Solidariedade marca o combate à impunidade

Flávia Lima
 

O Movimento Maria Cláudia Pela Paz, depois da manifestação no cemitério Campo da Esperança no feriado de Dia dos Finados, começa hoje a distribuir panfletos pela cidade para alertar a população sobre a necessidade de todos atuarem como cidadãos para que a violência e a impunidade no Distrito Federal chegue ao fim. A panfletagem e as correntes de orações vão até segunda-feira, quando os assassinos confessos da estudante Maria Cláudia Del'Isola serão, enfim, julgados.

A família de Maria Cláudia não irá sozinha ao Tribunal do Júri do Distrito Federal na segunda-feira assistir ao julgamento de Bernardino do Espírito Santo Filho e sua ex-namorada, Adriana de Jesus Santos. Familiares de outras vítimas de violência do DF e membros do Movimento Maria Cláudia Pela Paz e do Comitê Nacional de Vítimas da Violência (Convive) também estarão lá, para cobrarem justiça e pena severa aos culpados.

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Integrantes do Convive, André Leal e Silvana Leal participaram da manifestação no cemitério Campo da Esperança e acompanharão o julgamento dos assassinos de Maria Cláudia. São eles os pais do estudante de Publicidade João Cláudio Leal, espancado até a morte, aos 20 anos de idade, na saída da boate Music Hall na 411 Sul, há sete anos.

João Cláudio estava no estacionamento da boate com o amigo Gilson Elmokdisi, quando foi abordado por Marcelo Gustavo Soares de Souza, na época do crime com 23 anos, e José Quirino Alves Júnior, então com 27 anos. Eles atacaram João Cláudio e o amigo. O motivo, segundo os agressores, foi uma cantada que João Cláudio e Gilson teriam dado na namorada de Marcelo, que também estava na boate. João Cláudio foi espancado e morreu no mesmo dia.

Depois de passarem mais de um mês foragidos, os dois acusados do crime se entregaram à polícia e foram denunciados pelo Ministério Público. Em 2004, os acusados foram julgados pelo Tribunal de Júri do DF, pelo crime de homicídio doloso com qualificação, pois o motivo da agressão foi considerado fútil. Antes do julgamento, os dois ficaram presos no Núcleo de Custódia de Brasília, no Complexo Penitenciário da Papuda.

{mosimage}Marcelo Gustavo Soares de Souza foi condenado a 12 anos de prisão e José Quirino Alves Júnior pegou a pena de 5 anos. Hoje, José Quirino   está em liberdade condicional, após cumprir 2/3 da pena. O outro agressor, Marcelo Gustavo, já recebeu o benefício de regime semi-aberto e hoje apenas dorme na prisão.

Segundo o pai de João Cláudio, André Leal, o julgamento dos assassinos do filho foi resultado de uma luta da sua família pela justiça. Mas, para ele, a justiça brasileira concede penas muito brandas   para crimes como o que matou João Cláudio.

– A lei defende apenas os direitos dos criminosos, como se, por meu filho já estar morto, nada precisasse ser feito por ele. Meu filho perdeu a vida e nossa família perdeu muitos sonhos. Enquanto isso, os assassinos já estão na rua – argumentou. – A impunidade é o principal fermento da violência. Eles ficarem na cadeia não vai trazer meu filho de volta, mas com certeza iria servir de exemplo – completou.

Para Silvana Leal, participar do Convive e de manifestações como a do Dia de Finados é uma forma de lutar por justiça e tentar convencer a população de que é preciso agir para colocar um basta na violência que mata milhares de inocentes todos os anos.

– Meu filho não veio ao mundo a passeio. Ele foi embora, mas deixou uma mensagem que precisamos passar adiante. Temos de nos manifestar e pedir paz e um mundo melhor – disse Silvana.

O trabalho no Convive é um trabalho de formiguinha, na opinião de André Leal, mas é preciso ser feito.
– Mesmo que seja pouco, fazemos o que está ao nosso alcance. Se conseguirmos conscientizar uma pessoa, já somos vitoriosos. Nossa missão é tentar evitar que outras famílias passem pelo que passamos – disse. – No Convive e no Movimento Maria Cláudia pela Paz ficamos próximos a pessoas que sabem como é a nossa dor. A luta assim, é em conjunto.

Jornal do Brasil, Caderno Brasília, edição de 5/11/2007