Dois anos de impunidade

O crime ocorreu numa sexta-feira à noite. Após dar carona para um amigo e deixá-lo em casa, na 713 Sul, o casal foi rendido enquanto outro carro os escoltava. Três seqüestradores comandaram a operação e levaram Rodrigo e a namorada dele, Ariadne César Esteves, 27, para o Km 90 da DF-001, sentido Taguatinga-Brazlândia. Estacionaram em um lugar ermo e tentaram estuprar a jovem, que na época também terminava a faculdade de veterinária. Ao tentar impedir o abuso, Rodrigo levou três tiros. Depois de investigar o crime, agentes da 17ª Delegacia de Polícia, em Taguatinga Norte, chegaram ao responsável pela tragédia: Francisco Crisóstomo Barbosa, o França.

 

Ressentimento

O suspeito, que cumpria liberdade condicional na época do crime, ficou preso por 14 dias. Mas fugiu quando era levado para o Fórum de Taguatinga, onde prestaria depoimento em 2 de fevereiro. Desde então, continua solto. O delegado-chefe da 17ª DP, Mauro Aguiar, responsável pelas investigações, admitiu que a equipe se ressentiu com a fuga. “Foi um trabalho árduo, dias e noites de busca e investigação até que conseguimos prendê-lo. Mas como não estava sobre nossa custódia, e sim da penitenciária, que o perdeu no trajeto, tivemos que começar tudo de novo”, lamentou.

 

Segundo Aguiar, as buscas continuam. “Ele pode estar em qualquer lugar, mas não vamos desistir. Espalhamos o aviso de foragido por todo o país, já tivemos várias pistas. Temos confiança de que o crime não vai ficar impune”, garantiu o delegado.

A família também não desiste. A mãe de Rodrigo, Ieda Vale, 54 anos, divulgou uma carta à imprensa nesta semana (leia abaixo). “A dor e o vazio permanecem e a saudade aumenta a cada dia”, escreveu ela, em um dos trechos. “É uma irresponsabilidade muito grande os criminosos ainda estarem soltos”, reclamou ontem.

 

Além de acompanhar semanalmente o andamento do caso, a irmã Veruschka participa de grupos que organizam manifestações contra a violência. Também luta pela mudança de alguns artigos do Código Penal. “É preciso mudar o sistema carcerário. Parece que os bandidos somos nós, que vivemos atrás de muros, alarmes e grades para nos proteger”, protestou a publicitária.

 

A carta

Ieda E. Vale, mãe de Rodrigo Vale Fonseca

 

Dois anos já se passaram. Para mim é como se tudo estivesse acontecendo agora. A dor e o vazio permanecem os mesmos e a saudade aumenta a cada dia.

 

É uma saudade que dói, que dói muito. É a saudade de quem partiu para uma viagem eterna que não tem volta. Não consigo definir, nem encontrar palavras para explicar esta dor, este grande vazio no meu coração de mãe.

 

Perder um filho é carregar para sempre a sensação de que está faltando um pedaço em nós. É como se uma parte de nós tivesse morrido com ele.

 

A minha vida, a vida de toda minha família mudou, não conseguimos ser mais as mesmas pessoas. Tudo em nós perdeu o encanto e o brilho. É como se antes o mundo fosse colorido e agora preto e branco. Não posso e não consigo esquecer a crueldade, a covardia que fizeram com você, meu anjo.

 

Sinto a tua presença em tudo que vejo. Na natureza, nos animais,

nas crianças brincando, nas pessoas idosas, nos ipês amarelos cobertos de flores neste mês de agosto, em tudo que você tanto amava e respeitava.

 

A cada momento tenho mais certeza que você era um ser humano especial, especial demais, que veio a esse mundo para nos ensinar a contemplar as belezas criadas por Deus e também nos ensinar a amar cada vez mais o nosso próximo.

 

Você agora, meu filho, é um Anjo lindo, intercedendo por nós e nos guiando, nos dando força para continuarmos a nossa jornada aqui neste mundo terreno. Um anjo de luz que irradia o amor e a paz.

 

Que Maria, Mãe Santíssima, te cubra com o manto de amor maternal, que te abrace e beije por mim.

 

A Deus, as minhas preces, confiante em sua Justiça.

 

A você, meu filho, o nosso carinho e o nosso amor eterno.

 

Você estará sempre guardado em nossos corações.

 

Te amamos muito.