Polícia procura vestígios das vítimas


CORREIO BRAZILIENSE 23/07/2010

BARBÁRIE

Polícia procura vestígios das vítimas

Autoridades fazem buscas na área onde o maníaco afirma ter matado três mulheres no Novo Gama. Ontem, ele admitiu ter executado mais uma em Santa Maria

  • Saulo Araújo
Fotos: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press

Agentes do Ciops e bombeiros vasculharam ontem a área onde o acusado confessou ter assassinado três mulheres em dezembro de 2009

A cada dia em que a polícia avança nas investigações de casos relacionados ao maníaco do Novo Gama (GO), surgem novas e chocantes revelações. Na tarde ontem, Adaylton Nascimento Neiva, 31 anos, confessou ter assassinado outra mulher, em Santa Maria, também em dezembro do ano passado, mês em que teria feito outras três vítimas. Por enquanto, o delegado-chefe do Centro de Operações de Segurança (Ciops) do município goiano, onde o acusado está preso, trata a informação com cautela, já que Adaylton não teria dado detalhes dessa suposta morte. “Ele confessou, mas está variando. Não chegou a revelar informações precisas, mas de qualquer forma, vamos entrar em contato com a delegacia da área (33ª DP) para checar se o que ele disse corresponde à verdade”, pondera Fabiano Medeiros de Souza.

Hoje, o delegado-chefe adjunto da 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), Rogério de Oliveira, pretende conversar com o chefe do Ciops. A ideia é levar o acusado a Sobradinho para que ele indique os lugares onde matou Evanilde dos Santos Ribeiro, 41 anos; Denise Estácio Dias, 18, e uma terceira vítima, identificada apenas como Margareth. “Ele é um preso que está colaborando com as investigações. Creio que possa nos ajudar a elucidar os crimes não solucionados”, diz Rogério.

Na tarde de quarta-feira, ele confessou ter assassinado quatro mulheres, duas no Novo Gama e duas em Sobradinho. As vítimas do município goiano teriam sido mortas próximas ao Sítio São Tomé. O antigo caseiro da propriedade contou à polícia que viu Adaylton caminhando rumo ao córrego acompanhado de uma moça. “Nós mostramos uma foto para o caseiro, que hoje mora em São Paulo, e, de pronto, ele reconheceu o Adaylton”, afirma o chefe do Ciops, Fabiano de Souza Medeiros.

Enquanto os agentes se preocupavam em abrir uma nova frente de investigação para apurar o suposto caso de Santa Maria, o Corpo de Bombeiros do Novo Gama (GO) realizou outra varredura no matagal onde Adaylton fez sua última vítima: Alessandra Alves Rodrigues, 14 anos. Para auxiliar as buscas, os militares usaram duas cadelas farejadoras, Morena e Bets: as mesmas que ajudaram nas buscas aos corpos dos sete adolescentes de Luziânia (GO), violentados e assassinados pelo pedreiro Ademar Jesus da Silva, conhecido como o maníaco de Luziânia. A intenção é de ter certeza que ele não tirou a vida de mais ninguém na área, que fica na região do Alagado, entre os Bairros América do Sul e El Dourado. “Ele conta que não assassinou mais ninguém lá (na mata), mas não podemos apenas acreditar nas palavras dele. Vamos além, pois ele é um homem desequilibrado e capaz de tudo”, ressalta Fabiano. O trabalho de busca durou seis horas.

Dificuldade

Os militares dos bombeiros também procuraram vestígios das duas supostas vítimas do maníaco, que ele teria assassinado no último dia 10 de dezembro. O Córrego Crispim, que seria o local de desova dos corpos, também foi vistoriado. Mergulhadores do Corpo de Bombeiros desceram cerca de 10 quilômetros rio abaixo, mas a poluição da água dificultou os trabalhos. Uma calcinha foi localizada, mas os bombeiros logo descartaram a possibilidade de a peça pertencer a alguma vítima de Adaylton. Várias ossadas estavam às margens do rio, mas todas eram de animais. “O rio não está propício ao mergulho. Está com pouco mais de um metro e meio de profundidade. O fundo está escuro, o que dificulta muito a visualização. Tem muitos objetos, o que atrapalha numa triagem para saber o que pertence às mulheres que ele alega ter matado”, explica o comandante da operação, tenente Bruno Alves Ferreira.

Os agentes do Ciops já trabalham com a hipótese de não encontrarem os corpos das supostas vítimas do Novo Gama. Pelo tempo decorrido (sete meses), as ossadas podem ter sido levadas por animais para locais distantes ou estarem enterradas sob bancos de areias que se formam no fundo do córrego. Outra possibilidade é que a correnteza do Rio Crispim possa ter conduzido os corpos até Corumbá (GO), onde ele desemboca. Diante de tantas vítimas atribuídas a Adaylton, a polícia vai analisar todas as ocorrências de desaparecimentos do DF registradas em dezembro do ano passado.

Se o que ele contou for verdade, o número de mulheres que sofreram algum tipo de violência por parte dele sobe para 13. Adaylton iniciou sua trajetória criminosa em 2000, quando matou e enterrou no quintal de casa a companheira, então grávida de cinco meses. No mesmo dia, executou a enteada de 5 anos asfixiada com um saco plástico. Acabou preso, mas voltou às ruas 210 dias depois, porque foi extrapolado o prazo legal para mantê-lo detido antes do julgamento. No ano seguinte, ele estuprou três mulheres no Gama. Condenado, deveria cumprir nove anos e seis meses de prisão. Enquanto cumpria pena no DF, foi condenado, em 2005, pelo duplo homicídio cometido cinco anos antes: 32 anos e quatro meses. As sentenças foram unificadas, mas o criminoso teve direito à progressão(1) de regime em abril de 2008, mesmo com dois laudos criminológicos desaprovando sua soltura. Livre novamente, Adaylton tirou a vida de três mulheres em Sobradinho e de outras três no Novo Gama.

1 – Ressocialização

O sistema progressivo de redução de pena visa recuperar aos poucos e ressocializar o indivíduo para o retorno ao convívio com a sociedade. Um condenado que tenha cumprido com bom comportamento 1/6 da pena no regime fechado poderá progredir para o semiaberto até alcançar a liberdade de forma restrita (regime de albergue ou prisão albergue) antes de consegui-la por meio do livramento condicional. Se o crime for hediondo e tiver sido cometido antes de março de 2007, a fração para progressão também será de 1/6. Porém, para os crimes hediondos praticados a partir dessa data, quando houve mudança na lei, a exigência sobe para 2/5 da pena para réus primários e de 3/5 para os reincidentes.

Ele conta que não assassinou mais ninguém lá (na mata), mas não podemos apenas acreditar nas palavras dele. Vamos além, pois ele é um homem desequilibrado e capaz de tudo”

Fabiano Medeiros de Souza,delegado do Ciops do Novo Gama

Apoio à família de Alessandra

Na opinião de Valéria, a cultura da paz precisa nortear as políticas públicas

Ontem, a responsável pela Subsecretaria de Proteção às Vítimas da Violência (Pró-Vítima), Valéria Velasco, foi ao Novo Gama para oferecer apoio jurídico e psicológico à família de Alessandra Alves Rodrigues, 14 anos. A garota foi assassinada em 21 de dezembro do passado, num matagal entre os bairros El Dourado e América do Sul. A ossada dela foi encontrada somente no último domingo e seguiu ontem para o Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia para ser analisada. Para Valéria Velasco, a Justiça falhou ao permitir que Adaylton voltasse ao convívio social, mesmo com dois laudos criminológicos atestando que ele não havia se recuperado. “Foi uma falha gritante. Somente o fato de esse homem ter matado e enterrado a esposa e a enteada em 2000 era motivo para ele não sair da prisão. Essas falhas escandalosas são recorrentes e não podem continuar acontecendo”, criticou a subsecretária.

Ela também afirmou que o Entorno precisa de políticas públicas voltadas para a cultura da paz. De acordo com a subsecretária, a violência nas cidades próximas ao Distrito Federal é muito comum, assim como nas regiões administrativas mais carentes da capital. “No ano passado, foram registradas no DF 9.576 ocorrências somente relacionadas à Lei Maria da Penha”, disse.

Ajuda

O Pró-Vítima é um programa da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Distrito Federal (Sejus) criado em abril de 2009. O objetivo é dar visibilidade aos direitos dos cidadãos atingidos direta ou indiretamente por crimes violentos, assegurando-lhes atendimento focado nas áreas psicossocial e jurídica, além de contribuir para a superação dos danos causados pela violência e também levantar subsídios para a construção de políticas públicas eficazes de prevenção do crime e de proteção da vida.

O pai de Alessandra(2), Alexandre Rodrigues Macedo, 40 anos, agradeceu o auxílio do Pró-Vítima. “Toda ajuda nessa hora é importante. Estamos buscando apoio na igreja para tentar superar essa tristeza. Hoje (ontem), minha esposa finalmente demonstrou estar se recuperando da dor. Ela conseguiu levantar da cama e saiu de casa. Ainda é duro, mas, com fé em Deus, vamos superar tudo isso”, comentou.

De acordo com o mecânico, a vontade da família é sepultar os restos mortais da filha. “Não queremos ficar mais remoendo essa história. Queremos enterrar nossa filha com dignidade e colocar uma pedra nisso tudo”, complementou Alexandre.

2 – Denúncia anônima

A polícia do Novo Gama investigou durante sete meses o desaparecimento de Alessandra Alves Rodrigues até prender, na cidade de Picos (PI), o acusado pela morte da adolescente. Os investigadores chegaram até Adaylton depois de receberem uma denúncia anônima. A garota estava desaparecida desde 10 de dezembro de 2009.

Cronologia dos crimes

Março de 2000

  • Elenice Geralda Lucas, 19 anos. Ela estava no quinto mês de gestação de um filho de Adaylton e foi morta a pauladas.
  • Luciene Lucas de Caldas, 5 anos. Filha de Elenice, foi asfixiada até perder a vida.
  • Os crimes aconteceram no Novo GamaFevereiro de 2001
  • Três estupros no GamaSetembro de 2009
  • Evanilde dos Santos Ribeiro, 41 anos — Sobradinho
  • Mais duas vítimas ainda não identificadas — SobradinhoDezembro de 2009
  • Alessandra Alves Rodrigues,
    14 anos — Novo Gama
  • Mais três mortes ainda não identificadas — Duas no Novo Gama e uma em Santa Maria