Protelação dá garantia de impunidade a assassinos

Cristiane Madeira
 

O julgamento do casal de assassinos de Maria Cláudia Del'Isola, 19 anos, foi finalmente marcado para a próxima segunda-feira, depois de quase três anos de espera. Mas assim como os pais da estudante morta dentro de casa, dezenas de famílias que perderam os filhos em episódios de extrema violência aguardam resposta da Justiça. Um exemplo é a família do estudante de Direito Paulo Roberto Rosal Filho, 24 anos, morto com um tiro no rosto em janeiro deste ano, na saída de uma festa da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB).

 

A cada dia os advogados de defesa dos quatro acusados de envolvimento no assassinato do rapaz tentam livrar seus clientes da cadeia com incessantes pedidos de habeas corpus, além de tentativas de adiar o julgamento, ainda sem data marcada. Todos estão presos.

 

– Ainda que tentem protelar a audiência, dificilmente conseguirão amenizar a pena pelo que os garotos fizeram. As provas estão muito claras – avalia a promotora de Justiça do Ministério Público do DF, Maria José de Miranda, que está à frente do caso.

 

Para a irmã de Paulinho, Camila Rosal, a Justiça permite o uso de muitos recursos pelos criminosos, o que só contribui para o aumento da sensação de impunidade.

 

– Os acusados de matar o João Cláudio, por exemplo, já estão soltos nas ruas – diz Camila.

 

Paulinho, como era chamado pelos amigos e família, estava no último semestre do curso de Direito quando foi assassinado. Morava no Cruzeiro e se preparava para tentar um concurso público. A morte do rapaz enterrou também os sonhos da família, que ainda não superou a perda. As lembranças vem sempre carregadas de muita saudade e da sensação de que Paulinho foi embora depois de servir como um exemplo.

– Nossas recordações são do quanto ele era estudioso, responsável e cumpria suas obrigações. Acho que nunca vamos suprir a morte dele. A família ficou dilacerada, com um grande vazio. Só espero que seja feita justiça – disse Camila.  

 

Durante uma festa que ocorreu três meses antes de morrer, Paulinho se envolveu em uma briga com Arikson Ramos Rocha de Lima, 18 anos, um dos acusados de seu assassinato, amigo de Bruno da Silva farias, 19 anos, acusado de ter disparado o tiro que matou a vítima.

 

Houve, na ocasião, uma confusão envolvendo a turma dos dois rapazes. Arikson afirma ter quebrado o nariz e acusou Paulinho de ter sido o responsável. Chegou até mesmo a registrar queixa por agressão na 1ª Delegacia de Polícia da Asa Sul.

 

Testemunhas afirmam que, dali por diante, Arikson passou a percorrer o Cruzeiro para seguir os passos de Paulinho. Esse é um dos fatores que levam polícia e Ministério Público a acreditar que o crime tenha sido premeditado.  

De acordo com a promotora de Justiça, durante depoimento prestado ao juiz do Tribunal do Júri, João Egmont Lopes, Arikson confessou que sequer tinha certeza de que era realmente Paulinho Rosal quem tinha quebrado seu nariz durante a confusão.

 

Ainda segundo Maria José Miranda, no dia que Paulinho morrei, Arikson, Bruno e os irmãos Jeferson e Joel de Araújo Costa, de 18 e 24 anos, respectivamente, ficaram do lado de fora da festa, a espera de Paulo e os amigos, que apareceram por volta das 4h da manhã. Arikson teria começado a briga e, quando Paulinho se voltou para revidar, foi atingido por um tiro, que saiu do revólver calibre 38 que Bruno carregava. O rapaz ainda havia atirado outras duas vezes, mas apenas o terceiro disparo atingiu o estudante.

 
Testemunhas afirmam que, depois de ver Paulinho caído no chão, Bruno correu atirando atrás dos outros dois amigos da vítima, que a acompanhavam. Os quatro réus responderão na Justiça por homicídio qualificado por motivo fútil e com meio que impossibilitou a defesa da vítima, mas Maria José Miranda garante que ainda oferecerá denúncia contra Bruno por tentativa de homicídio contra os dois amigos de Paulinho.

(Jornal do Brasil – Caderno Brasília – Edição de 6/11/2007)