FERNANDO MARQUES

FERNANDO MARQUES nasceu no Rio de Janeiro em outubro de 1958. Vive em Brasília desde 1974. É professor universitário, jornalista, escritor e compositor, graduado em Música/Licenciatura pela UnB e em Comunicação/Jornalismo pela UniCEUB), mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UnB. Publicou Retratos de mulher (2001), Zé (teatro; 2003) e o livro-disco Últimos – comédia musical em dois atos (2008). Participou de coletâneas como Antologia do conto brasiliense (2004) e Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (2006). Mantém o site www.fernandomarques.art.br. A aula de Fernando Marques em parceria com Carla Andrade deu tão certo, que os dois seguraram a atenção e o interesse das alunas por duas horas.

A MÁQUINA PRECÁRIA

Pensemos o amor e seus mecanismos
esquivos,
imóveis ou desatados
a qualquer tempo,
ao menor ruído,
por nenhum motivo.

Vejamos o coração
(a cabeça
avessa)
como relógio
frágil:
preciso,
descompassado,
dando as horas com atraso,
acelerando o colapso
(molas indolentes,
rodas frouxas,
avarias várias).

Amor é à prova d’água?

O poeta está cansado
não de amor, de seus percalços:
jamais ser feliz de fato,
para abolir a metáfora
e falar claro.

Amor não serve ou, quem sabe,
serve
para vincar o seu rosto,
para furtar sua calma
e, sim, para a alegria
rara.

Amor é bicho instruído,
alguém dissera,
quem dera:
ignaro,
ignóbil,
réptil
roendo as entranhas estranhas,
mordendo, soprando, mordendo,
árida ironia, áspera.

Dádiva sublime e precária,
sem compreender nos ferimos,
matamos e morremos
de amor e seus mecanismos.