DF registra primeira morte por chicungunha

Caso foi notificado em Sobradinho. Este ano, ocorreram 153 contaminações na capital federal, um aumento de 800% em relação ao ano passado. Doença causa fortes dores articulares e pode deixar graves sequelas
» OTÁVIO AUGUSTO
Publicação: 04/12/2016 04:00
Para especialistas, a única forma de controlar as doenças transmitidas pelo Aedes é combatendo o mosquito (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
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Para especialistas, a única forma de controlar as doenças transmitidas pelo Aedes é combatendo o mosquito

A duas semanas do início do verão, em 21 de dezembro, autoridades sanitárias estão em alerta para as infecções transmitidas pelo Aedes aegypti. O mosquito volta a causar temor e traz novas nuances: a chicungunha, segundo pesquisadores, pode provocar uma grande epidemia no país. A capital federal contabiliza três anos de alta nos registros da doença. O crescimento chega a 800% entre 2015 e 2016. A Secretaria de Saúde confirmou a primeira morte pelo mal no Distrito Federal. Outra situação ilustra o agravamento do problema. Um paciente tenta se aposentar por complicações crônicas desencadeadas pela chicungunha. Ao mesmo tempo, a dengue e o zika deixam panorama ainda mais pessimista — nunca ocorreram tantas contaminações.

Seis regiões administrativas concentram 55% dos casos de chicungunha, uma doença que chegou ao DF em 2014 de maneira discreta. Ocorreram, neste ano, 153 infecções, sendo 22 em Ceilândia (veja infográfico). Das bancadas do Laboratório Central (Lacen) e das estatísticas da Vigilância Epidemiológica, surge somente uma saída para frear o avanço dos estragos causados pelo Aedes: a prevenção. Para isso, é essencial destruir focos nos quais o mosquito possa se desenvolver. “Não temos alternativas, a não ser combater o vetor, ou seja, o mosquito. Para termos diminuição de casos das doenças, precisamos reduzir também a presença do Aedes”, pondera a gerente de doenças crônicas e agravos transmissíveis da Secretaria de Saúde, Cristiane Resende.

O homem que morreu com complicações de chicungunha recebeu atendimento em Sobradinho. Na cidade, foram registrados nove casos — alta de 350% em relação ao ano passado, quando ocorreram duas notificações. “O dado ainda não está no Boletim Epidemiológico, mas entrará na próxima edição. Confirmamos o óbito há pouco mais de uma semana. Houve uma investigação, mas o local de infecção é desconhecido”, comenta Cristiane. Ela prefere não fazer previsão para a doença em 2017. “Trabalhamos com vigilância e registro de casos, não podemos fazer previsões”, pontua.

Um outro paciente — que não teve a identidade divulgada — entrou com pedido de aposentadoria no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ele alega que desenvolveu danos nas articulações e ficou impossibilitado de trabalhar. O caso é investigado por uma junta médica e pelo Lacen. A farmacêutica especialista em biosaúde do Lacen Graziela Araújo acompanha a apuração no laboratório. “Há, realmente, a possibilidade de se desenvolver dores crônicas. Algumas pessoas, meses depois, nem sequer conseguem digitar no celular”, detalha.

Alerta
A ciência explica que alguns vírus, como os da dengue, da chicungunha e do zika, alastram-se com facilidade porque os mosquitos se contagiam ao picar animais infectados, como os macacos e os pássaros silvestres. Atualmente, são conhecidos 34 arbovírus no país. Os cientistas os classificam de acordo com o tipo de síndrome febril que provocam e a gravidade dos acometimentos. “Em média, levamos três dias para fazer o diagnóstico da doença. Analisamos, laboratorialmente, a presença do vírus quando a chicungunha está no início ou na produção de anticorpos, após a fase aguda da infecção. Por isso, a necessidade de atendimento precoce”, explica Graziela.

Antônio Bandeira, do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), destaca a alta velocidade de transmissão que a chicungunha tem mostrado. Ele analisou a situação epidemiológica do DF. “Espera-se uma mortalidade menor, mas a doença é extremamente incapacitante. Mais da metade dos pacientes ficam com problemas crônicos. Uma verdadeira legião de sequelados”, ressalta. E emenda. “O vírus pode se multiplicar e trazer alterações imunológicas, desenvolvendo anticorpos que agridem o corpo e provocam a inflamação”, conclui.

Casos importados

As primeiras infecções no DF ocorreram em 2014. Inicialmente, quatro pessoas tiveram chicungunha. O vírus, segundo a Secretaria de Saúde, foi trazido da República Dominicana, do Haiti e de Barbados (ilha na América Central). Três moradores da Asa Sul, sendo um casal, e um do Lago Norte foram os contaminados. Entre os pacientes, estava uma missionária religiosa. O tratamento, à época, ocorreu no Hospital Regional da Asa Norte.

Mayaro no Entorno

A Secretaria de Saúde de Goiás confirmou um caso de mayaro em Luziânia, distante 50km do Plano Piloto. A doença trilha caminho para ser o próximo vírus a se urbanizar e causar epidemias. Assim como o zika e a dengue, o “parente próximo” da chicungunha causa surtos de uma síndrome febril aguda, que causa dor nas articulações, tontura, náuseas, fotofobia e dor lombar. Os sintomas duram de três a cinco dias, mas as dores na articulação podem se prolongar por semanas. Em Goiás, do ano passado até o início de março, a Secretaria de Saúde notificou 70 casos da doença. O Laboratório Central (Lacen) passou a realizar o diagnóstico há duas semanas. Antes, o teste era feito somente no Instituto Evandro Chagas, no Pará.

Para saber mais

Epidemia devastou ilha

Tudo começou em fevereiro de 2005. Médicos alertaram as autoridades sanitárias de que pacientes estavam sentindo fortes febres, acompanhadas de dores articulares agudas. A Ilha Reunión, no Oceano Índico, decretou a epidemia de chicungunha em 2006. Mais de 260 mil pessoas tiveram a doença, sendo que 225 morreram. O lugar, que era roteiro paradisíaco para o ecoturismo, deu lugar a uma onda de ostracismo e pânico. A economia local desacelerou bruscamente. Em alguns distritos, até mesmo os médicos adoeceram. No início da epidemia, os profissionais confundiam o diagnóstico com uma “forte gripe”. Mais tarde, a luta contra o vírus se tornou causa nacional. Os casos de “l’homme courbé” (na África, chicungunha significa homem que se curva, em referência à postura dos pacientes) foram a maior crise de saúde pública em Ilha Reunión. Depois disso, o número de casos diminuiu drasticamente.

Dengue e zika preocupam

Publicação: 04/12/2016 04:00
Pedro Tauil, especialista em controle de doenças e epidemiologia: essas doenças carecem de aprimoramento de diagnóstico, tratamento e prevenção (Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Pedro Tauil, especialista em controle de doenças e epidemiologia: essas doenças carecem de aprimoramento de diagnóstico, tratamento e prevenção

Temendo perder completamente o controle da situação com o avanço da dengue e do zika, doenças que registraram recorde de infecções em 2016, a Secretaria de Saúde acompanha semanalmente a evolução dos casos. A dengue nunca infectou tanto na capital federal: são 21.162 notificações. O zika acometeu 174 pessoas, sendo 26 gestantes. A doença avançou 4.250% em um ano. Dois bebês morreram com agravos do mal e um caso continua em investigação. “Temos que acompanhar essas crianças até os 3 anos. Pode haver casos de microcefalia tardia”, argumenta a gerente de doenças crônicas e agravos transmissíveis da Secretaria de Saúde, Cristiane Resende.

O cronograma de combate ao Aedes aegypti da Secretaria de Saúde conta com 2 mil agentes comunitários de saúde, 546 agentes de vigilância ambiental em saúde, 220 homens das forças armadas, 40 bombeiros, além do reforço de servidores do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e das administrações regionais. Mesmo com o esforço, Antônio Bandeira, do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), é pessimista em relação ao controle. “Se houver uma redução de casos, nada tem a ver com ação direcionada. O que pode acontecer é que o número de pessoas imunizadas aumente e as vulneráveis diminua, já que chicungunha e zika se contraem apenas uma vez”, completa Antônio.

Este ano, por dia, o DF registrou 63 novos casos de dengue — média inédita, superando até mesmo as epidemias de 2010 e de 2013. O crescimento da doença chega a atingir 978% ante o ano passado, como em Brazlândia, que saltou de 180 casos para 1.942. Para Pedro Tauil, do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade Brasília (UnB), os números deixam um legado. “Essas são doenças que carecem de aprimoramento de diagnóstico, tratamento e prevenção. Precisamos investir na possibilidade de vacina. O tratamento atual é muito difícil, com uso de antivirais, drogas que não temos muitas para usar”, avalia o especialista em controle de doenças e epidemiologia.
Site: www.correiobraziliense.com.br

Ameaça à saúde no Lago Paranoá

Problemas podem variar de alergias a doença mais grave no fígado. Ibram e Adasa prosseguem investigação sobre proliferação de cianobactérias
» THIAGO SOARES
Publicação: 04/12/2016 04:00
Peixes mortos foram retirados do local interditado. Também era possível encontrar detritos ao longo da margem (Carlos Vieira/CB/D.A Press – 21/11/06)
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Peixes mortos foram retirados do local interditado. Também era possível encontrar detritos ao longo da margem
Autoridades continuam a investigar as causas da proliferação de cianobactérias no Lago Paranoá. Equipes do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) rastreiam dutos pluviais a fim de identificar vestígios de lançamento de esgoto diretamente na água. No entanto, até o momento, nada foi detectado. Além de acarretar mortes de peixes, a contaminação pode afetar a saúde dos banhistas e de quem consome animais pescados no local. As consequências podem ser desde simples alergias até problemas mais severos no fígado. Por isso, enquanto a causa do problema na água não for detectada, os banhos e a pesca continuam suspensos por tempo indeterminado no trecho entre o Pontão do Lago Sul e a foz do Riacho Fundo.

Os órgãos garantem que o restante do lago não está contaminado e que também não existe possibilidade de expansão das cianobactérias. Leonardo de Lima, 75 anos, chegou a Brasília na época da construção da barragem e já tirou dali muitos peixes. Próximo da Ponte das Garças, um dos locais apontados como impróprios para a pesca, o funcionário público pratica o esporte. Foi de lá também que, em 16 de novembro, equipes do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) retiraram 70 sacos de peixes mortos.

Leonardo de Lima costuma pescar na região e lamenta a situação:

Leonardo de Lima costuma pescar na região e lamenta a situação: “É muito triste ver o lago dessa maneira”
“É uma situação triste ver o lago dessa maneira. Vi muitos peixes mortos por aqui. Está melhorando um pouco, mas ainda não é ideal. Esse peixe daqui, eu não consumo, apenas pesco por lazer. Vejo isso tudo como parte de um abandono do nosso lago. É possível ver muito lixo nas margens”, reclama Leonardo. Nas margens onde ele pesca, a cada 5 metros, é possível ver peixes mortos. Antes da proliferação da cianobactéria, ele conta que pegava peixes em poucos minutos. Agora, quem pesca por ali precisa esperar um bom tempo até ter sucesso.

Cuidado
Os riscos da presença das cianobactérias nas águas podem ser diversos, segundo a doutora em microbiologia Janaina Rigonato, especialista em cianobactéria do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (USP). “Em condições de floração, que é quando ocorre essa proliferação, elas liberam uma toxina que pode acometer peixes e outros animais que consomem essa água”, detalha. Segundo ela, isso pode explicar a grande mortandade de espécies. A cianobactéria também pode ser prejudicial à saúde humana. “Elas podem acarretar desde reações alérgicas, afetar os órgãos nervosos e até provocar problemas nos rins. O ideal é que, uma vez detectada a presença de cianobactérias em reservatórios, lago ou rio, seja interrompida qualquer atividade no local, seja banho, seja pesca, seja captação, até que os níveis voltem ao normal.”

A especialista explica ainda que esses microrganismos estão presentes usualmente em ambientes aquáticos, mas dentro de uma proporção aceita pelo Ministério de Saúde. A proliferação em excesso configura o problema. As causas podem ser o lançamento de esgoto irregular ou o escoamento de produtos agrícolas no solo, por exemplo. “Esses lançamentos aumentam a produção de nitrogênio e de fósforo nas águas, o que acarreta um fenômeno chamado de floração, que é quando ocorre um crescimento exagerado das cianobactérias. A consequência é água em tom esverdeado e até com bolhas e também a morte de peixes, devido à baixa de oxigênio no local”, relata Janaina.

Na avaliação do doutor em recursos hídricos da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Koide, a situação do Lago Paranoá é consequência da ocupação urbana desordenada na capital do país. “Houve crescimento de áreas habitacionais e, com isso, o lançamento de esgoto e ligações clandestinas no espelho d’água e em seus afluentes, como o Riacho Fundo e o Córrego Bananal. É preciso investimento e controle dessas expansões ao longo da bacia do Paranoá”, afirma.

O superintendente de estudos e monitoramento do Ibram, Luiz Rios, detalhou que a mancha tem diminuído significativamente com as últimas chuvas. “Não quer dizer que o problema foi superado. O lago aumentou o nível em seis centímetros, e isso também ajuda na diminuição da matéria orgânica. Estamos monitorando toda a extensão e não há risco de que a área contaminada aumente, pelo contrário, a tendência agora é diminuir”, disse.
Esporte comprometido

» GLÁUCIA CHAVES
Publicação: 04/12/2016 04:00
A contaminação do lago por cianobactérias tem afetado a prática de esportes no local e, consequentemente, os pequenos negócios que funcionam às margens. O microempreendedor Rafael Sampaio, 29 anos, é idealizador do projeto Surf do Cerrado e participou do protesto de cerca de 20 surfistas e outros esportistas em 25 de novembro na Praça do Buriti, para cobrar do governo de Brasília providências para a despoluição. Ele e o sócio Sérgio Marques, 36, têm amargado manhãs solitárias. São poucos os interessados em aprender a surfar ou a praticar Stand Up Paddle (SUP). Antes da divulgação do boletim sobre as algas do lago, ele conta que atendia, em média, 200 pessoas por sábado. “Diminuiu bastante o número de pessoas. Até aquelas do nosso círculo do esporte estão deixando de vir. A situação está bastante preocupante”, comenta Rafael.

Os dois mantêm a base de atividades próximo à Ponte das Garças, um dos locais apontados pela Adasa e pelo Ibram como perigosos para banho. “Todos que dependemos do lago de alguma forma estão tendo prejuízos”, lamenta. “O que podemos fazer é cobrar dos responsáveis soluções imediatas, para não deixar o problema se agravar. Até agora, não tem nenhum trabalho em prol da limpeza. Em vez disso, só colocaram placas de proibido nadar”, completa.

Mesmo com as placas de sinalização, algumas pessoas se arriscavam nas águas do Paranoá. O mecânico Eduardo Ximenes, 31 anos, testava o motor de seu jet ski. “Sempre venho ao lago e notei que a tonalidade da água está bem mais escura”, comenta. “Perto da ponte, tem muitos peixes mortos. Quando você anda na margem, sente um mau cheiro também”, diz.

Os amigos dele Daniel Assis Sales, 32, e o técnico em segurança do trabalho Diego Costa Oliveira, 34, não tiveram coragem de entrar no lago e acompanharam de longe. Para Daniel, não foi só a má qualidade da água que afastou os visitantes, mas também a falta de estrutura da orla. “Aqui em Brasília é tudo mal fiscalizado. Isso (a poluição do lago) é só mais uma consequência da má administração.”

De acordo com o instrutor de SUP Jackson Sousa, 40, a diminuição do público se deu, também, devido ao período de chuvas. “Só as chuvas já diminuem naturalmente a quantidade de pessoas. Coincidiu, infelizmente, com esse laudo”, avalia. O microempreendedor Lucas Duarte, 18, também notou a queda de clientes. Ele acredita que falta informação sobre a realidade do lago. “O público acha que o lago inteiro está afetado, mas não está. Agora, é tentar correr atrás do prejuízo, porque não tem como não usar o local, ele é para todos.”

Chicungunha: mortes entre jovens preocupam

Diretor da Fiocruz de Mato Grosso do Sul, o infectologista estuda o avanço da letalidade da doença. A instituição do Rio fará um seminário sobre o assunto na quinta e na sexta-feira

Por que devemos nos preocupar com a Chicungunha no próximo verão?
Não é uma doença tão banal quanto imaginávamos. É preocupante, porque está matando quase tanto quanto a dengue. Antes, os especialistas diziam: “a dengue mata, a chicungunha aleja e a zika causa má-formação”. Hoje a gente vê que tanto dengue quanto chicungunha matam. E que zika não causa só microcefalia.
E o Rio pode ter uma epidemia?
Se eu já tive contato com o vírus da chicungunha, não terei novamente a doença. É uma vacinação natural. Como a circulação do vírus no Sudeste, de um modo geral, foi muito pequena no verão passado, significa dizer que o percentual da população que foi imunizada também é baixo. Ou seja: a quantidade de pessoas suscetíveis a adquirir a doença, uma vez infectadas, é muito grande. Nosso risco é que a epidemia em curso em 2016, que deu uma arrefecida nos meses mais secos e frios, retorne com uma carga maior no verão, com a chegada das chuvas e do calor, em especial no Rio.
Por que a febre chicungunha está matando tanto?
Se a gente descobrir, vai aliviar nossas consciências e preocupações. Ainda não sabemos.
E para qual parcela da população há maior risco?
Sabemos que o risco é maior para pessoas idosas e portadoras de alguma doença de base, de problema cardíaco ou renal. E descobriu-se também que recém-nascidos adquirem a doença da mãe nos últimos dias de gestação. Se a mulher grávida tem chicungunha a uma semana, cinco dias, três dias de o bebê nascer, a probabilidade de a criança nascer com a doença é muito grande. E tendem a ser casos graves. Mais ou menos 50% desses bebês costumam ter chicungunha em formas graves. Uma parcela substancial vai a óbito.
Então o risco é maior para os mais velhos e para grávidas?
Só que estamos observando no Brasil um perfil também adicional de pessoas morrendo na faixa de 20 a 30 anos, sem história alguma de doença de base. Não temos explicações ainda. Estão sendo feitos levantamentos. Algumas observações mostram que boa parte desses jovens morre de insuficiência renal aguda. Embora não tivessem anteriormente relato de doença renal.
Pode ser alguma complicação durante o tratamento?
A gente sabe que o vírus na fase aguda se multiplica em vários órgãos do nosso corpo, como coração, pulmões e rins. Não sabemos se ele é potencializado ou não por uma predisposição familiar ou genética que não tinha aflorado ainda, e por isso não havia relato de doenças anteriores (naquele paciente), ou simplesmente potencializado por uma medicação que sabidamente pode complicar os rins, por exemplo, como os anti-inflamatórios. O Ministério da Saúde tem acompanhado isso.
Só é possível ser contaminado pela picada do “Aedes aegypti”?
A pessoa adquire chicungunha principalmente, mas não exclusivamente, por meio da picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti. Há relatos de suspeita de transmissão pela transfusão sanguínea. Há detecção de material genético do vírus chicungunha em amostras de sangue de doadores saudáveis, sem quaisquer manifestações clínicas. O percentual dos infectados que desenvolvem a manifestação clínica da doença é sempre muito elevado, pelo que tem sido documentado até agora. Ao contrário da zika, em que há relatos de que somente de 20% a 25% desenvolvem alguma manifestação clínica, na chicungunha, de 70% a 80% das pessoas, uma vez infectadas, desenvolverão uma manifestação clínica.
Quais são estas manifestações clínicas?
Cem por cento dos doentes têm febre alta, de início agudo, quase sempre acompanhada de dores e inchaço nas articulações, de pés, tornozelos, punhos, mãos e cotovelos. Há um percentual de doentes, que varia de epidemia para epidemia, com manifestações cutâneas, principalmente no tronco, acompanhadas de coceiras. No caso de crianças, o comprometimento dermatológico pode surgir na forma mais grave, com lesões vesiculares e bolhosas, que podem infectar. Recentemente, têm sido catalogadas uma frequência cada vez maior de algumas formas atípicas, como casos de comprometimento cardíaco agudo, do sistema nervoso central, oftalmológico, meningoencefalite e insuficiência renal aguda.
Como diferenciar a febre chicungunha da dengue, por exemplo, já que nos dois casos há febre alta e dores?
A diferença fundamental é que na chicungunha as dores articulares são de tamanha intensidade que podem impedir a pessoa de levantar-se da cama sozinha e pentear os cabelos. As dores da dengue são mais musculares.
Por quanto tempo a pessoa pode ficar sentindo estas dores?
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A doença dura, dependendo da idade do doente, de seis a oito meses. Acima dos 45, 50 anos, a pessoa fica de seis a oito meses convivendo com as dores. Tem gente que fala: “doutor, nunca mais eu fui igual”. Isso um ano depois. Infelizmente, quanto mais velho, pior.

Casos de meningite crescem 75% no DF

Nos primeiros meses de 2016, houve 14 infecções e seis mortes. Desde que a vacina passou a ser disponibilizada no SUS, a doença vinha numa tendência de queda. Mas a Vigilância Epidemiológica nega que haja surto. Em 2017, haverá mudança na imunização

» OTÁVIO AUGUSTO
Infectologistas do Lacen fazem análise das amostras de pacientes para confirmar a infecção (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press – 18/12/15)
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Infectologistas do Lacen fazem análise das amostras de pacientes para confirmar a infecção

O ano nem acabou e a capital federal já superou em 75% o número de casos de doença meningocócica, a meningite, em relação a todo o ano passado. Até novembro, 14 pessoas tiveram a doença e seis morreram. Em 2015, ocorreram oito infecções e sete mortes. Essa é a primeira alta em três anos (leia Alerta). A Secretaria de Saúde nega que o DF viva um surto. A Vigilância Epidemiológica, porém, está alerta e acompanha a situação, atualizando os dados semanalmente. Em 2017, haverá alteração no calendário vacinal do Sistema Único de Saúde (SUS) a fim de frear o avanço da doença.

O mapeamento das autoridades sanitárias mostra uma concentração de casos em pessoas entre 10 e 19 anos e em crianças menores de 1 ano. As investigações, segundo a Vigilância Epidemiológica, não comprovam a ligação entre os casos. Regiões administrativas como Estrutural, Gama e Riacho Fundo notificaram dois casos cada uma. Ceilândia, Sobradinho e Lago Norte também registraram uma situação cada. A doença meningocócica tem início abrupto e evolução rápida, podendo levar ao óbito em 24 a 48 horas.

A infecção das meninges (membranas que envolvem o cérebro e a medula) pode ser provocada por vírus, mas a forma mais comum é causada por uma bactéria — o meningococo. O período de incubação é, em geral, de dois a 10 dias — em média, de três a quatro dias. O Boletim Epidemiológico de Doenças Imunopreveníveis emitido pelo governo garante que nos últimos anos houve redução da variação mais letal. Pelo menos na última década não houve surto. As amostras dos pacientes infectados são encaminhadas ao Laboratório Central (Lacen) para confirmação dos casos. Lá, infectologistas identificam o tipo da doença e encaminham os resultados para a Vigilância Epidemiológica.

Os sintomas iniciais são febre alta, náuseas, vômitos e rigidez dos músculos da nuca. O doente não consegue encostar o queixo no peito e deve ser hospitalizado imediatamente. Como é transmitida por espirro, tosse ou fala, é importante a notificação. Os corpos das vítimas passam por quimioprofilaxia — procedimento realizado para evitar que a bactéria, altamente contagiosa, espalhe-se pelo ambiente. “É uma doença difícil de diagnosticar. As manifestações iniciais podem ser confundidas com uma infinidade de outras doenças”, ressalta a gerente de Vigilância Epidemiológica, Priscilleyne Reis.

Este ano, a Secretaria de Saúde publicou um alerta para o aumento de casos de doença meningocócica no Distrito Federal. O documento ressalta a predominância do sorogrupo C — ao todo, são 13 tipos e cinco são os mais frequentes —, além do reaparecimento do sorogrupo B. O texto ressalta o aumento dos casos. O alerta foi publicado em maio. “Naquele período, observamos um aumento acima da média, mas não há motivo para pânico. A doença está sob controle”, argumenta Priscilleyne.

Imunização

A meningite é uma doença respiratória. Há casos em que a pessoa tem a bactéria na garganta, mas que não desenvolve a infecção. Mesmo assim, são transmissoras. No primeiro ano de cobertura vacinal, o governo percebeu um recuo de 50% dos casos. No ano que vem, a faixa etária entre 12 e 13 anos também vai receber doses do imunobiológico Meningo C. “Esse é o grupo que está tendo o maior número de situações”, detalha a gerente de Vigilância Epidemiológica.
Há seis anos a vacina disponibilizada no SUS reduziu o número de doentes. No período, a doença meningocócica fez 123 vítimas. Entretanto, no ano passado houve falhas na vacinação (veja Memória). “Na prevenção, trabalhamos o alerta. Se tiver um atendimento rápido e uma boa suspeita clínica, o paciente fica bem. A vacina entrou no calendário anual em 2010 e a gente vem tendo uma redução dos casos”, pondera.

Memória

Os problemas da imunização

Na edição de 29 de outubro de 2015, o Correio denunciou a falta de vacinas nas redes pública e particular da capital federal. Entre as que estavam em escassez, a Pentavalente, a Hexavalente e a Meningo B, que protegem da meningite e outras infecções. Na época, a justificativa seria problemas na fabricação por falta do princípio ativo. O problema se arrastou por pelo menos seis meses. O Executivo local, desde então, assegura o abastecimento atual da rede.

Alerta

Entre 2010 e o ano passado, 123 pessoas tiveram meningite no DF

Ano Casos
2010 43
2011 21
2012 18
2013 20
2014 13
2015 8
2016* 14

*Até novembro
Fonte: Secretaria de Saúde

Brasileiros desenvolvem cadeira de rodas que pode ser controlada com a face

Equipe da Universidade Federal de Uberlândia desenvolve equipamento que se locomove a partir de estímulos enviados pelo movimento dos olhos ou dos músculos da face do usuário

image002-1postado em 04/10/2016 07:00
UFU/Divulgação
Criadores do dispositivo motorizado: testes feitos com seis pacientes

Belo Horizonte — Atividades simples do dia a dia, como ir ao supermercado ou ao trabalho, podem se tornar uma tarefa árdua para quem usa cadeira de rodas. Mas se tornam quase impossíveis quando não se consegue manusear uma. Além das dificuldades do trajeto, há cadeirantes que — seja por uma doença ou um trauma, seja por outro tipo de comprometimento — precisam de alguém que empurre o equipamento. Pensando em facilitar a vida dessas pessoas, o professor de engenharia biomédica Eduardo Lázaro Martins Naves, que coordena o Núcleo de Tecnologias Assistivas (NTA) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, desenvolveu com alunos de graduação e pós-graduação uma cadeira de rodas controlada pelos músculos da face ou pelo movimento dos olhos.

Segundo o professor, os dispositivos foram pensados e construídos com o objetivo de ajudar pessoas que não conseguem se movimentar com as pernas e não têm força ou coordenação motora para manipular um joystick (tipo de controle acoplado a cadeiras com motor). “Para se movimentar, o músculo recebe sinais elétricos, que são como estímulos. Para a ativação da cadeira, colocamos eletrodos nos músculos do rosto do paciente, e, assim, ele consegue se locomover”, explica. No caso do acionamento pela movimentação dos olhos, um sensor que capta a direção do globo ocular é acoplado à cadeira, e um computador faz a conexão entre o sensor e o motor do equipamento. Esse equipamento foi testado por seis pacientes, incluindo crianças e idosos.

Coordenador do projeto enfatiza a importância de resguardar a segurança dessas pessoas. Segundo ele, são feitos treinamentos com simuladores. Quando o paciente se mostra adaptado, é transferido para a cadeira real. Dispositivos anticolisão desligam o motor se o equipamento ficar a 40cm de um obstáculo. Questionado sobre a possibilidade de produção em larga escala das cadeiras, o professor se mostra confiante: “Acredito que os dispositivos têm potencial para ser replicados e produzidos em maior número, mas é preciso interesse e investimento dos fabricantes”, afirma.

Superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD), Teresa Amaral avalia o projeto como uma boa iniciativa para a independência dos cadeirantes. Porém, segundo ela, é preciso pensar de que forma esse dispositivo será disponibilizado, principalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Parece um projeto muito bom, mas o governo tem dificuldades em distribuir cadeiras convencionais. Então, acredito que levará um bom tempo para que esta seja produzida em larga escala e distribuída”, afirma.

De frente com o Alzheimer

O Distrito Federal está cada vez mais velho, e a idade é um fator de risco para o mal. Só no ano passado, 76,4 mil atendimentos em unidades hospitalares tiveram relação com a doença. No Brasil, o crescimento foi de 8,7%.

» OTÁVIO AUGUSTO

alzaimer

Jaqueline cuida da mãe, vítima da doença: “Conheço aquela pessoa, mas tenho dificuldade de conviver”
Desorganização do indivíduo. Isso ocorre com o paciente de Alzheimer. O verbo que mais explica a demência é a desaprender. Zélia Coimbra, 84 anos, era professora de inglês e pianista. Vaidosa, não descarta brincos e batom, mas não se lembra de fatos recentes e é incapaz de se situar no tempo. A idosa descobriu a doença em 2009, porém decidiu não contar à família. Durante algum tempo, os sintomas passaram desapercebidos. O esquecimento era tratado como “normal”. Ainda hoje, ela faz cálculos matemáticos com maestria. Quando está no banco do carona, soma a placa dos veículos com ligeireza. Dona Zélia não está sozinha. No último ano, as internações ligadas ao mal avançaram 8,7% no país, segundo o Ministério da Saúde.

A população da capital federal é composta por 10,9% de idosos — faixa etária mais acometida pelo Alzheimer. Em alguns locais, como Asa Sul e Lago Norte, a estatística sobe para 20%, segundo pesquisa da Companhia de Planejamento. O principal fator de risco para a doença é a idade. A magnitude do problema, segundo especialistas, é grande. A tendência é avançar nas próximas décadas. A alta expectativa de vida exige políticas públicas que repensem o modelo atual de assistência à saúde. Somente em 2015 houve nove internações e 76,4 mil atendimentos ambulatoriais no DF relacionados ao Alzheimer, de acordo com levantamento do Ministério da Saúde.

“A memória funciona como uma corrente. O paciente de Alzheimer se lembra de alguns elos, esquece outros e cria alguns deles. Por isso, ele perde a capacidade de se colocar no tempo”, explica o geriatra Otávio Castello, vice-presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Na última quarta-feira, a reportagem acompanhou uma reunião mensal organizada pelo especialista, focada em parentes e cuidadores de pacientes com o mal. “A mentalidade da sociedade não percebe o problema. Não estamos nos preparando para o envelhecimento. Falta financiamento, política pública específica, disseminação de conteúdo”, ressalta Otávio.

Histórias

Cerca de 15 pessoas participaram do encontro na Escola Classe 106 Sul. Sentada próxima à porta de saída, a bibliotecária Jaqueline Coimbra, 56, participava da primeira reunião após o afastamento de um ano. Temerosa, aos poucos começou a falar sobre a mãe, Zélia. “Eu conheço aquela pessoa, mas tenho dificuldade de conviver. Eu não sei o que falar com ela”, explica a moradora da 114 Sul. Durante duas horas, cuidadores, filhos, esposas e netos de pessoas com Alzheimer contam histórias e desabafam. Em comum, a sensação de impotência frente a uma memória que, minuto a minuto, é despedaçada. “Minha mãe não se lembra de muita coisa. A partir disso, os pequenos momentos ganham uma proporção maior. Esses dias, eu pedi que ela fizesse uma massagem no meu pé. E ela revelou um belo talento”, conta Jaqueline, às lágrimas.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) estima que o Alzheimer afete 7,2% da população idosa. Em algumas capitais, como Brasília, o índice chega a 14%. “Aos 60 anos, apenas 2% das pessoas têm a doença. A partir dessa idade, tal prevalência dobra aproximadamente a cada sete anos, a tal ponto que, aos 80 anos, 30% dos indivíduos têm a doença e, aos 90, 50% a desenvolveram”, detalha Norberto Ferreira Frota, coordenador de neurologia cognitiva e do envelhecimento da ABN. “Há 20 anos, a palavra câncer levava o medo. Hoje, é o Alzheimer. Esse medo é porque a doença não tem cura”, frisa.

Atualmente, cerca de 200 pacientes estão cadastrados e recebem medicação para o tratamento na Farmácia de Alto Custo. A falta de informações da Secretaria de Saúde prejudica o monitoramento da doença na capital federal. Apenas 15 especialistas atendem na rede pública. Em 17 das 31 regiões administrativas, não há o serviço. “A fase muito leve do mal passa despercebida e isso é um agravante para o prognóstico. As alterações no cérebro aparecem até 15 anos antes da identificação”, critica Norberto. Ele analisou o cenário a pedido do Correio. “Não existem muitos médicos capacitados para o diagnóstico. Além disso, reabilitações não são oferecidas. Estímulos e cuidados com a depressão, por exemplo, não são ofertados.”

O psiquiatra alemão Alois Alzheimer descobriu o mal em 1906. Após 110 anos, um tema é recorrente: o preconceito. “É essencial manter o respeito com a pessoa. Quando digo que tenho dificuldade de conviver, o medo de magoar ou constranger é maior. Quantas vezes vi a minha mãe fingindo se lembrar de uma pessoa ou participar de uma conversa com frases sem contexto”, conclui Jaqueline.

“A memória funciona como uma corrente. O paciente
se lembra de alguns elos e esquece outros”

Otávio Castello, geriatra

DICAS

PARA VER

Iris (2001)
» História de amor entre a escritora Iris Murdoch — Judy Dench e Kate Winslet, ambas soberbas — e o marido em duas épocas distintas, no frescor da juventude e na velhice, quando ela está com Alzheimer.

Para sempre Alice (2015)
» Alice Howland é uma renomada professora de linguística. Aos poucos, ela começa a esquecer palavras e se perder. Acaba diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a força de sua família.

PARA ACESSAR

abraz.org.br
» Associação Brasileira de Alzheimer — Tratamentos e estudos

alz.org
» Alzheimers Association — Pesquisas científicas
e avanços da medicina

facebook.com/alzheimer.annaizabel
» Alzheimer — Minha mãe tem (Diário de uma idosa com a doença)

PARA LER

Você não está sozinho…
Nós continuamos com você
» Paulo Canineu, 2013

O lugar escuro
» Heloísa Seixas, 2007

Análise da notícia
Viver o hoje é o remédio

» LEONARDO MEIRELES
A idade avança e as idas ao médico se tornam mais constantes e ansiosas. Pressão alta, diabetes, gastrite, câncer, osteoporose. A lista de doenças cresce. Uma delas chama muito a atenção e mexe com a segurança de qualquer ser humano: o Alzheimer. Basta ler a respeito, conversar com parentes de vítimas e ver filmes para perceber que o mal significa ficar preso no próprio corpo, na própria mente. Tudo o que realmente importa na vida — o reconhecimento carinhoso de amigos e familiares e o conhecimento que se acumulou durante todos os anos de experiência —, fica guardado e trancado, sem qualquer possibilidade de fazer uso.

O retardamento dos efeitos é possível. São ações para que qualquer pessoa tenha qualidade de vida por muito tempo: alimentação saudável, exercícios físicos e mentais, cuidar da pressão, do diabetes, do peso, descansar bastante. Existem, porém, algumas dicas dadas por médicos, pesquisadores e especialistas que, em princípio, não parecem surtir efeito de cura, mas que são extremamente práticas. Eles mandam tocar instrumentos musicais, pensar positivamente sobre a vida, rir com amigos e familiares e fazer planos que possam ser cumpridos em um prazo curto.

Há uma razão para os conselhos, um lugar-comum que funciona: viver o hoje. É básico e cruel. Afinal, hoje, você tem memória e consciência. Amanhã, ninguém sabe.

Artigo
por Mario Louzã

A química por trás da doença
Ainda há dúvidas e controvérsias sobre as causas da doença de Alzheimer. Uma das certezas é que a genética é um dos fatores influenciadores. O sistema nervoso central produz uma proteína chamada apolipoproteína E (ApoE). Essa proteína tem algumas sub-formas, e a presença do alelo E4 do gene da apolipoproteína E (ApoE4) é considerado fator de risco elevado para o desenvolvimento da doença. Outros fatores que podem estar envolvidos na doença de Alzheimer é a presença de radicais livres (chamado stress oxidativo), diabetes, traumatismos cerebrais e elevação da homocisteína, um aminoácido presente no sangue que está relacionado com o surgimento de doenças cardiovasculares.

Na doença de Alzheimer, há uma redução importante de um neurotransmissor chamado acetilcolina. A maioria dos medicamentos usados no Alzheimer aumenta a quantidade deste neurotransmissor no cérebro. Esses medicamentos não recuperam o que já foi perdido (ou recuperam muito pouco), mas são úteis para reduzir a velocidade da progressão da doença. Além do tratamento medicamentoso, os cuidados com a saúde física, com a organização do ambiente do paciente e com a aplicação de atividades que auxiliem na memória (leituras, jogos e informações que incentivarão o exercício mental) contribuem para manter a qualidade de vida do paciente.

Mario Louzã é médico psiquiatra, doutor em
pela Universidade de Würzburg, na Alemanha.

Site:www.correiobraziliense.com.br

 

Alerta de H1N1 na Asa Norte

O bairro tem o maior número de casos do Distrito Federal, seguido por Ceilândia. Até agora, o vírus matou 13 pessoas e infectou 163 na capital, apesar da campanha que imunizou 625 mil brasilienses

» OTÁVIO AUGUSTO
Publicação: 05/07/2016 04:00
Maria Creuza mora na 114 Norte:

Maria Creuza mora na 114 Norte: “Uso álcool em gel e lavo bem as mãos”

image001 (1)A Asa Norte concentra 12,8% dos casos de H1N1 da capital federal. É a maior representatividade entre as 31 regiões administrativas. Moradores do local estão preocupados com a escalada do vírus, que atinge 21 pessoas da região. Ceilândia aparece em segundo lugar, com 16 infecções — 9,8% do total de registros do DF. Ao todo, em 2016, 13 pessoas morreram e 163 ficaram doentes. Um óbito está em investigação. Mesmo com a imunização de 625 mil pessoas durante a campanha de vacinação, a Vigilância Epidemiológica alerta que o risco de transmissão existe e é preciso reforçar os cuidados de higiene pessoal.

A Secretaria de Saúde ainda não tem fundamento concreto para explicar a situação epidemiológica da Asa Norte. O perfil demográfico da região, com muitos idosos, pode ser determinante. “Não temos uma explicação plausível, exata para explicar essa concentração de casos. O que existem são hipóteses. Pode ser uma circulação maior em locais com aglomeração de gente, como em shoppings, ou moradores que foram para áreas de grande incidência fora do DF”, afirma a diretora de Vigilância Epidemiológica, Cristina Segatto.
image002 (1)A moradora da 314 Norte Carla reforça a preocupação por causa da filha (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

A moradora da 314 Norte Carla reforça a preocupação por causa da filha

Nas ruas, as pessoas contam casos de gente que teve a doença. Carla Godoy, 42 anos, mora na 314 Norte. A ilustradora tem uma amiga que se contaminou com o vírus H1N1. “Ela trabalha aqui na Asa Norte, mas mora no Jardim Botânico. Todos ficaram muito assustados quando ela recebeu o diagnóstico”, conta. Para atenuar os riscos, ela redobrou a atenção com a limpeza do apartamento, no Bloco I, e passou a usar álcool em gel. “O inverno seco de Brasília deixa o sistema respiratório comprometido. Neste ano, a minha filha Maria Luiza não teve nada, mas fica a preocupação”, reforça a mãe da menina, de 7 anos.

O inverno nem havia chegado e o outono com cara de verão desencadeou o temor da gripe H1N1. No DF, segundo as autoridades sanitárias, 69,9% dos casos são graves e necessitaram de internação em unidades de terapia intensiva (UTI). Entre os casos críticos, 20 ocorreram em menores de 5 anos. No total, 16 gestantes contraíram o vírus. Nas últimas duas semanas, a Secretaria de Saúde informou que houve uma desaceleração das contaminações. “Prevenção é extremamente importante. Temos de manter um nível baixo de H1N1, mantendo cuidados como lavar com frequência as mãos, utilizar lenço descartável para higiene nasal, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, manter os ambientes ventilados e evitar contato com doentes de gripe”, aconselha Cristina.

Alerta
Na casa da professora aposentada Maria Creuza Fernandes, 69, na 114 Norte, ela colocou em prática a Operação Mãos Limpas. “Vacinei-me no início da campanha. Mesmo assim, uso álcool em gel e lavo bem as mãos”, detalha. Na tarde de ontem, Maria caminhava pela comercial da quadra com a filha, a neuropediatra Tânia Virgínia Fernandes, 45. A médica conta que, no início da epidemia, os questionamentos sobre a doença eram mais comuns. “Mesmo não sendo a minha especialidade, os pais perguntavam. Agora, caiu no esquecimento, e esse é o problema. Os cuidados de higiene ficam esquecidos”, lamenta.
“A transmissão ocorre mais agora do que quando começou o surto. O problema atual é a oscilação da temperatura e o ambiente mais seco, que fragilizam as vias aéreas, principalmente para quem tem alergia respiratória. O H1N1 deve ser monitorado pelo potencial de complicações”, alerta a otorrinolaringologista Márcia Voltolini.

A primeira pandeia do século 21 começou em abril de 2009 com o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o aparecimento de casos de gripe H1N1 nos Estados Unidos e no México. Semanas depois, em 7 de maio, o Ministério da Saúde confirmou quatro casos no país. Naquele ano, a capital federal registrou 10 mortes e 668 pacientes. A taxa de mortalidade chegava a 39%, e gestantes e obesos eram os caos mais agudos.

Neste ano, a taxa de letalidade do vírus está maior do que em 2009. “Como era uma doença nova, as pessoas ficaram mais desesperadas. Eu dava plantão em pediatria de pronto-socorro em São Paulo e muitos pais levavam os filhos durante a madrugada. Hoje, há uma tranquilidade maior”, detalha Márcia.

Movimento Brasil Sem Parasitose chega ao DF

Brasília receberá, de hoje a sexta-feira, o Movimento Brasil Sem Parasitose, na Rodoviária do Plano Piloto. Em uma unidade de saúde móvel instalada no estacionamento da plataforma superior do terminal, brasilienses receberão instruções de prevenção da doença e atendimento médico, de 9h às 17h. As consultas são gratuitas. Apesar de ligadas a lugares com pouco saneamento básico, as doenças parasitárias são de fácil transmissão e afetam pessoas de todas as classes. Segundo estudos feitos pela OMS, esses males afetam cerca de 50% da população mundial. No Brasil, o índice é de 36% da população e, considerando somente as crianças, a prevalência sobe para 55,3%. O evento foi idealizado pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e tem como objetivo informar a população sobre os riscos de tais doenças e passar instruções de como evitá-las. No caso de identificação de alguma delas, o paciente será medicado e instruído sobre como conduzir o tratamento mais eficaz. Estimam-se que cerca de 150 pessoas serão atendidas por dia. Para mais informações sobre o movimento, acesse www.brasilsemparasitose.com.br.

Butantan fecha parceria com EUA para desenvolver vacina de zika

Instituto receberá US$ 3 milhões de órgão do governo americano.
Parceria é para desenvolvimento de vacina com vírus inativado.
Mariana Lenharo

Imagem feita com crioscopia eletrônica do vírus da zika (Foto: Universidade Purdue/Divulgação)Imagem feita com crioscopia eletrônica do vírus da zika (Foto: Universidade Purdue/Divulgação)
O Instituto Butantan fechou, na sexta-feira (24), uma parceria com os Estados Unidos e com a Organização Mundial da Saúde (OMS) para o desenvolvimento de uma vacina contra o vírus da zika.

O centro de pesquisa brasileiro deve receber US$ 3 milhões da Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada (Barda, na sigla em inglês), órgão ligado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo americano (HHS), para o desenvolvimento de uma vacina de zika com vírus inativado.

O HHS é o órgão equivalente ao Ministério da Saúde dos EUA.

O investimento faz parte de um acordo já existente entre a Barda e a OMS. Além dos US$ 3 milhões provenientes do órgão americano, a OMS também destinará doações de outros países e organizações privadas para expandir a capacidade de produção de vacinas do Instituto Butantan.

Com o dinheiro, o Butantan poderá comprar equipamentos de laboratório, reagentes, linhagens de células e outros recursos necessários para o desenvolvimento e produção da vacina de zika. A parceria também inclui a cooperação técnica entre pesquisadores da Barda e do Butantan.

Vacina de vírus inativado

Segundo o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil, o desenvolvimento da vacina de vírus inativado contra zika já está em desenvolvimento há alguns meses. Pesquisadores do centro já trabalharam no processo de cultura, purificação e inativação do vírus em laboratório. Na fase atual, roedores devem começar a receber os vírus inativados.

O Butantan tem ainda outras três iniciativas de desenvolvimento de vacina contra zika: uma vacina a base de DNA, outra vacina com vírus inativado semelhante à vacina da dengue, além de uma vacina híbrida que tem como base a vacina de sarampo.

“A resposta tem que ser rápida ou o dano vai estar feito e deixará um legado terrível: as crianças com microcefalia”, diz Kalil.

Segundo o diretor, esse desenvolvimento ocorreria de forma mais rápida se houvesse mais recursos disponível. Em fevereiro, o governo federal anunciou um investimento de R$ 8,5 milhões para financiar o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à zika no Instituto Butantan. Mas, segundo Kalil, o recurso ainda não foi liberado.

Vírus já circula em 61 países

Em fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o vírus da zika como emergência de saúde pública global. O vírus foi associado à microcefalia, uma malformação congênita.

De acordo com boletim da OMS divulgado na semana passada, 61 países e territórios já registram transmissão continuada do vírus da zika. Além disso, outros 10 países tiveram relato de transmissão de zika de indivíduo para indivíduo, provavelmente por via sexual.

O Brasil é o país onde o vírus está mais disseminado, com mais casos de infecção pelo vírus e de microcefalia associada à zika. O país teve 138.108 casos prováveis de zika em 2016 até o dia 7 de maio, segundo o Ministério da Saúde. Em 2016, o país registrou uma morte causada pela doença em um adulto no Rio de Janeiro e, no ano passado, foram 3 mortes de adultos.

Ainda segundo a pasta, são 1.616 casos confirmados de microcefalia desde o início das investigações, em 22 de outubro, até 11 de junho, com 73 mortes de bebês.

Pesquisa: depressão atinge 10,2% dos brasileiros desempregados

O levantamento sobre a ocorrência de depressão entre a população em idade ativa abrange o contingente de pessoas com idade acima de 18 anos e indica, ainda, que 12,6% da população fora do mercado tomavam algum tipo de remédio para dormir
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postado em 30/06/2016 10:45
Agência Brasil
Estudo que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quinta-feira (30/6) indica que, em 2013, 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais que estavam fora do mercado de trabalho (um em cada dez) sofriam de algum tipo de depressão, de um total de 61,8 milhões de pessoas que não trabalhavam, nem procuravam emprego – em um universo de 93 milhões de empregados. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional de Saúde 2015 – Indicadores de Saúde e Mercado de Trabalho. O levantamento contabilizava, na época, a existência de cerca de 160 milhões de pessoas integrando a População em Idade Ativa (PIA) do país, em um universo de 200,6 milhões de pessoas, segundo o Censo 2010.

Estudo do IBGE analisou brasileiros com 18 anos ou mais que estavam fora do mercado de trabalho, totalizando 61,8 milhões de pessoas

Quando se analisa os brasileiros em idade ativa desocupados (5,7 milhões fora do mercado de trabalho, mas procurando emprego) em 2013, o percentual cai para 7,5%. Já entre as pessoas fora do mercado de trabalho (que não trabalhavam, nem procuravam emprego, embora em idade ativa), o total passa a 7,6%, o equivalente a 11,2 milhões. O percentual menor de trabalhadores com depressão foi verificado entre a população ocupada: 6,2%.

O levantamento sobre a ocorrência de depressão entre a população em idade ativa abrange o contingente de pessoas com idade acima de 18 anos e indica, ainda, que 12,6% da população fora do mercado tomavam algum tipo de remédio para dormir. As análises foram feitas em convênio com o Ministério da Saúde. Em relação ao sexo, tanto no domínio da população de 18 anos ou mais quanto no da população ocupada desta mesma faixa etária, as mulheres apresentaram percentual de prevalências de diagnóstico de depressão mais elevado: 10,1%.

Analisando as pessoas ocupadas de 18 anos ou mais de idade por grupos etários, os dados mostram que o diagnóstico médico de depressão aumentava até o grupo de 40 a 59 anos, observando-se redução da prevalência a partir dessa faixa – entre as pessoas de 40 a 59 anos de idade, 8,2% relataram ter diagnóstico de depressão, enquanto para aquelas de 60 anos ou mais de idade a prevalência foi de 7,4%.

Para análise do contingente de pessoas fora do mercado de trabalho com depressão, o IBGE levou em consideração a população com mais de 18 anos de idade, que não exercia qualquer atividade: aposentados, estudantes, pessoas que desistiram temporariamente de procurar emprego em razão de dificuldades momentâneas do mercado ou, ainda, mulheres cujos maridos tinham rendimentos elevados e decidiram se dedicar aos filhos e ao lar.

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Idade do trabalhador
Em entrevista à Agência Brasil, a gerente de Pesquisas Domiciliares do IBGE, Maria Lúcia Vieira, admitiu que a questão da depressão pode estar ligada diretamente à idade do trabalhador. “O que a gente identificou é que, conforme a idade, cresce o percentual de pessoas que apresentavam algum tipo de depressão”. Para ela, como a população fora da força de trabalho é composta – em sua maior parte – por pessoas com mais idade, essa poderia ser uma justificativa para o percentual mais alto. “Então, tem, sim, uma relação forte com a questão da idade”.

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· Mais de 1,2 milhão de pessoas foram agredidas no trabalho
A gerente de pesquisas também falou sobre a incidência maior de mulheres entre o contingente de brasileiros com depressão. “Entre as mulheres, o percentual de diagnóstico de depressão chega a ser três vezes maior do que entre os homens. E isso ocorre tanto entre a população desocupada como entre os que estão fora da força de trabalho – o que pode ser um indício de que este percentual pode estar mais relacionado com a questão sexo e idade do que com as condições de trabalho”, explicou.

Doenças crônicas
Na Pesquisa Nacional de Saúde 2013, o IBGE constatou que a prevalência de três doenças crônicas com maior incidência na população (hipertensão arterial, colesterol alto e dor nas costas) é bem maior entre a população ocupada do que entre os desempregados. Percentualmente, entre as doenças crônicas mais presentes, especialmente entre as pessoas de 65 a 74 anos de idade, se destaca a hipertensão arterial, com 52,7%; seguida por problemas crônicos de coluna ou costas (28,9%); e do colesterol alto (25,5%). O IBGE constatou, ainda, que a prevalência de Distúrbio Osteomolecular Relacionado ao Trabalho (movimentos repetidos de qualquer parte do corpo) foi de 2,8% entre as pessoas ocupadas e de 2,6% entre as desocupadas.

Na avaliação da gerente de Pesquisas Domiciliares do IBGE, a maior incidência de doenças crônicas entre a população ocupada pode ter relação direta com a questão do estresse ocupacional. “Embora a gente não tenha investigado as causas da maior incidência, o fato é que a população ocupada tem uma maior incidência dessas principais doenças, especialmente quando a gente fala da hipertensão arterial, do colesterol alto e da dor nas costas”. “Em relação a doenças crônicas, esta maior incidência pode estar relacionada ao mercado de trabalho, porque as faixas de idade entre os dois grupos são bastante parecidas”, disse Lúcia Vieira.

Já no universo total de pessoas com 18 anos ou mais de idade fora da força de trabalho a incidência é ainda maior, “o que deve ocorrer devido ao grupo ser composto por gente com idade mais avançada”.

Acidente e Violência
Outra constatação do estudo divulgado pelo IBGE é a de que, em 2013, 12,4% das 4,9 milhões de pessoas de 18 anos ou mais que sofreram acidente de trabalho ficaram com alguma sequela ou incapacidade, o equivalente a 613 mil trabalhadores. Segundo o IBGE, destes 4,9 milhões de acidentados no trabalho, 32,9%, (ou 1,6 milhão) deixaram de realizar atividades habituais.

O levantamento constatou, ainda, que 4,5 milhões de pessoas de 18 anos ou mais sofreram algum tipo de acidente de trânsito com lesões corporais, dos quais 32,2% foram no deslocamento para o trabalho (1,4 milhão) e 9,9% trabalhando (445 mil). Já no que diz respeito à agressão e violência, o estudo indica que, em 2013, 4,6 milhões de pessoas com 18 anos ou mais (3,1%) sofreram algum tipo de agressão ou agressão por desconhecido. Do total, 846 mil foram agredidas em seus locais de trabalho (18,4%). Já as agressões ou violências vindas de conhecidos atingiram 2,5% com 18 anos ou mais (3,7 milhões), sendo que 11,9% (439 mil) sofreram agressões no trabalho.

O IBGE considera os que sofreram acidente ou violência no âmbito do trabalho, indivíduos fisicamente ativos. No Brasil, 14% das pessoas de 18 anos ou mais eram ativas no trabalho (20,5 milhões), em 2013. No lazer, 22,5% praticavam o nível recomendado de atividade física (32,9 milhões). Em relação à condição no mercado de trabalho, 25,2% dos ocupados (22,7 milhões), 31,1% dos desocupados (1,6 milhão) e 16,8% das pessoas fora do mercado de trabalho (8,6 milhões) praticavam o nível recomendado de atividade física no lazer.

Rendimento médio
O rendimento médio mensal habitual dos trabalhadores portadores de alguma das deficiências investigadas pelo IBGE era, em 2013, de R$ 1,499 mil, valor 11,4% menor que os R$ 1,693 mil pagos aos trabalhadores sem deficiência. A pesquisa produziu estimativas sobre quatro tipos de deficiências: intelectual, física, auditiva e visual. Os resultados mostraram que 7,2% da população de 14 anos ou mais de idade possuíam pelo menos uma dessas quatro deficiências, considerando que 21,7% das pessoas ocupadas declararam ter grau intenso ou muito intenso
de limitações de suas atividades habituais, as quais incluem trabalhar.

Deste total, 1,3% declarou ter deficiência de audição, percentual que era maior entre as pessoas fora da força de trabalho (2,6%) do que entre as ocupadas (0,6%) e as desocupadas (0,4%). Considerando as deficiências investigadas pela pesquisa, a visual foi a mais frequente para as pessoas de 14 anos ou mais (4,3%). Entre as ocupadas, havia 3,1% com esta deficiência; entre as desocupadas, 1,7%; enquanto entre as pessoas fora da força de trabalho, 6,4%.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2013, já as pessoas que trabalhavam à noite, mesmo que o turno começasse durante o dia, tinham rendimento médio de R$ 2.073, valor 21,2% maior que o dos trabalhadores que exerciam suas atividades durante o dia, que era de R$ 1,71 mil.

Plano de saúde
Os estudos sobre o número de brasileiros que possuíam cobertura de saúde complementar constataram que, em 2013, o percentual de pessoas de 14 anos ou mais de idade que tinham algum tipo de plano de saúde (médico ou odontológico) era de 28,9%, em um universo de pouco mais de 200 milhões pessoas. Neste aspecto, a pesquisa é clara: entre as pessoas ocupadas, quanto maior a renda maior o percentual de usuários de planos de saúde. Entre as pessoas ocupadas que contavam proporcionalmentes com este serviço o percentual era de 32,5%, enquanto o percentual entre as pessoas fora da força de trabalho caia para 24,7%, reduzindo ainda mais entre os desocupados (apenas 16,3%).

Para a gerente de Pesquisas Domiciliares do IBGE, Maria Lúcia Vieira, fica claro que, quando podem financeiramente, as pessoas correm para algum tipo de plano de saúde. “Embora não tenhamos dados para relacionarmos esta tendência às deficiências do sistema público de saúde, fica claro que, quanto maior o rendimento das pessoas, maior a possibilidade de elas terem algum plano de saúde”.

Uma doença chamada dor

Eles garantem melhor qualidade de vida para quem sofre com doenças crônicas, mas podem se tornar fatais quando administrados de forma incorreta. Os opioides têm um controle rígido no Brasil. No DF, apenas 500 pacientes estão aptos a recebê-los

» OTÁVIO AUGUSTO
Publicação: 17/06/2016 04:00

image001 (2)As dores insuportáveis de Amélia, que faz tratamento contra câncer no abdome e no útero, foram amenizadas após o uso de morfina (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

As dores insuportáveis de Amélia, que faz tratamento contra câncer no abdome e no útero, foram amenizadas após o uso de morfina

Não importam a queda do cabelo, as longas filas e as intermináveis internações quando a dor é a principal companhia de um paciente. Para frear o sofrimento persistente, alguns recorrem aos opioides — analgésicos superpotentes. Na capital federal, os que padecem de dores crônicas de forte intensidade vivem um calvário. Seja pela falta de acesso à assistência, seja porque os médicos receitam analgésicos inadequados, uma vez que a burocracia cria entraves ao fornecimento do produto. A Secretaria de Saúde atende cerca de 500 pessoas com pelo menos quatro medicamentos desse tipo: codeína, morfina, metadona e oxicodona. A desinformação é barreira a ser vencida e a falta de dados locais é fator complicador.

Há um ano e dois meses, a dona de casa Amélia Lopes Alves, 66 anos, trata de um câncer no abdome e no útero. A moradora do Setor P Sul, em Ceilândia, chegou ao ponto de não ter forças para se levantar da cama. “Sentia uma dor que eu não consigo explicar. Mexer a perna é impossível”, detalha. Com o passar do tempo, a cadeira de rodas passou a fazer parte da rotina. “Conto com a ajuda da minha filha”, pontua a idosa, que faz quimioterapia no Hospital Universitário de Brasília (HUB), na 602 Norte.

O remédio mudou a minha realidade de uma forma que não tenho palavras para explicar. Ainda sinto dores quando atraso o remédio ou em dias críticos, as tenho ma sobrevida melhor para lutar contra doença”

Amélia Lopes Alves, dona de casa

Atualmente, Amélia se trata com morfina. A idosa ingere o superanalgésico a cada quatro horas. “O remédio mudou a minha realidade de uma forma que não tenho palavras para explicar. Ainda sinto dores quando atraso o remédio ou em dias críticos, mas tenho uma sobrevida melhor para lutar contra a doença”, conta. Mesmo com a melhora, as dificuldades emperram o tratamento. “Às vezes, falta analgésico ou os médicos não querem receitar. É preciso ter muita sensibilidade”, argumenta a mulher, que na segunda-feira tinha apenas uma dose do medicamento.

Para padronizar o acesso aos opioides, o Executivo local pretende lançar, no próximo mês, um protocolo de atendimento. A normatização para toda a rede será a mesma adotada no Hospital de Apoio de Brasília. “Nosso objetivo é tornar a avaliação da dor algo de mais fácil acesso e com as orientações adequadas de tratamento. O documento regula a avaliação da intensidade da dor, a localização e a classificação do paciente. Com isso, vamos ter estatísticas epidemiológicas e adequação melhor da medicação”, explica a chefe de Cuidados Paliativos do Hospital de Apoio, Elaine Pereira Barbieri de Carvalho.

Nas farmácias de Alto Custo, os pacientes que retiram esses medicamentos precisam apresentar documentos e exames preconizados pelo Protocolo de Dor Crônica do Ministério da Saúde. Trimestralmente, o médico do paciente deverá, por meio de documentos padronizados, prestar esclarecimentos sobre a continuidade do tratamento. A entrega dos referidos itens é feita mensalmente, mediante apresentação de receita médica de controle especial e apenas para as pessoas cadastradas. “Há um controle rigoroso, dentro das unidades, do estoque desses medicamentos e da dispensação dos mesmos para os pacientes”, ressalta nota da Secretaria de Saúde.
Marco Antônio alerta para os riscos de uso indevido dos opioides (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

Marco Antônio alerta para os riscos de uso indevido dos opioides

Risco

Os opioides têm variáveis perigosas. O uso desse tipo de substância é muito controlado no Brasil, de forma que os casos de dependência entre doentes ou os de uso recreativo são relativamente raros. Pesquisas mostram que a ação desses medicamentos é semelhante à do crack. Há relatos de enfraquecimento do sistema de defesa do organismo ou até de morte das células do sistema nervoso central. “A dose terapêutica e a dose excessiva são muito próximas. A euforia e a diminuição da ansiedade e da depressão aumentam o risco de o paciente se induzir ao vício”, destaca oncologista Marcos Antônio dos Santos, chefe da Unidade de Oncologia HUB.

O especialista acompanha o tratamento de Amélia. Para o médico, 80% da população não têm acesso aos opioides por preconceito. “O paciente encara que está na fase final e vai morrer. O estigma é uma dificuldade muito grande. Isso, aliado à burocracia, cria gargalos grandes para prescrever a medicação”, explica. Para ele, é preciso “adequar a estratégia de manejo” por as substâncias serem altamente viciantes. “Se por um lado os opioides são um problema gravíssimo nos Estados Unidos, com 20 mil mortes por ano, por causa da dependência e da superdosagem, por outro, no Brasil a burocracia tem de ser revista. Temos que ter um grau de controle, mas aqui é exagerado”, critica Marcos.

Fernando Carneiro, presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, salienta que a regulamentação do uso desses medicamentos burocratiza a aplicação na clínica diária. “Mesmo com medidas governamentais, a rede pública, em sua forma plena, não está preparada para o atendimento desses pacientes” refuta o especialista em dor (Leia Três perguntas para).
Cerca de 50% dos pacientes com dor crônica são subtratados e com manejo inadequado de medicamento. Para a professora de medicina do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Ana Márcia Gaudard, o acesso restritivo compromete o tratamento dos pacientes. “Precisamos capacitar quem prescreve. O profissional que recebe esses pacientes tem que estar preparado para identificar a dor crônica e vencer a questão cultural em relação aos opioides”, explica a especialista, que durante nove anos coordenou o Programa de Medicamentos Excepcionais de Alto Custo da Secretaria de Saúde.
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Superanalgésicos

Os opioides são analgésicos indicados para uso supervisionado contra a dor. Eles são remédios à base de ópio. Produzem ações de insensibilidade à dor e são usados, principalmente, na terapia da dor crônica e da dor aguda de alta intensidade.
A administração por tempo prolongado pode provocar tolerância, pois a pessoa precisa usar doses cada
vez maiores para sentir os mesmos efeitos, e dependência.

Três perguntas para

Fernando Carneiro,
presidente da Sociedade
Brasileira de Anestesiologia

Qual a maior dificuldade de se tratar pacientes com dor crônica?
As dificuldades começam pelo caráter multidisciplinar do tratamento, envolvendo o uso de medicamentos, atividade física, acompanhamento psicológico, fisioterapia e acupuntura. Nem todos os tipos de tratamentos são aplicáveis a todos os casos. Outro fator importante é o tempo de demora no diagnóstico da doença.

A que se atribui o preconceito com o uso dos opioides?
Os opioides são medicamentos destinados ao tratamento de dores agudas ou crônicas. O maior preconceito vem da burocracia para a prescrição desses medicamentos, dos familiares, e até a falta de segurança do médico em relação à dependência. Outro elemento importante é a falta de informação e conhecimento pelo médico. O Brasil está entre os países com as menores taxas de prescrição de opioides do mundo. O país tem consumo de 7,8mg de opioides (como morfina) por pessoa ao ano. A taxa média seria de 192,9mg ao ano por pessoa, ou seja, quase 25 vezes mais, segundo dados de referência divulgados na publicação científica Journal of Pain Research.

O manejo inadequado e o risco de dependência são os maiores risco do uso dos opioides?
O maior risco não é a dependência, mas sim o subtratamento dos pacientes com dor. Os opioides constituem as drogas de escolha para o tratamento da dor aguda pós-operatória e, também, para indivíduos com grandes queimaduras ou politraumatizados. O uso de opioides na psiquiatria é bem restrito, sendo indicado no tratamento de dependentes do próprio opioide, tanto na desintoxicação como na terapia de manutenção.

Para saber mais

Mortes por uso desregulado

O astro pop Prince morreu de overdose por opioide em abril deste ano. As autoridades policiais, por meio de um relatório com detalhes da necropsia do corpo do cantor, explicam que ele sofreu uma intoxicação por fentanil, um analgésico potente. Prince foi um dos artistas mais influentes da música pop durante seus 40 anos de carreira. A lista de celebridades vítimas do uso excessivo de opioides é grande: Heath Ledger, o mais famoso Coringa de todos os tempos; a modelo e atriz Anna Nicole Smith; e o rei do pop Michael Jackson. Todos esses famosos sucumbiram pelo manejo desregulado de superanalgésicos.
Site: www.correiobraziliense.com.br