Comerciante temia o pior

VIOLÊNCIA

Em entrevista ao Correio, em 6 de agosto, o dono de padaria assassinado no último sábado falou sobre o medo de trabalhar na Asa Norte. Adolescente apontado como autor do tiro que o matou foi apreendido ontem

  • Saulo Araújo

A padaria de Sebastião Carneiro ficou fechada ontem, com cartazes indicando luto colocados por funcionários e familiares

“A gente trabalha com medo, pois a marginalidade está muito grande”. O comerciante Sebastião Carneiro de Souza, 52 anos, parecia prever o pior quando disse esta frase à equipe do Correio, no último 6 de agosto. Na ocasião, ele e outros moradores de uma das áreas mais nobres de Brasília, a Asa Norte, reclamavam da insegurança na região. Quinze dias depois, Tião, como era conhecido por colegas e familiares, foi assassinado de forma brutal, em frente ao seu estabelecimento, na 710 Norte, por três adolescentes que, horas antes, tinham deixado uma instituição de semiliberdade para menores infratores, no Gama.

Dois adolescentes, um de 14 e outro de 16 anos, foram apreendidos pela Polícia Militar no dia do crime. O último, apontado como autor do disparo e que estava foragido, foi encontrado por uma equipe da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) na tarde de ontem, em Santa Maria. Uma câmera instalada no prédio onde morava e trabalhava Sebastião flagrou o momento em que um dos jovens, trajando camiseta branca e bermuda preta, atira contra ele. A bala atingiu a testa de Sebastião e saiu pela nuca. Ele ainda resistiu por nove horas, mas morreu na mesa de cirurgia do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF).

As imagens mostram os três menores chegando ao local às 17h49. Às 17h50, o trio entra na padaria de Sebastião, mas os adolescentes desistem de assaltá-la devido à grande quantidade de clientes. Dois minutos depois, rendem no estacionamento um homem, dono de uma loja que fica ao lado da padaria de Sebastião. Do balcão, ele corre para ajudar o vizinho. Entra em luta corporal com um dos ladrões, justamente o que estava armado. O revólver cai, mas o comparsa dele, de apenas 17 anos, pega-o e puxa o gatilho.

O equipamento que filmou toda a movimentação foi instalado pelo técnico em segurança eletrônica Lúcio Soares, 42 anos. Enquanto assistia às cenas de violência, ele fez um desabafo. “Essa Justiça tem que ser reformulada. Tiraram a vida de uma pessoa maravilhosa, destruíram uma família inteira. Será que aqueles que defendem essa lei ridícula que só beneficia bandido estão com a consciência tranquila? Eles não estão preocupados porque não aconteceu com algum membro da família deles. Eu faço um apelo aos bandidos: quando ganharem a liberdade mais cedo, que cometam crimes contra as famílias dos políticos. Quem sabe assim eles não resolvam agir e fazer algo que realmente beneficie a população?”, disparou Lúcio.

Crimes recorrentes

A insegurança na Asa Norte tem tirado o sono de quem vive na região, principalmente os comerciantes, alvos constantes de assaltantes. O dono de uma loja de equipamentos eletrônicos Carlos Alexandre da Costa, 35, já admite deixar o lugar onde trabalha há 10 anos. “Depois desse crime, conversei com minha esposa e estou pensando seriamente em pegar umas reservas e tentar outro ramo em que eu não fique tão exposto”, contou.

Somente este ano, vários casos de violência foram registrados na Asa Norte (Ver memória). Segundo a delegada-chefe da DCA, Eliana Clemente, as asas Norte e Sul são onde os adolescentes mais praticam furtos e roubos no DF. “Não há diferença no modus operandus dos adolescentes que praticam ato infracional no Plano ou em uma região carente. A diferença é que nessa região central eles têm mais oportunidades, pois é onde existe uma circulação maior de dinheiro”, afirmou.

Já a delegada-chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), Mônica Loureiro, garante que o policiamento faz sua parte, mas critica a legislação vigente. “As pessoas e a mídia reclamam da falta de policiamento. Mas se você parar para analisar, um dos menores (envolvidos no homicídio) tem cerca de dez passagens. A PM e a Polícia Civil têm feito um excelente trabalho na Asa Norte, tanto que o número de crimes diminuiu bastante, mas, infelizmente, muitas vezes nós enxugamos gelo, pois apreendemos hoje e, amanhã, eles já estão nas ruas”, lamentou a delegada.

Sentinela

Com o objetivo de dar mais segurança aos comerciantes da região, a delegada pretende implantar nos próximos dias o Projeto Sentinela. Nele, o dono de estabelecimento é cadastrado na delegacia e pode acioná-la, apertando apenas uma tecla, quando estiver diante de uma situação de risco. “Ele não precisa discar o número, nem falar nada. Quando acionar a tecla, nós já ficamos sabendo que ele precisa de ajuda e uma viatura vai imediatamente ao local”, explicou Mônica Loureiro.

O computador que será usado como central do programa foi doado pela Associação Comercial do DF. “Acho que esse projeto vai ajudar muito a polícia a atuar preventivamente no combate ao crime. Acho que essa ferramenta vai tornar mais tranquilo o trabalho dos comerciantes da Asa Norte que tanto sofrem com furtos e roubos”, destacou a presidente da Associação Danielle Moreira.

Já o presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Brasília, Saulo Santiago, aposta que a receita para tornar a área central da capital mais segura é unir as Polícias Militar, Civil e os órgãos de assistência para atuarem em conjunto. “O trabalho articulado em toda a cidade pode resolver o problema”, avalia. Santiago acrescenta que crimes como o do último sábado são episódios esperados pela população. “O tráfico e o uso de drogas só aumentam na Asa Norte. Esses fatores agravam os índices de violência”, observa.

Depois desse crime, conversei com minha esposa e estou pensando seriamente em pegar umas reservas e tentar outro ramo em que eu não fique tão exposto”

Carlos Alexandre da Costa, dono de uma loja de equipamentos eletrônicos


Entrevista – Sebastião Carneiro – 6/8/10

“Graças a Deus nunca agiram com violência”

No último 6 de agosto, Sebastião foi entrevistado pela reportagem do Correio. O tema da matéria era justamente a violência crescente na Asa Norte. Na ocasião, o comerciante contou que já havia sido assaltado sete vezes. “Trabalho neste ponto há 28 anos. Fui assaltado sete vezes, sendo seis vezes só nos últimos cinco anos. Graças a Deus nunca agiram com violência. Só pegaram o dinheiro e foram embora”, contou.

Ele também demonstrava preocupação com o avanço das drogas, e não escondeu o medo. “Esse negócio de droga acabou com a Asa Norte. A gente trabalha com medo, pois a marginalidade aqui está muito grande”, reclamou. Sebastião realmente era o homem educado e solícito que os amigos e familiares descreveram após sua morte. Durante a entrevista, ofereceu café à equipe de reportagem e se despediu com um forte aperto de mão.

Medo atrás do balcão


O Correio percorreu quadras da Asa Norte e constatou o medo dos trabalhadores. A ausência de policiamento nas ruas durante a noite está entre as principais reclamações. Gerente de panificadora na 307 Norte, Junimar Soares da Cruz, 36 anos, teme ser vítima de bandidos. “Se eu reagir, ainda acabo como aquele último”, frisou, se referindo a Sebastião Carneiro de Sousa. Os funcionários de uma padaria na 407 Norte viveram o drama de ter de se jogar no chão para não serem baleados, em abril último. Os vendedores, o proprietário e uma cliente ficaram deitados até que os assaltantes limpassem o caixa. “O clima para quem trabalha atrás do balcão é de medo”, contou a gerente Thassiane da Silva Rocha, 25.