Vida dos agressores segue sem tropeços

Naira Trindade

Duas semanas antes de morrer: de férias em Natal (RN), com uma iguana na cabeça, alegria total

O futuro de João Cláudio Leal foi interrompido muito cedo, na saída de uma boate, depois de uma briga animalesca. Os seus agressores, que bateram até matar, parecem seguir seus dias tranquilos, sem interrupções. Um deles até voltou a praticar crimes.

Marcelo Gustavo Soares de Souza, hoje com 33 anos, e José Quirino Alves Júnior, 37, estão livres. Ambos cumpriram parte das penas de 12 e 8 anos, respectivamente, por terem assassinado João Cláudio, e deixaram a prisão. Ganharam a liberdade e vão poder comemorar hoje, em casa, o Dia dos Pais. Sentimento tão sonhado pelo pai de João Cláudio, André Leal.

Marcelo Gustavo e José Quirino não convivem mais. Não saem juntos. Nem sequer são amigos. A ação impensada naquela madrugada de 9 de agosto de 2000, na Music Hall Café, da 411 Sul, se reflete por toda a vida. Marcelo e Juninho — como Quirino é conhecido — seguiram em frente depois de terem destruído uma família inteira. E descobriram que acabaram também com as próprias vidas, depois daquela trágica briga.

À época comerciante, Juninho lutou até a última instância na Justiça para tentar provar que não tinha culpa na ação que vitimou o estudante João Cláudio. Tentou anulação, sob o argumento de que a decisão foi contrária à prova dos autos, tanto no que diz respeito à participação dele no homicídio quanto à inclusão da qualificadora do motivo fútil. Seus advogados sustentaram ter havido cerceamento de defesa e a nulidade do quesito que menciona sua participação no homicídio. Juninho alegou não haver provas contra ele. Perdeu o recurso. Ficou preso cinco anos em regime fechado — apesar de julgado em 2004, já estava preso desde 2000. Saiu em 9 de outubro de 2005 sob condição de dormir na cadeia. Assim fez até 2008.

Reincidência
Trocou o antigo endereço, na QNL 2 de Taguatinga, há dois anos. O pai, José Quirino Alves, se separou e casou-se de novo, mudando-se para Águas Claras. Juninho abriu uma oficina, onde trabalha atualmente. Para os vizinhos que o viram crescer, a vida dele se ajeitou. Todos se recusaram a informar o endereço da nova casa do mecânico, que, depois de sair da prisão, não voltou a praticar crime.

Marcelo, ao contrário de Juninho, escolheu outro caminho. Mesmo depois de passar seis anos e seis meses em regime fechado por causa das agressões a João Cláudio e Gilson Elmokdisi (hoje com 30 anos, publicitário, casado, dois filhos, o amigo de faculdade com quem foi à boate),voltou às páginas policiais, em 2008. Acabou novamente detido por se envolver em clonagem de cartões bancários. Foi a julgamento, mas a Justiça o considerou réu primário. Ele teve os benefícios concedidos. A pena de dois anos por aplicar golpes em clientes bancários acabou num regime semiaberto. Durante o dia, ficava livre. À noite, ele dormia na prisão.

Não bastassem as punições, meses depois, Marcelo Gustavo, então dono de uma lan house em Ceilândia, voltou a ser notícia ao apresentar uma Carteira de Motorista falsa a oficiais de trânsito da Polícia Militar. Ironicamente, o documento falsificado de maneira tosca — conforme relatos da sentença no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (MPTDFT) — trazia o nome de João (o sobrenome inventado era Neto). Na mesma época, Marcelo ainda teve que responder pelo furto de um notebook, escondido por ele num guarda-roupas na casa da mãe. Daí, somam-se mais 14 meses de reclusão pelos crimes.

Marcelo ganhou as ruas há mais de um ano. Neste domingo, vai poder receber abraços dos dois filhos, um de 11 anos e um recém-nascido. Está no segundo casamento. Trabalha com o irmão mais velho numa loja de autopeças. Ainda frequenta diariamente o endereço da mãe, na QNL 12. Para a vizinhança, Marcelo é um jovem ainda desajuizado. “A vida dele não foi fácil. Ele não encontra emprego. Ninguém quer assinar a Carteira de Trabalho dele. Mas, na verdade, parece que ele não gosta muito de trabalhar, pois sempre foi criado pela mãe”, comentou, discretamente, uma vizinha que não se identificou.

Na última sexta-feira, o Correio bateu na porta do agressor de João Cláudio. Familiares receberam a reportagem com ironia, dizendo não terem conhecimento do que se tratava o assunto. Nada quiseram informar. Ao atender o telefone da empresa do irmão, Marcelo emendou, na mesma linha: “Não sei do que se trata. Não tenho nada a dizer sobre isso”. Mesmo após o irmão dele confirmar que Marcelo foi quem atendeu à ligação.

Por telefone, Gilson disse ao Correio que o trabalho o ajudou a superar a cicatriz aberta após a morte do amigo. E acredita: “Se João Cláudio não tivesse morrido, nossa amizade seria pra sempre”.