Congresso

 

Eles são contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de regredir a pena para culpados por crimes hediondos. Com a medida, tomada na semana do Carnaval, os presos não terão mais de cumprir dois terços da sentença para entrar com o pedido de condicional. Eles passam a ter o direito de passar apenas um sexto da pena na prisão. Depois, podem solicitar regime semi-aberto e aberto.

Para os pais que perderam os filhos em assassinatos brutais, a decisão é imoral e um desrespeito à dor de quem sofreu a perda de uma pessoa querida. A mãe da adolescente Gabriela Prado, morta aos 14 anos no metrô da Tijuca, no Rio de Janeiro, diz que o STF está estimulando a criminalidade. Cleyde Prado Maia foi uma das responsáveis pela elaboração da emenda popular.

– O sentimento é de indignação pela impunidade e medo de ter os marginais soltos – disse.

O pai de Gabriela, Carlos Santiago, reforçou dizendo que a legislação brasileira é arcaica.

– Com essas leis, um pedófilo poderia ficar solto para machucar outras crianças, ou então os assassinos da minha filha poderiam estar respondendo pelo homicídio em liberdade – considerou.

Estima-se que cerca de mil dos 3.700 presos considerados perigosos sejam beneficiados com o julgamento do STF. Uma proporção elevada deles seria do Distrito Federal, em casos a serem julgados entre março e abril.

Antes de entrar no Congresso, os familiares se reuniram para oração em torno de uma colcha de retalhos que trazia o nome das vítimas da violência. Conduziu a prece a mãe da estudante Maria Cláudia Del'Isola, morta aos 19 anos pelo caseiro de sua casa, no Lago Sul. Com um pano que trazia várias pequenas bandeiras do Brasil, Cristina Del'Isola rezou.

– Este é um símbolo do nosso país, que sangra com a impunidade. Que Deus seja capaz de fazer a justiça que as leis do Brasil não estão fazendo – afirmou.

Iêda Valle, mãe do jovem veterinário Rodrigo Valle, sequestrado e morto em Brasília em agosto do ano passado, era uma das muitas mães presentes no ato que perderam o filho de forma covarde.

– Deixar criminosos fora de prisão é indecente. Um desrespeito à nossa dor e ao trabalho dos policiais, que se arriscam para prender os culpados – considerou Iêda, com os olhos cheios d'água pela perda.
Ao receber o documento, Renan Calheiros garantiu que o projeto será prioridade.

– Também sou contra a progressão da pena. Isso não é uma guerra ao Judiciário, mas vamos programar uma agenda especial para apreciação dessa matéria – afirmou.

Aldo Rebelo não estabeleceu um prazo para que o projeto de iniciativa popular seja votado, mas também se mostrou favorável à causa.

– Não existe democracia onde a sociedade tem de conviver com a impunidade. Tenho o compromisso de defender o direito da população – reforçou.

(Jornal do Brasil – Caderno Brasília – 09/03/06)