ANA MARIA LOPES

ANA MARIA LOPES – Poeta nascida no RJ, jornalista graduada na Universidade de Brasília. Primeira colocada, em 1967, em concurso literário patrocinado pela Embaixada de Portugal, jornal O Globo e Livraria El Ateneo, arrebatou o 1º lugar também no concurso de poesia promovido pela Editora Abril, em 1981. Recebeu da Baume Mercier e Bloch Editores, o 1o prêmio em concurso de contos (1995). Tem poemas publicados na antologia Poetas Brasileiros Hoje (1995), publicou Conversa com Verso (2006) e mantém o blog Poesia no fim do túnel em http://blog.clickgratis.com.br/anamarialopes. Ana Maria conversou didaticamente sobre poesia com as alunas do INSP no dia 3 de novembro; o depoimento dela abaixo comprova.

“Recuperada da emoção, já posso contar um pouco como foi o meu encontro com as meninas do Instituto.
Confesso que cheguei um pouco nervosa. Mas o nervosismo foi se dissipando à medida que ia lendo poemas que tinha separado para a ocasião. Levei Manoel de Barros, Mário Quintana, Silvia Orthof, Thiago de Mello, Carlos Drummond e euzinha. Conversava e lia, lia e conversava.
Aos poucos fui percebendo uma participação gostosa. Fiz perguntas sobre o atual momento do país e que fato importante tinha acontecido. Elas falaram da eleição para presidente, falaram da Dilma, perguntaram em quem eu votei e discutiram os termos presidente e presidenta.
Aí li o Os Estatutos do Homem do Thiago de Mello. Fui lendo os artigos onde o poeta decreta que em todos os dias se pode brincar com rinocerontes e usar begônias na lapela. Se pode usar branco sempre e que as terças-feiras cinzentas serão transformadas em manhãs de domingo. Li os 14 artigos e, ao final, perguntei se elas tinham mais alguma coisa que gostariam de ver colocadas no estatuto. Fizeram um pouco de silêncio. Tentei ajudar (olha como sou idiota!) e perguntei: – Que tal tomar sorvete todos os dias?
Aí eu assisti uma aula de cidadania. Uma delas falou em comida decente. Outra cobrava mais empregos. Outra queria menos filas nos hospitais. A menorzinha falou em segurança. A tímida falou de lixo nas ruas. A de olhos brilhantes falou que era importante cuidar da água. E por aí foi. E eu falei em sorvete!!!!
 
Nesse momento eu já estava entregue. Eu era delas. Elas eram minhas.
 
Passei para uma brincadeira que improvisei. Levei um quadro que revesti de feltro e palavras escritas em pedaços de cartolina com velcro atrás. As palavras foram tiradas da Lira do Amor Romântico do Carlos Drummond. Misturei as palavras e Duda – minha querida neta – distribuiu cada cartão entre as meninas. Falei que as palavras faziam parte de um poema do CDA, mas queria ver como elas comporiam um poema usando as mesmas palavras do poeta.
Você não imagina o resultado disso. Foi lindo. Elas se levantaram, colocavam as palavras, trocavam, falavam uma para a outra, procuraram sentidos, buscavam rimas. Ficou assim o poema feito por elas:
 
Perdi a direção n’água
Mas os peixes notaram
Quanto doi um limão rindo
Atirei uma paixão!
 
 Outro:
 
Quem tem amor e tem limão
N’água responderam vendo os peixinhos
Fiquei na margem
Atirei coragem.
 
Outro mais:
 
Uma paixão!
Doi mas perdi coragem e amor
Quanto tem os peixes
A direção n’água
Fiquei vendo quem tem um limão
Rindo notaram:
Atirei um limão n’água
Os peixinhos responderam:
Atirei na margem
 
Foi lindo! Parecia um despertar.
Ao final, fiz sorteio de quatro livros infanto juvenis. Mas o mais incrível foi quando dei por terminada a nossa reunião. Formou-se uma fila e uma das meninas pediu: – Me dá um abraço? Outra pediu um autógrafo e esticou sua mãozinha para que eu assinasse. Foram tantas as manifestações de carinho que transbordei.
 Sem falar que elas e Maria Eduarda tiveram uma empatia grande. Já no carro, Duda ficou um pouco em silêncio. Perguntei-lhe se havia gostado. Ela disse que fora ótimo e que gostou muito. Fez mais silêncio. Respeitei. Depois de uns cinco minutos ela fala: – Vovó, eu posso vir aqui outro dia com duas amigas para dançar com elas?
 Eu ia respondendo quando ela me lança nova pergunta: – Vovó, será que a mamãe não pode vir aqui para dar uma aula de gastronomia para as meninas?
 Aí eu percebi o quanto esse dia tinha tocado a Duda. Ela se encantou e só o seu encantamento não iria bastar. Ela queria levar as melhores amigas. E queria levar a mãe. Ela queria envolver mais pessoas.
Saímos renovadas. Essa senhora de 62 anos saiu com 26. Chovia. Mas eu nunca tinha assistido um fim de tarde tão lindo”.

Poemas de Ana Maria Lopes

LUA E CORPO
 
Uma lua incerta batia
quando em quando
seu claro no meu corpo
Queria me despir de sua luz
procurando o breu.
Mas com grande mestria
a lua investia
seus dedos luminados
procurando meus pelos
explorando minhas cavernas
e sem nenhum barulho
dava seu mergulho
em águas mucosas.
Seus punhais, seus raios
jorravam o clarão
e pouco a pouco
a lua incerta e meu corpo nu
se amalgamaram
– assim como fazem os astros –
e reinventamos a luz.
 
 
NÃO ME ACORDE
 
Se eu estiver sonhando
não me acorde
porque basta uma noite
para me manter rediviva
uma noite para gerar meu espanto
e espantar minha rotina.
 
Mas se por acaso estiver tecendo
as tramas do matutar
ou colchoeira
enchendo de paina a retina
não me chame
porque basta um gemido
para me acordar.