Barbárie

A infância gerada na barriga da miséria, nascida nos restos de lixo produzidos pelos mais abastados e criada à margem dos processos sociais, distante dos bens  sócio-histórico-culturais, é a mesma que ao reivindicar o espaço e lugar social a ela atribuída, esbarra na arrogância do poder para poucos e violência para todos…

A criança de que falo, experimenta a dor e o desespero de na fome, que não precisa ser só de alimento, encontrar a cola, a droga e a prostituição. Na busca do afeto encontra a repressão, o abandono e a falta de compreensão eternizadas no gesto amargo da indiferença, aspectos estes que se encaixam em todas as categorias sociais. Esta atitude de abandono, mais cedo do que se pensa, nutri a veia forte e vigorosa da criminalidade e da brutalidade…

Crescer neste meio, driblar a dor, ter no outro a ameaça e não o vínculo ou o apego e segurança, brutaliza e reduz seres humanos a meros mutantes que no fio da navalha, na faca, nos músculos fortes ou no revólver depositam suas vidas no enredo do crime, que aterroriza a sociedade.

Há muito tempo, a infância se perdeu ou se distanciou dos significados sócio-históricos dos seus responsáveis de criar cidadãos para o bem, instrumentos de progresso humano, científico e cultural. As diferentes classes sociais e seus desejos e facilidades (ou não) pelo ter,  a quebra de valores reais trocados pela urgência de etiquetas, ou “marcas” nos dá a senha de que a cada momento, em cada esquina pode estar o próximo inimigo.

O panorama poderia ser melhor? Com certeza, mas quem sabe? Quem quer saber? Quem se preocupa? A violência não está apenas para além dos quintais privatizados. Ela senta à mesa protegida da minoria detentora do poder, e ainda que atinja o vizinho, a solidariedade virou moeda de troca. Juntamente com a irresponsabilidade dos aparelhos sócio-políticos, que barganham tudo nos currais eleitorais, o cidadão comum, vai coletivizando desesperos, inseguranças e se conformando na passividade do dia-a-dia por vezes cético e alienado de esperanças, com o poder público, muitas vezes, dando exemplos de que o crime compensa.

Quando o morro, o lixão, a favela, gera sua infância miserável, e, esta cresce, e cruza com os sonhos que são realidade para uma parte ínfima da população, o que ocorre é a cobrança e acerto de contas em algum momento. Onde está o direito igual para todos, pregado na Constituição? Ficou esquecido no egoísmo dos que querem sempre mais. E aí vemos nas escolas, nas ruas, na imprensa –que cumpre o seu papel de denunciar, de informar, mas não tem o poder de solucionar– nossas crianças vitimadas, nossas famílias destruídas, nossa sociedade agonizante. Jovens saídos da vida travestidos de monstros. Mais uma vez pode-se atribuir esta função de mudança à educação e à escola de boa qualidade, aparelhos que deveriam estar  ao alcance de todos em parcerias eficazes com outras instituições, como a família e o Estado, com uma postura objetiva e transformadora para que o Dia das Crianças pudesse ser comemorado sempre com festas e mãos dadas. Para isso, resta-nos fazer uma (re)leitura deste caos de forma conjunta, honesta, corajosa, revolucionária e urgente.