Lamento de uma mãe

Outra, ele já adolescente, comprou um livrinho com uma mensagem em cada página. Em uma delas se lê: "Mãe, sua espada é o coração". São punhaladas que sinto, nesta recorrência da saudade.

A última que cito, ele já fazendo estágio na faculdade de Direito, vinha acompanhada de um bom perfume.

Nessas atitudes meu filho retrata o amor e consideração com a família, na sua infância e adolescência, épocas mais pungentes da vida. E penso eu: a vida dele, o que poderia ter sido? Sobre o que escreveria? Quais os caminhos que o levariam a proclamar ao mundo todo este amor, humildade, companheirismo, retidão, assiduidade, dignidade e coragem moral que possuía?

Mas a morte é uma presença. Só poderá tirar de você, meu filho, aquilo que ainda não viveu. O que você viveu é vida. E fica. Fica, como diz Manoel Bandeira: "a casa limpa, a mesa posta, e cada coisa em seu lugar…" Porque assim você viveu: organizado de corpo pelo esporte, de mente pelo estudo, e de espírito pelo sentimento de justiça e temor de Deus.

Tenho certeza de que a Sagrada Escritura se cumpriu: "Porque sua vida agrada ao Senhor, este, sem mais espera, de um mundo perverso o retirou." (Sb 4,14).
Contudo, como fica a vida, fica também a dor. Tenho constantemente a sensação de que estão arrancando meu bebê do meu ventre, como no dia do seu nascimento, uma cesária. Mas naquele dia, ele me foi devolvido.

Esse arrebate, retirada real do meu ventre, agora é para sempre. Esse vazio insuportável, essa dor imensurável, me levam a compreender a dor de Maria, e porque é ela é chamada "Mater Dolorosa, Lacrimosa". O meu ser e de meus familiares se desmancham em lágrimas de tristeza, a cada dia.

Como é difícil administrar uma vida desfalcada e tentar fazer dessa dor um escudo de paz, para que outras famílias não passem por esta mesma situação. É um paradoxo, mas é por isto que lutamos. E os responsáveis pela segurança das famílias, o que estão fazendo de concreto? De real?

As famílias desejam os filhos, fazem o possível para proporcionar- lhes a melhor educação, e … depois de habilitados para um trabalho digno, onde estão as oportunidades? Nas mãos dos marginais? Dos assassinos?
Brasil, terceiro país do mundo em homicídios por violência. Onde estão as autoridades? Os políticos? Os gestores? Aqueles que se proclamam a serviço da ordem?

Que eles coloquem uma mão no peito e outra no punho forte contra os males, modificando a legislação vigente, que tolera a impunidade e leva ao descrédito as instituições de Justiça.

E acreditem, a exemplo de outros países, pode ser possível colher-se a virtude do meio, criando-se e insistindo em ações que promovam a cidadania e despertem a afetividade, tão aversa à violência.

É uma mudança cultural, que agora imploramos. A negligência dos responsáveis perpetua a violência que banaliza a vida e destrói a esperança em cada coração, em cada família brasileira.

Mais uma vez a bandeira, de Manoel, com o perdão do trocadilho: "Se você odiar alguém, não mate, porque em lugar nenhum do mundo você vai encontrar outro igual."

Sim, Paulinho, você é único. Sei que se pudesse falar comigo hoje, diria: "Mãe, coragem! Estamos sempre começando, mas é preciso continuar. E saiba que muitas vezes seremos interrompidos antes de terminar. Temos caminhos novos, vamos ser felizes".

E eu lhe diria: "Filho, rogue a Deus para que nos dê a graça de viver como você viveu".

Então fecho os olhos e consigo enxergar uma imensa floresta, com árvores bem juntas e frondosas. No meio da floresta há uma clareira, um intervalo desconfortável em meio ao verde. E compreendo, ainda sem aceitação: arrancaram uma árvore! Mas, com certeza, não conseguirão destruir as sementes de Paz deixadas por você.