Um homem que nasceu inteligente

Quase meio século depois, o goiano que nunca leu ou escreveu — e ainda assim pelejou para que uma escola chegasse àquele lugar tão improvável — viu seu nome virar símbolo da primeira biblioteca do Capão Seco, zona rural a 70km do Plano Piloto

  • Marcelo Abreu
  • Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Pres

Durante a inauguração da biblioteca que ganhou seu nome, Santil, de 87 anos, comemora o feito de ter levado as letras a toda a comunidade: libertação

Ele estava por demais ansioso. O sono foi interrompido na madrugada. E olha que nunca teve insônia. Tomou calmante, coisa que nunca fez a vida inteirinha. Era preciso acalmar a emoção. Segurar o coração, mesmo sendo uma rocha. E chegou a hora. Lá estava ele, de paletó preto, sapatos também da mesma cor, recém-engraxados, e chapéu panamá. Parecia um lorde. Na verdade, ele é um lorde. No meio daquela gente importante e letrada, ele seria o mais importante. As homenagens eram pra ele, o homem que lutou, há quase meio século, contra a ditadura e levou o saber àquele fim de mundo.

Na manhã de ontem, o homem que nunca leu, nunca escreveu uma frase — nem o próprio nome — virou nome de biblioteca, a única daquele lugar tão improvável. Em pé, diante dos nove filhos, dos netos, dos professores, “de uma gente estudada e sabida”, ele disse, como agradecimento: “Eu não sei ler, mas o coração sabe sentir. Deus vai proteger todos vocês. Que ninguém mais passe pela vida sem conhecer as letras”. Arrancou aplausos e lágrimas da plateia.

Que história é essa, afinal? Que homem é esse? Onde fica esse lugar improvável? Estamos no Capão Seco, a 70km de Brasília, zona rural do Paranoá. Lá, a vida é tão calma que parece ter parado. Ainda se ouvem os pássaros cantarem. Há apenas uma escola, um posto de saúde e um centro comunitário. A violência ali ainda não se hospedou. Os moradores se conhecem e não há grades nas portas das casas.

Com os netos: lição maior de sabedoria é legado precioso do avô

Foi próximo àquela região, em Saco Grande, povoado da então minúscula Formosa (GO), que no começo do século 20 nasceu um menino comprido de nome Santil Alves Ribeiro. Filho de agricultores pobres, seus pais mudavam sempre de lugar. Santil já nasceu pelejando. A fome os enxotava de tempos em tempos.

Aos 15 anos, o pai de Santil morreu. Filho mais velho, ele precisou assumir a mãe viúva e os irmãos. Esqueceu-se dele. Em vez de estudar, foi plantar, colher e criar porcos. Os irmãos ainda foram à escola. Aprenderam um bocadinho das letras. Casaram-se. Santil ficou moço velho. Ao completar 30 anos, a mãe lhe disse: “Você precisa se casar. Tem que ter uma família. Vou morrer e não quero deixar você sozinho”.

Obediente, Santil se casou aos 31 anos com sua Carmelita Guimarães, a Lita. “Era dia 6 de agosto de 1957. Já era moço velho”, conta. Ainda em Saco Grande, nasceu parte dos nove filhos. A família se mudou, em busca de terras melhores. Começavam os anos 1960. Santil, finalmente, chegou à região do Capão Seco.

A família se completou: Maria, Antônio, Santino, Pedro, Flávia, Dulita, Marcos, José e Ivonice. Nove filhos. Nove vidas pra cuidar. E foi ali que o homem que nunca escreveu o nome começou a rabiscar a sua melhor e mais emocionante história. Onde seus filhos e as outras crianças da região iriam estudar?

Até a Banda dos Fuzileiros Navais marcou presença no dia especial

“Fé em mim”

Ditadura militar. Brasília estava sitiada pelas tropas. O Exército tomou conta da região do Capão Seco. Fez dali sua base estratégica. O comandante chamou Santil à sua casa, a única de alvenaria que havia. Queria saber quem era aquela gente que ali morava. Montado no seu burro, o destemido homem da roça foi ao encontro do homem de verde.

Santil lhe fez um pedido. Queria que chegasse uma escola à região. O comandante ficou de pensar. Mas não teve tempo. Adoeceu e teve que deixar o posto. No lugar dele, veio um sargento. “Moço, ele era brabo, mas eu tive coragem e pedi a escola de novo”, lembra. “Eu disse que gostava de homem que falava na hora, gente que fala atrás da moita não serve. O homem tomou fé em mim.”

Quinze dias depois, a escola chegou àquele lugar improvável. Onde? À casa do sargento. A professora? A mulher do militar, moça fina criada no Rio de Janeiro. Vieram as crianças do Capão Seco. O quartinho ficou pequeno. O que fazer? Procurar outro lugar. Acharam, a 3km dali, num barraco de tábua. A moça fina do Rio de Janeiro? “A mulher pelejou demais, mas deu conta de montar num burrinho, pra chegar até a escola”, conta Santil. Às vezes, era um dos filhos dele, Antônio, então com 7 anos, que buscava a professora. Um a um dos nove filhos dele estudou na escola que nasceu de um sonho.

Com os nove filhos: todos estudaram na velha escolinha feita de tábua

O sargento e a professora, tempos depois, foram embora. Em 1969, a então Fundação Educacional do DF assumiu aquele lugar onde crianças aprendiam a ler e a escrever. E sonhavam que estavam longe dali. Virou, há 41 anos, Escola Classe Capão Seco. Hoje, naquele lugar não mais de tábua, estudam os filhos dos filhos do bravo Santil.

Comoção

No fim da manhã de ontem, o povoado parou. Havia uma inauguração no cento comunitário da região. Os alunos da escola, pais, professores e diretores de outras unidades rurais e até a Banda dos Fuzileiros Navais, que tocou o Hino Nacional, foram convidados. Ali, naquele lugar, nasceu a primeira biblioteca da região.

Por meio do Projeto Bibliotecas Casa do Saber, da Rede Gasol, que inaugurou ontem no DF a 87ª biblioteca, a coordenadora Carmen Gramacho, 65 anos, abriu a cerimônia. Emocionada, ela teve que conter as lágrimas. “Aqui será um espaço vivo da leitura, que é um caminho sem volta.” Sentado em meio às autoridades, Santil ouvia os discursos.

Na reportagem publicada no Correio em 2 de maio, Santil conta sua história: daí nasceu a ideia de homenageá-lo com a biblioteca

Presidente da Associação dos Bibliotecários do DF, Isa Antunes, 70 anos, que também é a responsável técnica pelas obras do projeto Casa Saber, lembrou: “Dados recentes do IBGE apontam 14 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever no Brasil. Vamos diminuir esses números”.

Visivelmente emocionada, Consuelo Ferreira, 40 anos, diretora da Escola Classe Capão Seco, leu a história do guerreiro Santil, publicada no Correio, em 2 de maio deste ano. “Eu não queria que meus filhos usassem o dedão como eu”, ele dizia. Antônio Matias, 68, da Rede Gasol, lembrou que o projeto, que já inaugurou bibliotecas nos quatro contos do DF — de escolas a presídios, e até fora daqui —, só é possível graças à doação de livros da população de Brasília, nos postos da rede.

Santil ouviu tudo. Estavam ali os nove filhos, alguns moram bem longe, mas não deixaram de ir. Os netos. Os alunos da escola. As mães e os pais daquelas crianças. “Precisava acontecer alguma coisa boa nesse lugar”, diz Francisca Nazarinho, 47 anos, mãe de um aluno. “A comida nem foi pras panelas, mas eu não podia deixar de vir aqui. Essa biblioteca vai trazer sonhos pras nossas crianças”, emenda Neuraneide Novais, 37, mãe de duas alunas da Escola Classe. “Agora a gente pode pesquisar e fazer os trabalhos”, comemora Sandy Alves, 10.

Os filhos de Santil seguraram o choro. Santilo Ribeiro, 49 anos, comentou: “É uma homenagem em vida ao meu pai”. Antônio Ribeiro, 52, o então menino que trazia a professora carioca no burro, engasgou a voz: “É só emoção…”.

Passava do meio-dia e meia. A placa da biblioteca foi descerrada. E lá estava, em letras garrafais, o nome do homem que nunca pôde se sentar num banco de escola. Elegante, como só os verdadeiros lordes sabem sê-lo. A ele, todas as homenagens. Todas as condecorações. Do jeitinho simples, com suas palavras, ele disse a um comandante que o estudo salvaria a vida daquela gente. O homem de pompa e farda ouviu o homem humilde da roça. Começava, naquele dia, a ser escrita toda essa história.

A inteligência de Santil nunca se sentou num banco de escola. Nem foi preciso. E ainda assim ele virou um sábio.