Erro liberou maníaco

Correio Braziliense

21/7/2010

Erros fatais

Mesmo condenado a 41 anos de prisão pela morte de duas mulheres no Novo Gama (GO) e três estupros no DF, Adaylton Nascimento Neiva conseguiu direito ao regime semiaberto. E uma série de desencontros e falhas de comunicação entre a polícia e a Justiça pode ter contribuído para que um homem considerado perigoso estivesse nas ruas e cometesse outros dois assassinatos. Enquanto a polícia faz novas buscas nos locais dos crimes (foto), surge a suspeita de mais vítimas.

BARBÁRIE

Erro liberou maníaco

A falta de comunicação entre as justiças do DF e de Goiás ressultou na progressão de regime antes do período correto

  • Ary Filgueira e Saulo Araújo
Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press

Ontem, em varredura feita pela polícia do Novo Gama no local onde foi encontrado o corpo da Alessandra, não foram achados vestígios de outros crimes

A comerciante Maria Luísa de Souza conta que o maníaco enterrou a mulher e a enteada no quintal de casa

A trajetória criminosa do maníaco do Novo Gama. Adaylton Nascimento Neiva, 31 anos, poderia ter sido interrompida se ele não tivesse voltado mais cedo para as ruas graças a uma sequência de erros da polícia e da Justiça. Em 2001, acusado de matar a mulher e a enteada, ele teve a prisão preventiva revogada porque a polícia do Novo Gama (GO) demorou mais tempo do que o permitido para concluir o inquérito que investigava a suposta autoria dele no duplo homicídio. Solto, ele voltou ao crime. Estuprou três mulheres no DF. Acabou preso e, em 2002, foi condenado a nove anos e seis meses. Em 2005, recebeu pena de 32 anos e quatro meses pelo assassinato da esposa e da filha dela. Somadas as penas, o jovem tinha pela frente 41 anos e 10 meses na prisão. Apesar disso, em abril de 2008, ele foi autorizado a trabalhar fora do presídio, mas continuou obrigado a dormir na Papuda.

A primeira falha foi da Polícia Civil de Goiás. Adaylton chegou a ficar preso, no Novo Gama, por força de um mandado de prisão preventiva. A lei determinava que o prazo fosse prorrogado em até 110 dias. Mas o acusado ficou atrás das grades 210 dias. Em virtude disso, em 10 de janeiro de 2001, a juíza substituta Rosângela Rodrigues Santos acatou o pedido do Ministério Público, destacando que a condução e a conclusão do inquérito haviam ultrapassado o prazo legal. Na decisão, ela destacou que o acusado estava preso “por falha do sistema judiciário”.

Não demorou muito para Adaylton voltar a cometer crimes. Em 19 de fevereiro, 39 dias depois de sair da prisão, ele estuprou as moradora do Gama Débora Geraldina de Souza, 31 anos, Ordilene Dias Rodrigues, 37, e Teresinha Araújo Soares, 30. Por conta disso, acabou preso em 17 de março daquele ano. A Justiça de Brasília condenou o acusado a uma pena de nove anos e seis meses em regime fechado. No entanto, após cumprir três anos e sete meses (dois quintos da pena total), em abril de 2008, o detento foi beneficiado com a progressão de regime.

Quatro meses antes, em novembro de 2005, a Justiça de Novo Gama condenou Adaylton a 32 anos e quatro meses de prisão por matar a mulher, Elenice Geralda Lucas, 19 anos, e enteada, Luciene Lucas de Caldas, 5. “O certo seria a Justiça de Brasília ter consultado a daqui antes de conceder o benefício para ele. Ou então, a Justiça do Novo Gama consultar para saber se ele ainda estava preso e avisar da nova condenação, o que não ocorreu”, explica o chefe do Centro Integrado de Operações de Segurança do Novo Gama, Fabiano Medeiros de Souza.

Assim como o maníaco Ademar de Jesus Silva, acusado de violentar e matar sete adolescentes em Luziânia (GO), Adaylton ganhou o direito de cumprir a pena em regime semiaberto, mesmo com dois laudos criminológicos assinados por psicólogos do Sistema Penitenciário (Sesipe) atestando que ele apresentava alterações no comportamento e, por esse motivo, não poderia voltar ao convívio social. O primeiro diagnóstico de Adaylton foi feito em 2003. No parecer, os psicólogos destacaram que ele não se regenerou dos problemas que o levaram a cometer os crimes sexuais. Em setembro de 2004, um segundo exame conclui que não houve melhora no quadro. No entanto, dessa vez, os especialistas se posicionaram a favor da concessão do benefício da progressão de regime desde que ele fosse submetido a acompanhamento psicológico, o que, segundo o próprio acusado, nunca aconteceu.

Novas mortes

Numa terceira avaliação, Adaylton foi considerado apto a voltar às ruas e, em abril de 2008, a Vara de Execuções Criminais do Distrito Federal autorizou que ele passasse a cumprir a pena em regime semi-aberto. Em setembro de 2009, ele saiu para trabalhar e não retornou ao presídio. Voltou a matar. Ele estuprou e assassinou a dona de casa Evanilde dos Santos Ribeiro, 41 anos. Dois meses depois, tirou a vida de Alessandra Alves Rodrigues, 14, num matagal entre os bairros El Dourado e América do Sul, no Novo Gama. “O laudo dizia que ele apresentava alterações no comportamento. O juiz pode observar um laudo criminológigo, mas tem que ficar claro que a lei não exige que o exame seja obrigatório para a concessão de progressão de regime”, ressalta Adiel Teófilo, diretor-geral do Sisep.

Ontem, os policiais fizeram uma varredura no local onde Alessandra foi executada, mas nada encontraram. A ficha criminal de Adaylton pode ser ainda mais extensa. A polícia investiga o envolvimento dele na morte de outras duas mulheres, assassinadas também no fim do ano passado, em Sobradinho. Uma fonte revelou à polícia goiana que ele é o autor dos crimes. A 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), que apura os casos, não confirmou a informação, mas, hoje, o delegado-chefe da unidade, Rossi Farias, vai ao município goiano, onde Adayllton está preso, para levantar mais informações.

O certo seria a Justiça de Brasília ter consultado a daqui antes de conceder o benefício para ele”

Fabiano Medeiros de Souza, chefe do Centro Integrado de Operações de Segurança do Novo Gama

O laudo dizia que ele apresentava alterações no comportamento”

Adiel Teófilo, diretor-geral do Sistema Penitenciário do DF

Crime chocou vizinhos

Na Rua 5 do Setor 11HC, no Novo Gama (GO), os moradores mais antigos se lembram bem de 19 de março de 2000. Foi nessa data que Adaylton Nascimento Neiva, então com 21 anos, cometeu um crime bárbaro. Após passar o dia bebendo em um bar da região, ele matou a pauladas sua mulher, Elenice Geralda Lucas, 19, grávida de cinco meses. A filha dela, Luciene Lucas de Caldas, 5, também não foi poupada. A garota foi asfixiada com um saco plástico até parar de respirar. Adaylton ainda teve a frieza de enterrar os corpos no quintal de casa e, no dia seguinte, fazer a mudança de tudo o que tinha na residência.

A comerciante Maria Luísa de Souza, 60 anos, acompanhou o caso e esteve frente a frente com o assassino no dia do crime. Ela contou que Elenice alugou a residência para fugir do marido. “Ela contava que estava escondida porque ele era um homem muito violento, mas não adiantou. No dia em que ele a matou, passou o dia aqui no meu bar, tomando cerveja, esperando a Elenice chegar do trabalho. Ele fez tudo premeditado”, contou Maria Luísa.

Outra vizinha, a cozinheira Yara de Souza Pires, 56 anos, relembra como ficou o clima na comunidade quando todos tomaram conhecimento do crime. “Ela ficou uma semana desaparecida e, quando soubemos como esse homem a matou, ficamos perplexos.”

Papuda

Hoje à tarde, Adaylton será transferido para uma cela na Papuda. A prisão temporária dele venceu ontem, mas o delegado-chefe do Ciops do Novo Gama, Fabiano Medeiros, já encaminhou à Justiça um pedido de prisão provisória relacionado ao crime cometido contra Alessandra. O delegado apontou falhas nos sistemas penitenciário e judiciário, que libertaram um condenado de alta periculosidade.

O delegado também acha pouco provável que ele seja doente mental. “Na verdade, eu acho que ele se faz de louco. Não é comum um psicopata usar drogas para matar, como é o caso dele. O psicopata é sádico, mata por sentir prazer em ver o outro sofrer. O Adaylton justifica os crimes que cometeu alegando estar sob influência de drogas e esse não é o perfil. Eu acho que ele quer vender uma imagem de anormal”, acredita Fabiano.

Cronologia

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press – 11/4/10

ADEMAR DE JESUS SILVA

Maio de 2000

A Justiça da Bahia expede um mandado de prisão preventiva contra Ademar, acusado de tentativa de homicídio

Novembro de 2005

Ademar é preso, em flagrante, acusado de ter abusado sexualmente de dois meninos, de 11 e 13 anos

Fevereiro de 2006

O pedreiro é condenado, em 1º instância, a 15 anos de prisão

Maio de 2008

Ao recorrer da sentença, consegue a redução da pena para 10 anos e 10 meses

Março de 2008

A Vara de Execuções Penais determina que Ademar seja submetido a tratamento psicológico

Maio de 2009

Um laudo psiquiátrico atesta que o pedreiro não possui doença mental

Agosto de 2009

A Justiça autoriza saídas temporárias quinzenais

Outubro de 2009

A Vara de Execuções Penais libera o condenado a deixar a prisão para trabalhar

Dezembro de 2009

Depois de receber manifestação favorável do MP, o juiz decide liberar Ademar

ADAYLTON NASCIMENTO NEIVA


Abril de 2000

Depois de assassinar a mulher, Elenice Geralda Lucas, 19 anos, grávida de cinco meses de um filho dele, e a enteada