entre a falta de empatia e a brincadeira? O que não falta na cultura popular do país são piadas de bêbado, por exemplo. Elas deveriam ser abolidas?

— Não dá para dizer, claro, que agora está proibido fazer piada com esse tema. Mas é preciso moderar, ainda mais quando não se trata de um “bêbado genérico”, e sim de uma pessoa que existe e que, com certeza, terá seu tratamento prejudicado por isso —afirma Sabrina.

Uma “evolução cultural” urge, na avaliação da psicóloga Ana Café, especializada na prevenção e tratamento da dependência química:

— O ideal seria que a gente pudesse evoluir culturalmente e entender a dependência como uma doença séria. Por conta das piadas, o principal sentimento do paciente e da própria família, quando a doença começa a se manifestar, é a vergonha. Isso faz com que o dependente acabe protelando a busca do tratamento. Isso é muito grave. Ninguém deixa de buscar tratamento para problema cardíaco, por exemplo —salienta a diretora do Núcleo Integrado.

A psicóloga destaca ainda que é possível se recuperar bem de um quadro de dependência, e que, em média, o período de internação dura três meses, e o de tratamento ambulatorial depois da internação leva um ano. Mas esse tempo pode variar, de acordo com a situação do paciente. E medicamentos costumam ser necessários para tratar a doença, além de participação em grupos terapêuticos.

—É preciso construir mecanismos saudáveis para evitar a primeira dose — afirma a especialista.

COMO LIDAR

O professor Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), classifica o uso das máscaras de carnaval com o rosto de Fábio Assunção como um problema que “indica um fenômeno de massa”.

Para ele, as pessoas têm dificuldade em lidar com a fragilidade humana e o uso da máscara seria uma forma de associar o problema ao outro, ou seja, de não expor a própria vulnerabilidade:

— Fazer piada com adição química é de extremo mau gosto. É surpreendente que as pessoas se dediquem a confeccionar máscaras como esta e que essa moda pegue, vire um sucesso.

Silveira destaca que mesmo alguns profissionais que tratam esses pacientes em clínicas especializadas e comunidades terapêuticas acabam por reforçar o preconceito:

— Existe um estigma relacionado à dependência química que é absolutamente lamentável. Infelizmente, as pessoas que tratam dependentes químicos muitas vezes não trabalham no sentido de acabar com esse estigma. A maioria dos modelos de grupo que conheço só reforçam o preconceito.

Saiba mais em: globo.com

Herpes em bebês pode levar à morte. Saiba como previnir

Nos últimos dias, um bebê de 17 dias foi internado em São Paulo após contrair o vírus da doença. Médicos alertam para o perigo de contágio

Se você é mãe, certamente já recebeu uma foto que circula frequentemente na internet com um bebê cheio de lesões vermelhas no rosto por conta do vírus da herpes. Recentemente, em São Paulo, um bebê de 17 dias contraiu a doença (foto em destaque) após receber visitas em casa e precisou ficar internado no hospital por vários dias. A mãe publicou a imagem nas redes sociais para alertar outras pessoas sobre os perigos desse tipo de contaminação.

Coordenador de Pediatria do Hospital Santa Lúcia em Brasília e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, Alexandre Nikolay explica que a forma mais comum de contágio em bebês é a herpes simples tipo um, que se manifesta por meio de feridas na pele, principalmente na boca. Para que o bebê seja contaminado, o vírus precisa estar ativo. O médico alerta ainda que o micro-organismo “não pula”, ou seja, o bebê precisa necessariamente ter contato com a saliva da pessoa doente.

Embora seja grave, a contaminação não é necessariamente fatal, embora possa matar. Os casos variam: há bebês que ficam com lesões na pele, estomatite hepática com aftas na boca e inchaço da gengiva. Em casos mais severos, o sistema nervoso central pode ser infectado, causando meningite viral. Existe tratamento para todos esses quadros, mas os médicos recomendam que os pais procurem um hospital o quanto antes.

O médico infectologista Leandro Machado alerta que os pais podem fazer uma lista para familiares e amigos com as precauções necessárias ao visitar um recém-nascido. Entre elas, pessoas que estejam doentes não devem ir ver o bebê, e as visitas devem evitar ficar beijando a criança no rosto, mãos e boca. A higienização também é muito importante. De acordo com o especialista, a recomendação hoje em hospitais é usar álcool gel das mãos até o cotovelo.

O doutor Alexandre Nikolay explica que os pais devem evitar receber visitas e sair de casa nos primeiros dois meses, principalmente em lugares de grande aglomeração. “Tudo é bom senso. Até os 28 dias, o bebê é considerado recém-nascido e a imunidade é muito baixa”, afirma. Segundo ele, o aleitamento materno também auxilia no reforço do sistema imunológico da criança.

Fonte: metropoles.com

A razão pela qual tomar vitamina D sem receita médica pode não ser boa ideia

Jessica Brown

(Foto: Andrea Obzerova/ Alamy)
Quando os dias começam a encurtar no inverno do hemisfério norte, aumentam as preocupações sobre a falta de luz solar – e uma possível deficiência de vitamina D. Para muitos, a saída é tomar suplementos.

Os comprimidos de vitaminas D2 e D3 estão disponíveis sem prescrição médica – no Brasil e em vários países – e têm sido associados à melhora da imunidade e de sintomas como cansaço, fraqueza muscular, dor no osso e até de depressão. Acredita-se que eles também ajudem a evitar câncer e sintomas do envelhecimento.

Uma pesquisa da consultoria de mercado Mintel indica que um terço dos adultos britânicos inclui a vitamina D em seu coquetel de suplementos diários – mas seu uso indiscriminado causa controvérsia na comunidade científica.

A maioria dos especialistas reconhece os benefícios da vitamina D para a saúde dos ossos, já que ela contribui na regulação do cálcio e do fosfato no corpo.

É por isso que aqueles que têm deficiência da vitamina são encorajados a ingeri-la via suplementos. E esse número é maior do que muitos imaginam: um estudo estima que cerca de 20% da população do Reino Unido tem uma profunda deficiência de vitamina D, por exemplo.

No Brasil, dados de 2011 do IBGE apontam que mais de 90% da população não ingere a quantidade recomendada de vitamina D – o que não significa que todos tenham deficiência.

O que alguns médicos defendem é que, para pessoas saudáveis, a vitamina D não é uma forma de prevenir doenças. Assim, quem estivesse com níveis normais da vitamina não precisaria dos comprimidos.

Então, qual é recomendação?

Indicado apenas para quem tem risco de deficiência
Apesar do nome, a vitamina D não é uma vitamina. É na verdade um hormônio que promove a absorção de cálcio pelo corpo. O desafio é que, com exceção de alguns alimentos como peixes oleosos (entre eles o salmão), a vitamina D é difícil de encontrar em uma dieta normal.

Mas ela pode ser produzida pela pele quando em contato com raios ultravioleta B – os raios solares.
Há dois tipos de vitamina D. O primeiro é o D3, encontrada em animais, incluindo os peixes, e é o tipo que a pele produz quando exposta ao sol.

O segundo é o D2, que vem de alimentos vegetais, incluindo os cogumelos. Estudos mostraram que o D3 é mais eficiente, e as conclusões de uma meta-análise de 2012 afirmam que essa é a escolha preferida para a suplementação.

Hoje, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia não indica a suplementação de vitamina D para toda a população, e sim para aqueles com risco de deficiência. Há recomendações específicas para indivíduos com esse risco, entre eles idosos, pacientes com osteoporose, obesos, grávidas e outros. Há outros países que seguem diretrizes similares.

Essas diretrizes e a onda de alimentos fortificados com a vitamina, como o leite, surgiram na esteira do combate ao raquitismo em meados do século 20. Sabemos que baixos níveis de vitamina D reduzem os níveis de cálcio do corpo, o que leva à redução da densidade óssea e pode causar raquitismo em bebês e crianças.

Também se sabe que baixa vitamina D pode causar fraqueza muscular e fadiga.

Um estudo publicado no North American Journal of Medical Sciences descobriu que os baixos níveis eram comuns em pessoas com cansaço extremo e que os sintomas melhoraram depois de cinco semanas de ingestão de suplementos de vitamina D.

Outro estudo da Universidade de Newcastle descobriu que os baixos níveis podem reduzir a eficiência das mitocôndrias, produtoras de energia. Estudos com pacientes com câncer mostraram efeitos semelhantes. A vitamina D pode estimular a regulação do sistema imunológico ao remover bactérias.

Ossos frágeis
Apesar da importância da vitamina D, seus benefícios não necessariamente implicam que pessoas com níveis saudáveis do hormônio precisem suplementá-lo.

Mais que isso, especialistas como Tim Spector, professor de epidemiologia genética da King’s College London, afirmam que mesmo as diretrizes atuais para suplementação de vitamina D – indicada para fortalecer os ossos e evitar fraturas – foram baseadas em estudos “provavelmente falhos”.

Algumas dessas pesquisas, por exemplo, envolviam populações idosas que viviam em asilos – pessoas que não se expunham com frequência ao sol e que estavam mais propensas a sofrer fraturas e osteoporose do que a população em geral.

É verdade que as evidências não são claras. Uma meta-análise publicada em agosto de 2018 concluiu que o aumento de níveis de vitamina D na população em geral não necessariamente reduziria o risco de fraturas nos ossos em pessoas saudáveis.

E uma meta-análise com 81 estudos descobriu que a suplementação de vitamina D não previne fraturas e quedas, nem melhora a densidade mineral do osso. Os pesquisadores concluíram que as diretrizes deveriam ser atualizadas para refletir esse resultado.

Mas Sarah Leyland, consultora de enfermagem em osteoporose pela Sociedade Nacional de Osteoporose, diz que os suplementos de vitamina D são úteis para grupos de risco que não têm nenhuma exposição ao sol.

De acordo com o NHS, o serviço de saúde britânico, as pessoas só precisam ficar do lado de fora por um curto período de tempo, com mãos e antebraços descobertos e sem proteção solar entre março e outubro – meses com os dias mais longos no hemisfério norte – para garantir vitamina D suficiente pelo resto do ano.

“Sabemos que as pessoas saudáveis não vão reduzir o risco de fratura tomando suplementos de cálcio ou vitamina D”, diz Leyland. “Entretanto, pessoas que não estejam absorvendo o suficiente da vitamina, como aquelas que não podem sair de casa ou vivem em acomodações protegidas, podem se beneficiar desses suplementos.”

Ainda assim, os pesquisadores também não encontraram evidências claras disso. Uma meta-análise examinou a prevenção de fraturas em pessoas de moradias tradicionais, asilos ou paciente em hospitais e concluiu que a vitamina D, sozinha, provavelmente não preveniria fraturas nas doses e formulações testadas até agora em idosos.

D de doença
As pesquisas também são conflitantes quando se trata da ligação entre os níveis de vitamina D e uma série de doenças.

Acredita-se, por exemplo, que suplementos de vitamina D podem estimular o sistema imunológico. Adrian Martineau, professor de infecção respiratória e imunidade na Escola de Medicina e Odontologia da Universidade Queen Mary de Londres, que coordena um grupo de pesquisa sobre os efeitos da vitamina D sobre a saúde, descobriu que ela tem um papel no combate a infecções respiratórias.

Ao analisar dados brutos de 25 testes clínicos envolvendo 11 mil pacientes de 14 países, ele descobriu um pequeno benefício em ingerir diária ou semanalmente suplementos de vitamina D para reduzir o risco de infecções respiratórias, ataques de asma e bronquite. Embora o artigo tenha atraído várias críticas, Martineau ressalta que a redução do risco, mesmo que leve, ainda é significativa e comparável aos efeitos de outras medidas.

Em relação ao envelhecimento, um artigo que analisou a relação entre a vitamina D e a expectativa de vida descobriu que a vitamina D3 pode ajudar na homeostase proteica – o processo de regulação das proteínas dentro das células.

“Nossa observação de que a D3 melhora a homeostase proteica e, com isso, desacelera o envelhecimento ressalta a importância de se manter os níveis apropriados da vitamina D”, escreveram os pesquisadores.

Outros estudos, porém, foram menos conclusivos. Uma meta-análise concluiu que mais pesquisas são necessárias para esclarecer o efeito da vitamina D na taxa de mortalidade.

Causa ou consequência?
Essa é uma questão que perpassa quase todos os estudos que relacionam os baixos índices de vitamina D com doenças.

Ian Reid, professor de medicina da Universidade de Auckland, acredita que as doenças é que provocam a redução dos níveis de vitamina D, já que a enfermidade pode impedir que o indivíduo passe tempo suficiente ao ar livre e exposto ao sol – e não o contrário.

Isso foi comprovado, por exemplo, em relação a doenças cardiovasculares: estudos mostram que a doença cardíaca poderia causar baixos níveis de vitamina D, e não o contrário.

“Se observarmos qualquer grupo de pacientes com qualquer doença, seus níveis de vitamina D serão mais baixos do que os níveis dos indivíduos saudáveis. Isto tem levantado a hipótese de que baixa vitamina D provoca doenças, mas não há evidências que provem isso”, ele afirma.

Pesquisadores descobriram, por outro lado, que níveis mais altos de vitamina D estão associados com baixos riscos de câncer colorretal – ela teria um papel na formação de novos vasos sanguíneos e no estímulo à melhor comunicação entre as células.

A vitamina D também ajudaria, segundo a pesquisa, a manter níveis normais de cálcio no cólon, o que desacelera o crescimento de células não-cancerosas, mas de alto risco.

Outros estudos, incluindo a relação entre a vitamina D e os cânceres de fígado, mama e próstata, sugerem que há razões para acreditar que a baixa vitamina D estimula a disseminação de células cancerígenas.

E, pela lógica, ingerir o suplemento poderia prevenir o câncer. Mas uma recente meta-análise falhou em estabelecer a relação entre o suplemento e a redução do risco de câncer.

D de depressão
Outra condição frequentemente discutida quando o assunto é vitamina D é o transtorno afetivo sazonal (SAD, na sigla em inglês), um distúrbio do humor causado pela queda sazonal da exposição ao sol. A relação entre a exposição ao sol e o SAD está bem estabelecida.

Também nesse caso, porém, uma ligação direta com a vitamina D tem sido difícil de comprovar.

Evidências sugerem que existe uma relação entre o SAD e a vitamina D, já que o composto está associado com os níveis de serotonina, um importante regulador do humor, e a melatonina, que regula o sono. Baixos níveis desse hormônio poderiam contribuir para os sintomas da SAD.

Mas pesquisadores ainda precisam conduzir um ensaio clínico randomizado definitivo sobre essa relação.

Além disso, o mecanismo exato pelo qual a vitamina estimula o hormônio é desconhecido. Uma teoria é que os receptores da vitamina D – encontrados em várias partes do cérebro e concentradas no hipotálamo, uma região relacionada ao sistema circadiano – tem influência no controle dos níveis hormonais do corpo.

Pesquisas mostraram ainda que a vitamina D tem um grande papel em nossa saúde mental, como na depressão e esquizofrenia, assim como no desenvolvimento do cérebro, mas não se sabe como isso ocorre.

Uma meta-análise publicada no início do ano mostrou que, embora exista uma correlação entre baixos índices de vitamina D e depressão, isto não significa que, necessariamente, o composto cause depressão.

É possível, por exemplo, que pessoas deprimidas simplesmente saiam menos e, portanto, se exponham menos à luz do sol.

A influência do sol
Mas, se estudos são inconclusivos, isto talvez não tenha relação com a importância da vitamina D. Talvez isso ocorra porque a maioria das investigações se baseia em suplementos, e não na luz do sol.

Alguns cientistas argumentam que obter vitamina D a partir de suplementos não é tão eficaz quanto absorvê-la diretamente do sol, já que o processo que acontece antes que o corpo produza vitamina D a partir da exposição solar é mais benéfico. Pesquisas mais conclusivas sobre isto estão sendo realizadas.

Ainda assim, a maioria dos especialistas tende a concordar que os suplementos de vitamina D podem beneficiar aqueles que têm níveis muito baixos do composto.

A pesquisa Martineau sugere que indivíduos com níveis muito baixos de vitamina D têm mais benefícios no uso do suplemento para prevenir doenças respiratórias, enquanto que os efeitos são bem mais modestos para indivíduos com níveis apenas moderadamente baixos.

Reid reforça que estudos têm mostrado benefícios para aqueles com baixos índices de vitamina D. Mas, como a maioria não tem deficiência, elas não veriam benefícios na ingestão do suplemento.

O problema é que não é fácil prever quem tem risco de sofrer com baixa vitamina D. Como a historiadora médica Roberta Bivins, da Universidade de Warwick, ressalta, a quantidade de vitamina D não depende apenas do tempo que a pessoa passa ao ar livre.

“É muito individual o quanto de exposição ao sol uma pessoa precisa durante o verão, depende desde a pigmentação da pele à quantidade de gordura no corpo e o quão rápido seu corpo produz um osso novo. É incrivelmente complicado”, ela diz.

É por isso que a melhor forma de estabelecer se você tem baixa vitamina D não é apenas pelos sintomas, mas por um exame de sangue prescrito pelo médico.

Níveis de suplementos
A partir daí, a outra questão é estabelecer o nível de suplementação que cada pessoa precisa. Reid diz que “não há perigo” de tomar vitamina D sem receita médica em menos de 25 nanomols (nmol) por dia – pessoas com deficiência da substância têm níveis abaixo de 30 nmol/l.

Mas com suplementos oferecendo doses altas como 62,5 microgramas sem receita, há preocupações sobre o risco de ingestão excessiva de vitamina D, o que pode, em casos raros, causar efeitos colaterais, incluindo náusea e vômito.

Em longo prazo, alguns estudos sugerem que o excesso de vitamina D pode aumentar o risco de doença cardiovascular, embora a pesquisa não seja conclusiva.

Outros argumentam, porém, que até mais vitamina D é necessária. Em 2012, a diretora-médica do Reino Unido (cuja função é aconselhar o governo em questões de saúde), Sally Davies, escreveu uma carta a clínicos gerais pedindo que eles recomendassem suplementos de vitamina D a todos os grupos de risco e afirmando que uma “proporção significativa” das pessoas no país provavelmente tem níveis inadequados de vitamina D.

Em junho de 2018, pesquisadores do Instituto de Metabolismo e Pesquisa de Sistemas, da Universidade de Birmingham, afirmaram que a morte de um bebê por falência do coração causada por deficiência grave de vitamina D e sérias complicações de saúde em outros dois bebês era apenas “a ponta do iceberg” nas deficiências da vitamina D entre os grupos de risco.

Suma Uday, coautora do artigo e doutoranda da universidade, diz que essas deficiências ocorrem porque os programas infantis de suplementação de vitamina D são mal implementados e não são monitorados no Reino Unido.

“Nas crianças que descrevemos, a deficiência ocorreu porque a suplementação de vitamina D não foi recomendada ou monitorada. Qualquer criança desprovida de vitamina D por períodos prolongados pode desenvolver baixos níveis de cálcio, o que pode resultar em complicações potencialmente fatais, como convulsões e insuficiência cardíaca”, diz ela.

Com esses resultados conflitantes, não é surpresa que os próprios especialistas médicos tenham visões bastante divergentes sobre os benefícios da suplementação disseminada.

Alguns chegam a argumentar que os interesses escusos estão sustentando a indústria bilionária da vitamina. E Spector chega a chamar o suplemento de vitamina D uma “pseudo-vitamina para uma pseudo-doença”.

Enquanto o debate continua, muitos especialistas estão de olho no Hospital Brigham and Women’s, afiliado da Escola Médica de Harvard, em Boston. Seus pesquisadores conduzem o aguardado teste clínico VITAL, que investiga se suplementos de vitamina D e ômega 3 têm algum efeito sobre câncer, derrame e doenças do coração em 25 mil adultos.

Espera-se que esses resultados, previstos para serem publicados no final deste ano, levarão o debate rumo a uma resolução

 

EUA proíbem 7 sabores artificiais encontrados em sorvetes e doces


O FDA (Food and Drug Administration), órgão equivalente à Anvisa no Brasil, proibiu sete aditivos artificiais, a maioria dos quais são comumente encontrados como ingrediente artificial de sabor em sorvetes embalados, chicletes, assados e doces.

Seis dos ingredientes foram retirados por terem causado câncer em animais de laboratório em alguns estudos – são elas a benzofenona, acrilato de etila, éter eugenilmetílico, mirceno, pulegona e piridina – são comumente usados como imitações de menta natural, cítricos e sabores de canela. Já uma sétima substância foi excluída apenas por não estar mais sendo usada pela indústria de alimentos.

A benzofenona, por exemplo, foi encontrada em cereais matinais, produtos de panificação e produtos lácteos congelados, enquanto o pulegona é usado como aroma de hortelã em balas e gomas de mascar.

“Embora a recente avaliação da exposição dessas substâncias não indique que elas representem um risco para a saúde pública sob as condições de seu uso pretendido, os peticionários forneceram evidências de que essas substâncias causaram câncer em animais que foram expostos a doses muito mais altas”, concluiu o FDA em um comunicado de imprensa.

Pode parecer uma proibição estranha, se o risco só ocorre em altas doses, mas a FDA tem uma regra desde 1958 que nenhum aditivo alimentar que cause câncer em humanos ou animais em qualquer quantidade poderia ser aprovado por eles.

Os dados apresentados pelas organizações de defesa na petição original de 2015 foram baseados em estudos como o relatório de toxicologia publicado na Série de Relatórios Técnicos do Programa Nacional de Toxicologia em 2006.

O estudo relacionou o consumo de benzofenona em ratos ao aumento da incidência de leucemia, sarcoma histiocítico como problemas renais e hepáticos.

Com base nesses resultados, o FDA está proibindo ainda mais a benzofenona para uso em embalagens de produtos plásticos.

Até que os fabricantes de produtos que atualmente usam esses ingredientes como imitadores de aromas naturais encontrem substitutos artificiais adequados, eles são encorajados a usar menta natural, canela e frutas cítricas.