Felicidade multiplicada

Após escapar da morte graças a transfusões, mulher decide casar-se no Hemocentro e, para a cerimônia, pede aos convidados que, em vez de presentes, doem sangue. Essa foi a forma de agradecer a oportunidade de estar viva e, também, de estimular doações


  • Mariana Sacramento
Daniel Ferreira/CB/D.A Press

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Francisco e Cilma: casamento em um local tão inusitado exalta a importância da solidariedade irrestrita

Ao som da Marcha Nupcial e trajando um belo vestido branco, Cilma Paulo de Azevedo, 37 anos, entrou radiante no altar onde se casou. Como de praxe, chegou um pouco atrasada para a celebração, marcada para as 17h de ontem. Antes disso, padrinhos, convidados e damas de honra aguardavam ansiosos a noiva. Aqui se encerram as semelhanças entre a união de Cilma e Francisco da Conceição de Carvalho, 49, e as cerimônias de casamento tradicionais. Os dois juraram amor eterno diante de um padre no fim da tarde de ontem feira na Fundação Hemocentro de Brasília, na Asa Norte.

O auditório, com capacidade para 112 pessoas sentadas, estava lotado. Muita gente ficou de pé para assistir à realização do sonho de Cilma. De presente, os noivos pediram aos convidados que doassem sangue. Quem, por motivo de saúde, não pudesse atender ao pedido, poderia levar fraldas geriátricas, que serão doadas a asilos do Distrito Federal. Por trás do casamento inédito, há uma história de dor e superação decisiva para a escolha do local onde foi realizada a cerimônia.

Em 15 de janeiro deste ano, Cilma sofreu um acidente de carro. Por conta de um sangramento no fígado, ela teve uma hemorragia interna que só foi combalida após o recebimento de 16 litros de sangue tipo B. Graças ao sangue de doadores, Cilma está viva. A intenção de se casar no Hemocentro foi sensibilizar as pessoas para a importância da prática de doar sangue. “Meu sonho de se casar só foi possível por causa das transfusões. Espero que esse meu ato toque o coração das pessoas. Espero que meus amigos que me deram esse presente continuem doando sangue”, pediu Cilma, depois de trocar as alianças com Francisco. “Ela sempre foi uma pessoa que se preocupou com os outros. Tenho muito que aprender com ela”, elogiou o marido.

Doações

A emoção tomou conta do lugar. Nem a presidenta do Hemocentro, Maria de Fátima Brito Portela, conseguiu conter as lágrimas. “Só quem passa por momentos difíceis e precisa de transfusões sabe da importância do gesto de doar sangue. O que nós queremos é mostrar que esse casamento só foi possível graças aos doadores”, disse. Há três anos, o filho dela, à época com 16 anos, foi atropelado quando andava de bicicleta. O adolescente também precisou de transfusões de sangue para não perder a vida. “Ainda não sabemos o quanto a iniciativa da Cilma mudou no número de doações. Mas hoje o Hemocentro ficou lotado por todo o dia. E já tem doações agendadas”, informou Maria de Fátima.

Entre os solidários, está Rute de Almeida da Silva, 27 anos. Ontem, ela doou sangue a pedido da amiga há oito anos. “Eu achei a atitude (de casar no Hemocentro) linda. Mas, vindo da Cilma, não me surpreendeu nem um pouco. Ela sempre foi voltada ao cuidado das pessoas, sempre se envolveu em trabalhos sociais. Ela tem um coração muito grande. Agora assumi um compromisso e pretendo honrar, vou doar sangue com frequência”, garante.

Cilma e Francisco tiveram como padrinhos de casamento os pais de Maria Cláudia Del’Isola, morta brutalmente em 2004. Se estivesse viva, a jovem completaria ontem 25 anos. A noiva entregou o buquê a Maria Fernanda, irmã de Maria Cláudia, que vai se casar no próximo dia 30. “Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos”, disse Cristina Del’Isola, coordenadora do Movimento Maria Cláudia Pela Paz e mãe de Maria Cláudia. Cristina ajudou Cilma a realizar o sonho de se casar.