Edifícios verdes modificam a paisagem urbana e melhoram a qualidade de vida | Em Movimento | G1

Adoção de medidas como redução no consumo de água e energia e instalação de áreas verdes contribuem para o bem-estar nas metrópoles
Já parou para pensar que você passa boa parte do dia dentro de um lugar construído? Casa, trabalho, academia, restaurante, mercado. E, se mora nas cidades — como é o caso de 84,4% da população brasileira, segundo o IBGE — o espaço ao ar livre também é marcado pelos prédios, característica tradicional da paisagem urbana.

Investir na construção de edifícios verdes, ou na adequação de prédios antigos a novas práticas sustentáveis, é um dos caminhos para a criação de cidades que ofereçam mais bem-estar.

“Todo prédio vai trazer algum impacto. A questão é: como fazer isso de maneira não destrutiva, que traga valor para a cidade, crie espaços urbanos interessantes, e estimule o convívio?”, observa Milene Abla, vice-presidente e coordenadora do Grupo de Trabalho de Sustentabilidade da Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura).

Edificações verdes seguem parâmetros que variam conforme características dos projetos: podem ser para interiores, para novos edifícios, para reformas de prédios antigos. Padrões estabelecidos por órgãos do setor ou pelo poder público ajudam a organizar os critérios que definem um “edifício verde”. Entram aí itens como eficiência do uso da água e de energia, qualidade dos materiais utilizados na construção (como madeiras certificadas), qualidade interna do ar, conforto térmico, e localização e transporte próximo, por exemplo.

Uma construção verde pode ter ou não uma certificação. O processo é voluntário, isto é, a pessoa ou empresa responsável pelo prédio deve solicitar o selo e se adequar às diretrizes que ele estabelece. “Na prática, as certificações facilitam abordar a questão da sustentabilidade, porque estipulam padrões, criam um processo, e também são uma validação dessas práticas para o prédio que as adota”, explica Milene.

Brasil: no ranking mundial dos prédios sustentáveis
No Brasil, uma das principais certificações para prédios verdes é a LEED (Leadership in Energy and Environmental Design, em português “Liderança em Energia e Design Ambiental”). O selo é conferido pela organização norte-americana Green Building Council (GBC), que tem uma representante aqui no país, a GBC Brasil.

Atualmente, o Brasil é o 4º país no ranking mundial de edificações certificadas com a LEED, presente em 167 países. Há no Brasil 1.302 projetos registrados. Destes, 489 certificados como construções verdes. O restante ainda passa pelas etapas de verificação para obter o selo.

Um dos exemplos é o prédio do Banco Central em Salvador. A nova sede buscou seguir os padrões da certificação internacional LEED. Foram adotadas medidas como utilização de energia solar, captação e uso de água pluvial em jardins e banheiros (vasos e mictórios), uso exclusivo de lâmpadas fluorescentes de alto rendimento, e sistema de refrigeração eficiente. “Com essas ações, espera-se que o custo de energia seja reduzido em 26,5%, e o consumo de água em 79,2%”, observa a arquiteta e engenheira civil Patricia Vasconcellos, do Creato, escritório responsável pelo processo de certificação.

O impacto positivo das construções sustentáveis pode ser observado pela capacidade do prédio de influenciar parte do seu entorno. Uma das possibilidades é o controle da quantidade de água da chuva que cai no terreno. Ao investir em áreas verdes permeáveis, por exemplo, com gramados, o prédio auxilia a rede pública de escoamento, e ajuda a evitar enchentes na região. Um segundo impacto é a redução na poluição luminosa. Ao iluminar a fachada de maneira planejada, o prédio pode evitar o desconforto visual dos vizinhos, por exemplo.

Além disso, há redução no consumo de água e energia. Segundo a GBC Brasil, isso representa de 20% a 25% no uso de energia e cerca de 40% quando se trata da água. “Se você pensar nas dificuldades causadas pela crise hídrica, por exemplo, a gente vê o quanto as edificações podem colaborar com o conjunto do espaço urbano. Você consegue fazer reduções de gastos que fazem sentido para a cidade”, observa o diretor-executivo do GBC Brasil, Felipe Faria.

Áreas verdes
Além de ajudar a escoar a água da chuva, a presença de vegetação também cria espaços de respiro nas construções e nas cidades. São alternativas para evitar o efeito “ilha de calor”, comum nas grandes cidades. Nas áreas construídas, há um aumento do calor provocado pelo concreto. “Incentivar a implementação de áreas verdes de diferentes formas, seja em tetos verdes ou em paredes verdes, diminui essa retenção de calor”, explica Milene Abla.

Outro ponto importante é a recuperação de uma biodiversidade natural. Utilizar plantas nativas, adaptadas ao local, ajuda a retomar o ecosssistema da região. Uma planta exótica não tem o mesmo efeito. “Uma planta exótica pode se tornar um jardim morto, porque nenhum pássaro da região vai pousar ali, por exemplo. Se uma ave que está cruzando São Paulo para ir até a Serra da Cantareira percebe uma planta nativa, ela para. Então temos a retomada do bioma”, observa Felipe Faria.

Fonte: https://g1.globo.com/

SEGUE AÍ – CAMINHADA SOLIDÁRIA


Taguatinga Sul: atrás do comércio, uma via onde a pobreza reúne catadores de sucatas

ATRÁS DO LUXO O LIXO 

REGINALDO, NASCIDO em Alagoas, está há muitos anos em Brasília. A pouca escolaridade é um obstáculo para conseguir uma boa vaga no mercado de trabalho. Ele foi pai, pela primeira vez, entre 16 e 17 anos — ele não se recorda exatamente quando foi. Hoje, aos 34 anos, tem 10 filhos. A caçula, pouco mais de um mês.

Coletar material reciclável e contar com a generosidade das pessoas, que garante almoço ou jantar do catador de sucata e de dezenas de outras famílias. São mulheres, homens, crianças e jovens que vivem às margens das vias entre Taguatinga Sul e Águas Claras. Para amenizar as noites frias, alguns apelam para fogueiras, com restos de madeiras ou de papelão, ou seja, o que não é possível ser vendido.

As casas, muito pequenas, foram erguidas com madeirite, papelão, restos de obras de uma área que vive em plena ebulição pelo comércio efervescente, por onde circulam centenas de veículos de uma classe média para a qual a crise econômica pouco afeta ou inibe o consumo. Eles contam com esse público, que sempre para e oferece algo que necessitam.

“Eu gostaria muito de trabalhar como jardineiro”, diz Reginaldo, que assegura ter intimidade com o trato da terra. “Mas se alguém me contratasse para ser faxineiro, lavar banheiro, sala ou o que fosse necessário, para mim seria o céu, pois teria como garantir o sustento da minha família”, acrescenta. Ele diz que sem uma indicação ou uma referência dificilmente, hoje, alguém com baixa escolaridade consegue esse tipo de trabalho.

Diferentemente da maioria, ele conseguiu comprar um pequeno imóvel no Paranoá, a 42 km de distância onde vive uma rotina difícil. “Lá fica minha mulher, que foi a primeira namorada com as crianças. Eu fico aqui, pois é aqui que consigo o dinheiro para pagar a prestação de R$ 80 e mais o condomínio, R$120. E ainda consigo levar a comida para eles”, conta Reginaldo, que na noite de sábado se desdobrou em agradecimentos pela sopa, agasalhos e cobertores distribuídos pelos integrantes da Caminhada Solidária, mensalmente, realizada pela Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap).

Perto do poder
A insalubridade do local salta aos olhos. Dezenas de crianças expostas a todos os tipos de risco. A indigência é espantosa. Nas proximidades do estádio de futebol, barracas que abrigam grupos de seis ou mais adultos, sem contar com os pequeninos. Na primeira parada dos Caminhantes Solidários, mais de 30 pessoas se aproximaram dos veículos, a maioria delas era crianças, que avançaram sobre as roupas e os brinquedos. A fila se formou para diante da sopa de legumes que era servida, ainda bem quente, acompanhada de pão.

Algumas mulheres, depois de provar a comida, trouxeram panelas ou potes plásticos para pegar mais sopa — a refeição do dia seguinte estava garantida. Várias crianças pediram para repetir. A escuridão do local impediu a documentação fotográfica da trágica situação em que dezenas de pessoas vivem a menos de 50km do centro dos poderes federal e distrital.

Atendido o primeiro grupo de famílias, os Caminhantes Solidários seguiram pela via e, a poucos metros, um grupo mais denso de pessoas logo se aproximou quando os carros pararam. A demanda era a mesma: agasalhos, cobertas, além da sopa e do pão. Não havia brinquedos para ofertar.

Gestos fraternos
A Caminhada Solidária não visa só os moradores em situação de rua. Desde setembro, atividade ocorre também em abrigos e asilos. Os alimentos, roupas e agasalhos são frutos das doações recebidos. Vale destacar a contribuição do pequeno empresário Sebastião Luz, que comercializa laranjas na Feira do Produtor de Ceilândia, que tem permitido à Ascap produzir a sopa de legumes e melhorar as cestas de alimentos, mensalmente, doadas às famílias que vivem no Sol Nascente. Trata-se da partilha do pão.

Neste mês, a Ascap conseguiu entregar mais de 100 cobertores e agasalhos às famílias e aos moradores em situação de rua graças às generosas doações do grupo Mulheres de Brasília, do Movimento Maria Cláudia pela Paz e da Associação de Funcionários do Banco do Brasil, que responderam, com muita fraternidade, à Campanha do Agasalho, promovida pela instituição. Gestos assim e a força dos voluntários da Ascap têm sido essenciais em todas as atividades.

Mas as metas da Ascap são mais ambiciosas. Com a oferta de cursos/oficinas diversos, a instituição quer capacitar as pessoas assistidas e as da comunidade para que possam, com o próprio esforço, conquistar autonomia para se sustentar com dignidade, sem depender de iniciativas semelhantes.

Fonte: https://ascapbsb.org/

Brasiliense tenta se matar, é salvo por PM e reconstrói a vida

Há nove meses, Valdenilson Gomes tentou tirar a própria vida, mas foi salvo por policial militar que hoje é um dos seus melhores amigos

Brasília(DF), 18/07/2018 – Valdenilson Gomes tentou suicídio há um ano. Conta ao metrópoles como foi a superação e sobre a ajuda que teve do Sargento Henrique Luiz. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

As lembranças são recorrentes. Todo santo dia, Valdenilson Gomes, 42 anos, recorda-se daquela sexta-feira, 20 de outubro de 2017. Naquele dia, há nove meses, ele tentou acabar com a própria vida, jogando-se de uma passarela de pedestres perto do Núcleo Bandeirante. O homem vivia um período difícil, à beira do desespero e desequilíbrio emocional, e não suportava as dores do cotidiano.Em meio a uma crise de depressão potencializada pelo uso de drogas, Valdenilson chegou em casa e discutiu com mulher e filhos. Desesperado, tentou se enforcar. Não conseguiu. Depois, saiu andando a esmo, até chegar ao local onde decidira atentar novamente contra si mesmo.

Brasília(DF), 18/07/2018 – Valdenilson Gomes tentou suicídio há um ano. Conta ao metrópoles como foi a superação e sobre a ajuda que teve do Sargento Henrique Luiz. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Por volta de 18h15, acordou do “transe”. Foi quando policiais militares conversaram com ele, na tentativa bem-sucedida de evitar que o homem se lançasse do alto da passarela. A PM havia sido acionada por uma testemunha. Do outro lado da linha, a pessoa disse que um homem tentava se matar. Era Valdenilson.

Sem dúvidas, aquele foi o pior dia de toda a minha vida. Na manhã seguinte, eu só conseguia pensar: ‘O que eu fiz, meu Deus?’. Não foi a primeira vez que eu havia tentado fazer uma coisa dessas, mas a sensação era diferente e algo despertou em mim um sentimento de que era a última. Tudo isso veio com a vontade de viver. Eu ganhei mais uma chance”
Valdenilson Gomes

Valdenilson nasceu em Alvorada (TO), mas chegou em Brasília ainda criança. Ele conta que teve uma infância turbulenta e começou a trabalhar cedo, como aeroportuário. Com a dependência química, porém, precisou ser afastado do serviço e acabou se envolvendo com “pessoas erradas”.

“Passei alguns dias preso por porte ilegal de arma. Sofri muito na cadeia. Ao sair, tentei viver normalmente com a minha família, mas não sabia lidar com o problema das drogas. Fiquei depressivo e o uso de entorpecentes só aumentava o meu sofrimento. Decidi ir embora de casa e tentei tirar a minha vida, pela primeira vez, em 2013”, relata.

O aeroportuário fez tratamento contra a dependência química em uma clínica de reabilitação, mas, em 2017, sofreu uma recaída e voltou a usar substâncias ilícitas. Sem fazer alarde, decidiu não mais viver: “Foram várias decepções e traumas. Hoje, eu prefiro esquecer”.

Recomeço
Agora, em acompanhamento psicológico e psiquiátrico, Valdenilson decidiu contar sua história e mostrar que é possível superar traumas e seguir a vida com pensamentos otimistas.

Depois do salvamento, pensei na minha família. Eles poderiam estar destroçados com a perda. Faço uma reflexão sobre a oportunidade de vida que Jesus me deu, e digo: quem passa pelo que eu passei tem a necessidade de desabafar e dividir a dor com alguém”
Valdenilson Gomes

E uma das pessoas que mais acreditam nessa recuperação é justamente quem o salvou naquele momento de pânico, o sargento da PM Henrique Luiz. Lotado no 28º Batalhão (Riacho Fundo), o policial não gosta de ser chamado de herói. Para ele, o que fez naquela noite foi fruto de preparo. “Qualquer policial militar que passasse por ali poderia ter feito o mesmo. O que contou para contornar a situação foi o treinamento e a capacitação”, afirma.

Veja imagens* e assista ao depoimento de Valdenilson:

Da dor, nasceu uma amizade
Os dois se reencontraram após a ocorrência e, hoje, têm uma relação de amizade próxima. “Visito a casa do Nilson [como a vítima é carinhosamente chamada pelo policial] quase semanalmente. Conversamos sobre a vida e sobre por que vale viver. A história dele me tocou muito e decidi acompanhá-lo. Viramos parceiros nessa luta”, conta o sargento Henrique.

“Atualmente, depois da minha esposa e dos meus filhos, o sargento Henrique é o meu maior incentivador. Agradeço a ele pela solidariedade, amizade e por me salvar, devolvendo a minha vontade de viver”, diz Valdenilson. Cheio de sonhos e planos, ele comemora a vida e fala que “devagar, devagar, a tristeza está dando lugar à alegria”.

“A força e o apoio da minha família na recuperação são essenciais. Estou me apegando às coisas que mais gosto de fazer, como cuidar dos bichos e das plantas, especialmente as orquídeas, e também cozinhar. Juntos, conseguiremos vencer”, diz, convicto.

Dedicada ao estudo do suicídio há 10 anos, a psiquiatra Renata Viana diz que, após tentar se matar, o ideal é a pessoa ser encaminhada a um psiquiatra e medicada. E, além disso, também deve ter o acompanhamento de um terapeuta e o apoio da família.

A especialista mostra ainda que, no momento de dor, é preciso aconselhar, ajudar e, sobretudo, estar disposto a se aproximar de alguém que demonstra estar sofrendo ou apresentando mudanças acentuadas e bruscas de comportamento. “Se a pessoa não se sentir capaz de lidar com o problema, deve ir em busca de quem possa fazê-lo mais adequadamente”, ressalta.

Fonte: https://www.metropoles.com/

Vítimas de feminicídio: conheça mulheres que morreram pelas mãos deles

Em 2018, pelo menos 15 mulheres tiveram a vida interrompida. Na maior parte dos casos, algozes foram os próprios companheiros

Brasília(DF), 04/05/2018 – Protesto contra a morte de Jéssyka Laynara da Silva Souza, executada a tiros pelo ex-noivo Polícia Militar Ronan Menezes – Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles

Somente em 2018, 15 mulheres foram assassinadas no Distrito Federal. A vítima mais recente, Janaína Romão Lúcio, 30 anos, perdeu a vida de forma covarde, a facadas, e na frente das filhas pequenas. Assassino confesso, Steffanno Jesus Souza de Amorim, 21, está preso.

O crime bárbaro ocorreu em Santa Maria, no sábado (14/7), um dia após as autoridades alemãs divulgarem a prisão de Marcelo Bauer. Há 31 anos, ele matou Thaís Mendonça, 19, sua namorada à época. Foi condenado à revelia em Brasília e, agora, sua impunidade chegou ao fim.

Os casos se assemelham não só pela brutalidade e covardia. O modo como os assassinos agem é parecido. Segundo especialistas, os algozes, geralmente pessoas com quem as vítimas se relacionam, começam com pequenas exigências, cenas de ciúmes, cobranças, brigas seguidas de presentes e pedidos de desculpas com promessas de mudanças.

Acuadas e sob constante ameaça, em geral, as mulheres optam por não fazer a denúncia quando ocorre a primeira agressão. Depois, é um caminho sem volta. O Estado falha no combate à violência e proteção às vítimas. A família, muitas vezes, não consegue evitar consequências mais graves. Assim, as tragédias vêm ocorrendo.

Vítimas
Foi assim com Jessyka Laynara da Silva Souza, 25, morta a tiros pelo soldado da Polícia Militar Ronan Menezes, 27, no dia 4 de maio, em Ceilândia. Extremamente possessivo e controlador, o rapaz não aceitava o fim do relacionamento.

Ameaçava e agredia Jessyka constantemente, e ela, com medo, escondia os hematomas usando maquiagem. “Era para eu estar enterrada agora. Ele me espancou tanto, tanto. Me deu tanto chute, soco, coronhada. Rasgou minha cabeça”, contou a moça, em áudio enviado para uma amiga. Agora, a mãe da vítima, a técnica de enfermagem Adriana Maria da Silva, 39 anos, chora a perda da filha.

Ele é um covarde. Deu dois tiros no peito dela (de Jessyka) e um nas costas. Quero que pague pelo que fez, mas nem 100 anos de cadeia vão trazer a minha filha de volta”
Adriana da Silva

Parentes da vítima disseram ainda que só tomaram conhecimento das agressões após a morte da jovem, por meio de uma amiga para quem ela costumava desabafar. Segundo o relato da testemunha, Ronan Menezes dizia para a ex-companheira que, caso ela fizesse a denúncia ou tentasse fugir, mataria toda a família dela.

Jessyka Laynara escondia com maquiagem as agressões que sofria do soldado da PM Ronan Menezes

A irmã de Janaína, Cleire Romão, 29, diz que o medo dos agressores é o que faz com que as vítimas optem por não denunciar. “Minha irmã tomou essa atitude, mas foi ameaçada e acabou retirando a queixa. Ele a perseguia”, disse.

Janaína Romão foi morta com cinco facadas pelo ex-companheiro, Steffano Jesus Souza de Amorim, na frente das filhas

Em 6 de março, outro caso de feminicídio chocou o DF. A funcionária do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Romilda Souza, 40, foi morta a tiros pelo marido e ex-vigilante Elson Martins da Silva, 39, que se suicidou em seguida, na 406 Sul.

Romilda Souza, 40, foi assassinada a tiros pelo marido Elson Martins da Silva, que se suicidou em seguida

Dez dias depois, Mary Stella Maris Gomes Rodrigues dos Santos, 32, também foi alvo de tiros disparados pelo marido, o piloto do Metrô-DF Júlio César dos Santos, 38, que também se matou em seguida em Ceilândia. Segundo vizinhos, o casal estava se divorciando e tinha uma relação abusiva. “Eles brigavam muito, mas não era uma discussão normal. Sempre tinha muito xingamento, objetos atirados um contra o outro“, disse uma testemunha.

Mary Stella Maris Gomes Rodrigues dos Santos foi baleada e perdeu a vida após discussão com o marido Júlio César dos Santos, piloto do Metrô-DF, que se suicidou logo após o crime

Em 5 de abril, a advogada Jusselia Martins de Godoy, 50, foi alvo de três tiros disparados pelo ex-marido, Evandro Alves de Faria, 56, em Planaltina. Ela chegou a ficar internada no Hospital de Base, mas não resistiu e veio a óbito cinco dias depois. Após o crime, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil — Seccional do Distrito Federal (OAB-DF), Juliano Costa Couto, se manifestou lamentando a morte de Jusselia e repudiando a violência contra as mulheres.

“A OAB-DF repudia qualquer prática de violência. Não existe justificativa para crimes como esse. Fica nosso extremo pesar e desejo de que nenhuma mulher seja vítima de crimes bárbaros”, disse.

Jusselia Martins foi vítima de três tiros disparados por Evandro Alves de Faria. Ela chegou a ser internada, mas morreu cinco dias depois

Outro caso bárbaro e que poderia ter sido evitado foi o de Tauane Morais dos Santos, 23, esfaqueada até a morte pelo ex-companheiro Vinícius Rodrigues de Sousa, 24, no dia 6 de junho, em Samambaia. O homem cometeu o crime um dia após ser solto por agredir a jovem.

Na época, o juiz Aragonê Nunes Fernandes, que proferiu a decisão, disse não ter “bola de cristal” para prever a tragédia. Um irmão da vítima relatou o quanto Vinícius era possessivo. “Ele a agredia muito. Chegou a quebrar tudo dentro de casa”.


Tauane Morais dos Santos foi esfaqueada até a morte pelo ex-companheiro Vinícius Rodrigues de Souza, que cometeu o crime um dia após ser solto por causa de uma agressão contra ela.

No dia 22 de fevereiro, a vítima foi a aposentada Isabel Lino de Souza, 60, assassinada pelo próprio filho Fernando, 33. O homem usou um guidão de bicicleta e a espancou até a morte. Na carceragem da 27ª Delegacia de Polícia, disse que assassinou brutalmente a idosa por questões financeiras. “Burrice da cabeça”, afirmou o homem, indiciado por feminicídio. Já Cristiane do Nascimento Mendes, 35, levou diversas facadas pelo corpo após uma discussão em um bar com dois homens, no dia 28 de junho, em São Sebastião.

Entre as vítimas, apenas duas pediram medida protetiva à Justiça. Janaína chegou a ter o direito garantido, mas retirou o pedido feito à Justiça. Atualmente, dos 143 presos que usam tornozeleiras eletrônicas no Distrito Federal, 21 cometeram violência doméstica e têm o equipamento preso ao corpo para se manterem distantes de suas vítimas.

Alerta
A presidente do Instituto Personna de Estudos e Pesquisas em Violência e Criminalidade, Elisa Waleska Krüger Costa, alerta: ao primeiro sinal de violência, denuncie. “A mulher não deve tentar ser psicóloga do agressor, dando conselhos ou justificando seus comportamentos”, afirma.

Mas não basta apenas denunciar. O Estado também precisa ter uma rede de proteção e de combate à violência eficientes para evitar que mais tragédias ocorram. É o que diz a professora adjunta de Direito da UnB Janaína Penalva.

“É necessário que a mulher se coloque em um espaço mínimo de resistência, denunciando ameaças — quando há tempo para isso –, mas ainda que ela denuncie, não evitará o crime se o Estado não se mobilizar para protegê-la. O que evita o feminicídio é a resposta estatal à violência”, assegura.

Denuncie
Pelo número 180. As ligações são gratuitas e o serviço funciona 24 horas. Na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), localizada na 204/205 Sul, ou pelo disque-denúncia da Polícia Civil, no número 197.